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quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Ao (es)correr da pena e do olhar (35)

* Victor Nogueira
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Não estava propriamente á espera de receber uma quilométrica carta tua, duma profundidade envolvente. Não, nada disso, que as férias fizeram se para descansar, com a leveza duma folha levada pela brisa! Mas ... ao menos a ligeireza dum olá na brevidade dum postalito! Enfim ...
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Não sei se terás regressado de Espanha e se andarás já em mudanças e decorações. Quanto a mim, acabei por não sair de Setúbal, salvo uma ida de Alcácer a Santiago de Cacém. As criancinhas não quiseram sair comigo, não aceitei dois convites e fiquei me por esta santa terrinha ás voltas com o computador, registando matéria prima para desenvolver em três livros: um de viagens e de estadias (subdivido em África e Portugal), outro de retratos e um terceiro de criticas cinematográficas, audições musicais e referencias bibliográficas. Desta vez deixei me de poesias e lancei me á prosa, através de re-leitura das cartas que escrevi com regularidade em 1975 e de 1968 a 1971 e quase diariamente entre 1973 e 1974. Aliás este espólio epistolar já deu origem a dois outros livros: Os dias da Revolução e Ao (es)correr da Pena. Material que não jaz, inédito, no fundo duma qualquer gaveta, mas sim, devido ás novas tecnologias, repousa nos "clusters" do disco rígido do computador e das disquetes de segurança.
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Farto de doze horas diárias madrugada dentro tique-taquendo o teclado, acabei por decidir passar a última semana de férias em Évora que foi para mim burgomedieval perdido na planície alentejana, base para incursões pelas terras circunvizinhas. Mas o homem dispõe e as alergias e constipações indispõem. Pelo que tive de passar a última semana em casa, de novo em cerrado tique-taque para afastar o tédio, cheio de pingadeira e com uma farmácia ambulante após uma consulta de 6 mil palhaços e o dobro em remédios.
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Pois é, o Rui não quis ir comigo para Lisboa, com cenas lancinantes pelo meio: que não conhecia lá ninguém, que em casa dos tios não tinha nada que fazer salvo ver televisão ou jogar no computador, que os amigos estão em Setúbal que queria ir á praia e passear com eles, que tinha de ir visitar a avó (materna) no Faralhão ! .... Lá se acordou que ficaria dois dias em Setúbal, com a irmã aqui em casa, iria dois dias para casa da avó e depois iria ter comigo a Lisboa. Mas entretanto desisti da minha ida a Lisboa. Sabes o que ele tem feito: passa o dia a ver televisão (não perde nada de desporto, ouve a mesma notícia nos vários canais e lê com maior desenvolvimento no RECORD, quando não está a jogar computador. Praia e casa da avó, nada! Amigos: jogavam á bola ao fim do dia ali no Parque da Lanchoa, mas entretanto zangou se com o grande, "velho" e vizinho Bruno. (ao fim de 16 anos descobriram que os feitios chocam se e a "separação" já tem dias).
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Bem, por aqui me fico.

(MCF) Setúbal, 1996 . SET . 07

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Ao (es)correr da pena e do olhar (34)



* Victor Nogueira


Setúbal, 1995. ... ... Voz do Operário é a última linha escrita num «bloco» que não chegou a livro, intitulado «Textos ao (es)correr da pena e do tempo». O tempo foi passando e ficou apenas o essencial, que os saborosos detalhes perderam-se na bruma dos tempos e da memória. O que restou foi o «Passa, Camarada», que podem ler
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Se quiser SABER algo mais sobre a instituição clique em A Voz do Operário e em A Voz do Operário, Lisboa - Portal da Voz
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Fotos da fachada exterior e da sala de espectáculos d'A Voz do Operário

terça-feira, 9 de outubro de 2007

Ao (es)correr da pena e do olhar (33)

