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sexta-feira, 13 de agosto de 2010

A bolsa ou o bolso bolsam?



* Victor Nogueira
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O tempo refrescou embora à noite, estando fresco lá fora, está quente cá dentro pois tenho a janela fechada, aqui no cimo da "montanha".
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Ronaldo e o filho estão para banhos, tal como o engenheiro-chefe, refrescando-se enquanto o país arde, bombeiros morrem,  reservas naturais são destruídas e um alto clero faz apelos patéticos contra os incendiários, das florestas e não de emprego e da economia!
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O folhetim Casa Pia entrou a banhos, depois das ameaças dos advogados de anularem o julgamento e na Procuradoria Geral da República, a propósito do Freeport, andar tudo numa fona: Procurador Geral,  Procuradores não gerais, opinin makers and so on. Uns lançando achas para a fogueira, outros procurando do lume tirarem as castanhas sem se queimarem, uns procurando pôr água na fervura, outros atiçando  as brasas !
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Numa grande página amarela o público ou alguém por ele anuncia que os conteúdos editoriais estão protegidos por direitos de autor! O Vigilante é uma tal visapress (c), instituição sem fins lucrativos. Já não bastava pagarmos para fazer publicidade nos sacos de super, hiper ou mini mercados e doutros estabelecimentos comerciais ou da imprensa escrita, como agora a publicação  ocasional em blogs poderá violar  direitos de autor! Ora toma, queres fazer publicidade à borla? Nem penses. Passas a pagar para me fazeres publicidade !
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Embrulhado embrulhado parece que ficou o caso da herança Tomás Feteira, que nos tempos de  Salazar terá sido uns dos dez homens mais ricos do Mundo. O Pilim, é tão engraçado o Manganão ! E a Polícia brasileira insiste que Duarte Lima explique a sua ida ao Brasil e o seu encontro com a sua constituinte assassinada horas depois dele a largar noutro local!
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O Correio da Manha, para além de inúmeros anúncios de "massagistas", muitas mostrando a bunda ou os seios, o que devem ser instrumentos  para  uma nova e saudável técnica de massagem, publica inúmeras fotos femininas soft-core, muito apelativas, ao pé das quais as coelhinhas do Playboy Portuguesa e a niña de Mirandela ganham seráficas asas.
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Estou a ler um interessante livro com a correspondência mútua entre Salazar e Caetano (1932/1968), antecedida dum interessante texto enquadrativo de José Freire Antunes. Uma correspondência de mais de meio século  com quezílias  pelo meio entre o "discípulo muito atento, respeitoso, admirador e obrigado" e o mestre "muito grato, admirador e amigo atento".
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Nas cartas Marcelo revela-se uma pessoa pragmática, evoluindo da monarquia para a república, impulsivo, muitas vezes sem papas na escrita mas depois indo refrear eventuais estragos da sua impulsividade face à placidez do Mestre.
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Mas se após a II Guerra Mundial Salazar recusou candidatar-se à Presidência da República, abrindo talvez caminho a Marcelo se tal tivesse sucedido, a verdade é que mais tarde não teve força para se opor à recandidatura de Américo Tomás, que logo lhe cortou as asas face à sua tibieza e idiossincracia, que levaram à patética entrega do  poder ao general Spínola para que aquele não caísse na rua, em 25 de Abril de 1974. Mas essas são já outras reflexões.

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quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Braseiros em Fogo Lento



* Victor Nogueira
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Portugal continua literalmente a arder, especialmente a norte do Rio Tejo, de nada valendo a Moca de Rio Maior ou a Senhora de Fátima. Com tanto fogo todos os anos, é de surpreender que ainda haja restolho ! Mas há, como há furos ainda no cinto para apertar ! Já menos surpreendente é que algumas bolsas continuem a inchar ! Ou que se construam menos  casas. Ou que as pessoas prefiram arrendar a comprar casa ! O que não impede a banca de engordar como a rã ! Ou que se vendam mais carros de luxo e menos utilitários ! E que nestes se torne banal o que antes eram luxos à parte pagos !
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Tomás Feteira ressuscitou, não como Lázaro, mas devido a uma embrulhada com os herdeiros da sua enorme fortuna, assassinada que foi em Dezembro último a sua antiga secretária e companheira marital. Uma embrulhada  com   milhões à mistura ardendo, sem falar  nos ilustres advogados  das partes em litígio, como José Miguel Júdice e Duarte Lima !
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Fidel continua a falar nos riscos duma guerra nuclear e duma possível destruição da vida no planeta, enquanto o Público do Tio Belmiro dá conta das ideias dum cientista advogando que a salvação da Humanidade está na colonização doutros planetas, pois não se devem pôr todos os ovos no mesmo ninho.(1) Está-se mesmo a ver quem custearia tal programa de colonização estratosférica em naves cujos passageiros, desta feita, não seriam mexilhões mas tubarões!
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Haja Saúde e Fé em Deus ou na (des)Humanidade ! Ou, por outras palavras, Alá é Grande e Maomé o Seu Profeta!
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Postman2001 | 23 de maio de 2007
Clips... Eu Vim De Longe - José Mário Branco
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Quando o avião aqui chegou
Quando o mês de maio começou
Eu olhei para ti
Então entendi
Foi um sonho mau que já passou
Foi um mau bocado que acabou

Tinha esta viola numa mão
Uma flor vermelha n´outra mão
Tinha um grande amor
Marcado pela dor
E quando a fronteira me abraçou
Foi esta bagagem que encontrou

Eu vim de longe
De muito longe
O que eu andei p´ra´qui chegar
Eu vou p´ra longe
P´ra muito longe
Onde nos vamos encontrar
Com o que temos p´ra nos dar

E então olhei à minha volta
Vi tanta esperança andar à solta
Que não exitei
E os hinos cantei
Foram feitos do meu coração
Feitos de alegria e de paixão

Quando a nossa festa s´estragou
E o mês de novembro se vingou
Eu olhei p´ra ti
E então entendi
Foi um sonho lindo que acabou
Houve aqui alguém que se enganou

Tinha esta viola numa mão
Coisas começadas noutra mão
Tinha um grande amor
Marcado pela dor
E quando a espingarda se virou
Foi p´ra esta força que apontou
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http://www.lyricstime.com/jos-m-rio-branco-eu-vim-de-longe-lyrics.html
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domingo, 8 de agosto de 2010

Tempo de calor tropical


* Victor Nogueira
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Os EUA publicaram a lista dos países terroristas ... Irão, Cuba, Sudão,Siria  ... Mas ficam de fora os amigos como Israel, Colômbia e outros regimes ditatoriais  do "Mundo Livre", para não falar da Arábia Saudita, extremista Islâmico que as mentes bem pensantes ignoram. Acabaram as manobras que a Coreia do Norte considerou provocatórias, sem que tivesse concretizado a ameaça de recorrer à Bomba Nuclear, utilizada apenas duas vezes, em Hiroshima e Nagasaqui, faz agora 65 anos, num crime contra a Humanidade que nada fica a dever às atrocidades nazis ou de países amigos como a Indonésia de Suharto (1) ou as inúmeras ditaduras apoiadas pelos EUA na América Latina, o seu quintal das traseiras! Com 95 anos morreu Dias Lourenço, que conheci sempre cheio de vida e que representou o PCP no funeral do meu amigo Gilberto de Oliveira, um dos prisioneiros que escapou com vida do Campo da Morte Lenta do Tarrafal, em Cabo Verde.
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Na RTP transmitiram um programa de homenagem ao actor Raúl Solnado, recentemente falecido, e que, com Carlos Cruz e Fialho Gouveia, lançou na chamada Primavera Marcelista da "evolução na continuidade" um programa que agitou as águas e fazia parar País, tal como depois de Abril sucedeu com a  Telenovela "Gabriela Cravo e Canela", baseado no romance homónimo de Jorge Amado. Para além dos seus números de humorísticos de "non sense" ficaram-me na memória dois filmes dramáticos por ele interpretados;: "D. Roberto" e "Balada da Praia dos Cães", este baseado no romance homónimo de José Cardoso Pires.
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Voltando à ligeireza, os temas do Correio da Manha continuam a ser a violência doméstica, os incêndios, o Rei dos Gnomos e o predador sexual de Telheiras, para além das lojas CR7 geridas pela irmã de Ronaldo,desaparecido da circulação mai-lo misterioso filho, cuja foto exclusiva teria pertencido ao Correio da Manha. Na Supertaça o FCPorto venceu o Benfica por 2 a 0, num jogo violento, mas já sem as fitas do tempo do fascismo, quando os jogadores se deitavam no chão simulando faltas do adversário e retomando lépidamente o jogo  quando o arbitro os ignorava.
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Ver
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Hiroshima e Nagasaqui - Mais Brilhante que mil sóis - Crimes Contra a Humanidade

