sábado, 3 de novembro de 2007

Fui, como ervas, e não me arrancaram (7) - Sobre as ampulhetas


Sobre as ampulhetas
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Victor Nogueira
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Eu chego quase sempre atrasado e toda a gente nota. Mas só eu noto os que vão saindo muito antes do final. E quando chego adiantado ou a horas, ninguém está lá para constatar. É como no trabalho: dão pelos meus atrasos, mas salvo as empregadas da limpeza, ninguém vê as noctívogas horas a que saio, porque muitas vezes interromper o trabalho significa interromper o taciocínio e ter quase de recomeçar no dia seguinte para apanhar ou encontrar a linha do pensamento.
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Bem, isso já foi, porque agora e desde há longos anos que estou em prateleira dourada, salvo seja! É o que sucede a quem não se vende nem se curva! Vidas!
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Setúbal, 2007.11.03

Fui, como ervas, e não me arrancaram (6) - Aranha e Fotógrafo


* Victor Nogueira
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Aranha e Fotógrafo
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Tenho duas fotos duma teia de aranha, tiradas ao romper do dia, ainda com as gotas de orvalho presas nos fios. Calhou, embora um amigo meu fotógrafo, para além de jornalista profissional, me diga que nunca devemos reconhecer que foi um acaso inesperado, mas sim fruto duma elaborada e persistente pesquisa!
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Creio que já as coloquei num dos meus blogs, mas não me lembro qual. Ora vamos lá procurá-la!
......................................................... Não, não é esta ! ........................... Também não ! ...............................Ah! aqui está no
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Fui, como ervas, e não me arrancaram (5) - As paredes que nos «se(r)cam»


* Victor Nogueira
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As paredes que nos «se(r)cam»
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Bem eu não quereria entrar pela existência ou não de Deus ou se uma outra vida para além desta existe. Mas esta é a que «seguramente» existe, esta é a que solidários embora conscientes das imperfeições e fraquezas dos homens e das mulheres que o povoam, podemos pacificar sem o silêncio dos mortos que povoavam o Império Romano.
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Sabem porque se perdem as pessoas no deserto voltando ao ponto de partida? Porque todos teremos uma perna ligeiramente mais curta que a outra e, sem bússola, sem relógio, sem conhecimentos de astronomia, sem pontos de referência exteriores a nós, voltamos sempre ao mesmo sitio, como se os círculos concêntricos fossem um labirinto que nos impede de ver o que de bom há para além dele. Que às vezes nos deixam ver ou entrever neste ou naquele post, nesta ou naquela foto.
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Setúbal 2007.11.03

Fui, como ervas, e não me arrancaram (4) - De que são feitas as minhas saudades?


* Victor Nogueira
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De que são feitas as minhas saudades?
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Não sei se tenho saudades! Talvez lhes chame ... o vazio da ausência? Mágoas? Penas? «Saudades» do sol arrancado antes de nascer? Das praias de Luanda, das águas cálidas, do cheiro a sal e a sol e a maresia? Da chuva e da brisa? Do sol e do mar e dos dias cheios de claridade? Do «peso» de ficar sempre um pouco de mim nas pessoas que conheci, nos caminhos que percorri, nas terras onde estive? De não haver passado, mas sim um eterno presente, ali ao alcance da mão, da voz ou do gesto, mesmo que silenciosos?
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Uma vez no «Um contra Todos» o Malato perguntou a uma concorrente qual seria a resposta dela se tivesse possibilidade de ver satisfeito um pedido,ao que ela respondeu «que a minha filha fosse sempre feliz». Ele parou e depois respondeu duma maneira que achei bela «Que todos aqueles de quem gostei e partiram voltassem de novo para ao pé de mim»
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Sim, às vezes tenho «saudades» dos que já partiram, dos gestos que fiz ou não fiz, das palavras que disse ou não!Mas se podesse responderia que houvesse autêntica paz e alegria dentro de nós! Ou apenas feliciddade sem miséria para todos.
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Mas como isto são sonhos, deixo para quem quiser um abraço apertado e amigo.
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Victor Manuel
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26 de Setembro de 2007 16:56