* Victor Nogueira

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Se me ficasse apenas pela aparência do que os meus olhos vêm, a neblina e o cinzento que envolvem a cidade prenunciariam um dia frio, de chuva miúdinha. Mas o suor goticular que permanece à flor da pele sem que se evapore indica que o resto do dia, para além de nublado, será quente e húmido. Uma boa chuvada seguramente que refrescaria o tempo e afastaria este pesado chumbo que me envolve, que em Luanda, na estação quente, prenunciaria grandes e violentas bátegas de água quando não relampejantes e ensurdecedoras trovoadas. Mas este é um país de brandos costumes, de pequenas tempestades, de meias águas e de meias tintas. E depois nem sequer há os quilómetros de areia de praias para mergulhar como na minha terra perdida. Como se não bastassem os ajuntamentos, as praias da costa da Arrábida estão na sua maioria impróprias para consumo devido ao elevado grau de poluição. De modo que ao fim do dia, após o emprego, resta apenas a água fresca do chuveiro.
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Já mudámos de edifício, vai para mês e meio. Agora trabalhamos no centro da cidade, mas as relações entre as pessoas alteraram-se radicalmente no enorme casarão de seis pisos e paredes frias onde se concentraram vários serviços municipais até então espalhados pela cidade. Distribuídos que estamos pelos vários andares com múltiplos corredores e gabinetes, maior é o isolamento pois menos vezes nos cruzamos uns com os outros, para além de se ter tornado menos natural assomarmos e permanecermos nos gabinetes uns dos outros. Fiquei num gabinete pequeno, com o meu colega geógrafo, e porque a sala é pequena e sem estiradores, foi possível torná-lo menos árido e mais acolhedor que os enormes salões onde despejaram engenheiros, arquitectos e desenhadores, perdidos no meio dum espação onde largaram o mobiliário de estilos e feitios díspares.
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E por deambulações, um fim de semana destes, no final de Abril, fui até à Madeira, à terra do Alberto João (Jardim), como lá é conhecido. Tirei algumas fotografias e comprei alguns postais; visitei a ilha quase toda, que em muitos sítios me fazia lembrar terras do continente: aqui as Serras do Gerês ou de Sintra, além a linha do Estoril, acolá a Serra da Arrábida ou os socalcos dos vinhedos do Rio Douro.
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Mas não gostaria de viver numa ilha, especialmente numa ilha tão alcantilada e sem uma única praia, que só existem na Ilha de Porto Santo, onde não fui. Novidade novidade para mim foi ter estado no interior árido da cratera dum vulcão extinto - o Curral das Freiras - ou ver o mar lá em baixo, a 500 metros, na berma duma estreita e sinuosa estrada ou passar com relativa rapidez da beira-mar ao cimo do monte, do calor ao frio relativo, serpenteando pelas estradas sinuosas onde nalguns sítios não cabem dois carros lado a lado. Mas o isolamento das várias povoações tem sido ultrapassado pela construção de túneis e viadutos, que encurtam as distâncias mas normalizam os usos e costumes. Vi poucas flores, salvo em Santana e nos jardins do Funchal. De resto a ilha é duma vegetação luxuriante nalgumas zonas e duma enorme aridez noutras.
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Quanto às povoações, nada de especial têm quanto ao estilo dos edifícios, que na maioria dos casos se confundem com os de qualquer dormitório de vivendas sem qualidade nos arredores duma qualquer grande cidade do continente. Santana, para turista ver, conserva alguns exemplares das primitivas casas, de alçado triangular como no Norte da Europa, com telhado de colmo e paredes de madeira. Também no centro do Funchal as casas fazem lembrar as do Norte de Portugal, o que indicia que os primeiros povoadores (e os seguintes) teriam vindo lá de cima. Á noite esta cidade também é bonita, com as luzes cintilando pela íngreme encosta acima.
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Mas nem tudo são belezas; há miséria e gente a pedir em muitas terras do interior e no Funchal os meninos pobres que habitam o alto da encosta descem à cidade para a prostituição e o roubo; aliás aqui há tempos foi exibido nos cinemas e na televisão um filme, que não vi, sobre a vida destas crianças, salvo erro denominado Mário.
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Setúbal, 94.06.15

Ao (es)correr da pena e do olhar (32)

* Victor Nogueira
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Pois é, lá se vai dentro em breve o meu privilégio de trabalhar a escassos metros de casa; o Presidente fez uma reunião com o pessoal do Departamento de Habitação e Urbanismo para comunicar que dentro de dois meses vamos mudar com armas mas sem bagagens para um edifício novo, com quatro ou cinco pisos, no centro da cidade, perto dos Paços do Concelho. Aqui em cima estamos distribuídos por dois pisos no que também esteve para ser um centro comercial, agora transformado em autêntico labirinto com portas, corredores, escadas e paredes envidraçadas por todo o lado. Uma autêntica ratoeira em caso de sinistro mas, como se costuma dizer, em casa de ferreiro espeto de pau. Pois é, sempre é melhor irmos para o Centro da cidade, não só porque há mais economias nas comunicações entre os serviços e nas deslocações dos munícipes, mas também porque há mais vida e movimento na Baixa.
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Quem encontro todos os dias é o meu velho Renault 5. O novo proprietário, que é mecânico, já lhe tirou as amolgadelas e a ferrugem e qualquer dia aquele chasso até parecerá um Rolls Royce.
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Ao lermos uma novela ou uma história imaginamos as cenas, a paisagem, os personagens, dando a estes uma voz, uma imagem física. Por isso às vezes a transposição para o cinema revela-se-nos uma desilusão. Quando leio o que a Maria do Mar me escreve(u) surge perante mim a sua imagem neste ou naquele momento da nossa vida, uma pessoa simples, encantadora, gentil e delicada.
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Setúbal, 94.02.23

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Ao (es)correr da pena e do olhar (31)

