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sábado, 22 de dezembro de 2007

João Baptista Cansado da Guerra (13)

* Victor Nogueira

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E DE REPENTE É COMO SE TODAS AS ESTRELAS SE APAGASSEM

De repente é como se todas as estrelas se apagassem ficando o cansaço e a velha vontade, por vezes renascida, de partir para longe, de apagar tudo, como se fosse possível recomeçar tudo de novo, rasgando o que escrevera, lixo para lançar aos quatro ventos, porque não ria, nem chorava, nem tinha uma pedra no lugar do sentir pelo qual se deixara envolver.
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Estava assim porque o tinha considerado seu igual e confiara nele e com ele procurara falar sem reservas. Parecia contudo evidente que ele jogava à defesa e que as palavras seriam para ele fogo de artificio e manobra de diversão por detrás das quais se escondia e protegia. Assim o julgava, apesar de poder considerar-se má leitora dos factos e dos gestos, como outrora o fora de outras pessoas, nuns casos porque se ficara pelas palavras, noutros, como no presente, por ter procurado "ler” para além delas.
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Talvez a considerassem presumida porque em determinada altura do seu relacionamento não acreditara em tudo o que ele lhe dizia, relativamente a ela própria e aos sentimentos que afirmava nutrir por ela: seria uma presunção diferente da que ele tinha, porque ela perante ele se descobrira, talvez cedo e desajeitadamente demais, talvez porque tivesse lido nele aquilo que desejara ler. E assim, conhecendo-lhe os sentimentos dela, seria levado a pensar que lhe bastaria dizer quem era para que ela largasse o trabalho ou interrompesse a reunião para atendê-lo ao telefone, fosse do emprego, fosse da casa onde morava. Era simultaneamente verdade e mentira afirmar que pouco ou nada lhe interessava saber se ele estivera, estava ou algum dia poderia vir a estar "enamorado” por ela. Era de presumir que fosse adulto, crescido, responsável; então porque não haveria de acreditar no que ele lhe dizia e deixar-se de "poesias" e de imaginações!?
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Recordava-o por vezes com uma grande ternura mesclada de inquietação e desassossego. Lembrava-se das primeiras vezes em que o vira, quando procurava conhecê-lo, e de como se encantara por ele. Recordava-se das vezes em que pretendera envolvê-lo numa longa e doce caricia ou o desejara como um homem pode ser desejado por uma mulher. Como esquecer a rede em que se deixara enlear, que ele muitas vezes parecera também tecer e outras rompera? Recordava o seu jeito gaiato, sorridente e brincalhão, sem esquecer os desencontros e as vezes em que ele disparatara ou faltara sem dizer água vai, apesar da importância que ela, parvamente, dera à sua presença e companhia.
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Ele dizia-se amante da liberdade e no entanto não poucas vezes desrespeitara a dela, deixando-a a falar sozinha, com a refeição fria ou o fim de semana “estragado". Ele dissera preocupar-se com o efeito que os seus actos e as suas palavras poderiam provocar nos outros, por recear e não querer magoá‑los, mas não poucas vezes a magoara, sem que ela soubesse verdadeiramente distinguir quando falava a sério ou na brincadeira ou se estava apenas desatento por feitio ou preocupação. Não podia esquecer-se das vezes em que ele lhe entrara pela casa dentro, enchendo o ar de poalha dourada e refrescante, libertando a sua fragilidade, como ave inquieta na brisa que ela era.
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Recordava-se disso e de muitas coisas e palavras, que gostaria tivessem (o)corrido ou acontecido de outro modo. E lembrava-se de algumas cartas, poucas, duas ou três, que lhe escrevera, arrumadas no fundo duma qualquer gaveta, porque resolvera deixar sedimentar as palavras, que deste modo, com o decorrer do tempo, haviam perdido o sentido e a oportunidade. Pensava ser natural que os homens e as mulheres procurassem uns nos outros amizade, ternura e carinho, considerava natural que os homens e as mulheres se sentissem mutuamente atraídos por serem de sexos diferentes ou que, se fosse caso disso, pudessem ir para a cama um com o outro, dum modo saudável, sem táximetro e tabela de preços consoante o serviço.
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Mas nem sempre acontecia o que deveria ser natural, não poucas vezes porque muitas e variadas razões levam a renegar, condicionar, proibir e "regulamentar" a sexualidade e as suas manifestações duma forma que nada tinha a ver com a expressão saudável da vida.
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E fora como uma expressão de vida e um cântico de alegria que ela o considerara, de forma aberta. No entanto e talvez demasiado cedo partira, quando em vão por ele esperara, para logo de seguida considerar o amor um bem que suaviza, quando alguém afaga a nossa vida, o que lhe dissera inopinadamente.
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Há na vida um tempo e uma ocasião para tudo e para cada coisa, segundo expressava um belo poema judaico, e por isso talvez as palavras e os sentimentos dela tivessem sido expressos demasiado cedo.
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Entendia ser natural que o desejasse como natural seria que outros homens a desejassem, mas não ele, que até era um homem que sabia "provocar" as mulheres, que a "provocara" não poucas vezes, embora dum modo que na altura lhe parecera "natural", sem maldade.
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Contudo, o passar dos dias e os "desentendimentos” pelo que talvez fosse ou tivesse sido por ambos desejado fazia com que ela pensasse já não ser natural que ele "provocasse" e amesquinhasse (consciente e deliberadamente ou não) quem "provocara" (por ela não o entender), apenas porque teria tido com a mulher com quem vivera experiências, isto é, vivências, humilhantes ou perversas, gerando situações que ambos não haviam conseguido ultrapassar (supondo que ele desejaria ultrapassá-las), por preconceito ou falta de simplicidade ou por utilizarem gestos e códigos diferentes. Situações que não haviam logrado superar em busca da amizade, do amor, da ternura, do prazer, da paz ...
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É um facto que fora por ele seduzida e que, ao considerá-lo seu igual, procurara sobretudo a sua amizade. Mas tendo ambos códigos e chaves de leitura diferentes, só veramente poderiam saber quem eram através da convivência, para descobrir o que estava para lá das categorias redutoras que (des)ajudavam ao entendimento das pessoas. Porque ele falava nas mulheres dum modo simplista, cómodo, mas irreal (são todas iguais, logo são todas tratadas da mesma maneira); outros falariam nos homens (são todos iguais, andam todos ao mesmo, logo devem ser todos tratados da mesma maneira).
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E no entanto, por temperamento, vivência e "leitura", ela sabia que há homens e mulheres, com características comuns, é certo, mas que para além disso cada pessoa tem as suas características próprias, especificas, da sua cultura e classe social; para lá das "cómodas” categorias e definições redutoras ela procurava o que existe de próprio, de pessoal, fosse no Zacarias ou na Carlota, fosse na Maria ou no Manel, independentemente de se não empenhar em "convencer” as pessoas, o que por vezes em nada facilitava a sua relação com outrem.
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Falava com as gentes, é certo, mas não como apóstolo ou profeta; buscava aquelas com as quais se identificava, afastava-se das que nada tinham em comum com ela naquilo que reputava essencial, aceitava e tolerava as outras.
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Sendo assim, é natural que tenha pensado e lhe tenha dito "gosto deste homem, gosto dos filhos dele, postaria de com ele viver e compartilhar o dia-a-dia". É natural que ele lhe respondesse ter outros objectivos prioritários na vida e que ela estava à margem deles, apesar dela o considerar seu igual e procurar respeitar a sua liberdade. Admitia contudo que algumas vezes os seus gestos e atitudes para com ele pudessem parecer desmenti-la, apesar de serem também condicionados pelos gestos e atitudes dele. Admitia pois que ele quisesse provar que sozinho poderia triunfar, sem a solidariedade dos outros, e que ela o desejava "controlar", a ele que estava farto de prisões, pressões e bofetões; por isso talvez tivesse sido erradamente levado a pensar para consigo mesmo que o paleio é sempre igual e que no princípio são tudo rosas e arco-íris, para lá dos quais surgem os espinhos e as tempestades e os ventos ciclónicos.
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Tudo bem, continuaria ela a pensar, ninguém a mandara ser apressada, sem dar tempo ao tempo, embora depois os erros se possam a vir a pagar caro, face à brevidade da vida e à impaciência dos mortais. É natural que os “sonhos" não sejam os mesmos para todos, é "natural" que para algumas pessoas fique a nostalgia dos sonhos que se sonharam mas não viveram ou falharam. Afinal os sonhos nem sempre são pesadelos e por isso podem também ser a expressão dos anseios com vista à concretização, talvez por vezes dum modo errado e desajustado, dos desejos de uma vida diferente, melhor, mais cheia e saborosa.
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Como a que ela pensara encontrar nele e retribuir-lhe!
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Setúbal 1990.03.19/20
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(Victor Nogueira, sobre uma epístola de S. Sebastião aos gentios, em 4 de Outubro de 1989, a D.)
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sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

João Baptista Cansado da Guerra (12.2/2)

* Victor Nogueira
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continuação
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Vês, João, vês como és indiscreto no que escreves sem cuidar de mim, sem cuidar que há mil olhos e mil ouvidos e dez mil bocas em nosso redor ?”, pelo que João Baptista descansará na doce, fresca e apetecida pele com sabor a cravo e canela e lhe dirá "Sê simples, Sebastiana, sê simples e não digas desta água não beberás porque eu não quero e se não queres, então cala-te, e se queres não brinques com o fogo e o vento que tudo destroem ou ajudam à vida conforme o uso que deles fizermos e a sabedoria que em nós houver. Porque as tuas palavras negam o que o teu hábito provoca, os teus gestos renegam o que o teu corpo pede e a tua voz e o teu olhar denunciam, haja ou não sinceridade e/ou descuido da tua parte", ao que Sebastiana Pé Ligeiro e Força Nas Canelas responderá "Passado foi o tempo em que tal sucedeu porque tu não me entendes(te) nem eu a ti e por isso hoje sou mais resguardada perante ti,"

E neste ponto o narrador olhará para o relógio na praça pública dizendo para consigo "Bolas, já são sete e trinta da tarde e ainda não parou de chover nem Sebastiana apareceu; lá se lixou o jantar mais a bela companhia e a doce conversação e novamente não há novas nem mandados." Se fosse noutro tempo João preocupar-se-ia mas hoje apenas encolhe os ombros dizendo com certo amargo de boca "Como se pode exigir ou pedir ao vento que seja o sol e o mar, quando esse vento é apenas vendaval que levanta alterosas ondas ou tempestades de areia, que tudo varrem na ânsia incontida das palavras e dos gestos equívocos ou sem sentido? Como pode o cego dar vista ao cego ou o mudo falar com o cego?!."

