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quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Retratos (28) - A teia que não enleia nem quer ou sabe prender

* Victor Nogueira (texto e fotografias)




Cela (Coutos de Alcobaça) ~Pôr do Sol na Herdade que foi do General Humberto Delgado
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Uma aranha para a posteridade? São tão giras, as aranhas, desde que não sejam daquelas venenosas, como se chamam, deixa lá pensar .. é isso: tarântulas. Em miúdo gostava de vê-las construir a teia, Era isso e as formigas em carreiro carregando com a boca alimentos maiores que elas, ali, todas em fileira, até ao montinho de areia que indicava a entrada do labirinto do formigueiro/casa. Já vi um por dentro, ao «natural», num museu, numa parede de vidro.
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E as lagartixas, que as agarrava na mão, fixando-nos mutuamente. Só os sapos é que era pior: estavam no jardim lá em casa, e a mão só se fechava para agarrá-los com uma esforço meu enorme, dada a viscosidade repelente da pele. E depois lá ficávamos a olhar um para o outro, ele de olhos enormes, esbugalhados, a garganta a inchar e a esvaziar como um fole, até eu o pousar suavemente no chão.
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Não me lembro se em Luanda havia andorinhas mas em Setúbal e Évora havia montes de ninhos nos beirais das casas, a Primavera cheia de aves esvoaçando e «cantando». Mas já não há andorinhas, nem aqui nem em Paço de Arcos. Ainda haverá andorinhas em Portugal?
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Vês, a maioria das pessoas não gostam deste tipo de comentários, mas sim que se diga «ai que giro», «mas que paciência tu tiveste», «quem me dera ser um insecto para ficar preso na tua teia, como Itaca por Ulisses». Não este último exemplo é infeliz, afasta logo as pessoas. Está provado que o Principezinho, a Raposinha, a Rosa e o Kant_O_XimPi e suas crias são incompatíveis e que o Mundo deste nem na imaginação existe, quanto mais na realidade. Na verdade as gaivotas em terra nunca se compadecem com tempestades, antes preferem águas mornas e meias tintas, em voos de pardal sem nada de águia altaneira.
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E no meio das núvens também não, que por lá já andei muitas vezes de avião: nada as distingue do espesso nevoeiro que por vezes encontramos na estrada ou à janela, como se de noite branca fosse mas nada nos deixa ver, como uma noite de breu em Lua Nova.
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e ouça aqui ,,, Zeca Afonso
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Setúbal ~~~ Pôr do Sol no Estuário do Rio Sado


Setúbal ~~ O homem da bicicleta, ao nascer do sol

E se quiser, passe por
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segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Retratos (27) - A Malta de Évora, do Café e da Casa de Hóspedes

1º Retrato do pessoal da pensão de Évora

Além da minha pessoa outras mais existem aqui em casa. É natural. A sra. D. Vitória [Prates]. (1) A dona da casa. (...) Creio que é boa pessoa. De resto todos para mim são boas pessoas ... até ver (2) Ás vezes continuam mesmo a ser! A Ermelinda. Que é sobrinha. Que anda no 2º ano do Magistério Primário. Minha adversária ao "crapaud" e parceira à "sueca". Nem sempre. Uma colega: a Ana Maria [a Macrobianas]. A sra. D.Cacilda, mãe da sra.D. Noémia . Que foi há dias para Leitora de Português da Facultad de Filosofia y Letras de Santiago de Compostela. Com quem gostava imenso de conversar. Que via poesia, algo de valor, nas coisas simples e banais. Nas quais não reparo por não poder não saber ou não querer. Por demasiado perdido nos meandros das minhas introspecções filosóficas. A sra. D. Cacilda deixar nos à no fim deste mês de Novembro. Dois colegas meus do 3º ano de Economia de Empresas: O Alexandre [Vaz] - alto e de ombros curvados - e o Jorge [Carvalheiro] - alto e direito (ou não fosse tenente da Guarda Nacional Republicana). (3) E um terceiro, finalista do mesmo curso. O "fantasma" cá de casa. Aparece e desaparece quando muito bem entende. Para terminar, a Leolinda - afilhada e criada da dona da casa. E a filha - uma miúdinha de sua graça Ana Maria, [a Microbianas] de seis risonhas primaveras. (ELF - 1968.11.24)


Temos um novo hóspede. Ainda não o vi. Deveria ter vindo hoje. Sei unicamente que está empregado no Banco Espírito Santo. Veio para o nosso andar [2º], do "tribunal" cá de cima, constituído por mim e pelo Alexandre [Vaz]. Estou vagamente aborrecido com a vinda deste que é, pelo menos por enquanto, um estranho. De resto para o ano devo apanhar mais intrusos, pois as duas miúdas devem terminar o curso este ano. (NSM - 1969.02.11)


Já aprendi, ou melhor, dou assim uns passitos de dança, consequência dos bailinhos familiares que até ao Carnaval se realizaram cá em casa. (NSF - 1969.03.08)


2º Retrato do pessoal da pensão de Évora


É um domingo indefinido, um começo de tarde. Três novos hóspedes entrarão hoje lá para casa. Somos agora oito (para além da hospedeira, irmão [Ambrósio Prates] e sobrinho [Manuel] ): duas miúdas [Celeste Gato e Bia Almeida], estudantes no Magistério Primário, como este, e a mãe duma delas [D.Maria], e o Diogo [Guerreiro] (6º ano liceal e futuro economista). Os novos são um velhote, [o sr. Marquês], empregado comercial, uma assistente social [D.Teresinha] e a ilustre mãe [D.Ilda]. Sou, actualmente, o mais antigo. Todos os outros entraram este ano. (NSF - 1971.01.31)


A malta e cenas do Arcada I


Olho à minha volta e vejo malta conhecida: além, o Morte que me acena, como o Calisto, que há muito não via. O namorado da Gabriela discute acaloradamente e o senhor D. Alexandre de Lencastre (4) conversa com dois amigos (sê lo ão ?), que falam também com a cabeça e as mãos. Aqui, à minha esquerda, está o velhote pequenitates que anda à Charlot; costuma pôr uma flor no copo de água que normalmente acompanha a bica, fala em verso - os dois últimos primam quase sempre pela falta de rima e métrica - e oferece moedas da sua colecção às personalidades importantes que passam por Évora e às caras bonitas. Fala com toda a gente e não sei se falará com alguém. Quando regressei de Luanda reparou que eu tinha rapado a barba ... largos meses depois do acto solene que me tornou irreconhecível ao espelho, provocando me, durante alguns dias, ataques de hilariedade frente àquela face rejuvenescida e francamente risonha, sem o sorriso voltaireano que dizem ser o meu - irónico e trocista - de que muitas vezes me apercebo mas não contenho, mesmo nos momentos mais solenes e sérios, de gravidade de circunstância. (...) O ar está [agora] pesado; olho à minha volta e há clareiras na humanidade que me cercava. (NSF - 1971.01.31)


Estou no café, no "velho", barulhento e de ar viciado que é o Arcada. Deixei os jornais em cima de uma mesa, para marcar o lugar, enquanto ia à tabacaria comprar uma folha de papel. (...) Ao regressar encontrei um moço a folheá los muito descontraidamente. Devia ser dos Regentes Agrícolas. Que ficou algo atrapalhado e balbuciou pensando serem do café. Que não acabou de lê los, apesar da minha cordialidade. Enquanto escrevo vou bebendo o galão e comendo a sanduíche de fiambre, acto quotidiano das 17 horas. Na sala meio cheia umas pessoas conversam, outras lêm os jornais da tarde, alguns estudam, uns olham simplesmente para coisa nenhuma, embrenhados sabe se lá em que pensamentos. Reconheço alguns, poucos, companheiros indiferentes, quase móveis da casa. Dos outros, é de assinalar o seu mau gosto no vestir, fatos escuros, a boina ou o chapéu de abas viradas para os olhos. Conversam com a cabeça apoiada na mão, uns sorridentes, outros de rosto grave, testas enrugadas. Por vezes recostam se para trás nas cadeiras, outras juntam as cabeças, convergindo para o centro da mesa, quais conspiradores. Olho à minha volta e o café está [continua] meio cheio. O João Luís [Garcia] chegou e começou a ler o jornal. Daqui a pouco chegarão o Camilo e o Carlos, que virão do exame. Domingo Évora será um deserto, estupidificante. Eis que assomam à porta do café o Chico Garcia e o Manel. Ficaram se pelo balcão da pastelaria. Entretanto entra também o Álvaro Lapa, que é pintor, e corresponde cordialmente ao meu largo aceno. Entretanto o João Luís protesta porque não consegue ler o jornal; a mesa está desengonçada e tremeliques. (MCG - 1972.03.18)


O café é um mar de gente barulhentamente conversadora. As ventoinhas giram mas nem por isso o ar está mais fresco. Évora civiliza se: conto cerca de dezoito elementos do sexo feminino aqui no Arcada (minha pátria em terras alentejanas). O mundo caminha para a perdição, diriam os "moralistas" de porta para fora ! (MCG - 1972.07.24)