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Fui, como ervas, e não me arrancaram (3) - O Livro e o Filme



* Victor Nogueira


O Livro e o Filme
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A mim é-me indiferente, tanto vejo o filme, como leio o livro. Mas nunca um corresponde ao outro. No livro, bem ou mal, imaginamos as pessoas e paisagens e estas, sem referências, talvez nem sequer as «visualizemos». O filme, está ali na sua «relidade». Gostei do filme «O velho gringo» mas o livro foi uma decepção. Li «o carteiro toca sempre duas vezes» e vi várias versões cinematográficas completamente diferentes, um pouco na «história», muito no cenário, e gostei de todas. Também o «Perfume do Dinheiro», era este o nome, se a memória me não falha, vi duas versões, uma com o fabuloso Dustin Hoffman e outra mais serena, dum cineasta italiano, esta a p.b. e também gostei de ambas.

O que me aborrece hoje nos livros dos «super» e dos «hiper» mercados´são as capas, todas brilhantes, douradas, em relevo, para os «olhos» comerem, independentemente do conteúdo.

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ERRATA ou «A responsabilidade é das «brancas»
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Errei. As minhas desculpas pelas «brancas».
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O filme a que me referia era "Perfume de Mulher", (Scent of a Woman ), o actor fabuloso - Al Pacino e o realizador Martin Brest (1992). «O perfume do dinheiro» é um outro (The Honney Pot), baseado entre outras numa peça de Ben Jonson - Volpone - realizado por Joseph L. Mankiewicz (1967), cujo principal actor é também fabuloso - Rex Harrison, que também aparece em My Fair Lady (1964), baseado no Pigmalião de B. Shaw.
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Do 1º houve uma 1ª versão italiana, mais «discreta» na interpretação, chamada «PROFUMO DI DONNA» interpretado por Vittorio Gassman e realizado por Dino Risi (1974)
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Quanto a «O carteiro toca sempre duas vezes», baseado numa novela policial de James Cain, há uma versão com Jack Nicholson e Jessica Lange, de Bob Rafelson (1943), e uma outra, realizada por Visconti (1943) e chamada Ossessione, no original, cujo enredo é alterado .
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Há uma 3ª, com Lana Turner realizada por Tay Garnett (1946), e argumento similar ao de Rafelson. Na 1ª o «marido» 1ª é-nos profundamente antipático, ao contrário da mulher, mas na 3ª é ela que aparece como má da fita e ao «marido» consideramo-lo um pobre diabo que não merecia o destino que foi o dele.
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Desculpem-me as «confusões», fruto de ver tantos filmes desde miúdo; às vezes as memórias baralham-se-me com a «provecta» idade.
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Naturalmente que vi estes filmes que citei, mas isso foi no passado milénio.
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De um cinéfilo «reformado»
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2007.11.02
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Fui, como ervas, e não me arrancaram (2) - O meu horizonte ...


O meu horizonte ....
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* Victor Nogueira
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Em casa, o mundo a meus pés. No último andar dum prédio no cimo duma encosta, nada mais senão o horizonte: casas e, sobretudo, «céu» com todas as suas variações: límpido, azul, cinzento, por vezes com núvens brancas de variados formatos, outras carregado e atravessado pelos raios da tempestade. De noite o horizonte é negro, excepto quando é lua cheia. Mas sempre o luzeiro de floresinfindo, refulgente. Lá em baixo, um Parque Verde, e ao fundo a avenida muito movimentada cujo ruído mal chega aqui. Ouço apenas, lá de fora, o chilrear das crianças na hora do recreio, gaivotas a grasnarem, alguns cães a latirem, ciganas chamando pelos filhos com aquele seu entoar característico, enquanto os ciganos jogam às cartas no Largo, debaixo duma árvore, em mesa e cadeiras que ninguém rouba.
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No trabalho, donde estou ausente vai para 12 meses, pela janela do «meu» gabinete vejo sempre o céu e se esticar o pescoço, o morro do Viso e o Castelo de Palmela. Este é o meu horizonte e daquele vejo o sol nascer muitas vezes, ao contrário de Luanda, em que o via mergulhar no horizonte, para lá do qual estava e está o Brasil.
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Setúbal, 2007.11.02