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(1)  A 30 de Setembro de 1965,[1] Suharto orquestrou um golpe, apoiado pela CIA,[2] que foi acompanhado pelo massacre de comunistas e democratas indonésios e que resultou num genocídio que fez entre 500 mil e dois milhões de vítimas, perante a indiferença mundial.[3]

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  1. Jon Halliday Jung Chang. Mao - A História Desconhecida.  1.ed.  pp.992.
  2. Carlos Lopes (03/10/2003). Golpe na Indonésia: 1 milhão de mortos CIA preparou “listas de execução” para Suharto. Jornal Hora do Povo. Página visitada em 2009-07-19.
  3. A morte de um ex-ditador. Folha de Pernambuco (29/01/2000). Página visitada em 2009-07-19.
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http://pt.wikipedia.org/wiki/Suharto
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terça-feira, 6 de novembro de 2007

Retratos (22) - O Carlos

* Victor Nogueira
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O harém do Carlos
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O Carlos faz hoje 24 anos, mas preferiu o harém dele a mim e ao Camilo. O nosso jantar fica para amanhã. (MCG - 1973.06.17) - Évora
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Está tudo dito: é um sentimental
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Disse ao Carlos que ia casar a 1 de Agosto. Ele ficou tão comovido, tão comovido, que até me deu vontade de rir. 'Tadinho dele. Depois disse lhe que tínhamos acabado tudo, e ele ficou tão triste, tão triste, que nem imaginas. Está tudo dito: é um sentimental! Se ouvisses os elogios que ele te fez, que nós estávamos talhadinhos um para o outro, blá, blá. De modo que tive pena dele e disse lhe que sim senhor, que íamos casar a 1 de Agosto. (MCG - 1973.06.26) - Évora

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Retratos (20) - Fim de Festa

* Victor Nogueira
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Estou na sala da AE. Isto é um autêntica lixeira. O chão juncado de papéis, as mesas e os móveis juncados de sebentas, de listas, de stencils amontoados. (Aqui ao meu lado um cesto de papéis ... vazio!) É impossível trabalhar nesta pocilga. Na secretária onde escrevo, uma resma aberta, o ficheiro de sócios, cinzeiros, químicos, cola, agrafador, furador, lista de vendas. Parece que foi tudo saqueado. Na realidade a Associação de Estudantes não existe. Bem sei que os que trabalham em qualquer coisa, que a fazem andar, são uma minoria. Mas aqui somos de menos! No princípio deste ano eu e o Viegas discutimos se deveríamos candidatarmo-nos de novo. Ou deixar isto extinguir se. Venceu a primeira hipótese. Mas a messe é grande demais. Se acudimos a um lado, eis que aquela começa a desmoronar se.
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E perante isto, estas paredes sempre a ruírem, o que muito me custa, penso que o melhor é deixar isto cair de vez. Se a malta prefere agir individualmente, em grupúsculos, sempre falando muito bem e agindo menos e mal, então feche se isto. Poucos como somos, uma acção eficaz exigiria uma programação eficaz, uma dedicação grande, um não desperdiçar energias e gestos. (...) (NSM - 1971.04.11) - Évora

terça-feira, 30 de outubro de 2007

Retratos (18) - D. Camilo, o Grande

* Victor Nogueira
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D.Camilo, o Grande
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O Camilo é um tipo lixado para trabalhar: deixa tudo para a última da hora - ainda é pior que eu - não tem horários normais e uns dias elabora esquemas transcendentes e complexos, para no dia seguinte, com o moral embaixo, mandar tudo à merda, porque não pode ser tão perfeito como imaginara. Sei que ele anda chateado e compreendo porquê. Sei que a vida desgovernada que leva não o favorece. Mas daí que passe a vida com racionalizações e justificações - que já não me convencem - para nada fazer porque não é como quer, bolas para isso. O resultado de tudo isso é que me vejo forçado a conceber, redigir e dactilografar todo o trabalho. Também por burrice minha. Porque devia marimbar-me para a sua casmurrice e não ter contrariedade nenhuma em obrigá-lo a trabalhar, malgrado a sua contrariedade.
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Com mil diabos. Passa os dias no café na conversa. Hoje faltou à aula de Planeamento [Social]. Serviu de pretexto o seu cansaço. Que ia para casa dormir. Chego ao café ás 6 da tarde e estava no paleio com o João Luís. Pergunto-lhe quando poderia redigir a introdução, que lhe competia, e respondeu-me com montes de justificações. Dizia que estava cansado e chateado, e pronto. Agora vir para ali com montes de justificações irritantes, porque despropositadas e improdutivas!... Enfim, bêbedo de sono, projectava ir à noite ao cinema e não sei quando para Beja. Que só poderia trabalhar amanhã à tarde. E entretanto, eu que me lixe. Sim, com o trabalho para enviar amanhã para Lisboa, ou redijo hoje tudo o que falta, ou mando assim mesmo ou espero que ele se digne arranjar disposição para trabalhar. Não lucro nada em irritar me, por contraproducente, mas aquele tipo podia ser um pouco mais realista, deixando se de evasões quando é preciso trabalhar. (MCG - 73.02.06) Évora

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Retratos (17) - L'arroseur arrosé

* Victor Nogueira
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Ontem o Diogo Fialho fez anos e fui apanhado para a festinha do costume. Como não podia deixar de ser alguém tinha de entrar pelos copos em mistura. Quem estava mais à mão de semear e convencer foi a Eglantina (com dois cálices a alegria extrovertida natural dela aumentou) mas a brincadeira saiu-me cara que ela só bebia se eu acompanhasse, e o cretino do Diogo Guerreiro (agora muito loquaz) enchia também o meu copo, em vez de disfarçar. Resultado: o estômago a arder - estou mesmo velho - e toda a ceia fora. O riso saiu me, pois, caro. (MCG - 1973.01.23) - Évora

domingo, 28 de outubro de 2007

Retratos - (16) - A toca da Margarida

* Victor Nogueira
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Na sua aconchegadora toca
rodeada dos seus amores
a Guida
com Bach e Beethoven
com as "humanidades"
com a Poesia
(POE - 1971.07.24) (1)
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Enquanto o Carlos fazia os seus estudos de piano e o Camilo vasculhava a secção de poesia da Margarida, (2) eu peguei numa folha que estava na camilha (3) da toca da Guida e fui rabiscando, com a caneta do Chico Bellizi, um pintor brasileiro de que terás visto comigo uma exposição no Palácio D.Manuel. Quando a Guida chegou ficou muito preocupada, não fosse eu estragar a caneta ao "queridinho". Mas é muito fácil desenhar com uma caneta daquele género. Tem um traço muito fino e sensível, contrariamente, por exemplo, à Pelikan com que estou escrevendo. (MCG - 1972.11.07)
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1 - Do poema "á Guida sem amor hoje", escrito em 1971.07.24
2 - A Margarida tinha estudado em França e depois viera para o ISESE. Era muito mais velha que nós e na casa dos pais tinha um quarto com pé direito baixo e óculo para o passeio com arcadas, sala que era o cenáculo dos intelectuais lá do sítio, onde eu fazia por vezes papel de elefante numa loja de porcelana. Era uma espécie de mãe com os seus pintainhos. Disso dá conta um dos meus poemas: À Guida, sem amor, Hoje.
3 - Mesa redonda, coberta, com braseira em baixo, ao centro,