O Arcada é um mar de gente em burburinho, uns lendo, outros comendo, outros escrevendo ou preenchendo sonhos de Totobola, outros conversando com a língua e os dentes e os lábios e as mãos quando não com o corpo inteiro. Do outro lado, além à minha esquerda, um homem está sentado tirando dum saco de plástico algo cujo conteúdo lhe enche as mãos: talvez moedas. Insólito, a seus pés, uma enorme e brilhante bacia de cobre amarelado. O homem levanta se - tem uma pasta de cabedal quase do seu tamanho - pega na bacia e encaminha se para a porta, por onde entra e sai muita gente, com ar lento e vagaroso de quem nada tem para fazer. Lembro me de há quatro anos - ou mesmo há dois - e há muito mais mulheres e raparigas - algumas bem giras por estas mesas. Évora "civiliza se". Só a minha hospedeira continua com as suas concepções retrógradas de outros tempos e outras eras, que continuam [no fundo] a ser as de Évora. À minha direita dois velhotes conversam: um deles conta qualquer episódio relacionado com a sua estadia na Grande Guerra de 14/18. Olho à minha volta e o café está mais vazio; não encontro o Camilo, que pela segunda vez passou há pouco além no corredor central. Deve estar em dia não. Mais velhotes sentam se ao lado da minha, iniciando amena cavaqueira. Agora reparo que esta é a mesa deles. Adeus, estudo. Um deles diz que os gajos da situação são os que mais maldizem o Marcelo [Caetano] e os que mais o homenageiam. (MCG - 1972.09.28)


(...) Num ápice o Arcada enche se. Terminaram as condecorações, os toques de clarim e o desfilar das forças em parada. Já ontem se notavam muitos forasteiros que de longes terras vieram até ao povoado. Aqui à minha direita, muito ternos, uma moça conversa com o namorado e deixa entrever um grande pedaço da pele das costas, entre as calças e a blusa. Questões de posição! à esquerda, um marinheiro com familiares (?) exibe a sua condecoração de fresca data. Além o senhor Jaime abre e fecha os braços, como asas, enquanto vai dando lustro aos sapatos de um cliente. Passam empregados com as bandejas cheias de chávenas, copos e comes. O casalinho de namorados bebe chá com torradas. O mesmo que um casal já caminhando para a meia idade aqui à esquerda, na mesa ao lado. Ele já acabou de ler o "Diário de Notícias" (fraco gosto) e ela dá lhe uma torradinha. (...) O marinheiro levanta se e parte. Afinal a bengala não é dele mas do amigo que o acompanha. O senhor Tenente e o senhor Coronel cumprimentam se, batem a pala e apertam as mãos, enquanto as respectivas esposas se beijam. Na carequinha do senhor Coronel o vinco na pele assinala a presença do boné, agora sobre a cadeira. Entram pessoas de luto e há cumprimentos de mesa a mesa. Precisava duma câmara de filmar. Sobre a minha mesa, "O Século" (sabe) que dentro de dias será descerrada em Luanda uma estátua ao Marcelo [Caetano]. Para além d'O Século a lapiseira, um livro ("A Sociedade de Consumo") e o porta moedas (agora é incómodo trazê lo no bolso). (...) ( MCG - 1973.06.10)


Levanto os olhos e vejo muitos magalas, na sua farda verde oliva. Andam também pelas ruas, aos grupos, espalhafatosos, como quem já tem o seu grão na asa. "Cheira me" que haverá dentro em breve mais um contingente para a guerra em África. Alguns escrevem, curvados sobre o papel, a caneta firme na mão, como quem não está habituado a frequentes escrituras. Parecem rapazes muito novinhos; uns conversam, irrequietamente, outros têm um ar absorto, ausente.


O barulho invade me e cansa me. Há pouco, dei de repente com um silêncio gradual, profundo. Levantei os olhos do papel e era um magote de gente à volta duma mesa, em pé. Um silêncio em crescendo, gradual. Gente levantando se, esticando o pescoço. Continuo a escrever. Alguém se deve ter sentido mal, mas o meu curso de primeiros socorros já tem oito anos. Um homem sai do meio do magote, os seus lábios mexem se e leio "Desculpe me" a mão passada pela testa como quem tem suores ou tonturas. Sai pela porta giratória (há pouco atrás de mim) e perde se na noite das arcadas. (MCG - 1973.11.26)


É segunda-feira em Évora. O Arcada vozento e cheio. Circundo o olhar e não reconheço a maior parte das pessoas, que falam com grandes movimentos das mãos e do corpo - alguns - ou lêm o jornal: "A Bola" ou "O Século". Está um dia luminoso e soalheiro, este ano sem desfiles militares. Jovens esquerdistas cá do burgo pretendiam organizar um comício anti-colonialista mas parece me que ficou tudo em águas de bacalhau (MCG - 1974.06.10)


Os Companheiros das horas vazias

Abraça por mim a malta da mesa do café Arcada, companheiros das horas vazias. Como estas no Porto, aguardando os exames de Fevereiro. Um abraço especial para a Guida [Morgado] e para a "terrorista" que é a Zeca. (5) (Lídia - 1972.01.01)


3º Retrato do pessoal da pensão de Évora


[Foi] o tempo de ter visto a D.Vitória e lhe ter dito uns piropos até ao próximo chá. Tempo de travar conhecimento, ao jantar, com duas novas hóspedes - temporárias - cá de casa. Ambas de Montemor: uma é velhota, professora primária, de sua graça Maria Inocência, outra auxiliar social, a menina Maria do Céu, em breve senhora de não sei quem. Enfim, se eu não conseguir "controlar" as conversas à mesa terei de ouvir conversas de chacha - Porque será que há pessoas tão chatas?! (...) [Esta] minha falta de jeito para conversar em qualquer circunstância e sobre qualquer assunto! (MCG - 1972.06.07)


4º Retrato do pessoal da pensão de Évora


O silêncio que substituiu as discussões políticas à mesa após a partida da sra.D.Ilda e do sr.Marquês tem sido agora substituído por "importantíssimas" discussões entre o Diogo da Amareleja e o Victor [Dordio] do Cano sobre as altas percentagens de reprovações no Liceu e, sobretudo, como hoje, [por] questões automobilísticas. Enfim, se todos gostassem do mesmo era esta vida uma sensaboria, como diria a sabedoria popular. (MCG - 1972.06.30)


O senhor Marquês escreveu me [de Aveiro], uma carta muito formal. Está bem. (6). Da Bia [Almeida, de Safara] não há notícias; escrevi lhe meia dúzia de linhas pelo aniversário. O Diogo Fialho [de Santo Aleixo da Restauração] foi se embora sem dizer água vai nem a mim nem ao seu homónimo. O Diogo Guerreiro [da Amareleja] - agora mais sorridente e falador - fez hoje oral de Inglês [e passou com 13] (MCG - 1972.07.21)


Sabes quem apareceu por Évora, hoje? O Aristides [Picanso da Silva] ! Vem fazer quatro exames, regressando aos Açores no fim de Outubro. Até lá será hóspede da D.Vitória, a quem pagará ... 50$00 diários. Safa! (MCG - 1972.09.29)


5º Retrato do pessoal da pensão de Évora


O Diogo Guerreiro fica cá em casa. O Diogo Fialho ainda não deu notícias. Comigo devemos ser os únicos hóspedes este ano, que a D.Vitória está cansada. O quarto do sr. Marquês [e que fora do Jorge Carvalheira] agora é sala de visitas e o que foi vosso [com escadas para o terraço] é agora do sr. Prates e do Orlando - sobrinho - que vem estudar para Évora. (MCG - 1972.09.22)


6º Retrato do pessoal da pensão de Évora


Isto aqui em casa são umas correrias escada acima, escada abaixo, que nem calculas. Sim, que o amigo Orlando anda alvoroçado com a escola e um mundo novo para ele, de que me não fala mas pressinto. Os cuidados com os livros, todos bem arranjadinhos, o ar tímido quando com ele falo! (...) O sr. Prates já foi largando a bisca para um explicador ... À borla, pois então. Só que o coração já me caíra aos pés quando na véspera a D.Vitória me comunicara que a minha pensão aumentara de 200 $ 00 mensais, isto é, para 1600 $ 00. (MCG - 1972.10.04)


O Diogo Fialho regressou ontem, mas não foi colocado na mesa dos hóspedes [sala de jantar] mas sim "adoptado" pela família Prates [mesa da cozinha]. (MCG - 1972.10.10)


A D.Vitória arranjou uma ajudante, que chegou hoje de manhã. Não conheço ainda a sua graça: é uma rapariguinha - 12/13 anos - de negros e revoltos cabelos e um ar de bicho de mato. Enfim, mais uma pessoa que entra para a vida, possivelmente para servir os outros. (MCG - 1972.10.26)


7º Retrato do pessoal da pensão de Évora


Tenho de interromper que a D.Vitória já me chamou pela 3ª vez - com inflexões de zangada - e o Aristides deve ir no 2º prato.De resto o coraçãozinho deve estar em trevas, pois hoje uma miúda amiga veio visitar o Aristides e ele mandou a subir. E como era uma miúda toda alegre, nova e de mini saia ... bem, imagino a tempestade que deve ser o sentido de honra e decência da recatada senhora! Se a coisa me não tocasse também dar me ia vontade de rir de tudo isto. Raio de gente que só vê pernas abertas e "poucas vergonhas!" (MCG - 1972.10.17)