E o contador de histórias dirá "Basta, João, basta, que vais a reboque das palavras apenas por que uma certa Sebastiana Raposinha te entrou pela casa dentro enchendo-a de cor e alegria e que por isso pensaste que nela encontrarias amizade e com ela paz e serenidade, que o resto viria por acréscimo se e quando fosse tempo ou oportunidade de acontecer. Mas vós ambos sois duas crianças sem sabedoria nem paciência, sem que se conheça bem qual de vós é pior aprendiz de feiticeiro." E deste modo um envolvente e pesado cansaço entrará dentro de João Bimbelo, invadindo todos os poros e o menor interstício, as palavras e os gestos esfarelando-se em negro de chumbo, um areal no lugar do coração, vulgaridade quanto baste, uma gasta armadura impedindo a pirueta e o sorriso de quem lança os males por cima do ombro e prossegue a caminhada de mãos nos bolsos e assobio nos lábios, a passada larga e despreocupada, em busca de outros portos e marés onde finalmente João Baptista possa ser Descansado da Guerra.

E novamente o narrador se intrometerá "Chega, porque se ambos sois amigos então acabai com a guerra das palavras equívocas e dos gestos com muitas leituras para o mesmo desejo e olhai para além do vosso umbigo, pelo que João encerrará a escribadura porque é necessário cozinhar o jantar, necessidade prosaica pese embora a sua vitalidade essencial. Mas antes dirá “Cuida de ti Sebastiana Mandrágora, pois os homens não são todos iguais, porque sendo assim também o são as mulheres e então tu serás na voz do povo e das comadres falsa, fingida, vendida, pronta a trazeres os homens pela arreata nesta vida onde se cruzam os jogos de poder que terminam na prisão de alguém e lá se acabam a tua diferença e o teu amor à liberdade!" E Sebastiana Mosqueta Rosada responderá com o seu riso de menina gaiata que nunca se sabe quando é maldosamente trocista ou simplesmente brincalhão e lançará novamente João às lonas dizendo "Olha por ti, João, olha por ti que és demasiado transparente em determinadas situações e demasiado racionalista e pouco terra-a-terra, levando as coisas muito a sério e tudo queres entender com os olhos da razão embora tu também brinques e por vezes digas piadas", pelo que o narrador em vão se intrometerá porque as palavras são como as cerejas, atrás de umas outras vêm, impedindo o encerramento das escribaduras e oralduras, transtornando deste modo a melhor narradura assim descarrilada.

"É como dizes, pregoeiro, é como dizes, e eu João Bimbelo o sei com um saber de experiência feito, pois esta mulher entrou-me pela casa dentro e libertou mil crianças dentro de mim que sentiram o veludo da sua pele morena, tão fresca e suavizante e por isso lhe disse gosto de ti, de falar contigo, de estar contigo, gosto da tua companhia, de ver-te na minha casa como peixe na água, de sentir o teu corpo junto ao meu. E pedi-lhe a sua amizade, mas ela deixou-me demasiadas vezes a falar sozinho e não Ihe vi ainda gestos de amizade e ternura antes palavras vãs acerca da minha "individualidade" e da minha paciência, como se os "amigos" fossem elásticos onde descarregamos as nossas macacoas e pedradas e por isso, quando penso nela, não encontro nem o sol nem o mar nem estrelas nem crianças correndo dentro de mim; quando penso nela encontro apenas um enorme e opressivo silêncio, uma garra no lugar do coração. E no entanto, Sebastiana, quantas vezes me provocaste, quantas vezes julguei ler em ti sinais escondidos que me levaram a crer que poderias estar enamorada de mim e que te resguardarias com as tuas fugas e as tuas palavras agrestes ou por cima dos ombros? E pergunto ao tempo que passa porque te procuro ainda, Sebastiana Pé Ligeiro e Força nas Canelas, quando há tantas Marias na terra, e porque continuo aprisionado do que resguardado ou inexistente é, porque continuo preso a uma Sebastiana Mil-Sóis que uma noite me entrou pela casa enchendo o ar de poalha dourada e nela julguei encontrar uma mulher de quem valia a pena ser amigo?”

E João dirá para com os seus botões que a procura, é verdade, talvez demasiadas vezes, embora não seja cãozinho levado pela arreata, procurando a dona que o maltrata, ao que o narrador acrescentará que ele a procura porque gostaria de ser amigo dela, porque a respeita e considera, porque se preocupa com ela, porque Sebastiana Morgana é importante para ele e porque, sabendo ela disso, o magoa porque o atende por vezes com um jeito displicente, desprendido e frio, como se o estivesse a pôr com dono ou a armar-se em pessoa importante e distante, especialmente quando há terceiros presentes. E João dirá “É uma pecha dela, embora eu pense que talvez o não faça por leviandade ou ligeireza, mas sim por falta de atenção ou apenas porque se fecha por estar demasiado maltratada (ou mimada?) e com receio de exteriorizar os seus sentimentos e o seu pensar, por autodefesa ou porque está ansiosa, preocupada ou com a pedrada. Ao que Sebastiana, subitamente séria, dirá "É como dizes" e mais nenhuma palavra sairá da sua boca, embora pense para consigo o pensamento que esconde por detrás das palavras ásperas ou desprendidas, quando não se descuida e no tom de voz transparece o jeito de quem está enamorada, de quem é menina em momento de fraqueza e carece de quem a respeite e acarinhe, embora João Baptista esteja seco dos seus xutos e pontapés e nada lhe permita concluir que não está errado nas suas leituras.

E por algumas vezes o sol apareceu no horizonte para lá desta janela e se pôs para lá da parede que lhe está defronte e muita água caiu das nuvens e chegou ao rio, enchendo a cidade de lama e areia, encoberta por um céu de chumbo debaixo do qual inúmeras aves têm voos rasteiros de pardal, como se fossem gaivotas m terra. E João Baptista lerá tudo isto e um filme de pedaços esparsos perpassará pela sua mente e pensará como as palavras enganam e os gestos iludem se não tivermos a chave certa que nos dê o sentido oculto e verdadeiro da vida e dos acontecimentos.

E João está sozinho, embora lá do fundo venha o ruído da televisão ligada que outros vêm, impedindo que ponha a música em crescendo que o envolva e pacifique, Vivaldi, Bach ou Mozart, sobretudo, ou mesmo as valsas vienenses. Está pois João sozinho, com um peso no lugar da alma, um aperto no lugar do coração, o corpo como se fora um monte de roupa em rodilha ou largada ali no chão, antes de ir para a máquina, cesto de roupa suja, melhor diria, usada ou gasta. Imagens velhas que renascem periodicamente. "Porquê, Sebastiana, me sinto por vezes tão sozinho, tão vulnerável, tão desolado, tão dependente dos outros, de ti, por exemplo, que penetraste na minha vida como a raiz entrando pela muralha deste modo esfarelada e desagregada, sem que se conheça bem onde acaba a pedra e começa o tronco velho e carcomido?" E Sebastiana Raio de Sol dirá "Não é assim que te quero, frágil e vulnerável, mas sim macho forte e duro que me cerre os cabelos esvoaçantes como o vento em cujas ondas navego sem porto nem maré.”

E João Bimbelo rir-se-á de si mesmo e da vida e de tudo, com um riso radiante que no entanto deixa mil traços negros dentro de si e lembrar-se-á de como são diferentes os sinais e as palavras, de como lhe parecera tímida a primeira e segunda vezes que a vira, de como lhe parecera uma pessoa sensível, culta, serena, inteligente e atenciosa, de como lhe parecera uma pessoa adulta apesar da juventude do rosto e da alma!

De repente João olha para a vidraça e verá para lá dela o negrume da noite e um caminho de luzes e, como se fora num espelho de breu, o reflexo esmaecido e vago da sua imagem à mesa, sentado no silêncio da madrugada, entrecortado apenas pelo escape livre e agressivo das motorizadas e pelo velho matraquear da lenta máquina registadora do seu pensamento demasiado rápido, deste modo disperso por outros caminhos e atalhos.

E Sebastiana Princesa perguntará “De que te ris, João, de que te ris se estavas com um ar tão sério e tão meditativo, porque mudaste de repente?" Então João rir-se-á novamente e dir-lhe-á "Porque se escondem tanto as pessoas? Porque te resguardas tanto?"

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E muitas vezes o sol, cada vez mais alto, apareceu para lá do horizonte e se pôs defronte, sucedendo-se os dias e as noites com muitas e variadas feições, sem que o escribador passasse para alem da página defronte dos olhos, muitas vezes escrita e retomada e amarfanhada. E passaram o Natal e o Ano Novo e também o Carnaval a caminho da Páscoa e as linhas por lá ficaram no fundo da pasta ou no bolso do casaco e poucos foram os escritos que nesse tempo surgiram e grandes os navegares sem porto nem maré, perdida a colorida janelinha.