sábado, 27 de outubro de 2007

Retratos (15) - Os deleitos do Camilo

* Victor Nogueira
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Estava eu para aqui alinhavando estas linhas (...) quando o Carlos me entrou pelo quarto dentro, com um "Ah! Estou muito cansado. Imagina lá que andei com o Camilo a ver monumentos; pela milésima vez fui ao Museu e à Sé". Sabes, por causa do Camilo andar na fase cultural! ( O menino agora anda a estudar latim, não conseguiu convencer qualquer de nós - eu e o Carlos - a acompanhá lo em tão profundos estudos, mas nem por isso consegui escapar ás longas dissertações ali à mesa do Arcada, especialmente quando descobriu um interlocutor: o Régua, que também estudou latim! (MCG - 1972.10.07)
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Mas eu já estou calejado demais para trovejar como o Camilo ou ficar com a lágrima ao canto do olho como o Carlos. (MCG - 1972.10.18)
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Já devia ter me levantado para cerrar a janela escancarada, através da qual entram não só o frio como os alegres e rápidos acordes duma qualquer composição para piano que um dos co-hóspedes do Camilo põe a tocar frequentemente. (MCG - 1972.11.08)
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Na mesa ao lado o Camilo escreve. Deve ser o 3º testamento, nesta tarde. (...) (MCG - 1973.01.16)
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Passa os dias no café na conversa. Hoje faltou à aula de Planeamento. Serviu de pretexto o seu cansaço. Que ia para casa dormir. Chego ao café ás 6 da tarde e estava no paleio com o João Luís. (...) Não lucro nada em irritar me, por contraproducente, mas aquele tipo podia ser um pouco mais realista, deixando se de evasões quando é preciso trabalhar. (MCG - 73.02.06)
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Passo agora horas seguidas a escrever, quer rascunhos manuscritos, quer dactilografando. Há pouco o Camilo berrou me ali da casa dele para eu deixar de escrever à noite, pois está farto do tac-tac da máquina [pela noite dentro]. Mas cá em casa ainda ninguém se queixou. [A casa dele ficava na Rua dos Mercadores, o quarto dele na direcção do meu, avistando se os terraços de ambas as casa] (MCG - 1973.04.14)
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O Arcada é um zum-zum de vozes e louça e máquinas e cadeiras atiradas. Na mesa ao lado o Camilo delicia-se com o "Ricardo III" do Shakespeare. De vez em quando comunica-me um ou outro dos diálogos da peça. (MCG - 1973.06.08)
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O Carlos e o Camilo só estão bem na poluição do Arcada. Quem lhes tirar a fumarada tira lhes a vida e o ser !!! (MCG - 1973.07.03)

terça-feira, 9 de outubro de 2007

Ao (es)correr da pena e do olhar (33)

* Victor Nogueira

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Se me ficasse apenas pela aparência do que os meus olhos vêm, a neblina e o cinzento que envolvem a cidade prenunciariam um dia frio, de chuva miúdinha. Mas o suor goticular que permanece à flor da pele sem que se evapore indica que o resto do dia, para além de nublado, será quente e húmido. Uma boa chuvada seguramente que refrescaria o tempo e afastaria este pesado chumbo que me envolve, que em Luanda, na estação quente, prenunciaria grandes e violentas bátegas de água quando não relampejantes e ensurdecedoras trovoadas. Mas este é um país de brandos costumes, de pequenas tempestades, de meias águas e de meias tintas. E depois nem sequer há os quilómetros de areia de praias para mergulhar como na minha terra perdida. Como se não bastassem os ajuntamentos, as praias da costa da Arrábida estão na sua maioria impróprias para consumo devido ao elevado grau de poluição. De modo que ao fim do dia, após o emprego, resta apenas a água fresca do chuveiro.
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Já mudámos de edifício, vai para mês e meio. Agora trabalhamos no centro da cidade, mas as relações entre as pessoas alteraram-se radicalmente no enorme casarão de seis pisos e paredes frias onde se concentraram vários serviços municipais até então espalhados pela cidade. Distribuídos que estamos pelos vários andares com múltiplos corredores e gabinetes, maior é o isolamento pois menos vezes nos cruzamos uns com os outros, para além de se ter tornado menos natural assomarmos e permanecermos nos gabinetes uns dos outros. Fiquei num gabinete pequeno, com o meu colega geógrafo, e porque a sala é pequena e sem estiradores, foi possível torná-lo menos árido e mais acolhedor que os enormes salões onde despejaram engenheiros, arquitectos e desenhadores, perdidos no meio dum espação onde largaram o mobiliário de estilos e feitios díspares.
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E por deambulações, um fim de semana destes, no final de Abril, fui até à Madeira, à terra do Alberto João (Jardim), como lá é conhecido. Tirei algumas fotografias e comprei alguns postais; visitei a ilha quase toda, que em muitos sítios me fazia lembrar terras do continente: aqui as Serras do Gerês ou de Sintra, além a linha do Estoril, acolá a Serra da Arrábida ou os socalcos dos vinhedos do Rio Douro.
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Mas não gostaria de viver numa ilha, especialmente numa ilha tão alcantilada e sem uma única praia, que só existem na Ilha de Porto Santo, onde não fui. Novidade novidade para mim foi ter estado no interior árido da cratera dum vulcão extinto - o Curral das Freiras - ou ver o mar lá em baixo, a 500 metros, na berma duma estreita e sinuosa estrada ou passar com relativa rapidez da beira-mar ao cimo do monte, do calor ao frio relativo, serpenteando pelas estradas sinuosas onde nalguns sítios não cabem dois carros lado a lado. Mas o isolamento das várias povoações tem sido ultrapassado pela construção de túneis e viadutos, que encurtam as distâncias mas normalizam os usos e costumes. Vi poucas flores, salvo em Santana e nos jardins do Funchal. De resto a ilha é duma vegetação luxuriante nalgumas zonas e duma enorme aridez noutras.
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Quanto às povoações, nada de especial têm quanto ao estilo dos edifícios, que na maioria dos casos se confundem com os de qualquer dormitório de vivendas sem qualidade nos arredores duma qualquer grande cidade do continente. Santana, para turista ver, conserva alguns exemplares das primitivas casas, de alçado triangular como no Norte da Europa, com telhado de colmo e paredes de madeira. Também no centro do Funchal as casas fazem lembrar as do Norte de Portugal, o que indicia que os primeiros povoadores (e os seguintes) teriam vindo lá de cima. Á noite esta cidade também é bonita, com as luzes cintilando pela íngreme encosta acima.
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Mas nem tudo são belezas; há miséria e gente a pedir em muitas terras do interior e no Funchal os meninos pobres que habitam o alto da encosta descem à cidade para a prostituição e o roubo; aliás aqui há tempos foi exibido nos cinemas e na televisão um filme, que não vi, sobre a vida destas crianças, salvo erro denominado Mário.
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Setúbal, 94.06.15

Ao (es)correr da pena e do olhar (32)

* Victor Nogueira
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Pois é, lá se vai dentro em breve o meu privilégio de trabalhar a escassos metros de casa; o Presidente fez uma reunião com o pessoal do Departamento de Habitação e Urbanismo para comunicar que dentro de dois meses vamos mudar com armas mas sem bagagens para um edifício novo, com quatro ou cinco pisos, no centro da cidade, perto dos Paços do Concelho. Aqui em cima estamos distribuídos por dois pisos no que também esteve para ser um centro comercial, agora transformado em autêntico labirinto com portas, corredores, escadas e paredes envidraçadas por todo o lado. Uma autêntica ratoeira em caso de sinistro mas, como se costuma dizer, em casa de ferreiro espeto de pau. Pois é, sempre é melhor irmos para o Centro da cidade, não só porque há mais economias nas comunicações entre os serviços e nas deslocações dos munícipes, mas também porque há mais vida e movimento na Baixa.
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Quem encontro todos os dias é o meu velho Renault 5. O novo proprietário, que é mecânico, já lhe tirou as amolgadelas e a ferrugem e qualquer dia aquele chasso até parecerá um Rolls Royce.
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Ao lermos uma novela ou uma história imaginamos as cenas, a paisagem, os personagens, dando a estes uma voz, uma imagem física. Por isso às vezes a transposição para o cinema revela-se-nos uma desilusão. Quando leio o que a Maria do Mar me escreve(u) surge perante mim a sua imagem neste ou naquele momento da nossa vida, uma pessoa simples, encantadora, gentil e delicada.
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Setúbal, 94.02.23

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Ao (es)correr da pena e do olhar (31)