* Victor Nogueira
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Esteve hoje um domingo bonito, soalheiro e primaveril. Mas não me apeteceu andar por aí a deambular sozinho, nem ir a casa do Zé e da Madalena, no Seixal.
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De modo que fiquei aqui em casa, às voltas com o computador, aperfeiçoando-me na utilização de programas de cálculo matemático e de construção de gráficos. Fora isso fiz por aí uns consertos e reparações, mas como não comprei as buchas para os parafusos ainda não foi desta que instalei a tomada de corrente na parede do corredor para ligar o aquecedor a óleo, que muita falta me tem feito nestes dias frios, de bater o dente. Não encontrei ainda os vedantes metálicos para as janelas.
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A Maria do Mar já deve ter recebido as duas fotografias que lhe mandei, embora não me tenha dito qual a sua opinião acerca das mesmas e se escolheu alguma delas para o seu porta-retratos. Hoje enviei-lhe as que lhe tirei na sua bonita sala, embora tenham ficado escuras. Comprei umas molduras grandes para decorar as paredes com as ampliações das minhas melhores fotografias, mas depois quando as fui seleccionar não me agradou nenhuma delas. De resto cada vez gosto menos da minha casa, embora seja nela que passe muito tempo, quando não ando na rua ou por aí.
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Antigamente, aos fins-de-semana, ia até à Serra da Arrábida ou até ao morro de S. Filipe ou para a Estrada da Comenda, o carro debaixo da sombra duma árvore para ler o jornal e para ouvir música. Mas agora fico-me pelo descampado no cimo das escarpas de S. Nicolau, onde as árvores ainda não cresceram e para onde agora vão muitos carros, demasiados para o meu gosto. Aliás cada vez mais a cidade está sendo separada do rio, por causa do aumento do Porto de Setúbal, e cada vez mais nos arredores as casas substituem as árvores ou o arame farpado impede o acesso aos campos.
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E nas minhas longas e solitárias noites leio, vejo filmes ou estou agarrado ao computador, quando não ao telefone. Deito-me sempre muito tarde, entre as 2 e as 5, e depois o tempo para dormir é pouco, pois levanto-me entre as 8 e as 9. Vantagens de morar a escassos metros do local de trabalho e de ter horário flexível. Há dias em que ando bêbedo de sono, mas á noite é que faço algumas das coisas que me dão prazer (ler, escrever, conversar, ver cinema, aprender coisas novas), que normalmente não faço durante o dia, dividido que estou, muitas vezes sem prazer, entre a actividade sindical e o trabalho na Câmara.
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Aliás cada vez mais me custa ir para a Câmara, onde me dou bem com toda a gente. Mas de qualquer modo já nos conhecemos a todos uns aos outros: as conversas, as reacções e os tiques de cada um. Depois, no meio disto tudo, há os filho(a)s da mãe, que sorriem mas pela calada espetam o dente e o punhal afiados.
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Antigamente havia mais convivência, porque os gabinetes eram salas enormes; agora e desde há uns anos as salas foram sendo divididas e subdivididas em gabinetes cada vez mais minúsculos. As pessoas estão mais isoladas e formam-se grupos e subgrupos, que se encontram em cafés diferentes: os fiscais no café lá em cima, no largo, os desenhadores neste ou no café das escadinhas, os técnicos no café das escadinhas, abandonado que foi o café das manas, onde continuo a ir com a Arqª. Arminda ou com a Arqª. Nina e onde vai o pessoal da Secretaria. E isto para não falar das chefias, que já deixaram de se misturar com o maralhal.
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Nunca gostei de ser professor, mas era uma profissão com algumas vantagens: havia sempre caras novas (alunos e professores) e havia tempos livres para andar na rua, nas horas em que o resto da malta estava atrás dum balcão, sentado a uma secretária ou preso na oficina.
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Desde há pouco que comecei a sentir o frio a entrar-me nos ossos; olho pela janela e reparo que é já noite; defronte a mim o relógio diz-me que são quase 20 horas.
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Bem, vou fazer para ali uma mistela para comer. Depois acabarei de ver um filme policial que gravei esta madrugada. (Um outro, do Jerry Lewis, que não aprecio muito e me causa um certo constrangimento, ficou sem o final, devido ao incumprimento de horários pela televisão).
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Nas minhas idas a Lisboa, acabadas as reuniões, vou até ao cinema. Gosto de ir às sessões do fim de tarde. Duma das últimas vezes gostei muito da Idade da Inocência: um filme muito bonitinho, de Martin Scorcese, mas duma extrema violência, passado na alta sociedade nova iorquina da passagem do século. Sob o manto diáfano das boas maneiras e dos sorrisos, a extrema violência da hipocrisia e das convenções sociais, da escolha da segurança e do bem-estar em detrimento da loucura do amor e da paixão.
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Outro filme que vi foi M.Butterfly. A Madame Butterfly é uma ópera que canta os amores dum ocidental por uma japonesa, que se suicida quando aquele a abandona, comoventemente para o público ocidental. Com base nisso, o filme narra a paixão (verídica) dum diplomata francês pela intérprete de M.Butterfly no Teatro de Pequim. E o que parecia uma grande paixão, iniciada na China e prosseguida em Paris, anos mais tarde, não passaria duma sórdida história da paixão e degradação dum homem apaixonado por outro homem, ambos presos e condenados por espionagem.
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Claro que uma leitura linear pode levar-nos a perguntar como pode um diplomata desconhecer que na China os papéis femininos eram interpretados por homens (como aliás na Europa, nos tempos de Shakespeare ou de Gil Vicente) ou como pode um homem manter uma relação amorosa com uma mulher (afinal homem) que simula uma gravidez ( que implica a existência de relações sexuais ) sem que alguma vez durante anos o suspeite? (Aliás caso semelhante teria acontecido em Portugal com a história da generala). Mas é o próprio francês que nos dá a resposta, quando afirma que se apaixonou não por um homem, mas sim por uma mulher criada por um homem (e quem melhor que um homem pode saber o que um homem pretende duma mulher, perguntar-se-á? Ou, na mesma ordem de ideias quem melhor que uma mulher para saber o que uma mulher espera de um homem? ). E no fim é o francês que se suicida, num acto teatral, travestido de Madame Buterfly, enquanto o espião chinês é deportado para a China).
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Afinal todo o amor (ou a paixão?) não será senão uma encenação, uma ilusão dos sentidos, uma elaboração mental, uma construção ( social ? ) que em certa medida a sabedoria popular expressa em ditos do género O amor é cego ou Quem o feio ama, bonito lhe parece ?! O que me levaria ao programa do Júlio Machado Vaz, Sexualidades, que já não via há muito tempo, ontem dedicado ao namoro e ao casamento ou ajuntamento, ao (des)conhecimento das pessoas, aos papeis masculinos e femininos, com filhos, filhas e algumas mães e nenhum pai. Por sinal todas as mães presentes (nenhuma divorciada ou solteira) com ausentes mas compreensivos maridos. É impressionante como a maioria dos homens e das mulheres (esposas e mães incluídas) se educam mutuamente, não para a liberdade e o respeito mútuo, não para a entre-ajuda e a solidariedade, mas para a negação disto tudo. Aqueles seriam pais e filhos diferentes da maioria, apesar de tudo. É difícil ser diferente, querer construir uma relação à margem das convenções sociais, que não libertam mas aprisionam.
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Setúbal, 1994.02.20