Fui, como ervas, e não me arrancaram (1) - Retratos e Pinturas


* Victor Nogueira
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Retratos e Pinturas
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Passei por aqui depois de passares pelo Ao (es)correr da pena e do olhar. O que lá está [no Mu(n)do Phonographo] não são recordações, são bocados do que registei na data que finaliza cada texto. Não vivo de tristezas emboras as mágoas deixem marcas. Como as alegrias ou aquilo que se perdeu.
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No (es)correr [e no Mu(n)do] são bocados do passado e nada mais que isso. Posso ir momentâneamente abaixo, mas é por pouco tempo.
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A pintura que te enganou e te fez perder a aposta era usada numa determinada época. Conheci em Setúbal uma casa que já foi demolida e uma das salas estava pintada como se fosse de vidro, crescendo as plantas e prolongando-se pelo «vazio» do tecto. Um trabalho desses, hoje, sairia muito dispendioso.
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Setúbal. 2007.11.01

Retratos (21) - Uma troca justa

* Victor Nogueira
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Estou a escrever lentamente por dois motivos, o principal dos quais é o facto desta nova carga da esferográfica ser extra fina, e portanto pouco deslizante pelo papel. (...) Fiz um negócio com o Camilo e trocámos as cargas das canetas. Sem dúvida alguma ambos lucrámos; ele porque escreve mais palavras por linha, eu porque escrevo mais por minuto. Estas cartas, escritas ao sabor do tempo e das ocasiões, lidas posteriormente, devem mostrar o seu verdadeiro valor, isto é, nenhum. (MCG -- 1973.01.22) ~ Évora

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Retratos (20) - Fim de Festa

* Victor Nogueira
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Estou na sala da AE. Isto é um autêntica lixeira. O chão juncado de papéis, as mesas e os móveis juncados de sebentas, de listas, de stencils amontoados. (Aqui ao meu lado um cesto de papéis ... vazio!) É impossível trabalhar nesta pocilga. Na secretária onde escrevo, uma resma aberta, o ficheiro de sócios, cinzeiros, químicos, cola, agrafador, furador, lista de vendas. Parece que foi tudo saqueado. Na realidade a Associação de Estudantes não existe. Bem sei que os que trabalham em qualquer coisa, que a fazem andar, são uma minoria. Mas aqui somos de menos! No princípio deste ano eu e o Viegas discutimos se deveríamos candidatarmo-nos de novo. Ou deixar isto extinguir se. Venceu a primeira hipótese. Mas a messe é grande demais. Se acudimos a um lado, eis que aquela começa a desmoronar se.
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E perante isto, estas paredes sempre a ruírem, o que muito me custa, penso que o melhor é deixar isto cair de vez. Se a malta prefere agir individualmente, em grupúsculos, sempre falando muito bem e agindo menos e mal, então feche se isto. Poucos como somos, uma acção eficaz exigiria uma programação eficaz, uma dedicação grande, um não desperdiçar energias e gestos. (...) (NSM - 1971.04.11) - Évora

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Retratos (19) - Interrogativamente

* Victor Nogueira
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Telefonei-te, porque desejava falar contigo, ouvir-te, acalmar a contrariedade. De lá veio a tua voz tímida, pequenina e depois ... depois o silêncio, o "não percebo o que queres dizer", o "então deixa-me." Mas eu não queria magoar-te, apagar o teu sorriso bom e alegre, de salta-pocinhas que amo, no silêncio do meu quarto, e que perco tantas vezes. Parece me importante que as pessoas ajam com inteligência, procurando dominar os acontecimentos e as palavras e não serem dominados por eles. E não é isso que me está sucedendo. Mas queria-te também mais senhora de ti, lutando pelo que te diz algo. Daí as pedras que semeio ou em que por vezes transformo aquilo em que toco. De ti saberei apenas que esperas de mim amizade e compreensão (e talvez também ternura) Seremos capazes de dar isso um ao outro? Que é realmente importante? A nossa relação só tem razão de ser se for fonte de liberdade e alegria, para nós e para quem nos rodeia. Que não se transforme em pesadas cadeias pantanosas. Seremos nós capazes disso ? Estará certo o nosso caminho ? Seremos ambos capazes de reconhecê-lo ?
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A resposta busca-se no presente que me desagrada, sem saber em quem, onde e como encontrá-la ! E no entanto pareceria tudo tão fácil, amiga. Soubesse eu mais de ti. Fosse eu menos impaciente !
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Somos nós e não só eu quem deverá decidir do futuro da nossa relação. (MCG - 1973.04.08) Évora

