* Victor Nogueira
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1. Quem sabe muito do Algarve é o meu amigo virtual Ludovicus do Momentos e Documentos. Mas atendendo às reclamações da «tia» de Cascais que aos sete anos marchou para o Algarve onde se tranformou em «moura encantada», vou tentar falar sobre o Algarve. Como sabem os mouros primeiro subiram por aí acima levando os bárbaros cristãos de roldão, mas depois tiveram que descer civilizadamente, apesar da barbárie dos Cruzados e das «tropas» portuguesas. Naquilo que veio a ser Portugal, a páginas tantas os árabes começaram a guerrear-se entre si, aliando-se por vezes aos cristãos, para vencerem os seus irmãos de religião. Bondosamente os cristãos arrasaram quase tudo o que lhes lembrasse o Islão e os àrabes, que acabaram por ser expulsos de Portugal conjuntamente com os judeus, pelo cristianíssimo D. Manuel I nas várias alianças entre Castela e Portugal, a ver quem ficava com toda a Península Ibérica. Na Espanha resistiram mais uns séculos, mas agora estão a regressar, em barcos sem condições e procurando passar desapercebidos, quando não morrem em naufrágio.
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Voltando ao Algarve, que já fez parte daquele longo título dos Reis de Portugal e dos Algarves, d'aquem e d'alem mar .... blá, blá, este está separado do Alentejo por várias cordilheiras de montanhas ou serra, que antes da construção da Auto-estrada nos obrigava a penar em infindas e seguidas curvas e contracurvas em estreita estrada e com o consequente e permanente conflito de quem conduzia calmamente com o coração nas mãos e de quem acelerava e fazia as curvas todas a direito. Mas com a auto-estrada, agora é um ver se te avias!
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A primeira vez que fui ao Algarve foi em 1986 porque os meus amigos Manuel e a Anabela entenderam que eu precisava de apoio moral porque acabara de me divorciar. E assim lá marchamos todos com os filhotes à ilharga, o Manuel largado a fazer as curvas a direito e eu nas calmarias a ver se a curva não se transformava por distração numa contracurva, entrando eu por qualquer árvore a dentro. Pelo que fizemos uma combinação: o filho mais novo dele mudou para o meu Renault 5, assumindo o papel de navegador.
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E assim o Manuel arrancou na mecha e eu continuei nas calmarias e nas curvas e contracurvas, até à Praia da Luz em Lagos, onde fiquei a saber que o Infante D. Henrique tinha um mercado, que ainda existe (agora Galeria de Arte), onde se vendiam escravos, e o D. Sebastião uma estátua do Cutileiro em que mais parece um motard do que um guerrreiro, embora me agrade francamente.
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É como cá em Setúbal, só há um monumento digno de nota, o monumento às nacionalizações oferecido pelos operários salvo erro da Setenave, mas estou em minoria. O que me consola é que o ilustre conservador do Museu de Setúbal/Convento de Jesus, historiador de arte, tem opinião idêntica à minha. Ao Bocage puseram-no em cima dum palito e à Luísa Todi só lhe deixaram a cabeça em cima dum murete. Ao desgraçado do Sá Carneiro também fizeram o mesmo que no Areeiro em Lisboa: cortaram-lhe a cabeça e pespegaram-na pendurada num bloco de pedra. Felizmente alguém teve o bom senso de retirar aquilo da vista do pessoal. Outro monumento horrível em Setúbal é ao 25 de Abril. Mal por mal, antes o erotismo do Cutileiro no cimo do Parque Eduardo VII em Lisboa.
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Bem, mas deixemos estas divagações e regressemos ao antigo Reyno dos Algarves.
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Corremos as praias todas de Lagos a S. Vicente e aquilo era um gelo e um vento agrestes que me faziam lembrar as praias do Norte. Quem terá sido o doido varrido que disse maravilhas das praias do Algarve? Para os «contenentais», o frio e o vento agreste não os fazem sentir fora de «casa». é quase como se estivessem no Norte. Agora um homem nado e criado nos trópicos, em Luanda, aquilo, no que respeita às praias, era e é uma autêntica Sibéria, tal como sucede em Setúbal.