domingo, 7 de outubro de 2007

Ao (es)correr da pena e do olhar (30)

* Victor Nogueira
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E pronto, o 1º de Janeiro de 1994 é quase passado e acabaram as transcrições de textos que jaziam aqui no computador. Olho pela janela e o céu já escureceu. Ouço o leve ronronar do ventilador do computador e o ruído das motorizadas lá em baixo na avenida. Tive duas visitas: o Caló e um irmão, que vieram pedir um pacote de leite e a quem além disso dei dois chocolates. Vou fazer o jantar e depois sentar-me-ei frente à televisão para ver o filme "Aconteceu no Oeste", para além do último episódio da série policial britânica "Último Suspeito". Entretanto serão altas horas da madrugada.
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Setúbal, 1994.01.01
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Está um domingo nem chuvoso, nem soalheiro. Está uma tarde gélida: o frio entra pelos interstícios das janelas como lâmina cortante e tenho o corpo gelado, apesar dos agasalhos. Os meus tios foram sair ver uma exposição no Centro Cultural de Belém, eu resolvi ficar em casa. Se tivesse o meu carro metia-me com as rodas á estrada. Assim fico por aqui até 2ª feira; nos dias seguintes irei ao fisiatra e aos restantes especialistas por causa das minhas maleitas. Esperemos que a Fátima {secretária da Divisão de Planeamento Urbanístico e minha amiga, que entretanto faleceu inesperadamente] me tenha marcado as consultas todas. Entretanto retornarei à chateza do emprego e duma vida que me vai escorrendo sem entusiasmo.
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Sinto-me desanimado e cansado das minhas ilusões, dos sentimentos por mim supostos em outrem. Dói-me voltar sempre ao mesmo, sem esperança nem futuro. Mas na vida não há caminho senão aquele que nós, caminhantes, abrimos ao caminhar. E qual é o caminho que a minha amizade pelos outros abre? Qual é o caminho que os outros me abrem ?
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Paço de Arcos, 1994.02.06
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Está uma tarde fria e cinzenta. Almoçamos em casa do Zé e da Ana. O Zé e o sr. Caldeira cantaram músicas do Alentejo; o pai da Ana tem uma voz muito bonita. O Rui também abrilhantou o almoço, com a sua viola, que já toca bem. Com os seus truques de magia e cartas, bem poderia começar a pensar em animar as festas de bairro!
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A Susana foi dar uma volta; ficou de vir às seis para irmos ao Jumbo comprar a prenda para o César, o filho da Ana e do Zé (de Pias), que hoje fez 3 anos. Quanto ao Rui, comigo, é mais caseiro e agora anda para ali aos saltos com o Bruno, desalojados que foram do computador, e em animada conversa com a Catia e a Aida, as filhas mais velhas da Ana e dum outro Zé (da Amareleja), com quem vivem.
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Setúbal, 94.02.06

sábado, 6 de outubro de 2007

Ao (es)correr da pena e do olhar (29)