Porque Sebastiana Mandrágora, Princesa dos Mil Sóis Em Pedra Dura, não passava de mulher com jeito de menina em permanente crise adolescente, em atitude e pose de quem gratuitamente pretende escandalizar ou afrontar o mundo, malbaratando a sua energia e encanto em tiradas de afirmação estéril.

E de tudo, para João Bimbelo Que Não Era Príncipe, ficará um travo amargo com sabor de areia, pouco interessando falar da amizade que se procurou como um bem frágil e precioso ou do céu coberto de poalha luminosa ou das noites cheias de sol e mar. Para quê pois continuar pensando em Sebastiana Balde de Água Fria ou recordar o seu canto ou a sua voz cativante? Para quê lembrar a macieza da sua pele morena ou a sua maneira de sedutora querendo ser seduzida, como no retrato à beira do lago? Tudo pertencia ao mundo das ilusões; tudo se perdera e já não interessava procurar a meada e a raiz dos (des)encontros para reencontrar o passado e nele o regresso ao futuro, nem falar da primeira e da Segunda vezes em que a vira nem dos tempos em que a esperara e ela aparecera, nem da "descoberta" dos sonetos de Shakespeare, nem da alegria pela sua presença no casarão de João Baptista, nem do seu jeito alegre e brincalhão, nem das jornadas de povoado em povoado ou à Praia da Liberdade Aprisionada, ou das vezes em que se sentara no chão ao seu lado ou repousara nele.

E João Que Não Chegara a Príncipe dirá que a felicidade não tem história e que todo o tempo é escasso para vivê-la e saboreá-la, acrescentando que a vida é feita de sonho (e também de mudança, como diria o poeta), embora vivido com os pés na terra, e que a vida é sempre feita de novos amanhãs, como dissera uma certa Maria Papoila Vai Com As Outras, embora fique sempre a mágoa ou a nostalgia dos sonhos que se sonharam e não viveram, do sol arrancado antes de florir.

Os sonhos que se não viveram pertencem ao mundo das ilusões e das sombras, dirá o narrador, e de tudo fica um pesado silêncio enchendo o ar e penetrando como breu em todos os poros e em todos os interstícios, bem temperado com um crescente desânimo para lá da viseira, juntando-se a outros pesos, fazendo surgir a pergunta se valera a pena encontrar e “conhecer” Sebastiana Maria da Pele Doce e Morena, que inspirara tantos bonitos textos que recebera com aparente agrado e lisonja e guardava num qualquer dossier, não se sabe bem porquê nem para quê.

E na recta final se mudou o discurso, sem boniteza, que não transparecia nestas linhas finais para encerrar com ponto mal alinhavado o solilóquio em torno de Sebastiana Princesa, dos Muitos, Cálidos e Ásperos Nomes.

Como quem arremata para que o tecido se não esfie e desfaça, levado pelo vendaval!

E retirando-se o narrador, foi encerrada a escribadura, no palco abandonado renascendo o silêncio em mar de aparente calmaria.
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1989.12 e 1990.03.13/16SETUBAL E PAÇO DE ARCOS

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

João Baptista Cansado da Guerra (12.1/2)

* Victor Nogueira
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SOLILÓQUIO EM TORNO DE SEBASTIANA BALDE DE ÁGUA FRIA, PRINCESA DOS MUITOS,

CÁLIDOS E ÁSPEROS NOMES, EM TEMPO DE XUTOS E PEDRADAS.

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E o narrador chegou à boca do palco e disse:

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João Bimbelo vivia na Quinta de Todos Nós envolto num sossego cinzento e morno quando Sebastiana Lua Nova lhe entrou pela casa dentro com o seu jeito esvoaçante e cintilante; não era João águia ou gaivota, mas sim pregoeiro ou contador de histórias, vogando pelas sete partidas do mundo numa barca mal aparelhada e dele apenas se podia dizer que era o sol e o mar em busca da brisa suave e refrescante ou da verde planura na cidade dos homens.

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Quando Sebastiana Mil Sóis repousava em João Bimbelo era como se um rio enchesse a sua casa com o murmúrio de mil candeias, semeando o ar de cor e alegria. Mas demasiadas vezes o ar deixou de ser belo e calmo e o mar verde e sereno, demasiadas vezes a brisa se transformou em vendaval para além do qual não se vislumbrava qualquer mar de calmaria, por mais sedutora, cariciante e alegre que fossem a voz e o jeito da Princesa, mulher-menina em fugas constantes em torno do redondel, mulher-achada de mil promessas em flor fugidas!

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E no entanto eram doces e macios a pele e os lábios de Sebastiana Verde Sol, brilhantes de mil promessas os olhos da cor do trigo em flor, um campo de giestas com sabor a cravo e canela a ondulante nau onde vogava a Princesa que encantara João Bimbelo, que sem nada de ratão ou gatarrão se tornou novelo enleado com fraca rede na roca de Sebastíana Raio de Sol,

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Nesta altura Sebastiana Mil Sóis soltará uma das suas deliciosas gargalhadas com sabor a menina dizendo com agridoce sorriso “Não há meio, João, de ganhares juízo, de me tirares do pedestal em que me colocaste. Pois as princesas morreram há muito; as que existem em teu pensar não são raposas nem raposinhas e o derradeiro dos príncipes há muito que faz tijolo e não há manhãs de nevoeiro ou dias de sol que o façam renascer, mesmo que me agrade o que escreves e dizes de mim com tal gentileza, encanto e sinceridade"

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E com duas palavras, um sorriso (trocista?) por detrás dos óculos escuros., um jeito de encolher os ombros de quem olha para outro lado com a pressa e enfado de viver depressa, derrubará Sebastiana Mandrágora o xadrez calculadamente encenado por João Baptista Cansado da Guerra ou o improviso repentinamente suspenso no vazio!

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Coitado do João Bimbelo, dirá talvez o espectador parafraseando Pessoa, coitado do João Baptista que um dia se agradara duma certa Sebastiana Verde Sol, Princesa de muitos e cálidos nomes. E neste ponto do conto João Baptista Cansado da Guerra sentar-se-á defronte de si mesmo e rir-se-á dos seus (des)enganos porque um dia se agradara de Sebastiana da Cor do Trigo em Flor.

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E o riso de João Bimbelo ficar-se-á uma vez mais pela flor da pele, mas dessa marca poucos se aperceberão, porque João Baptista fora seduzido e se agradara de Sebastiana Princesa dos muitos e cálidos nomes, primeiro porque a considerara diferente das muitas Maria-Vai-Com-As-Outras que enxameavam os campos e o povoado e em segundo porque é natural que um homem se agrade duma mulher, especialmente se ela for sedutoramente sedutora e nela se reconhecer como igual em busca da liberdade e do horizonte vermelho.

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E com nova risada, com seu jeito de lançar os cabelos para trás, gracejará Sebastiana dizendo que se trata duma indómita amazona em busca de outro sol e de outro mar e que o seu caminho e a sua rota passam ao largo de João Baptista, o qual lhe dirá que a liberdade dela não se cruza com a solidariedade para com os seus iguais, antes cavalga em redor do seu belo, doce e apetitoso umbigo reflectido em cristalino espelho obscurecido, como pena esvoaçante levada pela brisa ou pela corrente, que deste modo perdiam a sua qualidade refrescante

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E nesta roda do ora digo eu ora boquejas tu se foi escoando o tempo e os segundos somando horas, dias e anos, fazendo o coração de João Baptista oscilar como nave mal ancorada aproando ao cais de Sebastiana Princesa que não era rainha. E João Pregoeiro dirá a Sebastiana Mil Sóis, uma vez mais, que ela enche a casa de cor e alegria e semeia o ar de estrelas e que a procura porque aprecia a sua amizade e companhia embora ninguém possa prender o vento porque quando tal sucede o vento deixa de ser brisa e transforma-se em pântano, como ficava a disposição de João Baptista quando a procurava alegre, assim-assim ou nas lonas e ela lhe respondia por cima do ombro ou como quem diz: "Despacha-te, João, vê se te vens porque está na hora de eu me partir", olhando o relógio e comendo pevides por entre dois lânguidos gemidos ou três suspiros, encenados ou não, o taxímetro, marcando a hora e o serviço.

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E novamente Sebastiana Raio de Sol se rirá por detrás dos óculos escuros e disso apenas os lábios darão notícia enquanto diz "Não há meio de ganhares juízo, João, pois desta água não permitirei que tu bebas, que sou independente e livre e para a sede de outrem me reservo, mesmo que as fontes sequem e o moreno vale se transforme em deserto sufocante."

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E rir-se-á também João Baptista ao retorquir que não é ele que fala em machos e fêmeas, antes em homens e mulheres e, acima de tudo, em pessoas, e que se ela em desconversa e a despropósito Ihe diz "Desta cisterna não beberás porque para outrem me reservo" revela mau gosto e pouca amizade, sem a simplicidade de com o seu jeito de pão-pão-queijo-queijo afirmar o vero significado de "Olha para o que eu quero e não para o que em palavras e só em palavras recuso”, porque João lhe dissera apenas "Procuro-te porque gosto de ti e da tua companhia e quero a tua amizade e gentileza, porque o resto virá por acréscimo, se for tempo ou ocasião de acontecer, porque te respeito e à tua liberdade, coisa a que pelos vistos mal habituada estás."