* Victor Nogueira
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Esteve hoje um domingo bonito, soalheiro e primaveril. Mas não me apeteceu andar por aí a deambular sozinho, nem ir a casa do Zé e da Madalena, no Seixal.
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De modo que fiquei aqui em casa, às voltas com o computador, aperfeiçoando-me na utilização de programas de cálculo matemático e de construção de gráficos. Fora isso fiz por aí uns consertos e reparações, mas como não comprei as buchas para os parafusos ainda não foi desta que instalei a tomada de corrente na parede do corredor para ligar o aquecedor a óleo, que muita falta me tem feito nestes dias frios, de bater o dente. Não encontrei ainda os vedantes metálicos para as janelas.
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A Maria do Mar já deve ter recebido as duas fotografias que lhe mandei, embora não me tenha dito qual a sua opinião acerca das mesmas e se escolheu alguma delas para o seu porta-retratos. Hoje enviei-lhe as que lhe tirei na sua bonita sala, embora tenham ficado escuras. Comprei umas molduras grandes para decorar as paredes com as ampliações das minhas melhores fotografias, mas depois quando as fui seleccionar não me agradou nenhuma delas. De resto cada vez gosto menos da minha casa, embora seja nela que passe muito tempo, quando não ando na rua ou por aí.
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Antigamente, aos fins-de-semana, ia até à Serra da Arrábida ou até ao morro de S. Filipe ou para a Estrada da Comenda, o carro debaixo da sombra duma árvore para ler o jornal e para ouvir música. Mas agora fico-me pelo descampado no cimo das escarpas de S. Nicolau, onde as árvores ainda não cresceram e para onde agora vão muitos carros, demasiados para o meu gosto. Aliás cada vez mais a cidade está sendo separada do rio, por causa do aumento do Porto de Setúbal, e cada vez mais nos arredores as casas substituem as árvores ou o arame farpado impede o acesso aos campos.
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E nas minhas longas e solitárias noites leio, vejo filmes ou estou agarrado ao computador, quando não ao telefone. Deito-me sempre muito tarde, entre as 2 e as 5, e depois o tempo para dormir é pouco, pois levanto-me entre as 8 e as 9. Vantagens de morar a escassos metros do local de trabalho e de ter horário flexível. Há dias em que ando bêbedo de sono, mas á noite é que faço algumas das coisas que me dão prazer (ler, escrever, conversar, ver cinema, aprender coisas novas), que normalmente não faço durante o dia, dividido que estou, muitas vezes sem prazer, entre a actividade sindical e o trabalho na Câmara.
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Aliás cada vez mais me custa ir para a Câmara, onde me dou bem com toda a gente. Mas de qualquer modo já nos conhecemos a todos uns aos outros: as conversas, as reacções e os tiques de cada um. Depois, no meio disto tudo, há os filho(a)s da mãe, que sorriem mas pela calada espetam o dente e o punhal afiados.
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Antigamente havia mais convivência, porque os gabinetes eram salas enormes; agora e desde há uns anos as salas foram sendo divididas e subdivididas em gabinetes cada vez mais minúsculos. As pessoas estão mais isoladas e formam-se grupos e subgrupos, que se encontram em cafés diferentes: os fiscais no café lá em cima, no largo, os desenhadores neste ou no café das escadinhas, os técnicos no café das escadinhas, abandonado que foi o café das manas, onde continuo a ir com a Arqª. Arminda ou com a Arqª. Nina e onde vai o pessoal da Secretaria. E isto para não falar das chefias, que já deixaram de se misturar com o maralhal.
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Nunca gostei de ser professor, mas era uma profissão com algumas vantagens: havia sempre caras novas (alunos e professores) e havia tempos livres para andar na rua, nas horas em que o resto da malta estava atrás dum balcão, sentado a uma secretária ou preso na oficina.
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Desde há pouco que comecei a sentir o frio a entrar-me nos ossos; olho pela janela e reparo que é já noite; defronte a mim o relógio diz-me que são quase 20 horas.
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Bem, vou fazer para ali uma mistela para comer. Depois acabarei de ver um filme policial que gravei esta madrugada. (Um outro, do Jerry Lewis, que não aprecio muito e me causa um certo constrangimento, ficou sem o final, devido ao incumprimento de horários pela televisão).
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Nas minhas idas a Lisboa, acabadas as reuniões, vou até ao cinema. Gosto de ir às sessões do fim de tarde. Duma das últimas vezes gostei muito da Idade da Inocência: um filme muito bonitinho, de Martin Scorcese, mas duma extrema violência, passado na alta sociedade nova iorquina da passagem do século. Sob o manto diáfano das boas maneiras e dos sorrisos, a extrema violência da hipocrisia e das convenções sociais, da escolha da segurança e do bem-estar em detrimento da loucura do amor e da paixão.
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Outro filme que vi foi M.Butterfly. A Madame Butterfly é uma ópera que canta os amores dum ocidental por uma japonesa, que se suicida quando aquele a abandona, comoventemente para o público ocidental. Com base nisso, o filme narra a paixão (verídica) dum diplomata francês pela intérprete de M.Butterfly no Teatro de Pequim. E o que parecia uma grande paixão, iniciada na China e prosseguida em Paris, anos mais tarde, não passaria duma sórdida história da paixão e degradação dum homem apaixonado por outro homem, ambos presos e condenados por espionagem.
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Claro que uma leitura linear pode levar-nos a perguntar como pode um diplomata desconhecer que na China os papéis femininos eram interpretados por homens (como aliás na Europa, nos tempos de Shakespeare ou de Gil Vicente) ou como pode um homem manter uma relação amorosa com uma mulher (afinal homem) que simula uma gravidez ( que implica a existência de relações sexuais ) sem que alguma vez durante anos o suspeite? (Aliás caso semelhante teria acontecido em Portugal com a história da generala). Mas é o próprio francês que nos dá a resposta, quando afirma que se apaixonou não por um homem, mas sim por uma mulher criada por um homem (e quem melhor que um homem pode saber o que um homem pretende duma mulher, perguntar-se-á? Ou, na mesma ordem de ideias quem melhor que uma mulher para saber o que uma mulher espera de um homem? ). E no fim é o francês que se suicida, num acto teatral, travestido de Madame Buterfly, enquanto o espião chinês é deportado para a China).
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Afinal todo o amor (ou a paixão?) não será senão uma encenação, uma ilusão dos sentidos, uma elaboração mental, uma construção ( social ? ) que em certa medida a sabedoria popular expressa em ditos do género O amor é cego ou Quem o feio ama, bonito lhe parece ?! O que me levaria ao programa do Júlio Machado Vaz, Sexualidades, que já não via há muito tempo, ontem dedicado ao namoro e ao casamento ou ajuntamento, ao (des)conhecimento das pessoas, aos papeis masculinos e femininos, com filhos, filhas e algumas mães e nenhum pai. Por sinal todas as mães presentes (nenhuma divorciada ou solteira) com ausentes mas compreensivos maridos. É impressionante como a maioria dos homens e das mulheres (esposas e mães incluídas) se educam mutuamente, não para a liberdade e o respeito mútuo, não para a entre-ajuda e a solidariedade, mas para a negação disto tudo. Aqueles seriam pais e filhos diferentes da maioria, apesar de tudo. É difícil ser diferente, querer construir uma relação à margem das convenções sociais, que não libertam mas aprisionam.
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Setúbal, 1994.02.20

domingo, 7 de outubro de 2007

Ao (es)correr da pena e do olhar (30)

* Victor Nogueira
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E pronto, o 1º de Janeiro de 1994 é quase passado e acabaram as transcrições de textos que jaziam aqui no computador. Olho pela janela e o céu já escureceu. Ouço o leve ronronar do ventilador do computador e o ruído das motorizadas lá em baixo na avenida. Tive duas visitas: o Caló e um irmão, que vieram pedir um pacote de leite e a quem além disso dei dois chocolates. Vou fazer o jantar e depois sentar-me-ei frente à televisão para ver o filme "Aconteceu no Oeste", para além do último episódio da série policial britânica "Último Suspeito". Entretanto serão altas horas da madrugada.
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Setúbal, 1994.01.01
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Está um domingo nem chuvoso, nem soalheiro. Está uma tarde gélida: o frio entra pelos interstícios das janelas como lâmina cortante e tenho o corpo gelado, apesar dos agasalhos. Os meus tios foram sair ver uma exposição no Centro Cultural de Belém, eu resolvi ficar em casa. Se tivesse o meu carro metia-me com as rodas á estrada. Assim fico por aqui até 2ª feira; nos dias seguintes irei ao fisiatra e aos restantes especialistas por causa das minhas maleitas. Esperemos que a Fátima {secretária da Divisão de Planeamento Urbanístico e minha amiga, que entretanto faleceu inesperadamente] me tenha marcado as consultas todas. Entretanto retornarei à chateza do emprego e duma vida que me vai escorrendo sem entusiasmo.
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Sinto-me desanimado e cansado das minhas ilusões, dos sentimentos por mim supostos em outrem. Dói-me voltar sempre ao mesmo, sem esperança nem futuro. Mas na vida não há caminho senão aquele que nós, caminhantes, abrimos ao caminhar. E qual é o caminho que a minha amizade pelos outros abre? Qual é o caminho que os outros me abrem ?
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Paço de Arcos, 1994.02.06
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Está uma tarde fria e cinzenta. Almoçamos em casa do Zé e da Ana. O Zé e o sr. Caldeira cantaram músicas do Alentejo; o pai da Ana tem uma voz muito bonita. O Rui também abrilhantou o almoço, com a sua viola, que já toca bem. Com os seus truques de magia e cartas, bem poderia começar a pensar em animar as festas de bairro!
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A Susana foi dar uma volta; ficou de vir às seis para irmos ao Jumbo comprar a prenda para o César, o filho da Ana e do Zé (de Pias), que hoje fez 3 anos. Quanto ao Rui, comigo, é mais caseiro e agora anda para ali aos saltos com o Bruno, desalojados que foram do computador, e em animada conversa com a Catia e a Aida, as filhas mais velhas da Ana e dum outro Zé (da Amareleja), com quem vivem.
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Setúbal, 94.02.06

sábado, 6 de outubro de 2007

Ao (es)correr da pena e do olhar (29)