terça-feira, 30 de outubro de 2007

Retratos (18) - D. Camilo, o Grande

* Victor Nogueira
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D.Camilo, o Grande
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O Camilo é um tipo lixado para trabalhar: deixa tudo para a última da hora - ainda é pior que eu - não tem horários normais e uns dias elabora esquemas transcendentes e complexos, para no dia seguinte, com o moral embaixo, mandar tudo à merda, porque não pode ser tão perfeito como imaginara. Sei que ele anda chateado e compreendo porquê. Sei que a vida desgovernada que leva não o favorece. Mas daí que passe a vida com racionalizações e justificações - que já não me convencem - para nada fazer porque não é como quer, bolas para isso. O resultado de tudo isso é que me vejo forçado a conceber, redigir e dactilografar todo o trabalho. Também por burrice minha. Porque devia marimbar-me para a sua casmurrice e não ter contrariedade nenhuma em obrigá-lo a trabalhar, malgrado a sua contrariedade.
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Com mil diabos. Passa os dias no café na conversa. Hoje faltou à aula de Planeamento [Social]. Serviu de pretexto o seu cansaço. Que ia para casa dormir. Chego ao café ás 6 da tarde e estava no paleio com o João Luís. Pergunto-lhe quando poderia redigir a introdução, que lhe competia, e respondeu-me com montes de justificações. Dizia que estava cansado e chateado, e pronto. Agora vir para ali com montes de justificações irritantes, porque despropositadas e improdutivas!... Enfim, bêbedo de sono, projectava ir à noite ao cinema e não sei quando para Beja. Que só poderia trabalhar amanhã à tarde. E entretanto, eu que me lixe. Sim, com o trabalho para enviar amanhã para Lisboa, ou redijo hoje tudo o que falta, ou mando assim mesmo ou espero que ele se digne arranjar disposição para trabalhar. Não lucro nada em irritar me, por contraproducente, mas aquele tipo podia ser um pouco mais realista, deixando se de evasões quando é preciso trabalhar. (MCG - 73.02.06) Évora

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Retratos (17) - L'arroseur arrosé

* Victor Nogueira
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Ontem o Diogo Fialho fez anos e fui apanhado para a festinha do costume. Como não podia deixar de ser alguém tinha de entrar pelos copos em mistura. Quem estava mais à mão de semear e convencer foi a Eglantina (com dois cálices a alegria extrovertida natural dela aumentou) mas a brincadeira saiu-me cara que ela só bebia se eu acompanhasse, e o cretino do Diogo Guerreiro (agora muito loquaz) enchia também o meu copo, em vez de disfarçar. Resultado: o estômago a arder - estou mesmo velho - e toda a ceia fora. O riso saiu me, pois, caro. (MCG - 1973.01.23) - Évora