8º Retrato do pessoal da pensão de Évora


A propósito de miúdas, a D.Vitória desistiu da salinha de estar para as visitas importantes - agora é o seu quarto de dormir - por ter alugado o outro a três alunas do Magistério, altas como torres. Como é natural, há duas mesas - a dos senhores importantes (eu e o Diogo Guerreiro) (7) e a outra. Ah!Ah!Ah! (MCG - 1972.12.04)


Já almocei. Isto agora come se mal p'ra burras. Como comerão o Diogo [Fialho] e as miúdas na cozinha? (MCG - 1973.01.10)


Disse me a D.Vitória que a "menina" Celeste telefonara. (Ah! este tratamento!) Não sei se haveria "festinha familiar" [pelo meu 27 º aniversário], mas sabes como as não aprecio por nada me dizerem. Jantar fora e chegar de madrugada foi um pretexto para malográ la e, simultaneamente, estar com amigos. (MCG - 1973.01.06)


É sem grande prazer que daqui a pouco vou até ao café perder mais tempo. Aborrece me, no entanto, este enorme quarto, vazio de pessoas. A casa da D.Vitória, por motivos óbvios, não oferece condições para convívio. E este ano é o fim. O Diogo [Guerreiro] passa a vida fora de casa. As miúdas, enfiadas no quarto. De resto as nossas relações agora estão muito desagradáveis para mim. Como não sou tipo de salão e como as condições de convívio são praticamente nulas, limito me ás minhas secas e distantes saudações, a que nem sequer correspondem. Mas já antes disso passavam pela sala [vindas da cozinha], quais bichos do mato, sem nos saudarem. (...) Ouço subir as escadas. A propósito, sabes que estas miúdas não vêm cá acima senão duas a duas !? Que reles! Imaginar me ão e ao Diogo G. ali atrás da porta de olhos brilhantes e respiração opressa prontos a "saltarmos-lhes ao espinhaço", como se diz na gíria?! Já o sr. Prates não se enfia no quarto dele sem dar duas voltas à chave! Ah! Ah! Ah! (8) (...) Daqui a pouco vou sair - à chuva, ao vento, desafiando as intempéries e o furor das divindades - para meter esta presença de mim no marco do correio. (MCG - 1973.01.16)


Ali na sacada a Eglantina - com os seus longos cabelos louros e os bonitos olhos verdes - secava aqueles enquanto estudava Geografia Económica. (...) A Vicência aprimaverou se no vestuário mas eu é que não abandono a gabardina enquanto não vierem melhores dias. (9) (MCG - 1973.03.22)


O sorriso e a voz terna da Eglantina fazem[-me] desejá la com toda a pureza da simplicidade que haveria de haver entre um homem e uma mulher. (MCG - 1973.06.17 A)


O Orlando faz hoje anos. Deve haver festinha. Reprovou na Escola e anda ouvindo discursos por causa disso há tanto tempo que já estou enjoado(....) A Vicência faz exame depois de amanhã. (...) [O Orlando] deu me alguns dos desenhos dele (que eu podia ficar com todos os que quisesse). Vai sendo altura de mudar a decoração do meu quarto. O rapazinho agora pediu me trabalho - não tem nada que fazer - de modo que desde sábado que me anda em arrumações aqui no quarto - ordenou me revistas, separou me jornais e amanhã vou comprar umas folhas de cartão para fazer cadernos para arquivar a papelada e revistas. (MCG - 1973.06.17 B)


9º Retrato do pessoal da pensão de Évora - Que sucedeu ?


Ora, recolhi ontem a vale de lençóis, com temperatura elevada, que assim como veio, assim se foi, durante a noite. De qualquer modo resolvi hoje manter me encafuado no quarto, malgrado a minha impaciência ...


Por toda a casa soam estalidos, consequência do irrequietismo do Orlando. Não descortino bem qual o gozo daquilo, mas enfim ...


Volto a página e pergunto me que mais vou eu escrever? Levanto me, dou uma volta pelo quarto, remexo numas quantas coisas e torno a sentar me para escrever isto.


Entretanto a D.Vitória regressa, para levantar a bandeja do lanche e despejar o cinzeiro (o João, o Carlos, o Tobias e a Lídia empestaram me o quarto com cigarros). Há cinco anos que lido diariamente com a D.Vitória e nunca as nossas relações foram muito cordiais nem estreitas!


Acendo o candeeiro, não porque seja absolutamente necessário, mas num gesto algo inconsciente ou automatizado.


Olho para a minha direita e vejo um enorme calhamaço: "Os Macondes de Moçambique", vol III - "Vida Social e Ritual". Terei de consultar este e os dois primeiros para redigir a monografia de Antropologia Cultural. (MCG - 1973.01.26)


10 º retrato do pessoal da pensão de Évora



Verdadeiramente o quarto até parece outro, mesmo atendendo à evolução na continuidade. Que não gostou muito da brincadeira foi a D.Vitória, que ficou enxofrada por eu ter posto no corredor a abominável moldura do espelho da cómoda. Ao regressar a casa hoje aquilo estava de novo no meu quarto, arrumado embora num canto. Quando desci a ilustre senhora começou a mandar vir, que aquilo ficava no meu quarto e mais blá blá que me ia enchendo as medidas. Enfim, disse me que me alugou o quarto para dormir e se eu queria uma sala de convívio que alugasse um apartamento. (!) Ah! Ah! Ah! ... e este até tem sido um ano sossegado: pouca gente vem para cá para o paleio e para ouvir música ou estudar como nos primeiros anos, nem as meninas (10) ainda cá puseram os pés, como algumas de outrora, muito menos tendo eu feito qualquer tentativa nesse sentido. Enfim, a gente tem de desculpar os nervos dos outros! (Aquilo deve também ser por causa das fotografias e posters "imorais e contra os bons costumes". " Porcarias e palhaçadas", como doutras vezes desabafou. (11) Mas o problema é que o monstro acima referido não ficará no meu quarto. Vamos deixar arrefecer o copo de água e quando a vozinha estiver menos agreste e o olhar menos sofredor atacarei novamente, desta vez com um sorriso Pepsodent, que doutro modo não vai a ilustre senhora. (MCG - 1973.03.13)

Os ares lá por casa andam tempestuosos. Começou já não sei bem porquê, continuou no dia em que paguei a pensão e deve ter piorado ontem: o João Luís e a Maria Antónia estiveram no meu quarto, à tarde, ouvindo música. A D.Vitória não grama o João Luís e uma rapariga lá em cima - ai Jesus, credo, que lá se vai o bom nome da minha casa! Para além disso o João Luís não tem o mínimo sentido das conveniências, o que de modo algum serve para lançar água na fervura. (MCG - 1973.03.20)


A Ermelinda veio cá este fim de semana, agora com o cabelo castanho fulvo e ondulado, mais o seu ar imponente, majestoso, de quem se julga e sabe boa (ou "sexy", que é o mesmo), de gato que brinca com o rato. Tenho ganas de quebrar lhe toda aquela prosápia de mulher fatal. Mas, adelante. (MMC - 1973.03.25)


Temos uma criada nova, a Ricardina, míope e vestida de preto, com um ar submisso e tímido. O que não a impediu de pedir-me um casaco velho para o pai. Não, foi a resposta. (12) (MCG - 1973.03.30)


1º instantâneo da pensão de Évora


Ainda estou a mastigar a última talhada dum dos bolos que a D.Vitória deixou naquela travessa, especialmente para o "menino", a transbordar. Só lá ficaram umas poucas de migalhas: um tipo não tem nada que fazer e nos intervalos do trabalho (muitos devem ser eles, não?) vá lá uma trincadela! Ah! Ah! Ah! Pois é, a ilustre senhora foi de abalada para o Cano, mai la sua sobrinha, mas o seu derradeiro gesto, à partida, comoveu me. (MCG - 1973.04.16)


11 º retrato do pessoal da pensão de Évora


Apareceu me hoje o Aristides lá pelo café; veio dos Açores para fazer exame de Economia II. Penso que tenciona fixar residência no Porto. Ficou hospedado na casa da D.Vitória, mais concretamente, no meu quarto. Esperemos que não me chateie muito a molécula. Sou amigo dele, mas isso não impede que me aborreçam algumas das suas tiradas. Reage, parece me, mais com ressentimento do que sentido revolucionário. (MCG - 1973.07.04)


Quem vai entrar em compressão de despesas sou eu. A D.Vitória, no próximo ano deixa de dar me comida (ela acha que eu sou muito exigente e que não me contento com qualquer mistela) Assim, diz que me leva 500 paus pelo quarto e banhos. Com tratamento de roupas, 750 $ 00. Mas não me põe cadeiras novas no quarto nem me substitui a rede do divã ("Venha a nós o Vosso Reino"). Desabafou, desabafou, com a minha ingratidão. A conversa do costume, e que ninguém lhe dissera, como eu ontem, que antigamente o serviço e a comida eram melhores. Ai, como ela é minha amiga! Mas isso é lá à maneira dela. (...) "Que eu só gostava de comer com quem me agradava. Que quando era com as "senhoras" [D.Ilda e Teresinha] preferia comer sózinho" (MCG - 1973.07.08)


A D. Vitória sempre pôs-me um colchão novo no divã. Sempre terá valido para algo a minha conversata de há dias. (1973.07.15)


O Aristides foi-se embora hoje. Reprovou a Economia II. O que não é de admirar, cada vez mais desnorteado que ele anda, inquieto e sem rumo. (13) (MCG - 1973.07.20)


Instantâneo do pessoal da pensão de Évora e da malta do Arcada.