* Victor Nogueira
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Está uma tarde cheia de sol, embora fria, que o tempo não é de calores. Alguém faz obras em casa; suponho que sejam do vizinho de baixo as marteladas que ressoam enquanto toda a tarde se tem ouvido o ruído do tractor removendo terra e pedras lá em baixo, concluídos que estão os edifícios até agora em construção aqui em frente.
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Já comprei um carro novo, um Ford Fiesta, embora só mo entreguem para a semana. Preferia que fosse assim como branco amarelado, para se notar menos o pó, mas não havia e acabei por ficar com um cinzento-azulado metalizado, uma côr também bonita. Entretanto tenho que desfazer-me do meu Renault 5, velho e cansado companheiro de viagens em Portugal, do Algarve até ao Minho. O dinheiro que receberei com a sua venda (25 a 50 contos) não me dará nem para o tabaco (que aliás não fumo senão em baforada dos outros!), mas transferindo os seguros para o novo sempre faço uma poupança anual de 25 contos. Para além disso precisa dum conserto de 30 e tal contos. Mas, como não encontro a Maria do Mar e como anda ausente de mim e não me falou mais no assunto não será nele que aprenderá a conduzir, pois para outro fim não me interessaria ficar com o Renault.
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Comecei já a fisioterapia e sinto-me melhor da espinhela. (...)
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Em Dezembro irei gozar o resto das férias. Ainda ficarei com sete dias de folga por trabalho extraordinário não remunerado, que espero aproveitar para ir ao Porto em Dezembro.
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Recebi uma proposta para ir trabalhar para Lisboa, pelo menos durante um ano, com possibilidade de não utilizar o meu carro em serviço e nas deslocações para casa. Mas ainda não voltei a abordar a questão, em parte porque não me apetece fazer diáriamente a viagem entre Setúbal e Lisboa, em parte porque não me apetece ficar em casa dos meus tios, em parte porque prefiro saber primeiro os resultados eleitorais. (...)
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Numa rua da Baixa reencontrei Joana Com Sabor a Cravo e Canela, de quem não sabia há muito e fiquei contente e comovido por voltar a vê-la.
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Setúbal, 1993.11.20
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Hoje, que escrevo á Maria do Mar, é o primeiro dia deste ano de 1994. Hoje, que ela me lê, é o primeiro dia do resto de nossas vidas. Cada dia que passa é sempre o primeiro dia do resto de nossas vidas. A única diferença é haver cada vez menos primeiros dias á nossa frente.
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(...) Gosto muito dela e ás vezes parece-me que sem ela a vida não tem sentido. (...) Mas ela constrói uma fortaleza, perante mim e á sua volta, cheia de incerteza, nevoeiro e "sentinelas". Mas eu não quero conquistar fortalezas nem convencer sentinelas. Queria apenas que fôssemos um campo aberto onde o mar e a brisa corressem livremente. Queria apenas e simplesmente estar com ela, sem armaduras e sem este cansaço e sem esta fartura duma vida cinzenta e sem horizontes.(...)
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Procuro não ter pena de ninguém. De mim rio-me com frequência (ainda não perdi a capacidade de fazer humor com as minhas desgraças e desgostos e talvez seja por isso que ainda me vou mantendo à tona). Dos outros não me rio. Procuro ajudá-los, ser-lhes prestável, dar-lhes a minha solidariedade. Sobretudo com os actos e menos com palavras, por muito belas e grandiloquentes que sejam.
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Setúbal, 1994.01.01

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Ao (es)correr da pena e do olhar (28)