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Ao que Sebastiana responderá "Deixa-te de paleios que os machos são todos iguais, bem os conheço desde menina, são tudo falinhas mansas e delicodocices mas depois vêm as prisões, as pressões e os bofetões e é por isso que eu te varro ao enxota moscas sape gato." E o dia cobrir-se-á de breu, pelo que João Baptista Cansado da Guerra lhe dirá "Cuida de ti, Sebastiana Mandrágora, cuida de ti e do que fazes e dizes não venha o lobo mau em noite de lobisomem e te cante o conto da sereia, pois acreditei que não fosses Maria‑Vai‑Com‑As-Outras, pondo em meu pensar que também tu amavas a liberdade e aqueles que a defendem, apesar dos seus erros, pois só não erra quem não vai à guerra,"

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E neste ponto o pregoeiro interromperá o solilóquio e dirá que isso da liberdade fia pianinho e muitas vezes os próprios inimigos da liberdade a reclamam para mais facilmente a destruírem lançada em suas masmorras profundas e solitárias. E Sebastiana Princesa soltará nova gargalhada ao dizer "Vês, vês como eu sou livre como o vento e só faço o que posso estando na prisão ou dormindo envolta em meus sonhos e devaneios?!" Pelo que João perderá a piada mais ou menos fina, murmurando que por vezes os outros nos agradam e depois buscamos racionalizar e procuramos explicações: o sorriso, os olhos, a boca, o tom da voz, o corpo sedutor e com isso tudo envolvemos a solidão e os nossos desejos mais profundos de paz e serenidade, enquanto noutras vezes a sedução e o encanto vêm aos poucos, hoje uma palavra, amanhã um gesto e por aí fora, até que a rede e o enleio se completam, com malha mais ou menos apertada.

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E aqui novamente o narrador interromperá o pregão dizendo que nada disto pensara dizer pelo que João retomará o fio a meada e dirá que já tudo foi dito e redito e que mandou chamar um ilustre retratista do reino que pintou muitas e variadas poses de Sebastiana Fio de Prata rindo, meditando, olhando, brincando ou escondida por detrás dos seus malfadados óculos escuros, com seu eterno sorriso gaiato ou trocista em seu rosto multifacetado. E esses mil retratos, paupérrimas imagens e reflexos de Sebastiana Princesa, adornavam os salões e corredores do Paço sem que alguém mais os vislumbrasse para além de João Baptista, que com mais ninguém compartilhava ou podia compartilhar o encanto e a sedução de Sebastiana Mil Sóis, a quem oferecera muitas e variadas escribaduras em torno do amor, da amizade, da sedução e também do (des)encanto, que ela guardava no fundo dum qualquer baú. E aqui Sebastiana Agridoce dirá qualquer coisa que o vento levará, abafada pela voz do pregoeiro dizendo "Cuida de ti João, cuida de ti, que há uma diferença entre descobrir e conquistar, entre a paz e a guerra, e bom seria que Sebastiana o soubesse também, pois que o vento é livre enquanto não pára e é nosso amigo quando nos acaricia o corpo e o rosto, mas destrói‑nos quando não sabemos fazer-lhe frente ou deixá-lo passar de lado.”

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E Sebastiana Mil Sóis dirá "Que bem que ele (por vezes) escreve, tal como outrora haviam dito Maria Antónia, Maria do Mar ou Maria Papoila. E João lembrar‑se‑á disso e resguardará de novo em si os gestos de amizade e ternura que a Princesa dos muitos, cálidos e ásperos nomes lhe despertara porque o encantara e lhe agradara vai para seis longas luas, uma eternidade face á brevidade da vida e á impaciência dos mortais. E caindo em si, João se lembrará que lembrará que Sebastiana Morgana o avisara que não se prendesse a ela, que era mulher esvoaçante como a borboleta que paira de flor em flor em busca do fel que agridoça a vida, sem âncora nem porto de arribação, como se João acreditasse que fosse mesmo assim, como se não fosse verdade que muitas vezes pela boca morre a pescada que antes de o ser já está presa nas mãos do pescador quando este aparece e utiliza o fio, a rede, o anzol ou o isco apropriados.

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E Sebastião Braço de Ferro encolher‑se‑á como no retrato à beira do lago e desta feita não permitirá que João a beije ou acaricie, dizendo novamente que se não quer prender nele e tem receio de se vir por aí abaixo, pois é mulher séria, embora mui sorridente, e não é Maria Embarcadiça Embarcada Em Qualquer Navio Sem Rumo Nem Destino. pelo que o pregoeiro interromperá a escribadura para dizer "Cuidem do que fazem ou dizem pois que as palavras e os gestos por vezes são como o fogo e o vento e depois de passarem o chão fica negro, gélido e salgado e entre vocês já existem demasiados equívocos, demasiados desencontros, demasiados enganos, demasiadas perplexidades que obscurecem a vossa amizade." Então Sebastiana Mandrágora tocará o corpo de João fortuita ou prolongadamente e João acordará no silêncio da madrugada e em vão procurará Sebastiana da Cor do Trigo em Flor pelo que nenhuma ave iluminará o silêncio ou libertará o murmúrio de mil candeias.

continua



quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

João Baptista Cansado da Guerra (11)

* Victor Nogueira
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É bom
ficar pensando
em você
mas às vezes

cansa ...


... pois gosto de ti e da tua presença e companhia, mas tu andas longe e por outros caminhos em busca do sol e do mar, deixando-me na berma da estrada com as mãos vazias e um conto amarfanhado e por terminar a meio caminho de coisa nenhuma "E houve um gesto, [ um nome, ] uma palavra que se intrometeram [ e confundiram ] e burilaram os sinais, refrearam as palavras [ e as mãos ] e não houve tempo nem ocasião para que João Qualquer Coisa dissesse com simplicidade:


Gostas de mim? Queres ser minha companheira ou namorada? Mas nem João nem Joana tinham a simplicidade da gente simples, pelo que o canto ficou a meio caminho de coisa nenhuma. E não havia nem sol nem mar nem estrelas nem o murmúrio de mil candeias, nem os olhos da cor do trigo em flor eram um campo de giestas com sabor a cravo e canela [ onde as aves encontrassem a liberdade. ] E por isso por todo o lado havia um pesado, envolvente e crescente cansaço, invadindo todos os poros e o menor interstício, as palavras e os gestos esfarelando-se em negro de fumo, um areal no lugar do coração, vulgaridade quanto baste, uma gasta armadura impedindo a pirueta e o sorriso de quem lança os males por cima do ombro e prossegue a caminhada de mãos nos bolsos e assobio nos lábios, a passada larga e despreocupada, em busca de outros portos e marés onde o viajeiro pudesse finalmente descansar da guerra e sentir o ar belo e calmo e o mar verde e sereno que busca(ra)em Joana Princesa dos muitos, doces e ásperos nomes, mulher-menina, mulher-achada de mil promessas em flor fugidas."


E voltando de novo sobre si mesmo, o viajeiro perguntou: Queres ser minha amiga e ensinar-me a ser teu amigo?!


1989.12.19
Paço de Arcos

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

João Baptista Cansado da Guerra (10)

* Victor Nogueira
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BREVE CRÓNICA DAS VENTURAS, DESVENTURAS E AVENTURAS QUE ENVOLVEM JOÃO DO MAU TROVEJAR E A SENHORA RAINHA D.URRACA DA PERDIÇÃO OU DE COMO AS APARUDÊNCIAS PODEM (DES)ILUDIR COMO SE VERÁ SE PACIÊNCIA E JEITO HOUVER.

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E a primeira aparudência, disse o contador de histórias, é mesmo esta, pois trata-se dum relato que envolve outras personagens que são o João Bimbelo também conhecido por João Baptista Cansado da Guerra e a Sedutoramente Inominável Princesa do Meio Caminho (Des)Andado Com Sabor a Cravo e Canela, da Pele Doce e Mais Repousante Que Mil Calmantes, Mais Bela e Sedutora Que Mil Sóis Para Lá das Luas. E o contador de histórias fez uma vénia ao público que enchia a praça, o barrete varrendo o chão antes de se atirar ao ar para dar cinco rápidas piruetas, até que ficou nova mente em pé prosseguindo sentado no fosso da orquestra:

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A peça que hoje ides ver conta-vos sobre dois complicadinhos, que andam por aqui às voltas, às voltas, deixando correr o tempo como a água por uma vasilha furada. E dizendo isto o nar­rador de histórias sumiu-se, dando lugar a uma cena toda imaginada.

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Ao centro, uma mesa com toalha rendada e baixela de prata, iluminada por um candelabro de mil-velas; em surdina uma envolvente e suave música. O ar estava parado, suspenso, e nem uma agulha bolia na quieta melancolia dos pinheiros do caminho, ao longo dos quais (ou do qual?) se avistam dois personagens, um de passada larga e blusão atirado pelos ombros, a boca cerrada como lâmina, e outro de passinho lento, com vestes de outro tempo, oscilando entre a seriedade e o riso. De súbito, oh! céus, o ar ficou ainda mais parado quando o olhar de ambos se cruzou, tão parado que ambos levaram a mão ao respectivo pescoço exclamando em uníssono: Oh! minha (oh! meu) que é isto que me trespassa o coração, me cria esta afobação, me provoca esta sufocação, me enche de transpiração, me tira a quietação?!!!

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Inquietos e deslumbrados, os nossos personagens entraram numa dança do ora avanço eu, ora recuas tu, ora rio, ora choras, ora apareces tu, ora desapareço eu, enchendo o ar de poeira e levantamento que obscureceram a cena, não obstante a claridade do dia e a beleza da praça.