Podia falar te da tristeza sem sentido desta vida que levo. Da necessidade de agarrar o presente com ambas as mãos. Do nenhum entusiasmo ao avistar anteontem à noite as luzes de Évora. A viagem [de regresso da Amareleja] foi rápida, com minutos de silêncio, outros de conversa animada e outros de busca desesperada de palavras, no negrume da noite, com a estrada deslizando sob nós, o rádio transmitindo música e as pontes aparecendo bruscamente na curva da estrada, dois parapeitos brancos, esguios, varridos pelos faróis do automóvel. Chegados ao burgo, deixada a Marília e [outro] em casa, foi a busca dum lugar para estacionar. As aulas recomeçaram, mas ... quero ir me embora. É quase uma obsessão. Évora e o Instituto não são apenas o negativo. Mas é ele que sobressai. Obsessivamente. O Diogo e eu temos falado. Como dantes. Quanto à Adélia ... tenho de dar lhe a desculpa dos seus quinze anos! Quanto à D. Vitória tem me recebido com um sorriso bom. (14) O sorriso que não tenho à minha volta nem dentro de mim. O Orlando tem feito grandes estádios no meu quarto. Por causa da máquina de escrever. O Camilo lá anda, com a verborreia do costume, um enorme trabalho de fim de curso (três caloiros a trabalharem para ele). O Carlos [Nunes da Ponte] com a pacatez habitual. O Guerreiro com os seus problemas, intolerável porque só descobre defeitos e motivos de críticas a mim. Sou a válvula de escape dele. Muito lhe deve aturar a Elvira! (MCG - 1973.11.20)


Descobri hoje que a Eglantina tem olhos verdes. Encontrei a ali na Rua Nova, quando ia ao correio. Apanhámos uma frialdade por causa do paleio. Falou-me nas "desventuras" da nossa amiga [Adélia] e na desculpa que merecem os seus 15 anos. O que não impede que os "ares" andem maus. (MCG - 1973.11.27)


12 º retrato do pessoal da pensão de Évora


Lá em casa houve mudanças. As miúdas passaram para o "vosso" quarto [o das escadas para o terraço], no 2ºandar. Agora passam o tempo lá em cima e - parece me - acabou o sossego, com subidas e descidas constantes, a porta sempre abrindo e fechando, chamamentos do fundo das escadas para cima. Esperemos que acalme.


Vindo da rua, deparei com a D.Vitória carregada com camas, que ajudei a transportar escadas acima, enquanto ouvia um desabafo: "Muito pena a gente para ganhar uns tostões!" Já ontem o Orlando me retorquira "ora, isto vai mal!"quando lhe fiz a pergunta habitual: "Então, sô Orlando, como vai isso?!" Referir se ia à sua "exclusão" do 2º andar? (MCG - 1973.12.04)


A Adélia [Guerreiro] agora passou ao outro extremo e anda muito cumprimentadora e sorridente. (MCG - 1973.12.06)



No Café Parque


São 20:30; aqui estou [em Évora] no café Parque, um bocadinho contigo, a televisão trabalhando e homens ao balcão conversando e bebendo a bica. Ali a minha mãe faz as contas com a sra.D.Alice [Quaresma], das refeições na messe [dos oficiais]. Estava eu aqui muito bem acabando o meu jantar com o João Luís e o Guerreiro quando elas irromperam por aqui a dentro. A Maria Antónia - penso que é o nome da cozinheira -muito delicada e sorridente, "recebe as ordens". Sou levado a concluir que tem qualquer preconceito contra os homens, pois nunca lhe ouvimos nem saudação ou vislumbrámos um sorriso. (MCG - 1973.12.04)


(...) Lá em baixo no café Parque (a cozinheira anda muito simpática. Até já me trata e ao Guerreiro pelos nossos nomes!) (MCG - 1973.12.06)


A malta do Arcada III

No Arcada o João [Garcia], a Filomena, o Camilo, o Zé Pinto, o Ribeiro, o "Chinês" e o irmão cantavam em coro desde as cantiguinhas da primária ("Ó Rosa, arredonda a saia", "Tia Anica de Loulé"...) às excursionistas ("Santa Catarina", "Rapsódia Portuguesa" ...) passando por cânticos gregorianos e pelos coros alentejanos e canções da Beira Baixa. Enfim, uma grande audição, no café cheio e entretido com outros assuntos. (15) (MCG - 1974.02.11)



2º instantâneo da pensão de Évora



O quarto está gelado. Passei o fim de semana lendo umas coisas de antropologia. Tenho os "conhecimentos" um tanto ou quanto baralhados. A D.Vitória veio aqui há pouco trazer-me um doce e pêras de arroz doce. Está uma simpatia de senhora! (MCG - 1974.01.03)

A D. Vitória levou me hoje ao quarto uma dose de arroz doce. Ah!Ah!Ah! (MCG - 1974.02.16)


13º retrato do pessoal da pensão de Évora


A Adélia não está já em casa da D.Vitória - quando fora de férias ia com armas e bagagens. Quanto ao Diogo - que passou a tarde no meu quarto - disse me que vai também sair. Está nas mesmas condições que eu e paga mais 50 paus que eu, i.e., 800 $ 00. (MCG 1974.04.17)


3º instantâneo da pensão de Évora


A D. Vitória levou me 500 paus pelo quarto em Agosto e 250 pela semana que estive em Setembro!!! Amigos, amigos, negociatas à parte. Diz que a partir do momento em que estiver empregado passarei também a pagar o armazém. Entretanto o [Custódio] Cónim ofereceu se para guardar a tralha toda lá no monte do pai, em Évora Monte. (MCG - 1974.09.13)


A malta do Arcada IV


Passei pelo café onde encontrei o João Luís, a Filomena, o Marçal. Fiquei contente por vê los mas já não é como antigamente. É como um fósforo que logo se apaga. De resto o João Luís é muito infantil. A Filomena manda cumprimentos e isso faz me lembrar que o mesmo fizeram o Manuel Gonçalves (cada vez mais louco) e a mulher do Queiroga (reaccionária em questões de namoros)


Évora é uma cidade estúpida. 6 meses de ausência (e se calhar a saturação de 6 anos) fazem me ressaltar toda esta falta de dinamismo, de interesse, de imaginação. É um encolher de ombros, um arrastar se pelos cafés, um encostar se pelas paredes, um nada ter que fazer ou para onde ir. Uma perfeita estagnação. (MCG - 1974.11.27)


1 - As miúdas chamavam-lhe Ti Vita.

2 - A D. Vitória, em contrapartida, dizia que primeiro tinha que se provar que se merecia a amizade.

3 - Não sendo o Jorge afecto à situação, provocávamo-lo perguntando o que faria se o mandassem carregar contra os estudantes do Instituto e seus colegas caso houvesse agitação estudantil. Respondia que daria a volta a Évora pelos caminhos mais compridos. Perante a nossa insistência - Então, e se ainda não tivéssemos dispersado quando chegasses à frente da cavalaria? Outro motivo de conversa eram as sessões musicais no meu quarto, onde passava montes de malta, da casa da D. Vitória ou do Instituto, para ouvir a minha discoteca. O Jorge aparecia sempre empertigado, com um lote de discos dele debaixo do braço, para ouvir. Quando se retirava, retirava-se com eles debaixo do braço, insensível aos nossos comentários. Lá deixá-los, isso é que não!

4 - O senhor D. Alexandre de Lencastre era entre nós conhecido pelo BIDON, porque a família o baptizara como D. Alexandre de Lencastre, conveniente para o devido tratamento numa república. Mas assim sendo, ele ficou a ser o Senhor D. D. Alexandre de Lencastre! Se a história verdadeira é esta, não sei, mas lá que era o que corria, disso não tenho dúvidas.

5 - A Lídia, a quem se dirigia esta carta, era uma das nossas companhias num tempo em que as meninas sérias não andavam com os rapazes nem iam ao café. Por isso tinha má fama perante as boas consciências eborenses. Depois empregou-se nos correios e entretanto nunca mais soube dela.

6 - O senhor Marquês era um velhote, empregado bancário, que por problemas familiares que não recordo teve de ir para Aveiro. Na tertúlia da casa da D. Vitória era um pacato conversador, delicado, mas pouco sorridente, parceiro nas partidas de cartas. Fisicamente fazia lembrar o David Niven, embora sem bigodinho. Passado algum tempo soubemos que se suicidara.

7 - Desde sempre e por princípio os rapazes, cada um com seu quarto e pagando mais por isso, e as pessoas empregadas e mais velhas comiam na sala, que dava para a cozinha, onde comiam as alunas do Magistério, que compartilhavam o(s) respectivo(s) quartos, pagando individualmente menos de pensão. Na cozinha comiam também a hospedeira e família.

8 - Nunca nenhum dos rapazes fechara a porta do respectivo quarto á chave!