* Victor Nogueira
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Está uma tarde cheia de sol, embora fria, que o tempo não é de calores. Alguém faz obras em casa; suponho que sejam do vizinho de baixo as marteladas que ressoam enquanto toda a tarde se tem ouvido o ruído do tractor removendo terra e pedras lá em baixo, concluídos que estão os edifícios até agora em construção aqui em frente.
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Já comprei um carro novo, um Ford Fiesta, embora só mo entreguem para a semana. Preferia que fosse assim como branco amarelado, para se notar menos o pó, mas não havia e acabei por ficar com um cinzento-azulado metalizado, uma côr também bonita. Entretanto tenho que desfazer-me do meu Renault 5, velho e cansado companheiro de viagens em Portugal, do Algarve até ao Minho. O dinheiro que receberei com a sua venda (25 a 50 contos) não me dará nem para o tabaco (que aliás não fumo senão em baforada dos outros!), mas transferindo os seguros para o novo sempre faço uma poupança anual de 25 contos. Para além disso precisa dum conserto de 30 e tal contos. Mas, como não encontro a Maria do Mar e como anda ausente de mim e não me falou mais no assunto não será nele que aprenderá a conduzir, pois para outro fim não me interessaria ficar com o Renault.
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Comecei já a fisioterapia e sinto-me melhor da espinhela. (...)
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Em Dezembro irei gozar o resto das férias. Ainda ficarei com sete dias de folga por trabalho extraordinário não remunerado, que espero aproveitar para ir ao Porto em Dezembro.
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Recebi uma proposta para ir trabalhar para Lisboa, pelo menos durante um ano, com possibilidade de não utilizar o meu carro em serviço e nas deslocações para casa. Mas ainda não voltei a abordar a questão, em parte porque não me apetece fazer diáriamente a viagem entre Setúbal e Lisboa, em parte porque não me apetece ficar em casa dos meus tios, em parte porque prefiro saber primeiro os resultados eleitorais. (...)
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Numa rua da Baixa reencontrei Joana Com Sabor a Cravo e Canela, de quem não sabia há muito e fiquei contente e comovido por voltar a vê-la.
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Setúbal, 1993.11.20
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Hoje, que escrevo á Maria do Mar, é o primeiro dia deste ano de 1994. Hoje, que ela me lê, é o primeiro dia do resto de nossas vidas. Cada dia que passa é sempre o primeiro dia do resto de nossas vidas. A única diferença é haver cada vez menos primeiros dias á nossa frente.
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(...) Gosto muito dela e ás vezes parece-me que sem ela a vida não tem sentido. (...) Mas ela constrói uma fortaleza, perante mim e á sua volta, cheia de incerteza, nevoeiro e "sentinelas". Mas eu não quero conquistar fortalezas nem convencer sentinelas. Queria apenas que fôssemos um campo aberto onde o mar e a brisa corressem livremente. Queria apenas e simplesmente estar com ela, sem armaduras e sem este cansaço e sem esta fartura duma vida cinzenta e sem horizontes.(...)
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Procuro não ter pena de ninguém. De mim rio-me com frequência (ainda não perdi a capacidade de fazer humor com as minhas desgraças e desgostos e talvez seja por isso que ainda me vou mantendo à tona). Dos outros não me rio. Procuro ajudá-los, ser-lhes prestável, dar-lhes a minha solidariedade. Sobretudo com os actos e menos com palavras, por muito belas e grandiloquentes que sejam.
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Setúbal, 1994.01.01

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Ao (es)correr da pena e do olhar (28)