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Como o Manuel é advogado, num dos dias teve de ir ao Tribunal de Faro por causa dum processo e então foi o meu desencanto completo. Era igualzinho às viagens para o Porto quando a autoestrada do Norte acabava em Vila Franca de Xira e recomeçava a 5 (cinco) km do Porto, numa terra cujo nome me não ocorre mas começava por C. Seria Carvalhos? Olhem, não me recordo.
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Pois aquela viagem para Faro pela EN nº qualquer coisa foi um tormento de pára/arranca sem possibilidade de ultrapassagens, Pelo que, tendo saído cedo de Lagos, ainda assim conseguimos chegar a tempo a Faro, onde dei uma pequena volta a pé.
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Ah! Outra «curiosidade». Atravessava-se Portimão e lá de baixo vinham núvens de fumo e de perfume da sardinha assada, que me fez lamentar não me ter precavido com uma máscara anti-gases tóxicos. E então nos restaurantes? Mal abríamos a boca para falar em português olhavam-nos com desprezo, sendo todos mesuras para os «bifes».
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No ano seguinte ficámos acampados em Aljezur, onde a confusão era menor e não havia «bifes». Gostei muito mais de Aljezur embora a água fosse fria e onde se ouvia à boite o contínuo e regular som do marulhar das ondas desfazendo-se na areia da praia.
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2. Passaram-se muitos anos sem que voltasse ao Algarve. Frio por frio, vento gélido por vento gélido, antes a casa de Verão do meu avô materno no Mindelo (Vila do Conde) que a minha mãe herdara e sempre havia mais terras para conhecer e visitar, nos 50 km em redor. Além disso o comboio suburbano (agora metro de superfície) fica a 100 metros e num instante se está em várias zonas do Porto, incluindo a chamada «avenida do bacalhau»
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Até que em 2 mil e troca o passo voltei duas vezes ao Algarve. Da primeira vez fiquei num hotel apartamento em Portimão (Praia da Rocha) e da segunda num aldeamento turístico nos arredores de Tavira. Dizem-me que para esses lados a água é mais quente, mas eu ia com a missão de conhecer o Algarve, especialmente vestígios dos árabes, e assim destas duas vezes percorri à minha vontade e ritmo, de lés a lés, graças à via do infante, onde na altura não se pagavam portagens.
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E foi assim que descobri três Algarves: o de Albufeira até S. Vicente, completamente descaracterizado, o de Albufeita a Castro Marim, ainda com um aspecto humanizado, e a Serra Algarvia, que muita gente desconhece. Fiquei simplesmente apaixonado por Silves, Tavira, Castro Marim e Alcoutim, sem falar na Serra. Não fosse o Algarve uma região com um alto risco de ocorrência de sismos, aliás como Lisboa e Setúbal, e ainda iria acabar os meus dias em Tavira.
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Claro que tenho montes de fotos não digitalizadas, mas outro aspecto que me encantou foi o «floreado» das platibandas e os desenhos nas chaminés. Casas com platibandas «floreadas», «trabalhadas», subsistem apenas duas em Setúbal, uma na Avenida dos Combatentes, outra na Avenida 5 de Outubro. Para além duma chaminé salvo erro quinhentista, na Avenida Luísa Todi, que tem por detrás a Travessa do Feijão. Mas escusam de ir lá em busca de feijão ou qualquer outro alimento, seja em travessa ou não
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Afinal o texto não me saíu humorístico, não sei se devido ao adiantado da hora, se devido ao cansaço. E prontos, «tia» de Cascais transformada em moura encantada, não voltes a dizer que sou mau para ti.
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No Kant_O encontram dois textos sobre a presença árabe em Portugal e sua herança:
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- Silves no contexto poético do Ândalus (03-o3-2007)
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- OS MUÇULMANOS NA PENÍNSULA IBÉRICA (16-01-2007 )
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Encontram-nos facilmente se clicarem no marcador «Islão»