9 - O esquentador a gás encontrava se dentro da casa de banho, cuja janela dava para um telhado sem vistas indiscretas. Contudo, ao contrário dos rapazes, as raparigas cerravam sempre a janela, o que era perigoso quando os banhos se sucediam uns aos outros sem que se arejasse o aposento. De modo que algumas vezes lá havia uma miúda com princípio de intoxicação por monóxido de carbono. À Vicência deu lhe forte e feio. Alertado pela barulheira no quarto ao lado da casa de banho e do meu, lá fui, encontrando a D. Vitória muito aflita tentando desatar o cordel que cerrava o postigo, para poder abrir a porta por dentro. Lá fui buscar uma tesoura ou canivete, cortei o cordel, abriu se a porta e, oh! céus, estava a Vicência inconsciente no lajedo e como Deus a pusera ao mundo. Mandei que chamassem uma ambulância e entretanto fiz-lhe a respiração boca a boca. Entretanto chegara a ambulância e a D. Vitória, escandalizada com a nudez, queria à viva força que se levantasse a mulher, ainda inconsciente, para vestir-lhe um roupão, antes de metê-la na maca. Irritado, disse à D. Vitória que aquilo era o menos importante, pois com tanta delonga ainda a rapariga morria. Oh! Deus, o que fui eu dizer! A Vicência levanta-se num repente, descendo as escadas completamente nua, a caminho da ambulância pelo seu pé e bramando: Não quero morrer! Não quero morrer!

10 - Hóspedes da casa.

11 - As porcarias a que a D. Vitória se referia eram um poster com um casalinho sentado junto a um muro e beijando-se, com o título O amor é um pássaro azul no alto da madrugada. Outro era uma inocente fotografia a preto e branco dum dorso feminino, das nádegas ao pescoço. Um terceiro era uma fotografia retirada duma revista (Paris Match?), salvo erro relativa ao Maio de 68 e mostrando jovens de ambos os sexos sentado no chão dum modo descomposto. Enfim ... Não sei se também incluiria duas fotos coloridas, uma expressiva do rosto da Liz Taylor chorando, do filme Quem tem medo de Virgínia Wolf e outra relativa à guerra do Vietname, com uma mãe chorando com o filho morto ao colo, talvez um guerrilheiro vietcong!

12 - Não percebo nem me lembro da razão desta minha secura, que hoje me incomoda ao lê-la.

13 - O Aristides era um açoriano "perdido" no Continente. Ex-seminarista, como muitos nos cursos de Sociologia do ISESE, fizera a guerra colonial. Era um revoltado, sempre contra a situação, mas tinha uma bonita voz a cantar. Não aceitava as imperfeições dos outros e sempre ia dizendo que nem sempre estava com o nosso grupo, mas como não se podia incompatibilizar com todos, então nós éramos os menos maus. Nunca mais soube dele, salvo numa notícia de jornal, post 25 de Abril, sobre uma manifestação do PRP-BR (Partido Revolucionário do Proletariado - Brigadas Revolucionárias), lá no Norte, onde aparecia o seu nome.

14 - A nossa relação mútua sempre foi algo distante, talvez por não sermos muito expansivos. Mas a verdade é que a D. Vitória me aturou algumas madurezas e creio que me estimava. Sempre foram seis anos de convivência. Visitei-a algumas vezes quando ia a Évora depois de sair de lá e telefonei-lhe algumas outras, ficando contente por não esquecê-la. Morreu em 1998 e desse facto soube acidentalmente pela Noémia, que me vai dando notícias dos nossos conhecimentos comuns em Évora. A D. Vitória era solteirona, tal como os irmãos que com ela viviam: o sr. Prates e, posteriormente, a D. Joana. Na pensão ficavam sucessivamente os sobrinhos que do Cano vinham para Évora estudar, como o Manuel, a Ermelinda e o Orlando.

15 - Bem, por vezes dávamos outros espectáculos no café, quando a noite ia adiantada, cujo programa era imitarmos vozes de animais, ao desafio!

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Retratos (27) - Dia de S, Porco

* Victor Nogueira
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Hoje, em Évoraburgomedieval é terça feira e, para além dos turistas habituais, a Praça do Giraldo e o Café Arcada encontram se cheios de forasteiros, solidamente especados, indiferentes a quem passa e ao estorvo provocado. É dia de S.Porco, i.e, dia de mercado, em que os homens vêm à cidade para o negócio do gado, enfiados nos seus fatos escuros, de mau corte, botas enlameadas e chapéu na cabeça. Detesto a sua falta de maneiras, embora por vezes seja uma distracção observar as suas atitudes. O mais interessante neles é o modo como se escarrancham nas cadeiras, à mesa do café, solidamente instalados, o chapéu na cabeça atirado para trás. (MAF - 1971.10.09)
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Évora é uma terça-mercado numa praça.
numa praça em terça-mercado um café.
de um café em praça numa terça-mercado.
.................................de agrários cinzentos..
.................................como cepos sem vida. (POE - (1)
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Amanhã é 3ª feira, o meu dia negro, pois a cidade - e o café - enchem-se de alentejanos corpulentos, solidamente parados no meio do caminho, de chapéu na cabeça e fatos escuros, como se nada mais existisse no mundo senão as suas irritantes pessoas ! (NID - 1973 ?)
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1 - Do poema «Natureza Morta«, escrito em Évora

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Retratos (26) - Um breve regresso a Económicas com passagem para o ISESE

* Victor Nogueira
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Está um dia de calor abafado. Desconhecendo ainda o que a casa gasta, saí de manhã com o guarda‑chuva na mão e o casaco debaixo do braço. O que vale é que Lisboa é grande e a minha parvoíce passa desapercebida. Estive em Económicas com a Dra. Manuela Silva,[2] sobre a possibilidade de participação no corpo docente do ISCEF. Para além disso S.Exa perguntou‑me o que fazia eu, e como lhe dissesse que estava no "exército industrial de reserva", perguntou‑me o que me interessaria (talvez haja possibilidade no MEC) e ficou de contactar comigo. Os contínuos (o sr.Pinto e o sr.Cascais) - vê lá! - ainda se lembram de mim e perguntaram‑me se eu voltava para Económicas. Ah!Ah!Ah! ([1]) (MCG - 1974.09.12)
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[1] - Em Luanda as entradas e saídas nos Liceus eram controladas. Pelo que em Portugal, na 1ª vez que entrei em Económicas, no antigo Convento do Quelhas, em 1966, dirigi‑me ao porteiro, creio que era o Cascais, dizendo que era aluno e se podia entrar. Enfim, caloirices ingénuas, como depois verifiquei, pois a entrada nas faculdades era franca e ninguém controlava as movimentações.
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[2] - A Manuela Silva, católica progressista pertencentia ao movimento GRAAL, tal como a Engª Lurdes Pintassilgo e uma psicóloga muito conhecida, «ligada» então aos Jesuítas, que se a memória me não falha se chamava Maria João Belo, Antes do 25 de Abril a Manuela Silva pertencia à SEDES e fora minha professora no ISESE, onde leccionava Planeamento Social, frisando que desenvolvimento económica só tinha razão de ser se conjugado em simultâneo com o desenvolvimento social. Tinha por mim como estudante uma estima e consideração especiais.
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Na cadeira por ela leccionada as provas de frequência e os exames finais eram escritos e com liberdade de consulta, embora o trabalho de fim da cadeira condicionasse o acesso ao exame final. Este tipo de exame, com possibilidade de levar livros e apontamentos para as provas de frequência e para os exames finais era caso raro, salvo nalgumas das cadeiras de Direito.

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A época de exames no ISESE era uma estopada e, no meu entender, uma sequência de provas de resistências física e psicológica, pois cada ano tinha inúmeras cadeiras anuais e semestrais e os exames eram praticamente diários, quando não havia dois no mesmo dia.
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Face à onda de contestação estudantil liderada pela Associação de Estudantes e pela Junta dos Delegados de curso (das duas também fazia parte), a Direcção do ISESE, exclusivamente formada pelos jesuítas, reolveu «militarizar» o Instituto, instituindo o método de desfazamento temporal dos exames de frequência semestrais, para além de manter um rígido controle de assiduidade, de modo a quebrar, com êxito, a união e conjugação de esforços dos cursos e dos alunos. Por outro lado a Direcção esvaziou quase por completo as receitas com a venda das sebentas, de cuja Secção Folhas fora o responsável durante sucessivos mandatos por eleição dos estudantes, convencendo a maioria dos professores a entregar a sua edição aos jesuítas. Ora em qualquer AE a Secção de Folhas era o principal sustentáculo daquela, que permitia o desenvolvimento das actividades das restantes secções. O próprio bar do Instituto nunca foi gerido pelos estudantes, ao contrário do que sucedia nas cantinas em muitas Faculdades ou Institutos das restantes três Academias
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Para além disso a esgotado «núcleo» duro organizado em torno da Associação de Estudantes, não se recandidatou, pelo que até ao 25 de Abril as Direcções da AE passaram a ser nomeadas pelos jesuítas, embora se aconselhasem e discutissem previamente connosco as questões por sua própria iniciativa.