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Vai daí o narrador voltou ao proscénio com um enorme espanejador para pôr tudo nos assentos e os is nas pontas, permi­tindo o regresso da calmaria, que veio encontrar os nossos personagens sentados no chão, lado a lado ou frente a frente, as pernas cruzadas como os índios quando se sentam em círculo aspirando a fumaça do cachimbo da paz.

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Mas não havia paz pois havia demasiada gente à volta, cada um com sua faladura ou com sua ouvidura pelo que os nossos personagens voltaram à cena inicial, em busca da hora bela e serena, à volta da mesa com toalha de linho rendada e baixela de prata. E João Bimbelo acercou-se de Joana Ratinho, inebriado pelo seu perfume. João trazia em suas mãos um alaúde e Joana dedilhava a cítara que havia pertencido a Circe e Vénus, ambos entoando uma cantiga de amigo serena e calma, intitulada PORQUÊ TANTO SILÊNCIO E PALA­VRAS?, cujo mote era o seguinte:

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Se o ar é tão belo e calmo
E o mar tão verde e sereno
Porquê esconder que te amo
Seduzido girassol moreno ?

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Era uma canção bela, como belo é o canto da sereia que chama os marinheiros que ousam desbravar os caminhos do mar; era uma canção suave e delicada como delicado é o vento que acaricia o rosto dos viandantes. Era uma canção bela, porque a pergunta, era um casulo, uma crisálida que encerrava em si mil águias como borboletas esvoaçando em torno do arco íris num campo descoberto. De súbito João e Joana suspenderam o seu canto e fitaram-se como quem descobre a fragilidade do nascer do sol, porque haviam desco­berto, nas voltas por vezes ensombrantes, que eram simultaneamente amador e coisa amada.

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Deste modo foi desvendado o mistério da princesa, andado que fora o meio caminho que possibilitou que João e Joana saltassem a frági1 barreira que os separava na imensidão dos dias, enquanto a música se desenvolvia num crescendo arrebatador que polvilhava o ar de estrelas e o céu de aves onde finalmente a brisa e os regatos corriam livremente.

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Para lá do silêncio inominável de Joana, o narrador che­gou ao proscénio porque talvez não fosse ainda o tempo dos nossos personagens juntarem sua porta e panela, embora fosse esse o desejo de João. E chegando ao proscénio, narrou João que era chegado o tempo de ambos, ele e ela, se beijarem livremente, porque já era chegado o tempo de juntar a corte de cada um e de, gomo a gomo, desfolharem o cetim aveludado que os envolvia, de procurarem a sombra fulva, ardente e fresca do sol, de buscarem o sabor agridoce e almiscarado da cisterna, de traçarem em seus corpos o mapa do dese­jo, de encherem o ar com o perfume inebriante do mosto..

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E assim modo se apartaram as sombras que ensombravam o caminho e a claridade encheu o mundo na ventura da aventura por eles talhada, porque João e Joana se haviam finalmente encontrado para lá da fragilidade dos seus receios e das suas mágoas, tornando-se cavaleiro e dama um do outro.

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Deste modo havia João enviado suas mensagens à Sedutoramente Inominável Princesa e na volta soubera que também ela estava enamorada dele, que era tempo de finalmente descansarem um no outro, pondo termo a uma guerra que durava desde o seu achamento numa cur­va da estrada, quatro luas atrás.

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Por isso o viageiro pegou nas suas histórias e fechou o desencanto porque finalmente João e Joana se haviam encontrado e em si o porto e a maré que cada um deles buscara no outro, enterrando definitivamente o senhorito do Mau Trovagir e a senhora Rainha D. Urraca, personagens embirrantes sem razão de ser.

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1989.09.30

SETUBAL

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

João Baprista Cansado da Guerra (9)

* Victor Nogueira
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QUERIDO DIÁRIO SIM DIÁRIO NÃO CONFORME O SOL OU A LUA


Estou aqui no meio dos montes verdejantes do Minho e tudo isto é muito lindo, calmo e sossegado. Ontem estivemos ali sentados no quintal ouvindo os grilos e conversando à luz da lua em Quarto Minguante, o relógio da torre sineira cantando o tempo que passava. E hoje, hoje, quando acordei e me levantei, fiquei simplesmente deslumbrada com esta portentosa paisagem. Pena o dia estar nublado, limitando a linha do horizonte e a. cadeia de montanhas. A TV não fala senão no despiste e no incêndio dum camião cisterna com 27 000 litros de gasolina e gasóleo, por alturas da cidade de Santa Maria da Feira. Bem, mas deixemos estas notícias mórbidas que não ligam com este bucolismo rural e serrano.

Sou muito linda, encantadora, donairosa e simpática. Embora normalmente só escreva sobre mim e não sobre os outros, espe­cialmente quando são esses horríveis seres que não deveriam existir nem pertencer à raça humana, salvo alguma raríssima excepção. Mas, caramba, até pareço o João que não vai direito ao assunto. Pois o gajo está cada vez mais parvo e tenho pouca paciência para aturá-lo. Tem a mania de não seguir sempre, mas sempre, sem discussão, as opiniões que lhe faço a mercê de emitir. E depois é tão lento, com aquela voz arrastada e aquela maneira de um pé não dar um passo sem pedir licença ao outro!

Gosto que os homens, esses seres inferiores, me admirem e pisem o chão que piso. Mas nada de confianças. A gente dá-lhes a ponta do dedo mindinho do pé direito e depois eles trepam, tre­pam como aguardente de marufo, sempre ao mesmo. Temos de saber manter a nossa liberdade e mantê-los na ordem, se preciso com chicote, silêncio ou desprezo, para pô-los mansinhos a virem lamber a nossa mão de cauda a abanar, tal qual a Porcina fazia ao Chico Malta, naquela telenovela que dava pelo nome de Roque Santeiro. Por princípio a gente tem de ter cuidado ao dar‑lhes a mão, salvo seja, mesmo que sejam nossos amigos e digamos (mui raramente) que retribuímos a sua amizade.

Ai! mas sou tão linda, elegante e simpática! Custa-me dizê-lo, não vão pensar que sou vaidosa, querido diário. Gosto que elogiem e refiram as minhas qualidades, méritos e virtudes, mas não posso reconhecê-lo, sape‑gato. Sou ternurinhas, e também terra-a-terra porque a lua está muito longe e não tem água nem verdura. A única coisa boa da lua é não haver lá homens. Vejam lá que o parvo do João Baptista disse-me para pôr as minhas lindas e rendadas calcinhas lavadas a secar, para me não constipar. O parvo, vinha uma rabanada de vento e lá ficava eu de rego ao léu! Parvo! Parvo! Mil vezes Parvo! Então ele não sabe que lá em Luanda se dizia "Larga o osso que não é teu ...'” ou “Guardado está o bocado ..." Parvo e presumido!

Só gosto de escrever sobre mim, mas se não fossem os outros eu não existia. O papel já está a terminar e vou ter de encerrar esta tua página, querido diário. Sou tão charmosa, elegante, deslizante e bem feitinha, embora por vezes embirrante e com mau feitio, como diz o João Baptista, que no fundo até nem é mau rapaz e por vezes acerta!

Tenho mesmo de encerrar esta Página, por hoje, meu querido diário, pois o papel está mesmo no fim e quero que pensem que sou sempre não vaidosa e simples!


PRINCEZA, simplesmente

1989.08.22
SALVADOR/SERRA DO SOAJO

domingo, 16 de dezembro de 2007

João Baptista Cansado da Guerra (8)

ESCRIBADURA SOBRE JOANA RATINHO, DITA RAPOZINHA, PRINCESA DO MEIO CAMINHO ANDADO COM SABOR A CRAVO E CANELA, DA PELE DOCE E MAIS REPOUSANTE QUE MIL CAIMANTES, MAIS BELA E SEDUTORA QUE MIL-SOIS PARA Lá DAS LUAS

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Estava João Bimbelo

Em seu jardim sentado

Quando apareceu Joana

Do seu jeito Rapozinha

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............Estava João Bimbelo em seu canto colocado quando lhe apareceu Joana, de seu jeito Rapozinha. Vimos já em pregões anteriores como dela se agradara João, ambos em suas escribadu­ras se transmutando em múltiplos personagens, um deles Joao Baptista Cansado da Guerra e o outro Princesa do Meio Caminho Andado Com Sabor A Cravo E Canela, da Pele Doce E Macia Mais Repou­sante Que Mil-Calmantes. Não era Joana Princesa e muitomenos Rainha, cheia só de excelsas qualidades e ainda maiores fortalezas.

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Todos os auditores e leitores das sete partidas do Mundo sabiam de há muito que ele se encantara da Princesa do Meio Caminho Andado Cujo Mistério Mui Breve Será Desvendado, Princesa que o era não sendo, e como lhe parecia pela leitura dos sinais ocultos que ela dele também se agradara. Mas ...

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Estava João Bimbelo

Em seu jardim assentado

Apareceu no seu zelo

Joana, ar atemorizado.

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E de ontem para hoje houve uma interrupção nas escri­baduras que ambos marcaram no papel e em linhas anteriores por­que entretanto havia ocorrido uma conversação em acentuação so­bre a escrita ao desafio em torno do redondel, uma ida à Praia das Rochinhas De Cada Um P ra Seu lado, várias saídas de aparente lado-a-lado em fila indiana por causa dos automóveis em cer­tos troços do caminho, uma ida a Vila do Conde que já seria ci­dade e um desaparecimento com reencontro na rua escura de lua cheia a caminho do quarto minguante.

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Muitas esmeraldas e estrelas de João Bimbelo haviam empalidecido com a falta de feição de Joana, pelo que não houvera passeios ao luar nem pelo areal ou à beira-mar, como nestas coisas de Príncipes e de Princesas é costume suceder.