domingo, 28 de outubro de 2007

Retratos - (16) - A toca da Margarida

* Victor Nogueira
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Na sua aconchegadora toca
rodeada dos seus amores
a Guida
com Bach e Beethoven
com as "humanidades"
com a Poesia
(POE - 1971.07.24) (1)
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Enquanto o Carlos fazia os seus estudos de piano e o Camilo vasculhava a secção de poesia da Margarida, (2) eu peguei numa folha que estava na camilha (3) da toca da Guida e fui rabiscando, com a caneta do Chico Bellizi, um pintor brasileiro de que terás visto comigo uma exposição no Palácio D.Manuel. Quando a Guida chegou ficou muito preocupada, não fosse eu estragar a caneta ao "queridinho". Mas é muito fácil desenhar com uma caneta daquele género. Tem um traço muito fino e sensível, contrariamente, por exemplo, à Pelikan com que estou escrevendo. (MCG - 1972.11.07)
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1 - Do poema "á Guida sem amor hoje", escrito em 1971.07.24
2 - A Margarida tinha estudado em França e depois viera para o ISESE. Era muito mais velha que nós e na casa dos pais tinha um quarto com pé direito baixo e óculo para o passeio com arcadas, sala que era o cenáculo dos intelectuais lá do sítio, onde eu fazia por vezes papel de elefante numa loja de porcelana. Era uma espécie de mãe com os seus pintainhos. Disso dá conta um dos meus poemas: À Guida, sem amor, Hoje.
3 - Mesa redonda, coberta, com braseira em baixo, ao centro,

sábado, 27 de outubro de 2007

Retratos (15) - Os deleitos do Camilo

* Victor Nogueira
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Estava eu para aqui alinhavando estas linhas (...) quando o Carlos me entrou pelo quarto dentro, com um "Ah! Estou muito cansado. Imagina lá que andei com o Camilo a ver monumentos; pela milésima vez fui ao Museu e à Sé". Sabes, por causa do Camilo andar na fase cultural! ( O menino agora anda a estudar latim, não conseguiu convencer qualquer de nós - eu e o Carlos - a acompanhá lo em tão profundos estudos, mas nem por isso consegui escapar ás longas dissertações ali à mesa do Arcada, especialmente quando descobriu um interlocutor: o Régua, que também estudou latim! (MCG - 1972.10.07)
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Mas eu já estou calejado demais para trovejar como o Camilo ou ficar com a lágrima ao canto do olho como o Carlos. (MCG - 1972.10.18)
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Já devia ter me levantado para cerrar a janela escancarada, através da qual entram não só o frio como os alegres e rápidos acordes duma qualquer composição para piano que um dos co-hóspedes do Camilo põe a tocar frequentemente. (MCG - 1972.11.08)
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Na mesa ao lado o Camilo escreve. Deve ser o 3º testamento, nesta tarde. (...) (MCG - 1973.01.16)
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Passa os dias no café na conversa. Hoje faltou à aula de Planeamento. Serviu de pretexto o seu cansaço. Que ia para casa dormir. Chego ao café ás 6 da tarde e estava no paleio com o João Luís. (...) Não lucro nada em irritar me, por contraproducente, mas aquele tipo podia ser um pouco mais realista, deixando se de evasões quando é preciso trabalhar. (MCG - 73.02.06)
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Passo agora horas seguidas a escrever, quer rascunhos manuscritos, quer dactilografando. Há pouco o Camilo berrou me ali da casa dele para eu deixar de escrever à noite, pois está farto do tac-tac da máquina [pela noite dentro]. Mas cá em casa ainda ninguém se queixou. [A casa dele ficava na Rua dos Mercadores, o quarto dele na direcção do meu, avistando se os terraços de ambas as casa] (MCG - 1973.04.14)
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O Arcada é um zum-zum de vozes e louça e máquinas e cadeiras atiradas. Na mesa ao lado o Camilo delicia-se com o "Ricardo III" do Shakespeare. De vez em quando comunica-me um ou outro dos diálogos da peça. (MCG - 1973.06.08)
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O Carlos e o Camilo só estão bem na poluição do Arcada. Quem lhes tirar a fumarada tira lhes a vida e o ser !!! (MCG - 1973.07.03)

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Retratos (14) - De balde procurando emprego

* Victor Nogueira
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Évora, já em tempo normal de aulas é de um tédio estupidificante, assustador. Pensei arranjar um emprego, mas aí começam as dificuldades, pelo menos pensando em termos de Évora. Inscrevi-me no Serviço Nacional de Emprego, (por descargo de consciência, mas sem grande esperança), e no Liceu (há uma vaga para professor de Geografia do 4º, 5º e 7º anos). (NSF - 1971.11.17)
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Baldadamente tenho procurado emprego. Um lugar de professor de Geografia no Liceu ardeu, por falta de cunhas. Um lugar de professor de Matemática na Escola de Regentes Agrícolas de Évora (à falta de Engenheiros Agrónomos interessados) é uma possibilidade a confirmar (ou não) na próxima semana. Um emprego junto dos serviços profissionais possibilitar-me-ia ir preparando o trabalho de fim de curso. Traduções ou explicações são outra hipótese para melhorar a minha (crónicamente) desiquilibrada situação financeira. Outras poderiam surgir ou ser encaradas, mas o caracter eventual que têm de assumir, (quase) forçosamente, é uma grande dificuldade. (NSM - 1971.12.09)