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Com efeito foi no final do ano em que o nosso mandado findava (1971) que «rebentou» o «violento» confronto entre a AE e a Comisssão de Festas dos Finalistas. O grupo organizado em torno da AE era contra a introdução de praxes, que nunca tinha havido, entendendo que os estudantes se deviam vestir como toda a gente. Por seu turno e nesse ano em torno da Comissão de Festas dos Finalistas, que era norma ser subsidiada pela AE, entre outras fontes de receita, juntaram-se os que queriam introduzir praxes que as outras Academias haviam abolido, para além do uso duma vestimenta que distinguisse os estudantes do ISESE da restante população: por um lado os «tradicionalistas» e menos abonados, com a adopção da capa e batina coimbrãs, queima das fitas e demais «folclore». Por outro a elite dos «betinhos» que pretendia instituir uma fatiota como a dos colégios ingleses, com distintivo bordado no bolso do lenço e gravata a condizer, também com emblema.
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O embate terminou com um empate no final do ano, que se traduziu numa vitória pois nos anos seguintes até ao 25 de Abril a «elite» desistiu de voltar à carga e depois deixou de ter condições para fazê-lo.

Retomando o fio à meada, resolvi pois deixar aquela disciplina - Planeamento Social - para a 2ª época - mandara à professora o trabalho de Luanda, onde sempre ia nas férias grandes, após troca de correspondência entre mim e ela. Fui o único aluno que compareceu, acompanhado dos calhamaços para a prova. O Pe. Augusto da Silva, s.j.Secretário da Direcção, quis impedir-me que eu consultasse o material mas eu disse-lhe que isso era uma permissão da responsável pela cadeira, que ele estava ali como simples vigilante das provas, que os meus colegas da 1ª época tinham utilizado o método da consulta, e que se ele persistisse na sua eu entregaria a prova em branco, com a minha justificação e assinatura. Disse-lhe que olhasse para o texto da prova e logo veria que ele se baseava no saber adquirido e na consulta de material. Tratava-se duma prova de conhecimento e capacidade de fundamentação do raciocínio e não na simples capacidade de memorização.

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Ele leu o texto da prova que me entregara e lhe fora enviado pela professora, «recuou», disse-me que fosse ao Gabinete dele entregar a prova logo que terminasse o tempo e deixou-me sozinho na sala.
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Por essa altura e até ao 25 de Abril participava nas reuniões semi-clandestinas do núcleo da SEDES em Évora, não prepriamente porque esta quisesse derrubar o sistema, mas sim torná-lo mais «humano», embora não me coibisse de dizer que por aquele caminho não se iria longe na efectiva democratização da sociedade portuguesa a todos os níveis. Para mim o interesse das reuniões resultava da possibilidade de estudarmos e discutirmos colectivamente os documentos da SEDES e contribuir para a sua elaboração.
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Entre outros que já esqueci, contavam-se a Dra. Madalena Queiroga Perdigão, [
que depois da «Revolução dos Cravos» foi Governadora Civil de Évora - 21 de Fevereiro 1980 a 11 de Julho 1983], um jovem bancáriode apelido Cruz, que tal como a Madalena aderiu ao então PPD, tendo feito parte da 1ª Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Évora, o Dr. Abílio Fernandes, meu professor de Análise de Balanços ou Contabilidade Analítica no ISESE, que depois militou sucessivamente no MDP/CDE e no PCP, tendo sido o 1º Presidente eleito democraticamente para a Câmara Municipal de Évora.
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Apesar disso e anedóticamente muitas funcionárias protestaram que não aceitavam que o Presidente fosse preto (o Abílio é indiano), como se a opinião pessoal delas tivesse força para se opor ao voto maioriário das primeiras eleições democráticas em Portual, onde pela 1ª vez a todas as mulheres foi reconhecido o direito de cidadania, incluindo o direito de voto.

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Após o 25 de Abril tive uma breve passagem pelo MES (Movimento de Esquerda Socialista) e depois passei a «independente», recusando até 1976 a filiação em qualquer partido, não obstante os convites e pressões tão divesificadas como os do PPD, do PS, do MDP/CDE, do PRP/BR, da UDP e do PCP.
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Sobre o contexto socio-político da criação da SEDES em 1970, ainda na onda da chamada «primavera» marcelista, podem ver:
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domingo, 11 de novembro de 2007

Retratos (25) - Um homem na Lua

* Victor Nogueira
Ontem um bêbado abordou me quando via os livros na montra da Livraria dos Salesianos. Queria saber qual era a melhor história que ali estava. Ou a maior ? A de todo o mundo! De todos os tempos. Que todos aqueles livros eram mentiras. Para as pessoas comprarem pensando serem verdades. Era a máquina! Se eu acreditava que o homem tinha ido à Lua, se eu vira com os meus olhos. Que os jornais e os livros só diziam mentiras. Que nenhum homem pudera ter ido à Lua porque ele não vira. E que eu tinha sido enganado pelos jornais. Era mentira, talvez tivessem ido, mas tinham morrido todos. Que isso dos submarinos andarem debaixo de água era diferente: era a Terra. Quanto pagaria eu para ele me contar uma história daquelas, vinda do fundo do coração? ( E vai daí, faz um gesto como que proveniente das profundezas do mesmo mas, ou pela bebedeira, ou lá porque fosse, o gesto iniciou-se baixo demais e não pude deixar de comentar com a minha habitual ironia: "O seu coração está baixo demais!". ) Quis saber o que eu fazia - se era escritor e já escrevera o meu livro - e não acreditava que eu vivesse do ar e do vento. Enfim, que se tivesse 25 anos como eu estava mas é em Lisboa, que isso sim! E lá se ia agitando desequilibradamente o velho (de 57 anos), num asilo, convidando me (ou convidando se) para um copo ali na taberna, beata ao canto da boca com um grande morrão e deitando perdigotos como nuvem rota em dia de inverno. Mas nem queiram saber a insistência com que ele duvidava da ida dos homens à Lua. (MCG - 1972.10.23) ~ Évora

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Retratos (24) - Ai que mataram a Maria !

* Victor Nogueira
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O João e o Carlos foram a Arraiolos apreciar um órgão setecentista pelo qual este se apaixonou. Na Igreja entraram e ao coro subiram, para apreciá lo, autorizados pelo pároco. E ao descerem, o insólito! Não foram presos por uma unha negra. Contava uma velhota, que tinha estado à janela com o marido: "Ó "qualquer coisa", entraram dois homens para a Igreja, que não conheço!" Tiraram se de cuidados e assomaram à porta do templo, chamando pela Maria (a mulher da limpeza) Mas da Maria nem voz nem presença. "Ai que mataram a Maria!" "Ó homem, o melhor é chamar o Cabo da Guarda." (A Igreja fora assaltada na semana anterior). Mas, ou a Maria ou o prior apareceram entretanto. O que livrou o João do risco e do perigo de justificar (!) o tubo do órgão (uns 40 ou 50 cm) que, ao descer, trazia debaixo do casaco ... como recordação (sim, que um tubo dum órgão setecentista não são ... dois anéis num supermercado). Mesmo sendo diferentes a "lata" e o descaramento. (MCG - 1973.11.27)

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Retratos (23) - A malta de Lisboa

* Victor Nogueira
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É quase meia noite. (...) Hoje não me apetece nada ir a Lisboa! Lisboa é andar dum lado para o outro, a azáfama sem sentido. Outrora era a Universidade e a Associação dos Estudantes [do ISCEF] e o cinema. Depois, já em Évora, era a Emília e os nossos almoços e as conversas sobre o momento político e o movimento estudantil. (1) A ela se juntou o Luís Filipe (2), que andara comigo no 1º ano de Sociologia. Mas ... a Emília passou e a sua presença amiga e gentil é a lembrança da mulher e do afecto que não tenho nem consigo dar. O Luís Filipe é a divergência de caminhos: a minha radicalização - ao menos teórica e intelectual - e a sua aceitação desta sociedade, revelada no curso que tirou, no emprego que arranjou, na vida que levará. (MCG - 1973.11.16)
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Nunca o meu desencanto por Lisboa foi tão grande. Outrora, no outro tempo ... Havia os grandes passeios, os encontros, as idas ao cinema. Era o tempo da disponibilidade do Luís Filipe, da Emília, do Lampreia, do Zamith, do Martins Pereira, da Luísa Seia, estes [três] de Angola e meus velhos companheiros de Liceu (O Zamith já vinha da escola primária). Mas o tempo casou uns e levou outros e mesmo que ainda os veja, como estão distantes de mim! Passaram todos, e eu fiquei. (MCG - 1974.04.04)
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1 - Mais a malta de Angola e do Colégio Universitário Pio XII (o Jorge Zamith, o Martins Pereira) e do Centro de Estudantes Católicos de Luanda (o Duarte Pousada, o Duarte Pedro e uma moça de Carcavelos, a Luísa Seia).
2 - Mais a Isabel, com quem casou, e a Violete

terça-feira, 6 de novembro de 2007

Retratos (22) - O Carlos

* Victor Nogueira
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O harém do Carlos
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O Carlos faz hoje 24 anos, mas preferiu o harém dele a mim e ao Camilo. O nosso jantar fica para amanhã. (MCG - 1973.06.17) - Évora
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Está tudo dito: é um sentimental
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Disse ao Carlos que ia casar a 1 de Agosto. Ele ficou tão comovido, tão comovido, que até me deu vontade de rir. 'Tadinho dele. Depois disse lhe que tínhamos acabado tudo, e ele ficou tão triste, tão triste, que nem imaginas. Está tudo dito: é um sentimental! Se ouvisses os elogios que ele te fez, que nós estávamos talhadinhos um para o outro, blá, blá. De modo que tive pena dele e disse lhe que sim senhor, que íamos casar a 1 de Agosto. (MCG - 1973.06.26) - Évora