* Victor Nogueira
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Desta vez é que fui mesmo ao tapete, usando a gíria do pugilismo. Pois é, desde 5ª feira passada (23 Setembro) que mal me aguento nas canetas, pelo que na 6ª voltei ao médico, que me queria passar um atestado para ficar em casa, decisão que adiei para 2ª feira (27 Setembro). Está um fim de semana bonito, soalheiro, grande parte do qual passado a dormitar, eu que normalmente não consigo dormir de dia e que me deito já quando a noite vai alta. Porque me sentia bastante embaixo ainda telefonei à minha vizinha Estrela para me comprar pão, fruta e os jornais, mas como ela já saíra tive de meter-me no carro para ir ao Jumbo abastecer-me. Mas hoje, embora zonzo, lá saí novamente á hora de almoço para comprar o jornal.
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Isto dos médicos é uma ova, porque amigos amigos, negócios á parte. Claro que a médica deveria ter-me auscultado quando a consultei no regresso de férias, porque lhe dissera que tinha estado com problemas na garganta durante férias, que tentara resolver com auto-medicamentação. Como o não fez, uma semana depois estava lá (re)caído, descobrindo então a lástima em que eu tinha a garganta e os brônquios. No entanto, na semana seguinte tive de lá voltar, á consulta não dela mas do marido, porque não estive para passar o fim de semana com violentos ataques de tosse. De modo que o médico decidiu-se pelos antibióticos e uma radiografia. Tudo bem, só que cada consulta é paga, pelo que um tipo que já não tem amor aos médicos (e ás médicas) não fica muito encantado com as recaídas ou tratamentos deficientes, mesmo que os Serviços Sociais do Pessoal da Câmara paguem 80 % do valor de qualquer consulta e a totalidade dos medicamentos.
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Disse um dia destes que relera com emoção um poeta que é o Eugénio de Andrade. Dou comigo a relê-lo com uma certa tristeza. Porque afinal muitos dos poemas do Eugénio de Andrade expressam não a plenitude da alegria do amor alcançado mas a nostalgia do que se perdeu ou não alcançou.
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A propósito, noutra ocasião, por lapso, escrevi "Prefiro o amor á amizade ... " quando o que deveria ter saído seria "Prefiro a amizade ao amor". Mas hoje não me apetece dissertar sobre este tema.
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Houve na minha vida dois breves tempos de grande alegria, libertação e crença numa vida diferente: os meses a seguir ao 25 de Abril, (quando a alegria e a solidariedade andavam no ar e em cada esquina), e as primeiras semanas de 1986 [após o meu divórcio], (quando reatei relações com velhos amigos e "encontrei" a Maria do Mar). Mas não se concretizaram as promessas que eles continham e hoje está de novo este tempo cinzento e fechado que me cerca. Um tempo retratado num velho poema meu de 1985.
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Notícias do Bloqueio II
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Estão suspensas as palavras
Proibidos os gestos
de ternura, amizade e amor.
O silêncio invade as ruas
entra nas casas
senta-se á mesa da gente.
Que sentido tem dizer
amor
amiga
camarada
companheiro?
Que sentido tem
abrir as mãos e os olhos
e perguntar qual o significado do
que vemos, ouvimos, entendemos e sentimos?
Gaivotas loucas, alvoraçadas, enchem os ares
de movimento e ruído
enquanto a vida escorre pelos dedos
indiferente
medíocre
submissa.
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O domingo está passado. Para além da janela envidraçada, o negrume da noite pontilhada de luzeiros e reflectindo as estantes cheias de livros. Liguei o televisor aqui do escritório, que transmite uma telenovela, para dar notícia do começo de mais um episódio da 6ª série de O Polvo, sobre a Mafia Italiana.
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Passei o fim de semana metido em casa. Apenas o Caló por cá apareceu á tarde, para ver e interrrogar-me sobre as fotografias e ver no vídeo filmes de desenhos animados do Walt Disney. Quando me preparava para regar as plantas ofereceu-se para fazê-lo, mas não jantou cá, pois entretanto a madrasta veio buscá-lo.
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1.
Com os meu dedos
sigo lentamente os teus lábios
Uma leve brisa agita o teu olhar
e não sei bem se é um pássaro
ou uma flor
o sorriso que nasce no teu rosto.
Será noite
ou uma criança a navegar?
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Setúbal, 1993.09.26
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2.
Nas minhas mãos
o dia escurece
e não ouço nelas
o calor da tua voz a cantar.
Uma gota cai lentamente no horizonte
E outra
E outra
E mais outra ...
E as minhas palavras são
um novelo em busca do mar!
O teu rosto,
o teu rosto é uma linha a navegar
onde loucas gaivotas
querem mergulhar.
Quem as recolherá
como um cristal a brilhar?
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Setúbal, 1993.09.26
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Uma nova semana está terminada, com um domingo (3 Outubro) soalheiro e bom para passear com uma doce companhia
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Neste fim de semana a Susana não quis sair, a não ser para ir ás compras comigo, e colou-se em frente ao televisor ou a ouvir música, para além de se ter encarregado dos almoços e jantares e de aspirar a casa. O Rui pespegou-se frente ao computador a jogar com o Bruno, um dos filhos da vizinha Estrela, e desta vez não houve ensaios de viola porque a não trouxe. Outras vezes fazem um estendal no chão com carros, canhões e soldados simulando grandes, discutidas e barulhentas batalhas terrestres. Eu, como sempre, saí para comprar os jornais e víveres no Jumbo; vou lá por causa do pão e depois acabo por comprar o resto, sem ir á cooperativa. Comprei um CD duplo dos Beatles, o chamado álbum Vermelho. De modo que passei o fim de semana em casa, salvo no sábado á tarde quando fui até á do João Neves.
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O João Neves é geógrafo e está a substituir a Isabel e a Maria, que se foram embora da Câmara, onde estavam a recibo verde. Com ele faço agora equipa para prosseguir o levantamento, caracterização e programação do equipamento colectivo. Agora andamos ás voltas com o equipamento desportivo, ao qual se seguirá a rede escolar. De modo que saímos de manhã com o R4 do Departamento a percorrer o município, localizando em carta e preenchendo um inquérito, o que me agrada mais do que passar o dia encafuado num gabinete sempre com a mesma paisagem a as mesmas pessoas. E como não levamos motorista, sou eu que vou a conduzir nas calmas, o que me agrada. Quando ando com o meu carro ando sempre na esgalha, o que não sucede com o carro do serviço (ou do sindicato).
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Com isto tudo atrasa-se o meu trabalho sindical, o que me preocupa pois a proposta do Stal referente á revisão do sistema retributivo dos técnicos superiores não introduz alterações relativamente aos vencimentos dos docs, apesar das propostas feitas em devido tempo pelo grupo de trabalho de que falei. Tenho três semanas até Novembro, quando se realizará o Congresso do Stal, para tentar dar a volta á situação, pois a maioria dos sindicalistas e dos trabalhadores entendem que nós, técnicos, já ganhamos o suficiente, quando não demasiado. De modo que se não conseguir dar a volta lá terei de partir a louça no referido Congresso.
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Um dia destes dei pela falta dum velho binóculo de teatro, que era da minha avó materna e tinha ali na sala. O Caló negou que o tivesse levado, mas sugeri-lhe que procurasse bem lá em casa pois poderia ter caído para o saco sem ele dar por isso. E hoje bateram á porta e lá estava a figura franzina e envelhecida do miúdo, com um enorme sorriso de alegria quando me viu. Mas perguntei-lhe pelo binóculo e ele respondeu-me que o não encontrara, apesar de tê-lo procurado pela casa toda (dele). Observei: se não levaste o binóculo, porque o foste procurar? ao que me respondeu com um ar muito sério e convicto que o não havia tirado e que o tinha procurado em casa porque eu dissera que ele poderia ter caído para o saco sem ele dar por isso. Disse-lhe então que não viesse a minha casa enquanto o binóculo não aparecesse. Olha, o miúdo ficou com um ar tão triste, os ombros alquebrados numa enorme fragilidade, que eu tive pena dele. E depois pediu--me um pacote de leite para o irmão mais novo mas tive de dizer-lhe que não podia dar-lhe um pacote de leite e comida todos os dias. E assim se meteu no elevador. Não posso garantir que foi ele que levou o binóculo, mas de qualquer modo terei perdido a única pessoa que me vinha visitar, para além da vizinha Maria, que falava comigo e me fazia companhia ao jantar, me regava as plantas e ajudava a pôr a mesa e a lavar a louça.
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Quem me bate á porta todos os dias é a Maria, que anda com o filho na esteira. O marido dela é operário, um homem do campo como ela, mas que não se habitua á cidade nem aos galinheiros que são os prédios em que vivemos. Pelo que de vez em quando está doente (e se não trabalha não ganha) ou são os empreiteiros que não pagam aos operários. Para ter emprego e ordenado certos vai para Lisboa todos os dias, saindo de madrugada e voltando á noite.(...) Agora ela anda entusiasmada com um curso de formação profissional de cozinheira, durante seis meses, a vinte quilómetros de Setúbal. (...) Mas ás vezes sou desabrido com o irrealismo da Maria (...). E depois irrita-me a admiração que tem por mim e que apregoa por aí. Um dia destes perguntei-lhe se me não via defeitos. Que não, que só me encontrava virtudes. De modo que lhe respondi que parecia a minha mãe, que só me vê qualidades, com a diferença de que eu é que sou uma espécie de pai e mãe dela.
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De qualquer modo agora tenho com frequência companhia ao almoço. Com efeito o Rui anda com uma paisite aguda, pelo que vem até aqui frequentemente para almoçar ou quando não tem aulas, pois a Escola da Belavista fica a dois passos. Normalmente traz um colega, nem sempre o mesmo, para almoçar também ou para jogarem no computador. E neste fim de semana resolveu ficar ... até 3ª feira (5 Outubro), embora a Susana tivesse ido embora hoje. De vez em quando chega-se inesperadamente a mim para beijar-me ou abraçar-me e retribuir-lhe. A Susana é que de vez em quando tem destes ataques de ternurite, mas vindos do Rui é novidade. Aqui é sempre o mais novo, enquanto que na casa da mãe passou a ser o do meio. Aliás o Jorge é um miúdo precoce, como foi a Susana, e o Rui ressente-se das habilidades comentadas dos irmãos das extremas. Quando está sózinho comigo é fácil de aturar, mas quando está com a irmã dá-lhe a veneta e aparecem as fitas para ser o centro das atenções.

O Rui agora passa a vida a experimentar penteados, parecendo-me que se fixou na risca ao meio com os cabelos para os lados, como se usava nos anos 40. Um dia destes rapou o bigode e depois comentava para a irmã que já o sentia crescer quando passava a língua pelo lábio superior!
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Não cheguei a meter atestado médico. Já efectuei os exames médicos excepto um para o qual andei a fazer dieta durante três dias. Mas depois, no dia do exame, não fui capaz de fazer a preparação final pelo que teve de ser adiado. De modo que o mais certo é morrer da doença, se for caso disso. A constipação parece estar controlada, embora me doa a garganta, tenha a voz enrouquecida e por vezes violentos ataques de tosse, especialmente quando arrefece, se falo mais alto ou durante muito tempo. O que me irrita é que na maior parte dos casos os exames nada acusam, de modo que quando não é uma virose (está na moda) é do stress e das contrariedades. Assim lá vou cantando, rindo, tossindo e ardendo por dentro.
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Setúbal, 1993.09.25/26

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Ao (es)correr da pena e do olhar (27)

* Victor Nogueira

Amanhã vou reiniciar a minha aprendizagem com as folhas de cálculo (matemático), interrompida há semanas e recomeçada hoje com umas breves lições do Luís, o informático do STAL. Entre as minhas actividades e responsabilidades extra-laborais está a coordenação e participação num grupo de trabalho de quadros técnicos da Administração Local. Ora, antes de partir para férias, uma colega nossa ficou de trabalhar uns dados, para permitir a sequência do nosso trabalho relativo à reestruturação de carreiras e revisão do sistema retributivo. Só que já lá vão umas seis semanas sem que ela tenha feito qualquer coisa, porque anda deprimida. De modo que tenho de ser eu a tratar do assunto, já que não posso permitir que as minhas depressões me façam andar pelos cantos durante muito tempo.
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Entretanto hoje resolvi fazer o que foi o terceiro bolo da minha vida, desta feita um bolo mármore. Das vezes anteriores foi pão-de-ló. O bolo come-se, não ficou muito mal. De qualquer modo só poderei lavar a forma depois dele acabar, pois ficou agarrado ás paredes da dita cuja, apesar de untada com margarina (acho que faltou passar as paredes com farinha). Para além disso a parte de cima não ficou nivelada, antes parecia o mar agitado em dia de vento, aos altos e baixos. Pois é, preciso é não perder a calma!
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A especialista em bolos é a Susana, mas ultimamente tem-se dedicado mais ás mousses de chocolate, que já deixei de apreciar, não por serem dela, que até tem jeito, mas porque antigamente gostava mais de doçarias.
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O fim de semana passado, que ameaçava ter sido chuvoso, acabou soalheiro. No domingo á tarde fui com o Rui e a Susana ao Jumbo comprar material escolar para o caçula depois de termos ido a uma das salas de cinema do centro comercial ver um filme de que te falei anteriormente: Dennis, o Pimentinha, sobre as diabruras duma criancinha traquinas. Embora me tivesse rido nalgumas cenas, achei o filme inferior a qualquer um dos da série Sózinho em Casa, não só porque nestes o miúdo/actor era mais expressivo, mas também porque nestes a história tinha mais consistência. Embora qualquer deles sejam filmes para miúdos cujo principal intérprete é uma criança, são duma extrema violência sobre os bandidos, adultos, que sofrem autênticos tratos de polé. Mas a verdade é que o Rui e os seus amigos deliram com tais cenas de violência, muito semelhantes ás dos filmes de desenhos animados, sobretudo dos de origem norte-americana que a televisão passa nos programas infantis.
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Foi um fim-de-semana relativamente folgado, pois à Susana deu-lhe o apetite de fazer todas as refeições por sua iniciativa. Quanto ao Rui, como já entrou na adolescência, cozinha as refeições dele quando não gosta do rancho da maralha. Claro que só fecho os olhos ás ementas do Rui para ele próprio porque fins-de-semana não são todos os dias a comer arroz de manteiga e douradinhos ou sandes de atum de conserva!
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Hoje tive visitas ao jantar: o Caló. Reparei que também utiliza muito o Victor quando fala comigo, tal como sucede com a filha da Maria do Mar. Aquele devia ir para diplomata: oferece-se para ajudar-me, pergunta-me pelo Rui, pela Susana e pela minha mãe, elogia a minha comida ...
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1993.09.20