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Continuando ambos vivos, a tudo isto seguira-se nova conversação sobre Joana em que João aparecia apenas em contraponto. Por isso, no silêncio duma nova madrugada Joao resolveu su­blinhar sozinho o que em sua escribadura ao desafio lhe parecia ser o seu próprio pão-pão-queijo-queijo. Era um sublinhar diferente do que em seus~pr6prios escritos fizera Joana, na presença de ambos, dum modo não imediatamente interpretável.

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E às 5h30m da madrugada, no intervalo da releitura dum romance de Hemingway - Fiesta, em seu original The Sun Also Rises - achou João Bimbelo essas suas linhas deveras desenxabi­das e falhas de sentido, porque da sua parte ja tudo fora dito, redito e percebido pela Joana Ratinho, também conhecida por Princesa do Meio Caminho (Des)Andado Mais Bela e Sedutora Que Mil--Sois Para Lá Das Luas que enchia a casa e o coração de ternura e alegria, com quem João gostaria de compartilhar a vida.

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A qual Joana Princesa, apesar dos entrevistos defeitos, seria sempre recordada como bem que valera a pena qualquer que fosse o seguimento, enquanto persistissem os “seus” escritos e a memória do seu significado e das quadras e dos versos surgidos no tempo em que abalara com a promessa de regresso, quadras e versos que Joana ensinara João a escrever com outras re gras, em jeito mais popular e leve.

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Muitas coisas, tempos e também lembranças bonitas não podia João deixar de desejar a Joana, que não poucas expressões e sentimentos poéticos lhe fizera nascer em seu pensamento e de lhes dar noticia nas suas escribaduras. Coisas, tempos e lembranças bonitas em todo o Mundo, incluindo ambos. Com eles, qualquer que fosse a volta, ficariam seguramente outros, novos ou diferentes escritos e a memória do tempo em que estiveram juntos na Praia das Rochinhas e arredores e dos gestos que (não) haviam trocado entre si.

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De verdade ela o seduzira e lhe agradara e dela queria veramente ser amigo, para lá dos desentendimentos e de algumas mu tuas faltas de propósito

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E com um aceno resolveu João Baptista Cansado da Guer­ra dois escritos seus que, modéstia à parte, lhe pareciam boni­tos: “Historias do Sol Arrancado Antes de Nascer” e, sobretudo, "Nunca Digas Nunca Porque o Sempre Não Existe".

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Com este aceno pôs João em seu intento que talvez fosse se chegado o tempo de partir em demanda de novos portos e marés, com a esperança e o desejo de que a Princesa o chamasse e deti­vesse, enchendo com a sua presença e alegria o coração e a casa de João Baptista Finalmente Descansado da Guerra.

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1998.08.18/19

Mindelo

06:00 horas

sábado, 15 de dezembro de 2007

João Baptista Cansado da Guerra (7)

* Victor Nogueira
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SOLILOQUIO ENTRE JOÃO BAPTISTA CANSADO DA GUERRA E A

PRINCESA COM SABOR A CRAVO E CANELA

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No silêncio da madrugada penso em ti, Princesa, e é como te digo - como sempre hoje estavas tão bela e apetitosa nesse teu jeito simples de fêmea seduzindo o macho que em pensamento trauteio o verso duma cantiga que talvez não exista com música de guitarra toca baixinho fica comigo esta noite e, continuaria eu se fosse caso disso, os dias e noites seguintes até ao do juízo final, que por vezes vem mais cedo que o suposto ou desejado! Rio-me, Princesa, de mim mesmo e se fosse defronte da Maria dos Mil-Sóis Rendilhados teria de explicar o meu sorriso mesmo se ao de leve, e ouvir um discurso de quem parece levar a vida tão a sério, tão a sério, que nem repara que por vezes também gosta de brincar com os outros. Mas nas minhas histórias nunca foste Maria e muito menos das Mil-Vidas Retraídas pelo que posso rir-me à vontade e é também por isso que de ti gosto. Porque, Princesa, nisto tudo de gestos, palavras, atitudes, fábulas e enredos é necessário ter a chave e o código apropriados, para além das aparências. Se não vejamos - os mesmos gestos, as mesmas palavras, as mesmas atitudes podem ter significados completamente diferentes originando histórias completamente distintas conforme sejam por exemplo campo aberto ou cidade encerrada e amuralhada, conforme gostemos do mesmo modo um do outro, respeitando a liberdade, a independência e a igualdade, tendo a simplicidade pouco natural embora de reconhecê-lo ou prefiramos brincar ao gato e ao rato, conforme nos consideremos iguais pesar das diferenças que nos aproximam umas e nos afastam outras, ou nos coloquemos em nossos mundos, por detrás das respectivas viseiras, dedilhando os machos e as fêmeas como o felino e o roedor atrás referidos.

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E deste modo falou João Bimbelo enquanto acaricia­va o rosto e os cabelos da Joana Ratinho, inebriado pelo seu perfume, e lhe dizia é natural que fales comigo e nem sempre te preste a devi­da atenção porque penso também em mim e nesta casa vazia que a tua presença enche e alegra e me coloco na conversa em vez de colocar‑me em ti, salvo seja, embora não me importasse e fosse agradável vir desse modo no sobe e desce até ao fim do mundo Mas não nos metamos por atalhos porque ainda alguém pode levar uma chapada, pesem as opiniões da Chicolateira, e fique João para aqui sozinho a fa­lar com as paredes por aperceber-se Joana do caldo a entornar e das pupilas muito abertas e dos olhos de carneiro mal morto, como nos bailes de mãezinha sentada na cadeira ao redor da sala. E “ospois” pergunto-me e a ti Joana, pois antão, satisfeita a curiosidadezinha depois da primeira visita? Então prossigamos e codifiquemos os nomes porque não conheço os personagens. É vero que ainda não alcancei contigo a serenidade e o desprendimento da amizade porque se enreda­ram o meu ânimo e a tua sedução (até nem fez verso, rirás tu com o meu acompanhamento) e por isso qual o sentido de me dizeres que ontem estiveste com o Canecas e amanhã com o Fanecas e que não dormiste com o Janecas embora vontade e tenção não lhe faltem vai para muitos anos? Ora, Princesa, dizes por dizer ou porque tens de pensar para contigo em voz alta preocupada com os pedestais com outrém escutando ou que­res música e troco com muitos cinco tostões?! E quando dizes imedia­tamente que sim e logo que não, isto é por seres mulher impulsiva mas de cautelas e perplexidades que refreiam para não te comprometeres nem prender e dar ponto sem nó, ou porque és fêmea de puxar o elástico para subir a parada?!

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Ah! Joana, Joana, clamou João Baptista, quantos enredos pois as palavras são também máscaras e labirintos que tornam o (re)nascente amor e por vezes a amizade muito mais complicados que ornitorrinco e oto-rinolaringologista, como João Bimbelo escribou uma vez a uma que dava pelo nome de Maria Papoila que não era Marijuana mas sim Maria-Vai-Com-As-Outras!

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E pronto, disse o narrador de historietas, com isto tudo já lá vão quatro personagens principais, a saber, Joana Ratinho, também conhecida por Joana Rapozinho, Princesa Com Sabor a Cravo e Canela e, da outra banda, João Bimbelo e João Baptista Cansado-da-Guerra, sem que se saiba bem o que vai nascer e o que vai vencer. E neste ponto o leitor dirá com licença, senhor licenciado, mas eu tenho cinco dedos apontados pelo que os personagens não são quatro e o contador de historias dirá tem calma pois as cadelas apressadas parem cães cegos e não ha pior cego do que o que não quer ver por isso em terra de cegos quem tem um olho é rei embora vivamos na República do Capital.

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Pronto, pronto, dirá o escriba, no areal à beira-mar cintilante, não te zangues Joana, eu já desatalho e retomo o fio à meada e digo há outros personagens secundários e adventícios a talhe de foice como a Maria dos Mil-Sóis Rendilhados, a Maria das Mil-Vidas Retraídas, a Maria Papoila e a Maria-Vai-Com-As-Outras e já temos quase duas mãos, uma cheia de nada, outra de coisa nenhuma! Ena, tanta gente, Mariana, e Joao Baptista dirá é tal e qual como o viageiro conta e lá vai mais um personagem para a molhada, acrescentará o leitor aturdido com tanto paleio pelo que João Bimbelo olhará para a folha de papel e dirá safa tens razão tanto palavrea­do e tornará a ler tudo à luz da candeia das estrelas ou do sol, desde o principio, vantagens das escribaduras, que se pode voltar sempre atrás ou começar de novo, o que não sucede na vida ou com as oraladuras, passe este nome arrevezado, que muita coisa fica por expressar ou dizer como quando a Princesa se vai embora com a conversa quase sempre a meio que isto das faladuras é como as cerejas, atrás dumas outras vêm e com o tempo também é o mesmo e também com os banhos na água dizia Heraclito, por isso o tempo não volta para trás por muito que se esfalfe o cantor das donas de casa à volta de tachos e panelas quando não do leiteiro ou do padeiro. Safa, que este gajo quando abre o gás até parece que nunca andou pela auto-estrada, sempre direito, escouceara o agora (im)paciente leitor.

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0K! 0K! isto para tudo e preciso paciência e arte e ficam só dois personagens em campo, O-Que-Vai-Nascer e O-Que-Vai-Vencer (e com ele está IHVH), e bom seria Princesa que estivessem ambos na mesma banda para que nenhum ficasse a leste do Paraíso e deste modo nenhum tivesse de nascer ou vencer à custa do outro! Pois não há liberdade sem independência e sem igualdade e também o amor, ternura e amizade não andam de rastos nem pedem esmola mas isto, dirá João, e para outro tempo e outra história. E pronto, dirá o escriba de serviço, ainda não foi desta que João disse fica Joana comigo esta noite e tracemos em nossos corpos o mapa e o perfil do sabor a cravo e canela!