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Retratos (19) - Interrogativamente

* Victor Nogueira
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Telefonei-te, porque desejava falar contigo, ouvir-te, acalmar a contrariedade. De lá veio a tua voz tímida, pequenina e depois ... depois o silêncio, o "não percebo o que queres dizer", o "então deixa-me." Mas eu não queria magoar-te, apagar o teu sorriso bom e alegre, de salta-pocinhas que amo, no silêncio do meu quarto, e que perco tantas vezes. Parece me importante que as pessoas ajam com inteligência, procurando dominar os acontecimentos e as palavras e não serem dominados por eles. E não é isso que me está sucedendo. Mas queria-te também mais senhora de ti, lutando pelo que te diz algo. Daí as pedras que semeio ou em que por vezes transformo aquilo em que toco. De ti saberei apenas que esperas de mim amizade e compreensão (e talvez também ternura) Seremos capazes de dar isso um ao outro? Que é realmente importante? A nossa relação só tem razão de ser se for fonte de liberdade e alegria, para nós e para quem nos rodeia. Que não se transforme em pesadas cadeias pantanosas. Seremos nós capazes disso ? Estará certo o nosso caminho ? Seremos ambos capazes de reconhecê-lo ?
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A resposta busca-se no presente que me desagrada, sem saber em quem, onde e como encontrá-la ! E no entanto pareceria tudo tão fácil, amiga. Soubesse eu mais de ti. Fosse eu menos impaciente !
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Somos nós e não só eu quem deverá decidir do futuro da nossa relação. (MCG - 1973.04.08) Évora

terça-feira, 30 de outubro de 2007

Retratos (18) - D. Camilo, o Grande

* Victor Nogueira
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D.Camilo, o Grande
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O Camilo é um tipo lixado para trabalhar: deixa tudo para a última da hora - ainda é pior que eu - não tem horários normais e uns dias elabora esquemas transcendentes e complexos, para no dia seguinte, com o moral embaixo, mandar tudo à merda, porque não pode ser tão perfeito como imaginara. Sei que ele anda chateado e compreendo porquê. Sei que a vida desgovernada que leva não o favorece. Mas daí que passe a vida com racionalizações e justificações - que já não me convencem - para nada fazer porque não é como quer, bolas para isso. O resultado de tudo isso é que me vejo forçado a conceber, redigir e dactilografar todo o trabalho. Também por burrice minha. Porque devia marimbar-me para a sua casmurrice e não ter contrariedade nenhuma em obrigá-lo a trabalhar, malgrado a sua contrariedade.
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Com mil diabos. Passa os dias no café na conversa. Hoje faltou à aula de Planeamento [Social]. Serviu de pretexto o seu cansaço. Que ia para casa dormir. Chego ao café ás 6 da tarde e estava no paleio com o João Luís. Pergunto-lhe quando poderia redigir a introdução, que lhe competia, e respondeu-me com montes de justificações. Dizia que estava cansado e chateado, e pronto. Agora vir para ali com montes de justificações irritantes, porque despropositadas e improdutivas!... Enfim, bêbedo de sono, projectava ir à noite ao cinema e não sei quando para Beja. Que só poderia trabalhar amanhã à tarde. E entretanto, eu que me lixe. Sim, com o trabalho para enviar amanhã para Lisboa, ou redijo hoje tudo o que falta, ou mando assim mesmo ou espero que ele se digne arranjar disposição para trabalhar. Não lucro nada em irritar me, por contraproducente, mas aquele tipo podia ser um pouco mais realista, deixando se de evasões quando é preciso trabalhar. (MCG - 73.02.06) Évora

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Retratos (17) - L'arroseur arrosé

* Victor Nogueira
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Ontem o Diogo Fialho fez anos e fui apanhado para a festinha do costume. Como não podia deixar de ser alguém tinha de entrar pelos copos em mistura. Quem estava mais à mão de semear e convencer foi a Eglantina (com dois cálices a alegria extrovertida natural dela aumentou) mas a brincadeira saiu-me cara que ela só bebia se eu acompanhasse, e o cretino do Diogo Guerreiro (agora muito loquaz) enchia também o meu copo, em vez de disfarçar. Resultado: o estômago a arder - estou mesmo velho - e toda a ceia fora. O riso saiu me, pois, caro. (MCG - 1973.01.23) - Évora

domingo, 28 de outubro de 2007

Retratos - (16) - A toca da Margarida

* Victor Nogueira
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Na sua aconchegadora toca
rodeada dos seus amores
a Guida
com Bach e Beethoven
com as "humanidades"
com a Poesia
(POE - 1971.07.24) (1)
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Enquanto o Carlos fazia os seus estudos de piano e o Camilo vasculhava a secção de poesia da Margarida, (2) eu peguei numa folha que estava na camilha (3) da toca da Guida e fui rabiscando, com a caneta do Chico Bellizi, um pintor brasileiro de que terás visto comigo uma exposição no Palácio D.Manuel. Quando a Guida chegou ficou muito preocupada, não fosse eu estragar a caneta ao "queridinho". Mas é muito fácil desenhar com uma caneta daquele género. Tem um traço muito fino e sensível, contrariamente, por exemplo, à Pelikan com que estou escrevendo. (MCG - 1972.11.07)
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1 - Do poema "á Guida sem amor hoje", escrito em 1971.07.24
2 - A Margarida tinha estudado em França e depois viera para o ISESE. Era muito mais velha que nós e na casa dos pais tinha um quarto com pé direito baixo e óculo para o passeio com arcadas, sala que era o cenáculo dos intelectuais lá do sítio, onde eu fazia por vezes papel de elefante numa loja de porcelana. Era uma espécie de mãe com os seus pintainhos. Disso dá conta um dos meus poemas: À Guida, sem amor, Hoje.
3 - Mesa redonda, coberta, com braseira em baixo, ao centro,

sábado, 27 de outubro de 2007

Retratos (15) - Os deleitos do Camilo

* Victor Nogueira
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Estava eu para aqui alinhavando estas linhas (...) quando o Carlos me entrou pelo quarto dentro, com um "Ah! Estou muito cansado. Imagina lá que andei com o Camilo a ver monumentos; pela milésima vez fui ao Museu e à Sé". Sabes, por causa do Camilo andar na fase cultural! ( O menino agora anda a estudar latim, não conseguiu convencer qualquer de nós - eu e o Carlos - a acompanhá lo em tão profundos estudos, mas nem por isso consegui escapar ás longas dissertações ali à mesa do Arcada, especialmente quando descobriu um interlocutor: o Régua, que também estudou latim! (MCG - 1972.10.07)
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Mas eu já estou calejado demais para trovejar como o Camilo ou ficar com a lágrima ao canto do olho como o Carlos. (MCG - 1972.10.18)
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Já devia ter me levantado para cerrar a janela escancarada, através da qual entram não só o frio como os alegres e rápidos acordes duma qualquer composição para piano que um dos co-hóspedes do Camilo põe a tocar frequentemente. (MCG - 1972.11.08)
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Na mesa ao lado o Camilo escreve. Deve ser o 3º testamento, nesta tarde. (...) (MCG - 1973.01.16)
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Passa os dias no café na conversa. Hoje faltou à aula de Planeamento. Serviu de pretexto o seu cansaço. Que ia para casa dormir. Chego ao café ás 6 da tarde e estava no paleio com o João Luís. (...) Não lucro nada em irritar me, por contraproducente, mas aquele tipo podia ser um pouco mais realista, deixando se de evasões quando é preciso trabalhar. (MCG - 73.02.06)
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Passo agora horas seguidas a escrever, quer rascunhos manuscritos, quer dactilografando. Há pouco o Camilo berrou me ali da casa dele para eu deixar de escrever à noite, pois está farto do tac-tac da máquina [pela noite dentro]. Mas cá em casa ainda ninguém se queixou. [A casa dele ficava na Rua dos Mercadores, o quarto dele na direcção do meu, avistando se os terraços de ambas as casa] (MCG - 1973.04.14)
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O Arcada é um zum-zum de vozes e louça e máquinas e cadeiras atiradas. Na mesa ao lado o Camilo delicia-se com o "Ricardo III" do Shakespeare. De vez em quando comunica-me um ou outro dos diálogos da peça. (MCG - 1973.06.08)
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O Carlos e o Camilo só estão bem na poluição do Arcada. Quem lhes tirar a fumarada tira lhes a vida e o ser !!! (MCG - 1973.07.03)

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Retratos (14) - De balde procurando emprego