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Retratos (13) - Daqui desta terra

* Victor Nogueira
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Aqui estou no meu quarto, buscando para ti as palavras que não encontro, corpo sem imaginação mas irritado e desassossegado pela constipação que me percorre as veias e me enche dum nervoso miudinho. Busco para ti as palavras dos outros, nos livros dos outros, os ponteiros aproximando se das nove e trinta, hora da vinda do homem que levará de mim as letras que cadenciadamente vão surgindo no papel branco que já não é só! Busco as palavras e apenas encontro estas, hoje vazio de ti pela tua ausência, ontem pleno pela nossa presença. São vinte e uma e vinte, hora de parar, os livros espalhados pela mesa, o corpo quebrado, a imaginação e a voz quase secas e frias. Daqui desta terra, para ti noutra terra, te abraço e beijo com ternura e amizade, na memória do tempo que fomos juntos. Aqui estou! (MCG - 1972.09.21) - Évora

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Retratos (12) - Dia do correio

* Victor Nogueira
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São 12:30. [Em Paço de Arcos] ouço o portão chiar e assomo à janela ... e não vejo ninguém (Algum miúdo que entrou e saiu, penso eu). Mas eis que batem com a aldraba na porta. Abro-a e lá está o carteiro no gesto habitual, mão estendida com as cartas (hoje, apenas carta!) Cumprimentamo-nos e agradecemos mutuamente. Fecho a porta. Regresso à sala de estar, pego na tesoura para abrir o sobrescrito, que resguarda as notícias da Celeste. "Olá, mocinho! Tenho apenas 21 anos dizem-me (a idade das, de algumas liberdades consentidas) ... " e continuo numa surpresa crescente, como a quem se revela numa faceta até aí ignorada. Todo eu sou uma crescente surpresa estupefacta! Apago o gira discos - que transmite canções do Nelson Eddy. Estou agradavelmente surpreendido e preciso de concentrar me para perceber isto tudo, estas linhas inabituais. Volto ao princípio. Releio com os olhos, com a inteligência, com sofreguidão, com todo o meu ser, para aperceber me duma Celeste desconhecida. Surpreso, não tanto pelo conteúdo, mas pela forma, pela linguagem invulgar (nela). É verdade que há alguns "senãos". (Não me apercebi ainda, p.exemplo, que ela soubesse que existe uma "certa técnica" aprendida, de beijar). Continuo a ler e, repentinamente, tudo se desmorona, numa enorme decepção. "Não Victor, tens razão, o palavreado não é meu ... "
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Resta-me pois saber como é a personagem dum conto de [Urbano] Tavares Rodrigues com quem te queres identificar. É uma curiosidade desenganada que fica em mim. (MCG - 1972.09.06) - Paço de Arcos

terça-feira, 23 de outubro de 2007

Retratos (11) - Mestre «Cuca» I

* Victor Nogueira
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Estou com um grave problema, pois já me esqueci das recomendações das minhas tias (eu bem lhes disse para deixarem-mas escritas): será que as batatas se põem ao lume durante 15 minutos? E quanto ao feijão verde? Deita se no tacho quando a água ferver. E depois? Continua? Apaga se o lume? Bem, o que for se verá! (MCG - 1972.08.23) - Paço de Arcos
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Nota - Agora já sei cozinhar !!! Não acreditam? Combina-se um almoço mas a sobremesa fica por conta dos/das descrentes. Mas há lugar também para quem não for descrente :-)

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

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Esta série transitou de Ao (es)correr da pena e do olhar - Ao (es)correr da pena e do olhar (7)