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BRRRRRROC~TTTTTTTJUMMM! CATRAPAZ! PUM! PUM! são todos iguais, dirá a Princesa, mas contigo, João, posso eu bem! São todos iguais, não podem ver com sua licença uma burra de saias ainda mais se ela for atraente, pelo que o narrador se recolheu em seu silêncio pois não é João que fala em fêmeas e machos e ainda menos em mulas que não entram em seus enredos, por isso devendo haver por aí qualquer ponto mal alinhavado. Em consequência Joao Baptista limitou-se a oscular levemente a suave e doce face morena da Joana Ratinho que retribuiu com seu jeito de Maria Que-Não-Chora, para descanso de uns e desassossego de outros.

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E assim, amigo leitor, esteja atento e não perca os próximos episódios da escribadura deste louco folhetim AUF WIEDERSEHEN, PRINZESSIN ou OLÁ, JOANA, QUE TÃO BELA ÉS! Ah! Ah!Ah! Ih! Ih! Ih! (*)

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1989.07.30/31

SETUBAL

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(*) Queriam choro e ranger de dentes, com muito sangue, suor e lágrimas, queriam!? Isso é que seria bom, pensaria talvez a Princesa do Meio Caminho Andado, cujo mistério em breve será desvendado

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sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

João Baptista Cansado da Guerra (6)

* Victor Nogueira
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HISTORIAS DA PRINCESA COM SAB(O)R A CRAVO E CANELA

A QUEM JOÃ0 BIMBELO ESCRIBOU FALADURA


É como te digo, Princesa, o nome de guerra que me deste com esse teu ar trocista sem maldade foi o de senhor licenciado, embora eu não goste dele e porque não sei nem quero jogar ao gato e ao rato, resolvo mudar o meu em João Baptista Cansado da Guerra; deste modo juntando em Setúbal o tropicalismo de S. Jorge de Ilhéus e da nossa(terra) de S. Paulo de Luanda. Não creio que tenhas alguma coisa a ver com a Princesa da outra história (1), pois Baleizão não é terra quente no meio do alentejo mas sim saboroso e refrescante sorvete vendido pelas ruas em carrinhos, entre duas bolachas, ou ao balcão ou na esplanada do velho prédio de grossas paredes à sombra do morro de S. Miguel e da sua vetusta fortaleza setecentista, que foi museu de Angola e depois quartel de paraquedistas e agora de novo museu, mas da Revolução. Repara, Princesa, que isto parece terra de altares e conventos sem cheiro a santidade pois de outro modo a Clara não escreveria uma novela policial com sabor a coentros, nem encontraríamos um(a) santidade ao virar de cada prédio, edifício, povoado ou circunscrição administrativa, isto para não falar nos enredos de gatos e ratos em que nem todos são peritos e muitas fêmeas são, mesmo quando são pão-pão-queijo-queijo face aqueles que raramente vão direitos ao assunto, embora quando o façam causem securas na garganta do interlocutor. Gosto de ti, Princesa, e desfolho o malmequer? Ou não gosto, especialmente quando entrevejo as tuas palavras envoltas em pedras contundentes, sem o calor envolvente da tua voz voluptuosa? Olha, jogo com as palavras e também ás cartas e ao dominó e não acredito que sejas para altares, pois de outro modo não terias esse teu sabor a Cravo e Canela. Havia em terras de Espanha salvo seja uma princesa Joana mas dessa não rezam as histórias de João Bimbelo.


A propósito de santidades, rezam as crónicas e as novelas libertinas que os conventos de frades e freiras estavam ligados por subterrâneos corredores que permitiam o gozo na paz do Senhor e da Virgem sua Mãe. É sabido que as filha-família ingressavam nos claustros conventuais com seus dotes, aias e criadas em suas celas privativas. Com tão bastos exemplos achas, Princesa, que devemos acreditar em cheiros de santidade ou preferir o sabor do Cravo e da Canela, embora temperado com alguma pimenta e gindungo, que nesta terra chamam pirípiri?


E pronto, Princesa. com este novo intróito o escriba dá por encerrado este capitulo desta escribadura.

(1) referência a um romance de Clara Pinto Correia - «Adeus, Princesa»

1989.07.21

SETÚBAL

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

João Baptista Cansado da Guerra (5)

HISTORIAS DO JOAO BIMBELO OU DE
COMO A NOITE TRAZ EM SI A MÚSICA OU DE
COMO UM POÇO ESCONDIDO ALGURES DÁ BELEZA AO DESERTO!


Vimos como a Joana Ratinho agradara ao João Bimbelo e como haviam ficado em banho-maria os seguimentos dos mútuos convites e a continuação do enredo ã volta duma imaginária mesa de snooker, transfigurada em ponte por onde as águas deslizavam transformadas em dias e semanas, serenas ou tumultuosas.


Não era João Príncipe mas seria a Joana Raposinho como na historia do Principezinho que percorria o Universo de asteróide em asteróide em demanda já não me lembro bem de quê, até encontrar a Raposinha. A qual lhe ensinou o valor da rosa nascida em seu jardim, única entre todas porque a protegera do frio e da geada, permitindo que medrasse, assim dando um novo sentido à brisa que ondulava os louros campos do trigo em flor.


Não foi bem assim mas ao escriba todas as liberdades são permitidas para alinhavar os sinais desde o tempo em que a Joana Ratinho lhe entrou pela casa dentro a ela voltando primeiro por sua iniciativa e depois a convite de João Bimbelo, agradado da sua voz quente ou ridente, alegre ou sensual, da sua pele morena, suave e refrescante, do seu jeito brincalhão de Gabriela, Cravo e Canela. Esta era a Joana Ratinho ou Raposinho mas havia outra, a Joana (verdadeira ou falsamente) retraída nos gestos e nas palavras de ternura para não falar naquela outra que passava com um ar distante por entre os machos que se mordiam e a trincavam com os olhos, consciente ela desse facto por detrás dos óculos escuros, como se duma majestade se tratasse face aos míseros vassalos, deste modo castigados à sua donairosa e deslizante passagem.


E entre almoços e jantares, conversas e brincadeiras mais ou menos sérias se iam entrelaçando os enleios até ao dia em que se as flores desaparecessem seria como se de repente todas as estrelas se apagassem ou então os passos de cada um se distinguissem por entre a multidão e cada dia fosse um novo dia quotidianamente (re)conquistado.


Achou o escriba que este fim era muito prosaico e sem graça pelo que resolveu dar a Joana Ratinho um novo nome de guerra e para ambos ficou ela sendo a Princesa com Sabor de Gabriela Cravo e Canela.


1989.07.19 (2) - SETÚBAL

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

João Baptista Cansado da Guerra (3)

* Victor Nogueira

ESCRITOS EM UMA NOITE DE PRIMAVERA PRESTES VERAO
POR ISSO NAO SE FALANDO EM MANHÃS DE NEVOEIRO


Nestas histórias todas as liberdades são permitidas a quem escreve ou um ponto acrescenta ao conto. Não é verdade mas poderia dizer que conheci a Ana SorRiso dos Olhos Grandes naquela aldeia grande que é a Amareleja, onde existe um Largo do Regato que não se vislumbra e onde morava a Maria Papoila. No tempo da outra senhora era aquela uma aldeia aberta, com os bailes na sociedade e os longos passeios dos casalinhos ao longo das estradas que dela partiam ou a ela chegava. Tinha a Amareleja muita gente conhecida: a Marília, o Diogo, a Adélia, a Ivone, a D. Manuela a D. Marcelina, o sr. Guerreiro, o sr. Coelho e mais o casal velhote com a mercearia em cuja casa ficava na largo da igreja velha, aos fins de semana. Seguramente que havia mais gente, como a minha colega do Instituto que por vezes me dava boleia, ou o Xico qualquer coisa, que também fora meu colega.
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Não foi aqui que a Ana SorRiso dos Olhos Grandes entrou na historia, pesem as liberdades do escriba, mas sim mais tarde, lá na fila do antigo Largo das Escolas, hoje do falecido José Afonso, em busca duma casa, mais nova e menina, em companhja do João, operário da Setenave, comunista e depois policia marítimo, amigo de pegas e toiros.
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E foi aqui no Pote de Agua que nasceram a Catia e a Aida e se apartaram o João e a Ana SorRiso dos Olhos Grandes, como se apartaram o João Bimbelo, a Maria Papoila e muitos outros casais no prédio da encosta da Lanchoa.
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Nesta altura da história dirá a Ana que nao foi isto que pediu, mas sim um poema, sendo-lhe retorquido que se não for assim nunca mais é sábado e neste ora digo eu ora mandas tu a boca, que espaço restará para a nossa personagem, menina que já foi com as suas ilusões e sonhos, sem fortaleza para concretizá-los, hoje com um olhar por vezes duro e desencantado na comissura das lábios, que leio mas guardo para mim? Ana, sozinha de projecto em devaneio, de amizade em “amizade", hoje aqui, amanhã acolá, sem encontrar o rumo e o destina que valham a pena!
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E neste ponto do conto a personagem fitar-me-á para que eu lhe explique o sentido do que digo e eu respondo-lhe que a vida não é um poema mas sim uma série de minutos que se vão sucedendo, por vezes alegres, por vezes tristes, por vezes cheios de bonança, por vezes tempestuosos e cinzentos como chumbo, por aqui me ficando pois é necessário dosear o sonho, a ilusão, o realismo e, porque não?, a ironia e o cinismo.
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Pronto, deste moda desenxabido se acabam a linha e os pontos desta historieta.

