segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

João Baprista Cansado da Guerra (9)

* Victor Nogueira
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QUERIDO DIÁRIO SIM DIÁRIO NÃO CONFORME O SOL OU A LUA


Estou aqui no meio dos montes verdejantes do Minho e tudo isto é muito lindo, calmo e sossegado. Ontem estivemos ali sentados no quintal ouvindo os grilos e conversando à luz da lua em Quarto Minguante, o relógio da torre sineira cantando o tempo que passava. E hoje, hoje, quando acordei e me levantei, fiquei simplesmente deslumbrada com esta portentosa paisagem. Pena o dia estar nublado, limitando a linha do horizonte e a. cadeia de montanhas. A TV não fala senão no despiste e no incêndio dum camião cisterna com 27 000 litros de gasolina e gasóleo, por alturas da cidade de Santa Maria da Feira. Bem, mas deixemos estas notícias mórbidas que não ligam com este bucolismo rural e serrano.

Sou muito linda, encantadora, donairosa e simpática. Embora normalmente só escreva sobre mim e não sobre os outros, espe­cialmente quando são esses horríveis seres que não deveriam existir nem pertencer à raça humana, salvo alguma raríssima excepção. Mas, caramba, até pareço o João que não vai direito ao assunto. Pois o gajo está cada vez mais parvo e tenho pouca paciência para aturá-lo. Tem a mania de não seguir sempre, mas sempre, sem discussão, as opiniões que lhe faço a mercê de emitir. E depois é tão lento, com aquela voz arrastada e aquela maneira de um pé não dar um passo sem pedir licença ao outro!

Gosto que os homens, esses seres inferiores, me admirem e pisem o chão que piso. Mas nada de confianças. A gente dá-lhes a ponta do dedo mindinho do pé direito e depois eles trepam, tre­pam como aguardente de marufo, sempre ao mesmo. Temos de saber manter a nossa liberdade e mantê-los na ordem, se preciso com chicote, silêncio ou desprezo, para pô-los mansinhos a virem lamber a nossa mão de cauda a abanar, tal qual a Porcina fazia ao Chico Malta, naquela telenovela que dava pelo nome de Roque Santeiro. Por princípio a gente tem de ter cuidado ao dar‑lhes a mão, salvo seja, mesmo que sejam nossos amigos e digamos (mui raramente) que retribuímos a sua amizade.

Ai! mas sou tão linda, elegante e simpática! Custa-me dizê-lo, não vão pensar que sou vaidosa, querido diário. Gosto que elogiem e refiram as minhas qualidades, méritos e virtudes, mas não posso reconhecê-lo, sape‑gato. Sou ternurinhas, e também terra-a-terra porque a lua está muito longe e não tem água nem verdura. A única coisa boa da lua é não haver lá homens. Vejam lá que o parvo do João Baptista disse-me para pôr as minhas lindas e rendadas calcinhas lavadas a secar, para me não constipar. O parvo, vinha uma rabanada de vento e lá ficava eu de rego ao léu! Parvo! Parvo! Mil vezes Parvo! Então ele não sabe que lá em Luanda se dizia "Larga o osso que não é teu ...'” ou “Guardado está o bocado ..." Parvo e presumido!

Só gosto de escrever sobre mim, mas se não fossem os outros eu não existia. O papel já está a terminar e vou ter de encerrar esta tua página, querido diário. Sou tão charmosa, elegante, deslizante e bem feitinha, embora por vezes embirrante e com mau feitio, como diz o João Baptista, que no fundo até nem é mau rapaz e por vezes acerta!

Tenho mesmo de encerrar esta Página, por hoje, meu querido diário, pois o papel está mesmo no fim e quero que pensem que sou sempre não vaidosa e simples!


PRINCEZA, simplesmente

1989.08.22
SALVADOR/SERRA DO SOAJO

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