* Victor Nogueira
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Desta vez é que fui mesmo ao tapete, usando a gíria do pugilismo. Pois é, desde 5ª feira passada (23 Setembro) que mal me aguento nas canetas, pelo que na 6ª voltei ao médico, que me queria passar um atestado para ficar em casa, decisão que adiei para 2ª feira (27 Setembro). Está um fim de semana bonito, soalheiro, grande parte do qual passado a dormitar, eu que normalmente não consigo dormir de dia e que me deito já quando a noite vai alta. Porque me sentia bastante embaixo ainda telefonei à minha vizinha Estrela para me comprar pão, fruta e os jornais, mas como ela já saíra tive de meter-me no carro para ir ao Jumbo abastecer-me. Mas hoje, embora zonzo, lá saí novamente á hora de almoço para comprar o jornal.
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Isto dos médicos é uma ova, porque amigos amigos, negócios á parte. Claro que a médica deveria ter-me auscultado quando a consultei no regresso de férias, porque lhe dissera que tinha estado com problemas na garganta durante férias, que tentara resolver com auto-medicamentação. Como o não fez, uma semana depois estava lá (re)caído, descobrindo então a lástima em que eu tinha a garganta e os brônquios. No entanto, na semana seguinte tive de lá voltar, á consulta não dela mas do marido, porque não estive para passar o fim de semana com violentos ataques de tosse. De modo que o médico decidiu-se pelos antibióticos e uma radiografia. Tudo bem, só que cada consulta é paga, pelo que um tipo que já não tem amor aos médicos (e ás médicas) não fica muito encantado com as recaídas ou tratamentos deficientes, mesmo que os Serviços Sociais do Pessoal da Câmara paguem 80 % do valor de qualquer consulta e a totalidade dos medicamentos.
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Disse um dia destes que relera com emoção um poeta que é o Eugénio de Andrade. Dou comigo a relê-lo com uma certa tristeza. Porque afinal muitos dos poemas do Eugénio de Andrade expressam não a plenitude da alegria do amor alcançado mas a nostalgia do que se perdeu ou não alcançou.
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A propósito, noutra ocasião, por lapso, escrevi "Prefiro o amor á amizade ... " quando o que deveria ter saído seria "Prefiro a amizade ao amor". Mas hoje não me apetece dissertar sobre este tema.
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Houve na minha vida dois breves tempos de grande alegria, libertação e crença numa vida diferente: os meses a seguir ao 25 de Abril, (quando a alegria e a solidariedade andavam no ar e em cada esquina), e as primeiras semanas de 1986 [após o meu divórcio], (quando reatei relações com velhos amigos e "encontrei" a Maria do Mar). Mas não se concretizaram as promessas que eles continham e hoje está de novo este tempo cinzento e fechado que me cerca. Um tempo retratado num velho poema meu de 1985.
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Notícias do Bloqueio II
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Estão suspensas as palavras
Proibidos os gestos
de ternura, amizade e amor.
O silêncio invade as ruas
entra nas casas
senta-se á mesa da gente.
Que sentido tem dizer
amor
amiga
camarada
companheiro?
Que sentido tem
abrir as mãos e os olhos
e perguntar qual o significado do
que vemos, ouvimos, entendemos e sentimos?
Gaivotas loucas, alvoraçadas, enchem os ares
de movimento e ruído
enquanto a vida escorre pelos dedos
indiferente
medíocre
submissa.
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O domingo está passado. Para além da janela envidraçada, o negrume da noite pontilhada de luzeiros e reflectindo as estantes cheias de livros. Liguei o televisor aqui do escritório, que transmite uma telenovela, para dar notícia do começo de mais um episódio da 6ª série de O Polvo, sobre a Mafia Italiana.
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Passei o fim de semana metido em casa. Apenas o Caló por cá apareceu á tarde, para ver e interrrogar-me sobre as fotografias e ver no vídeo filmes de desenhos animados do Walt Disney. Quando me preparava para regar as plantas ofereceu-se para fazê-lo, mas não jantou cá, pois entretanto a madrasta veio buscá-lo.
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1.
Com os meu dedos
sigo lentamente os teus lábios
Uma leve brisa agita o teu olhar
e não sei bem se é um pássaro
ou uma flor
o sorriso que nasce no teu rosto.
Será noite
ou uma criança a navegar?
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Setúbal, 1993.09.26
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2.
Nas minhas mãos
o dia escurece
e não ouço nelas
o calor da tua voz a cantar.
Uma gota cai lentamente no horizonte
E outra
E outra
E mais outra ...
E as minhas palavras são
um novelo em busca do mar!
O teu rosto,
o teu rosto é uma linha a navegar
onde loucas gaivotas
querem mergulhar.
Quem as recolherá
como um cristal a brilhar?
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Setúbal, 1993.09.26
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Uma nova semana está terminada, com um domingo (3 Outubro) soalheiro e bom para passear com uma doce companhia
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Neste fim de semana a Susana não quis sair, a não ser para ir ás compras comigo, e colou-se em frente ao televisor ou a ouvir música, para além de se ter encarregado dos almoços e jantares e de aspirar a casa. O Rui pespegou-se frente ao computador a jogar com o Bruno, um dos filhos da vizinha Estrela, e desta vez não houve ensaios de viola porque a não trouxe. Outras vezes fazem um estendal no chão com carros, canhões e soldados simulando grandes, discutidas e barulhentas batalhas terrestres. Eu, como sempre, saí para comprar os jornais e víveres no Jumbo; vou lá por causa do pão e depois acabo por comprar o resto, sem ir á cooperativa. Comprei um CD duplo dos Beatles, o chamado álbum Vermelho. De modo que passei o fim de semana em casa, salvo no sábado á tarde quando fui até á do João Neves.
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O João Neves é geógrafo e está a substituir a Isabel e a Maria, que se foram embora da Câmara, onde estavam a recibo verde. Com ele faço agora equipa para prosseguir o levantamento, caracterização e programação do equipamento colectivo. Agora andamos ás voltas com o equipamento desportivo, ao qual se seguirá a rede escolar. De modo que saímos de manhã com o R4 do Departamento a percorrer o município, localizando em carta e preenchendo um inquérito, o que me agrada mais do que passar o dia encafuado num gabinete sempre com a mesma paisagem a as mesmas pessoas. E como não levamos motorista, sou eu que vou a conduzir nas calmas, o que me agrada. Quando ando com o meu carro ando sempre na esgalha, o que não sucede com o carro do serviço (ou do sindicato).
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Com isto tudo atrasa-se o meu trabalho sindical, o que me preocupa pois a proposta do Stal referente á revisão do sistema retributivo dos técnicos superiores não introduz alterações relativamente aos vencimentos dos docs, apesar das propostas feitas em devido tempo pelo grupo de trabalho de que falei. Tenho três semanas até Novembro, quando se realizará o Congresso do Stal, para tentar dar a volta á situação, pois a maioria dos sindicalistas e dos trabalhadores entendem que nós, técnicos, já ganhamos o suficiente, quando não demasiado. De modo que se não conseguir dar a volta lá terei de partir a louça no referido Congresso.
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Um dia destes dei pela falta dum velho binóculo de teatro, que era da minha avó materna e tinha ali na sala. O Caló negou que o tivesse levado, mas sugeri-lhe que procurasse bem lá em casa pois poderia ter caído para o saco sem ele dar por isso. E hoje bateram á porta e lá estava a figura franzina e envelhecida do miúdo, com um enorme sorriso de alegria quando me viu. Mas perguntei-lhe pelo binóculo e ele respondeu-me que o não encontrara, apesar de tê-lo procurado pela casa toda (dele). Observei: se não levaste o binóculo, porque o foste procurar? ao que me respondeu com um ar muito sério e convicto que o não havia tirado e que o tinha procurado em casa porque eu dissera que ele poderia ter caído para o saco sem ele dar por isso. Disse-lhe então que não viesse a minha casa enquanto o binóculo não aparecesse. Olha, o miúdo ficou com um ar tão triste, os ombros alquebrados numa enorme fragilidade, que eu tive pena dele. E depois pediu--me um pacote de leite para o irmão mais novo mas tive de dizer-lhe que não podia dar-lhe um pacote de leite e comida todos os dias. E assim se meteu no elevador. Não posso garantir que foi ele que levou o binóculo, mas de qualquer modo terei perdido a única pessoa que me vinha visitar, para além da vizinha Maria, que falava comigo e me fazia companhia ao jantar, me regava as plantas e ajudava a pôr a mesa e a lavar a louça.
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Quem me bate á porta todos os dias é a Maria, que anda com o filho na esteira. O marido dela é operário, um homem do campo como ela, mas que não se habitua á cidade nem aos galinheiros que são os prédios em que vivemos. Pelo que de vez em quando está doente (e se não trabalha não ganha) ou são os empreiteiros que não pagam aos operários. Para ter emprego e ordenado certos vai para Lisboa todos os dias, saindo de madrugada e voltando á noite.(...) Agora ela anda entusiasmada com um curso de formação profissional de cozinheira, durante seis meses, a vinte quilómetros de Setúbal. (...) Mas ás vezes sou desabrido com o irrealismo da Maria (...). E depois irrita-me a admiração que tem por mim e que apregoa por aí. Um dia destes perguntei-lhe se me não via defeitos. Que não, que só me encontrava virtudes. De modo que lhe respondi que parecia a minha mãe, que só me vê qualidades, com a diferença de que eu é que sou uma espécie de pai e mãe dela.
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De qualquer modo agora tenho com frequência companhia ao almoço. Com efeito o Rui anda com uma paisite aguda, pelo que vem até aqui frequentemente para almoçar ou quando não tem aulas, pois a Escola da Belavista fica a dois passos. Normalmente traz um colega, nem sempre o mesmo, para almoçar também ou para jogarem no computador. E neste fim de semana resolveu ficar ... até 3ª feira (5 Outubro), embora a Susana tivesse ido embora hoje. De vez em quando chega-se inesperadamente a mim para beijar-me ou abraçar-me e retribuir-lhe. A Susana é que de vez em quando tem destes ataques de ternurite, mas vindos do Rui é novidade. Aqui é sempre o mais novo, enquanto que na casa da mãe passou a ser o do meio. Aliás o Jorge é um miúdo precoce, como foi a Susana, e o Rui ressente-se das habilidades comentadas dos irmãos das extremas. Quando está sózinho comigo é fácil de aturar, mas quando está com a irmã dá-lhe a veneta e aparecem as fitas para ser o centro das atenções.