Setúbal
1989.06.05

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

João Baptista Cansado da Guerra (2)

* Victor Nogueira
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HISTORIAS A VOLTA DA MESA DE SNOOKER OU

NÃO CONFUNDIR COM AS HISTóRIAS DO SNOOPY

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Estava João Bimbelo posto em seu sossego sossegado quando lhe entrou pela casa dentro a Joana Ratinho, não porque fosse maneirinha de porte mas porque tal era o jeito que assumia em seu perfil. Era bonita, elegante e flexível a Joana Ratinho, atraente no seu modo de por as coisas, surpreendente nas histórias que contava sobre as mulheres e certos homens, não porque João Bimbelo as desconhecesse mas porque faziam parte dum outro mundo que não era o seu.

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Tinha vindo de longe, a Joana Ratinho, lá das bandas de NGOLA e do povoado de AXILUUANDA, para lá dos idos dos tempos e da História, parando nesta terra cujo estuário e península se confundiam na ilusão dos sentidos com a ilha do Cabo e a baía daquela outra que tão longe ficara.

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João Bimbelo percorrera muitas terras e cruzara muitas gentes, somara muitas (des)ilusões e acentuara aquele seu modo por vezes irónico, irritante e distante de ver as pessoas , os acontecimentos e as suas contradições, que não o impedia de procurar ser naturalmente prestável e acolhedor, um pouco por solidariedade com os outros, que persistia para quem lhe agradava ou interessava. E pareceu a João Bimbelo que a Joana Ratinho era uma pessoa interessante e porque lhe agradara procurou conhecê-la.

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Mas.,. há sempre um mas nas voltas das histórias, breve lhe pareceu que ela era de outro mundo, dum mundo onde as mulheres, presas de medos e cálculos ancestrais, pensam duas e três vezes perante os (des)conhecidos, todos lobos prestes a saltarem para catrafilarem os dentes no capuchinho vermelho, ou por temerem sucumbir ao corte afiado e acerado das comadres viperinas!

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Não era João Lobo nem seria Joana Capuchinho mas era evidente, seriedade à parte, que há mulheres que não saem assim com os homens para ir ao castelo ou para almoçar ou para jantar, ou porque elas fazem os seus jogos de enleios e de enredos, ou porque pensam que todos eles querem cobrar favores. Não era este o pensar de João Bimbelo nem para ele a simpatia, solidariedade ou a amizade tinham rigoroso livro DEVE/HAVER ou acabavam necessariamente em troca de corpos e favores.

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Mas... João Bimbelo era quem era e seguramente não era Joana Ratinho que contava histórias sobre as mulheres e certos homens comuns a tantas delas. E assim se interrompe a história, pois parecendo tímida e recatada a Joana Ratinho, paradoxalmente dizia reservar para si a iniciativa dos convites para não ficar a dever favores ou o que fosse, deste modo falando talvez para delicadamente mandar o João Bimbelo dar uma volta a mesa, não do bilhar grande mas sim do snooker.

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Por isso não é ainda hoje que se conhecerá qual o seguimento da história e das mútuas iniciativas, que ficam para outro capítulo.

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Bye!Bye!

Setúbal, 1989.06,04

sábado, 8 de dezembro de 2007

João Baptista Cansado da Guerra (1)

* Victor Nogueira


HISTORIAS DO JOÂO BIMBELO OU DO SOL ARRANCADO ANTES DE NASCER

Vivia João Bimbelo na Quinta de Todos Nós, rodeado de papéis e do silêncio dos gestos e das palavras contundentes quando encontrou a Maria do Mar e dela se agradou num dia de Verão. Tudo teria ficado apenas por aqui, com o sabor das coisas que se não experimentaram ou conheceram, se as voltas do tempo os não tivessem cruzado novamente ao virar duma estação, quando as árvores se vestem de amarelo e dei­xam cada vez mais entrever os dias ainda luminosos e levemente cálidos. De novo se encontraram pois a Maria do Mar e o João Bimbelo e deram grandes passeios nas noites sem luar percorrendo o areal e tecendo os fios do que parecia vir a ser uma amizade diferente.

Mas tudo não seria mais que isso, com o sabor simples da amizade e da camaradagem, se o dobar dos tempos os não tivesse cruzado novamente ao voltar duma nova estação, quando o ar está frio e o céu cinzento e chuvoso. Ainda não sabia João Bimbelo que flores germinariam naqueles dias descoloridos e vazios de calor mas, quaisquer que elas fossem, parecia-lhe que seriam únicas, inestimáveis e delicadas como a porcelana rendilhada.

Na quinta de Todos Nós não era livre João Bimbelo e foi com a mágoa dos gestos resguardados que ele deixou a Maria do Mar, voltando ao lugar donde partira, prosseguindo a sua peregrinação, envolto como estava na guerra com os Dragões da Mãozinha Misteriosa, que não poderia perder porque era o futuro do dia-a-dia que estava em jogo.

E, no intervalo das batalhas com os Dragões da Má Vida, procurou de novo a Maria do Mar e nela encontrou abrigo e, pensava, tudo aquilo que é tão simples e simultaneamente grandioso: os dias cheios de alegria e ternura que, dum modo silen­cioso e cativante, entrelaçavam os seus gestos. O futuro parecia surgir ali ao alcance da mão, apesar das sombras que se projectavam sobre a Maria do Mar, que lhe surgia demasiado frágil.

Tão frágil que as palavras os separavam, cada vez mais preso João Bimbelo ao peso das pontes que entre eles desapareciam e a Maria do Mar ao sentido das palavras que não entendia do mesmo modo.

Era João Bimbelo homem duma só cara e dum só viver e custava-lhe sobremaneira o distanciamento da Maria do Mar, que assim desmentia a veracidade e forta­leza das suas palavras de amizade eterna, quaisquer que fossem o tempo e o lugar. Duro era também o esboroar de algo em que acreditara, como planta frágil e valiosa, que deste modo se perdia com o peso crescente dos enganos que não quisera cometer. E as janelas da Maria do Mar fecharam-se e de novo se encontrou João Bimbelo no mar alto sem porto nem maré, com o norte que a sua fragilidade lhe indicara, ensombrado pela inesperada indelicadeza da Maria do Mar, apesar de entrecortada por gestos aveludados de amizade e ternura.

Muitas vezes procurou João Bimbelo reencontrar o que perdido parecia estar, devido aos silêncios, as histórias e sombras que mascaravam a expressão dos sentimentos que a Maria do Mar nutria pelo João Bimbelo histórias que lhe pareciam inventadas por ela, presa aos fantasmas da sua vida passada e das mulheres com vida e pensar semelhantes ao seu. Como desde o primeiro instante parecia a João Bimbelo que era com a Maria do Mar que estava o futuro assim como os dias luminosos e as noites estreladas. No entanto tratava-se dum puro engano porque sendo agora "ambos' livres, cada vez menos se cruzavam os caminhos da Maria do Mar e do João Bimbelo, pois cada vez mais historias e silêncios envolviam a Maria do Mar, deixando o nosso peronagem cada vez mais inquieto na busca vã da chave no tempo e no espaço que os se­paravam cada vez mais.

Encontrava-se João Bímbelo de mãos vazias e sem jeito; perdidos cada vez mais estavam o esplendor dos longos passeios ao luar ou o encanto da voz, da presença e da paz que haviam preenchido os dias cinzentos de outrora, pois ninguém em seu e perfeito juízo gosta de ser escorraçado, mesmo que seja dia não semana sim.

No entanto, fazendo jus ao seu nome, pensava João Bimbelo que ainda valia a pena lutar pela Maria do Mar e por isso a procurou de novo, após um longo silencio, porque a ela dera o seu afecto, porque ela o seduzira e conquistara. Mas novos con­tos e novelas surgiram ligados a novos enredos e pareceu ao nosso “herói” que era tempo de dar descanso à parede sob risco dela começar a ficar pintalgada de vermelho mais ou menos vivo e coberta a sua moleirinha de galos que o acordariam estremunhado todos os dias ao romper da bela aurora e o fariam andar bêbado de sono pelas ruas e pelos escaninhos da cidade

Tudo estava dito e redito entre o João Bimbelo e a Maria do Mar, que prosseguiam as suas vidas, cada um para seu lado. Para trás , cada vez mais para trás , ficavam o afecto e amizade que cada um deles procurara no outro, que ela rejeitava por razões que lhe escapavam completamente, Pois parecia a João Bimbelo que o amor e a amizade se constróem de coisas que estavam cada vez mais ausentes deles: a confiança, o encontrar da paz no murmúrio frágil e pleno do afecto, o saber que outrém está ali, ao alcance da mão, do gesto e da voz , qualquer que seja ou fosse o tempo. Parecia a João Bimbelo que o amor e amizade se não encontram ao virar da esquina e ao alcance dos pontapés e que por isso, quando há novas do seu achamento, como apregoara a Maria do Mar, se devem protegê-los como quem protege a chama do fósforo com que se acende a candeia ou a luzerna.

E porque lhe parecia que assim não sucedera, resolveu João Bimbelo prosseguir a sua caminhada em busca de outros portos e marés, de amizades feitas de portas que se não fecham e de janelas abertas e rasgadas ao sol e ao luar, como sempre o encontraria a Maria do Mar, qualquer que fossem o tempo e o lugar em que vivessem e o procurasse.

Paço de Arcos 1989.04.01 (Setúbal 1989.06.30)