terça-feira, 2 de outubro de 2007

Ao (es)correr da pena e do olhar (26)

* Victor Nogueira
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Afinal ontem, 5ª feira, acabei por não ir à reunião sindical em Lisboa; o tempo estava chuvoso e mau para os meus inflamados gorgomilhos. E depois, perante a crónica indisponibilidade dum dos carros do sindicato, decidi não levar o meu velho R5. Coitado do senhor Rui, o electricista-auto, que foi trabalhar na manhã do feriado municipal, contra a minha opinião, para mo entregar a tempo, para eu não faltar à dita reunião.
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Mas hoje é que choveu mesmo, aumentando a minha rouquidão. Que linda despedida o Verão nos tem dado nesta arrancada final para o Outono! Ali a avenida Bento Jesus Caraça parecia um rio caudaloso e lamacento, com água pelo passeio, devido aos boeiros entupidos. Felizmente que me precavera previamente com as botas pelo que não precisei de andar com bote!
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Aproveitei a pasmaceira do serviço para terminar a organização dos negativos fotográficos e a relação das cópias a efectuar. Para além disso continuei a ler o manual de instruções e a praticar numa máquina de dactilografia eléctrica, que ainda não domino completamente. É mais complicada do que a que eu tinha no serviço e que desapareceu misteriosamente do meu armário e do edifício no verão do ano passado. Um dia destes quis escrever na da Fátima, mas apesar das breves explicações dela e do Carapeto, não dei conta do recado, pois não é á primeira que se dominam as funções todas, pelo que desisti e limitei-me a enviar á Maria do Mar um postal com vista para o Estuário do Sado e Península de Tróia.
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O Rui e a Susana vieram para o habitual fim-de-semana quinzenal que passam comigo. Amanhã começam as aulas. Fiquei por Setúbal, fazendo o habitual: arrumar a casa, comprar e ler os jornais, lavar e estender a roupa, comprar víveres na cooperativa, ouvir música. Não me apeteceu ir a Lisboa, embora a minha velha amiga Musa d'Ante, regressada definitivamente do Parlamento Europeu, me tenha convidado para ir conhecer a casa que alugou em Benfica e comer uns hamburgers especiais. Também não me apeteceu aceitar o convite do Zé e da Madalena, um casal amigo do Seixal, para irmos jantar a casa deles hoje ou para irmos amanhã ao Barreiro ver a pastelaria que em sociedade com uma irmã do Zé abriram nesta cidade. Ando fatigado e não há meio de passar a inflamação nos gorgomilhos que me acompanha desde meados de Agosto e que com a chuvada piorou.
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O Rui anda todo orgulhoso porque lhe teria aparecido uma borbulha de acne no rosto, sinal segundo ele de que já entrou na puberdade. Agora deu-lhe para experimentar penteados a ver qual lhe fica melhor. Já não bastava o orgulho na musculatura!
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Ontem, que já é anteontem, a Maria do Mar falou sobre a felicidade em contraponto a uma pretensa atitude de infelicidade minha. Não me considero infeliz. Vou vivendo, melhor que muita gente, embora não tão desafogadamente como outros ou do modo que eu preferiria. Diferente da infelicidade é o desencanto pela falta de solidariedade e de humanidade crescentes nesta sociedade em que estamos. E desencanto tenho, por vezes muito, por vezes em demasia. O que não significa que não tenha tido momentos de alegria e serenidade. Alguns deles com ela, apesar de tudo. E talvez parvamente e sem razão eu persiga nela a crença ou a esperança de que teria sido (seria) possível ter sido (ser) feliz com ela, como amigo ou como amador e ser amado. Mas isto só teria resposta se outra fosse a nossa relação. A isso, só a convivência límpida e no dia-a-dia teria dado resposta.
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Apesar de tudo acredito que é possível as pessoas serem felizes. Por muito breve que seja a felicidade. Porque entendo que os homens e as mulheres não foram feitos para estarem sózinhos ou viverem solitáriamente. Por isso, na breve passagem nossa por este mundo, é preferível, digamos, um ano de felicidade, mesmo que repartida no tempo, a uma vida inteira com medo de perdê-la ou não alcançá-la.
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.Todos temos limitações maiores ou menores, neste ou naquele campo. Preciso é sabermos aprender a viver com as nossas limitações para ultrapassarmos os muros que nos cercam ou querem levantar ou levantamos á nossa volta.
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Quando estudante de Economia em Lisboa, tinha então vinte anos, frequentei um curso intensivo de inglês. A professora, uma jovem inglesa, a Maureen Baltazar, era alegre, encantadora e todos nós gostávamos muito dela. Mas entretanto ela resolveu regressar a Inglaterra, já não me lembro se por se ter entretanto separado do marido português. E o surpreendente para mim era o desgosto e a ideia expressa nas palavras duma das empregadas da escola pelo facto da Maureen abalar, creio que definitivamente, dizendo que mais valia não a ter conhecido porque assim não teria o desgosto de perdê-la. E surpreendia-me esta atitude, pelo que então lhe contrapuz que o que era importante era termos conhecido e convivido com a Maureen, porque a recordaríamos sempre com alegria e ao tempo em que tínhamos estado com ela, porque era um tempo que tinha valido a pena ter sido vivido!
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Setúbal, 1993.09.16/19

domingo, 30 de setembro de 2007

Ao (es)correr da pena e do olhar (25)

* Victor Nogueira

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É um novo dia. de manhã choveu mas agora á tarde o sol despontou. Hoje resolvi ficar em casa para preparar a reunião sindical de amanhã e programar o trabalho até ao final do mês. Tenho oito dias por mês para actividade sindical sem desconto no ordenado. Entretanto, na próxima quinzena, terei reuniões em Coimbra e no Porto, para além de uma série de plenários na Câmara de Setúbal, por causa do processo negocial com o Governo.
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Fiz para o almoço pernas de frango estufado com arroz de manteiga. Já ando a ficar farto de enlatados e congelados, que às tantas sabem sempre ao mesmo. Tenho ainda de ver se marco consulta para o médico, que aliás agora é médica, o que por vezes me intimida na exposição das minhas maleitas e problemáticas.
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Quem também anda doente é a minha carripana, que de repente ficou ontem sem pisca-pisca, o que é aborrecido pois nem sempre me lembro de fazer manualmente os sinais de mudança de direcção ou de conduzir com mais cuidado. De modo que tenho de passar ainda pelo mecânico, tanto mais quanto amanhã terei de ir a Lisboa.
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O carro já está consertado e sempre consegui consulta na médica. É uma senhora muito simpática mas começamos sempre por uma longa conversa sobre variadíssimos assuntos, da vida em Setúbal à política, passando pelos filhos. A parte final, essa sim, é dedicada à exposição e diagnóstico das minhas maleitas. Resumindo e concluindo, para além do check-up anual conveniente para as pessoas da minha idade, mais uma série de exames por causa das maleitas para prevenir ou remediar. E uma nova sessão de fisioterapia, que o ano passado me fez passar os meses até agora com menos problemas provocados pela coluna. O avio dos remédios deixou-me no entanto pasmado. Não só estão cada vez mais caros como diminuem grandemente as comparticipações do Estado. Entretanto ela disse-me que tínhamos direito a quinze dias anuais em estâncias termais, para tratamento, sem colisão com os dias de férias. Tenho de informar-me melhor, para passar uma temporada a tratar da coluna, repimpado, sem preocupações com arrumações de casa e preparação de refeições.
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De vez em quando passo aqui pelo computador e acrescento mais umas linhas de conversa. Estou cansado e com sono, mas mesmo que durma um sono seguido como acontece normalmente, isso possívelmente não me trará descanso. Isto é um círculo vicioso: a pedrada depressiva impede-me de dormir repousadamente e a falta de repouso aumenta a neura. Quem diria que o fim de férias e o regresso à Câmara teriam um efeito tão desgastante. Deveria mas é ter ido a casa de alguém. Mas também a maioria está metida no seu buraco, numa sociedade onde estou a mais porque dela estão cada vez mais ausentes a solidariedade e o companheirismo.
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Vou encerrar esta escribadura. Tenho ainda a louça do jantar para lavar e parte do conteúdo dos sacos de férias para arrumar. Nem acredito nesta minha desorganização, eu que por vezes até tenho raiva de mim mesmo por ser tão arrumadinho e organizado, embora menos que há uns anos atrás!
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Setúbal, 1993.09.08/09