O Rui agora passa a vida a experimentar penteados, parecendo-me que se fixou na risca ao meio com os cabelos para os lados, como se usava nos anos 40. Um dia destes rapou o bigode e depois comentava para a irmã que já o sentia crescer quando passava a língua pelo lábio superior!
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Não cheguei a meter atestado médico. Já efectuei os exames médicos excepto um para o qual andei a fazer dieta durante três dias. Mas depois, no dia do exame, não fui capaz de fazer a preparação final pelo que teve de ser adiado. De modo que o mais certo é morrer da doença, se for caso disso. A constipação parece estar controlada, embora me doa a garganta, tenha a voz enrouquecida e por vezes violentos ataques de tosse, especialmente quando arrefece, se falo mais alto ou durante muito tempo. O que me irrita é que na maior parte dos casos os exames nada acusam, de modo que quando não é uma virose (está na moda) é do stress e das contrariedades. Assim lá vou cantando, rindo, tossindo e ardendo por dentro.
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Setúbal, 1993.09.25/26

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Ao (es)correr da pena e do olhar (27)

* Victor Nogueira

Amanhã vou reiniciar a minha aprendizagem com as folhas de cálculo (matemático), interrompida há semanas e recomeçada hoje com umas breves lições do Luís, o informático do STAL. Entre as minhas actividades e responsabilidades extra-laborais está a coordenação e participação num grupo de trabalho de quadros técnicos da Administração Local. Ora, antes de partir para férias, uma colega nossa ficou de trabalhar uns dados, para permitir a sequência do nosso trabalho relativo à reestruturação de carreiras e revisão do sistema retributivo. Só que já lá vão umas seis semanas sem que ela tenha feito qualquer coisa, porque anda deprimida. De modo que tenho de ser eu a tratar do assunto, já que não posso permitir que as minhas depressões me façam andar pelos cantos durante muito tempo.
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Entretanto hoje resolvi fazer o que foi o terceiro bolo da minha vida, desta feita um bolo mármore. Das vezes anteriores foi pão-de-ló. O bolo come-se, não ficou muito mal. De qualquer modo só poderei lavar a forma depois dele acabar, pois ficou agarrado ás paredes da dita cuja, apesar de untada com margarina (acho que faltou passar as paredes com farinha). Para além disso a parte de cima não ficou nivelada, antes parecia o mar agitado em dia de vento, aos altos e baixos. Pois é, preciso é não perder a calma!
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A especialista em bolos é a Susana, mas ultimamente tem-se dedicado mais ás mousses de chocolate, que já deixei de apreciar, não por serem dela, que até tem jeito, mas porque antigamente gostava mais de doçarias.
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O fim de semana passado, que ameaçava ter sido chuvoso, acabou soalheiro. No domingo á tarde fui com o Rui e a Susana ao Jumbo comprar material escolar para o caçula depois de termos ido a uma das salas de cinema do centro comercial ver um filme de que te falei anteriormente: Dennis, o Pimentinha, sobre as diabruras duma criancinha traquinas. Embora me tivesse rido nalgumas cenas, achei o filme inferior a qualquer um dos da série Sózinho em Casa, não só porque nestes o miúdo/actor era mais expressivo, mas também porque nestes a história tinha mais consistência. Embora qualquer deles sejam filmes para miúdos cujo principal intérprete é uma criança, são duma extrema violência sobre os bandidos, adultos, que sofrem autênticos tratos de polé. Mas a verdade é que o Rui e os seus amigos deliram com tais cenas de violência, muito semelhantes ás dos filmes de desenhos animados, sobretudo dos de origem norte-americana que a televisão passa nos programas infantis.
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Foi um fim-de-semana relativamente folgado, pois à Susana deu-lhe o apetite de fazer todas as refeições por sua iniciativa. Quanto ao Rui, como já entrou na adolescência, cozinha as refeições dele quando não gosta do rancho da maralha. Claro que só fecho os olhos ás ementas do Rui para ele próprio porque fins-de-semana não são todos os dias a comer arroz de manteiga e douradinhos ou sandes de atum de conserva!
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Hoje tive visitas ao jantar: o Caló. Reparei que também utiliza muito o Victor quando fala comigo, tal como sucede com a filha da Maria do Mar. Aquele devia ir para diplomata: oferece-se para ajudar-me, pergunta-me pelo Rui, pela Susana e pela minha mãe, elogia a minha comida ...
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1993.09.20