Retratos (10) - A malta de Luanda

* Victor Nogueira
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Para além disso tenho me encontrado com a malta conhecida [em Luanda]. Alguns dos meus tempos de menino e moço. O Pedro [Andrade Ferreira], o homem das mil e uma ocupações: locutor e produtor radiofónico, futuro controlador de tráfego aéreo do Aeroporto de Luanda, estudante no Instituto Industrial de Luanda. No fundo um miúdo falador e sonhador de 22 anos. Sonhador como a irmã, a Leonor, um ano mais nova. Uma paz de alma cuja indecisão me irrita. Estudante no Instituto Industrial, há três anos queria ir para Engenharia, o ano passado para Medicina, este ano para Arquitectura., se passar agora nos dois exames de 2ª época [Passou!] No fundo ambos querem dar o salto, i.e., saírem de casa, mas não têm coragem, parece-me. Temos depois o João [Coimbra] (tão diferente do miúdo que foi meu vizinho!) e a Estrela [irmã dele]. Admiro a, porque tendo muito mais problemas familiares, com que sofria, entrou para o Liceu depois de mim (tem 22 anos) e terminou o ano passado o curso de Germânicas. Como a Inês, (irmã mais nova do Pedro) e o nosso criado [o Fernando] são quase os únicos que ainda me chamam como antigamente: Vitó.
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De todos eles é com a Estrelinha que estou melhor, talvez por termos mais experiências recentes em comum, já que convivemos aí na Metrópole quando estive em Lisboa.
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As idas à praia, as corridas de automóveis em miniatura, os jogos de cartas, "os polícias e ladrões", as zangas, as colecções de autógrafos, tudo isso já está tão para trás, que quase não consegue dar calor e vivacidade às nossas relações de agora.
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São estes os da geração antiga, quase desconhecidos; por retraimento, uns (Leonor), ou por falta de convivência (João). Quanto ao Pedro, os nossos interesses são manifestamente diferentes.
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Temos depois os novos: o Nuno, licenciado em Económicas, que me aturou algumas neuras nos meus tempos de Lisboa, e a Ana Maria que, minha companheira na cantina de Económicas, à mesa, casou com ele o ano passado. E a Maria Antónia, agora ausente na Metrópole. (...) Gosto de conversar com ela, talvez pela ingenuidade e naturalidade dos seus 18 anos e da cordialidade das nossas relações, embora me aborreça um certo ar de "mais velho" que assumo. Penso que talvez funcione para ela com um - eu diria - irmão mais velho com quem fala à vontade de assuntos ... que normalmente me habituei a não abordar!
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Todos estes e tantos outros fazem me sentir o desconforto do meu exílio em Portugal, mais precisamente em Évora. Estou cansado dele! (NSM - 1971.12.01/03)
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Hoje estou com uma grande melancolia. Veio me à memória o passado, esse passado que é apenas memória. Lembrei me da Fátima Marques, que encontrei ontem no Rossio, em Lisboa, ao fim de quatro anos. Das notícias que me deu da Cristina e do pimpolho que lhe nasceu há dias. Fiquei contente por nos vermos ao fim de tantos anos e falarmos como se nos tivéssemos deixado na véspera. A Fátima e as suas novas trazem me à consciência a malta do Liceu em Luanda. Que é feito deles? Tantos deles? Alguns que ainda vejo de vez em quando [alguns ao virar duma esquina em Lisboa] - os amigos desde os dez anos; do Liceu (o Jorge Zamith e o João Seabra) ou da vizinhança (o Pedro, a Leonor, o João e a Estrela). Que é feito dos outros: o Rui Branco, o Victor Morgado, o Pepe, o micro Torres, a Isabel Franco, a Teresa Soares, a Teresa Melo, o Barradas de Oliveira, o Costinha, o Bustorff ... Tantos eles são! O tempo das "guerras" nos morros junto ao Liceu ou dos polícias e ladrões! Onde está o tempo mais recente das reuniões debaixo da [enorme] árvore, no Liceu de Luanda, junto ao campo de hóquei? (MCG - 1972.09.06)