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Ao (es)correr da pena e do olhar (24)

* Victor Nogueira
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Acordei mal disposto e cansado, o que de resto me sucede desde domingo, tal como antes de férias. Para além disso hoje acordei de madrugada cheio de frio, pelo que resolvi fechar a janela da cozinha. Voltei a acordar mais tarde, continuando com frio até descobrir que a janela do quarto da Susana também estava aberta. De qualquer modo não se perdeu tudo e assisti ao nascer do sol antes de voltar a deitar-me, acordando tarde. Antigamente e nas férias levantava-me mal acordava. Mas agora não tenho prazer em levantar-me em tempo de trabalho como este que (não) tenho presentemente.
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O primeiro dia de trabalho está terminado e parece que as férias foram há muito tempo. O regresso foi como sempre: bacalhoadas para a direita, algumas beijocas para a esquerda, um sucinto relatório das mesmas com perguntas idênticas ao(s) interlocutor(es) e interrogações sobre as fotografias de férias. Vá lá que a arquitecta Nina, que foi ao Brasil ver a família e mostrar a Mariana, a criancinha que é o enlevo dela como mãe babosa, não se esqueceu das moedas para a minha colecção.
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Para além disso foi um dia de grande chateação. A minha secretária estava limpa e arrumada, tal como a deixara. Embora tenham deixado de distribuir-me trabalho, a minha categoria profissional dá-me liberdade para apresentar e desenvolver propostas e projectos de trabalho. Mas isto exige um mínimo de meios que não me dão ou retiram., para me cortarem a veleidade de fazer qualquer coisa. Há uns três anos tiraram-me o apoio administrativo e há dois meses o computador. Sem ovos é difícil fazer omeletes. Ás 17:00 horas, farto da pasmaceira geral, de conversa para encher tempo e sem nada para fazer, disse adeus ao pessoal e fui curtir a minha chateação e desalento para o Jumbo, para comprar fruta, peixe, iogurtes, queijo, manteiga e algumas coisas mais.
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Hoje estou nos meus dias de pedrada. E quando tal acontece aborrece-me estar sozinho. embora não me apeteça estar com qualquer pessoa. Como frequentemente a vizinha Maria apareceu aqui ao fim da tarde, com o filho mais novo, que é um miúdo muito engraçado e palrador, com uma grande amizade por mim, o que de resto acontece com muitos miúdos. Tenho sido uma espécie de pai e mãe da Maria, que aliás é a única vizinha que se oferece para me ajudar ou que me traz presentes: um bibelot, um queijo, fruta ou uns enchidos da terra, um prato de arroz doce ou um petisco do Alentejo. Mas hoje eu estava com uma grande chateação de modo que nem os problemas financeiros da Maria nem a sua simpatia e preocupação pelo meu mutismo e ar fechado me levantaram o moral. Fui telefonando a outras pessoas, mas nem por isso a neura passou.
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Pois uma coisa são as amigas e os amigos, os colegas de trabalho, os filhos. Outra, bem diferente, é a namorada, o amante, a companheira, que permite a expressão duma outra parte do nosso ser e a expansão da nossa personalidade.
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Não gosto de estar sozinho e por isso gostava de ter uma namorada em quem pudesse confiar, que estivesse ao alcance da voz e do gesto de amizade e carinho mútuos, que me procurasse, que me acolhesse e que ficasse contente quando a procuro. Uma namorada para quem eu fosse tão importante como importante ela seria para mim. Porque todas as idades são boas para as pessoas se enamorarem com entusiasmo, serenidade e leveza de coração e não com este desalento. Porque uma coisa é saber com segurança que naquele dia ou naquela hora vou estar ou sair com ela e assim organizar o dia-a-dia, domesticando o desejo de estar com a pessoa de quem gosto. Outra, bem amarga, é a incerteza, a insegurança e os mal-entendidos relativamente à pessoa de quem gostamos e que escolhemos de entre todas.
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Há um poema que escrevi uma vez a propósito de Joana Com Sabor a Cravo e Canela e que de algum modo exprime esta ideia:
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Todo o dia esperei por ti
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(...)
Todo o dia esperei por ti e dói-me a tua ausência!
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Setúbal, 1993.09.08/09

Ao (es)correr da pena e do olhar (23)

* Victor Nogueira
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Continuando o registo meteorológico, hoje o dia amanheceu nublado e chuvoso mas para a tarde já estava soalheiro embora quente e abafado como nos anteriores. Não há duvida que este mês de Agosto tem sido farto em variações climatéricas algo surpreendentes.
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De manhã passei pelo Jumbo de Alferagide, cheio como sempre, apesar de estarmos a meio do mês. Ao menos no de Setúbal anda-se à vontade, excepto no final dos meses. Mas o de Alferagide tem mais variedade de filmes em vídeo ao meu gosto, que não comprei, enquanto os CD estão mais arrumadinhos.
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Como não podia deixar de ser eu e a Susana perdemo-nos na confusão do Jumbo, só a encontrando à minha espera no carro, pois esquecera-se duma nossa velha combinação sobre o ponto de encontro após perdimentos nestes malfadados hipermercados. E lembro-me duma das vezes em que nos perdemos no Jumbo de Setúbal. Farto de andar às voltas, dirigi-me à recepção dizendo que perdera a minha filha e se lhe podiam marcar um ponto de encontro. Ia tudo bem até que a empregada me perguntou a idade da menina. Devidamente informada das suas 16 risonhas primaveras, a empregada foi-me logo dizendo que com tal idade nada feito, pois a desaparecida já era muito crescida para andar perdida, pelo que não podiam satisfazer a minha pretensão. De modo que lá andámos os dois num hiper cheio como ovo, aos encontrões, à procura um do outro, cada um para o seu lado desconhecido, deixando recados a toda a gente conhecida com quem me ia cruzando. Uma aventura sem qualquer graça!
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Ontem falei do Mindelo. Hoje falarei de Vila do Conde e Póvoa de Varzim, duas cidades de características muito diferentes. Vila do Conde, que fica na foz do rio Ave, é uma povoação antiga, com uma rua com casas do tempo do senhor D. Manuel I, um aqueduto e o Convento de Santa Clara, sobranceiro à ponte que liga as duas margens. Tem uma ampla avenida marginal que a liga á Póvoa de Varzim. É uma cidade de ruas largas, formando uma quadrícula, com jardins espaçosos e casas térreas. A Póvoa, outrora povoação de pescadores, é uma cidade de veraneio, cheia de gente no Verão, com praias ao atravessar da referida avenida marginal. É célebre pelo seu casino, embora a parte antiga seja mais estreita e tortuosa e as casas, em menor escala, parecidas com as do centro burguês do Porto. O trânsito é mais complicado e abundam edifícios de muitos andares junto à praia e na parte nova. Vila do Conde é mais pacata; o movimento aperta apenas às sextas-feiras, dia do mercado ou feira semanal. Na Póvoa há ruas vedadas ao trânsito automóvel, na zona central comercial, onde se acotovelam os veraneantes. Aqui há também mais comércio e distracções, para além dos cinemas, de um museu de artesanato e duma enorme biblioteca municipal. Personagens ilustres? Para além do Cego de Maio, célebre pelos náufragos cujo afogamento impediu, temos o poeta José Régio, que nasceu e morreu em Vila do Conde (a casa onde faleceu transformada em museu) e o Eça de Queirós, escritor cujo humor e causticidade muito aprecio.
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Paço de Arcos, 1993.08.21 (Sábado)