* Victor Nogueira
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Évora, já em tempo normal de aulas é de um tédio estupidificante, assustador. Pensei arranjar um emprego, mas aí começam as dificuldades, pelo menos pensando em termos de Évora. Inscrevi-me no Serviço Nacional de Emprego, (por descargo de consciência, mas sem grande esperança), e no Liceu (há uma vaga para professor de Geografia do 4º, 5º e 7º anos). (NSF - 1971.11.17)
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Baldadamente tenho procurado emprego. Um lugar de professor de Geografia no Liceu ardeu, por falta de cunhas. Um lugar de professor de Matemática na Escola de Regentes Agrícolas de Évora (à falta de Engenheiros Agrónomos interessados) é uma possibilidade a confirmar (ou não) na próxima semana. Um emprego junto dos serviços profissionais possibilitar-me-ia ir preparando o trabalho de fim de curso. Traduções ou explicações são outra hipótese para melhorar a minha (crónicamente) desiquilibrada situação financeira. Outras poderiam surgir ou ser encaradas, mas o caracter eventual que têm de assumir, (quase) forçosamente, é uma grande dificuldade. (NSM - 1971.12.09)

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Retratos (13) - Daqui desta terra

* Victor Nogueira
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Aqui estou no meu quarto, buscando para ti as palavras que não encontro, corpo sem imaginação mas irritado e desassossegado pela constipação que me percorre as veias e me enche dum nervoso miudinho. Busco para ti as palavras dos outros, nos livros dos outros, os ponteiros aproximando se das nove e trinta, hora da vinda do homem que levará de mim as letras que cadenciadamente vão surgindo no papel branco que já não é só! Busco as palavras e apenas encontro estas, hoje vazio de ti pela tua ausência, ontem pleno pela nossa presença. São vinte e uma e vinte, hora de parar, os livros espalhados pela mesa, o corpo quebrado, a imaginação e a voz quase secas e frias. Daqui desta terra, para ti noutra terra, te abraço e beijo com ternura e amizade, na memória do tempo que fomos juntos. Aqui estou! (MCG - 1972.09.21) - Évora

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Retratos (12) - Dia do correio

* Victor Nogueira
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São 12:30. [Em Paço de Arcos] ouço o portão chiar e assomo à janela ... e não vejo ninguém (Algum miúdo que entrou e saiu, penso eu). Mas eis que batem com a aldraba na porta. Abro-a e lá está o carteiro no gesto habitual, mão estendida com as cartas (hoje, apenas carta!) Cumprimentamo-nos e agradecemos mutuamente. Fecho a porta. Regresso à sala de estar, pego na tesoura para abrir o sobrescrito, que resguarda as notícias da Celeste. "Olá, mocinho! Tenho apenas 21 anos dizem-me (a idade das, de algumas liberdades consentidas) ... " e continuo numa surpresa crescente, como a quem se revela numa faceta até aí ignorada. Todo eu sou uma crescente surpresa estupefacta! Apago o gira discos - que transmite canções do Nelson Eddy. Estou agradavelmente surpreendido e preciso de concentrar me para perceber isto tudo, estas linhas inabituais. Volto ao princípio. Releio com os olhos, com a inteligência, com sofreguidão, com todo o meu ser, para aperceber me duma Celeste desconhecida. Surpreso, não tanto pelo conteúdo, mas pela forma, pela linguagem invulgar (nela). É verdade que há alguns "senãos". (Não me apercebi ainda, p.exemplo, que ela soubesse que existe uma "certa técnica" aprendida, de beijar). Continuo a ler e, repentinamente, tudo se desmorona, numa enorme decepção. "Não Victor, tens razão, o palavreado não é meu ... "
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Resta-me pois saber como é a personagem dum conto de [Urbano] Tavares Rodrigues com quem te queres identificar. É uma curiosidade desenganada que fica em mim. (MCG - 1972.09.06) - Paço de Arcos

terça-feira, 23 de outubro de 2007

Retratos (11) - Mestre «Cuca» I

* Victor Nogueira
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Estou com um grave problema, pois já me esqueci das recomendações das minhas tias (eu bem lhes disse para deixarem-mas escritas): será que as batatas se põem ao lume durante 15 minutos? E quanto ao feijão verde? Deita se no tacho quando a água ferver. E depois? Continua? Apaga se o lume? Bem, o que for se verá! (MCG - 1972.08.23) - Paço de Arcos
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Nota - Agora já sei cozinhar !!! Não acreditam? Combina-se um almoço mas a sobremesa fica por conta dos/das descrentes. Mas há lugar também para quem não for descrente :-)

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Retratos (10) - A malta de Luanda

* Victor Nogueira
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Para além disso tenho me encontrado com a malta conhecida [em Luanda]. Alguns dos meus tempos de menino e moço. O Pedro [Andrade Ferreira], o homem das mil e uma ocupações: locutor e produtor radiofónico, futuro controlador de tráfego aéreo do Aeroporto de Luanda, estudante no Instituto Industrial de Luanda. No fundo um miúdo falador e sonhador de 22 anos. Sonhador como a irmã, a Leonor, um ano mais nova. Uma paz de alma cuja indecisão me irrita. Estudante no Instituto Industrial, há três anos queria ir para Engenharia, o ano passado para Medicina, este ano para Arquitectura., se passar agora nos dois exames de 2ª época [Passou!] No fundo ambos querem dar o salto, i.e., saírem de casa, mas não têm coragem, parece-me. Temos depois o João [Coimbra] (tão diferente do miúdo que foi meu vizinho!) e a Estrela [irmã dele]. Admiro a, porque tendo muito mais problemas familiares, com que sofria, entrou para o Liceu depois de mim (tem 22 anos) e terminou o ano passado o curso de Germânicas. Como a Inês, (irmã mais nova do Pedro) e o nosso criado [o Fernando] são quase os únicos que ainda me chamam como antigamente: Vitó.
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De todos eles é com a Estrelinha que estou melhor, talvez por termos mais experiências recentes em comum, já que convivemos aí na Metrópole quando estive em Lisboa.
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As idas à praia, as corridas de automóveis em miniatura, os jogos de cartas, "os polícias e ladrões", as zangas, as colecções de autógrafos, tudo isso já está tão para trás, que quase não consegue dar calor e vivacidade às nossas relações de agora.
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São estes os da geração antiga, quase desconhecidos; por retraimento, uns (Leonor), ou por falta de convivência (João). Quanto ao Pedro, os nossos interesses são manifestamente diferentes.
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Temos depois os novos: o Nuno, licenciado em Económicas, que me aturou algumas neuras nos meus tempos de Lisboa, e a Ana Maria que, minha companheira na cantina de Económicas, à mesa, casou com ele o ano passado. E a Maria Antónia, agora ausente na Metrópole. (...) Gosto de conversar com ela, talvez pela ingenuidade e naturalidade dos seus 18 anos e da cordialidade das nossas relações, embora me aborreça um certo ar de "mais velho" que assumo. Penso que talvez funcione para ela com um - eu diria - irmão mais velho com quem fala à vontade de assuntos ... que normalmente me habituei a não abordar!
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Todos estes e tantos outros fazem me sentir o desconforto do meu exílio em Portugal, mais precisamente em Évora. Estou cansado dele! (NSM - 1971.12.01/03)
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Hoje estou com uma grande melancolia. Veio me à memória o passado, esse passado que é apenas memória. Lembrei me da Fátima Marques, que encontrei ontem no Rossio, em Lisboa, ao fim de quatro anos. Das notícias que me deu da Cristina e do pimpolho que lhe nasceu há dias. Fiquei contente por nos vermos ao fim de tantos anos e falarmos como se nos tivéssemos deixado na véspera. A Fátima e as suas novas trazem me à consciência a malta do Liceu em Luanda. Que é feito deles? Tantos deles? Alguns que ainda vejo de vez em quando [alguns ao virar duma esquina em Lisboa] - os amigos desde os dez anos; do Liceu (o Jorge Zamith e o João Seabra) ou da vizinhança (o Pedro, a Leonor, o João e a Estrela). Que é feito dos outros: o Rui Branco, o Victor Morgado, o Pepe, o micro Torres, a Isabel Franco, a Teresa Soares, a Teresa Melo, o Barradas de Oliveira, o Costinha, o Bustorff ... Tantos eles são! O tempo das "guerras" nos morros junto ao Liceu ou dos polícias e ladrões! Onde está o tempo mais recente das reuniões debaixo da [enorme] árvore, no Liceu de Luanda, junto ao campo de hóquei? (MCG - 1972.09.06)

domingo, 21 de outubro de 2007

Retratos ( 9) - Salut, camarada!

* Victor Nogueira
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Se puede enganar
a todo el pueblo
parte del tiempo
Se puede enganar
a parte del pueblo
todo el tiempo
pero no se puede enganar
a todo el pueblo
todo el tiempo.

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(Lincoln)
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Aqui está a minha esperança! Nós venceremos. Mesmo que eu seja derrotado ou me venda, outros tomarão o meu lugar, empunharão o estandarte! Algum dia venceremos! Algum dia! Salut, camarada! (MCG - 1972.08.13)

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Retratos (7) - Um génio genial

* Victor Nogueira
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Estirado no divã, olhos fechados, o Carlos [Nunes da Ponte] ouve as gravações [de órgão] que efectuou no sábado - algumas composições de sua autoria, outras de Bach. Está contente com a sua genialidade. (MCG - 1972.07.10 - ?) - Évora