terça-feira, 2 de outubro de 2007

Ao (es)correr da pena e do olhar (26)

* Victor Nogueira
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Afinal ontem, 5ª feira, acabei por não ir à reunião sindical em Lisboa; o tempo estava chuvoso e mau para os meus inflamados gorgomilhos. E depois, perante a crónica indisponibilidade dum dos carros do sindicato, decidi não levar o meu velho R5. Coitado do senhor Rui, o electricista-auto, que foi trabalhar na manhã do feriado municipal, contra a minha opinião, para mo entregar a tempo, para eu não faltar à dita reunião.
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Mas hoje é que choveu mesmo, aumentando a minha rouquidão. Que linda despedida o Verão nos tem dado nesta arrancada final para o Outono! Ali a avenida Bento Jesus Caraça parecia um rio caudaloso e lamacento, com água pelo passeio, devido aos boeiros entupidos. Felizmente que me precavera previamente com as botas pelo que não precisei de andar com bote!
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Aproveitei a pasmaceira do serviço para terminar a organização dos negativos fotográficos e a relação das cópias a efectuar. Para além disso continuei a ler o manual de instruções e a praticar numa máquina de dactilografia eléctrica, que ainda não domino completamente. É mais complicada do que a que eu tinha no serviço e que desapareceu misteriosamente do meu armário e do edifício no verão do ano passado. Um dia destes quis escrever na da Fátima, mas apesar das breves explicações dela e do Carapeto, não dei conta do recado, pois não é á primeira que se dominam as funções todas, pelo que desisti e limitei-me a enviar á Maria do Mar um postal com vista para o Estuário do Sado e Península de Tróia.
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O Rui e a Susana vieram para o habitual fim-de-semana quinzenal que passam comigo. Amanhã começam as aulas. Fiquei por Setúbal, fazendo o habitual: arrumar a casa, comprar e ler os jornais, lavar e estender a roupa, comprar víveres na cooperativa, ouvir música. Não me apeteceu ir a Lisboa, embora a minha velha amiga Musa d'Ante, regressada definitivamente do Parlamento Europeu, me tenha convidado para ir conhecer a casa que alugou em Benfica e comer uns hamburgers especiais. Também não me apeteceu aceitar o convite do Zé e da Madalena, um casal amigo do Seixal, para irmos jantar a casa deles hoje ou para irmos amanhã ao Barreiro ver a pastelaria que em sociedade com uma irmã do Zé abriram nesta cidade. Ando fatigado e não há meio de passar a inflamação nos gorgomilhos que me acompanha desde meados de Agosto e que com a chuvada piorou.
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O Rui anda todo orgulhoso porque lhe teria aparecido uma borbulha de acne no rosto, sinal segundo ele de que já entrou na puberdade. Agora deu-lhe para experimentar penteados a ver qual lhe fica melhor. Já não bastava o orgulho na musculatura!
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Ontem, que já é anteontem, a Maria do Mar falou sobre a felicidade em contraponto a uma pretensa atitude de infelicidade minha. Não me considero infeliz. Vou vivendo, melhor que muita gente, embora não tão desafogadamente como outros ou do modo que eu preferiria. Diferente da infelicidade é o desencanto pela falta de solidariedade e de humanidade crescentes nesta sociedade em que estamos. E desencanto tenho, por vezes muito, por vezes em demasia. O que não significa que não tenha tido momentos de alegria e serenidade. Alguns deles com ela, apesar de tudo. E talvez parvamente e sem razão eu persiga nela a crença ou a esperança de que teria sido (seria) possível ter sido (ser) feliz com ela, como amigo ou como amador e ser amado. Mas isto só teria resposta se outra fosse a nossa relação. A isso, só a convivência límpida e no dia-a-dia teria dado resposta.
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Apesar de tudo acredito que é possível as pessoas serem felizes. Por muito breve que seja a felicidade. Porque entendo que os homens e as mulheres não foram feitos para estarem sózinhos ou viverem solitáriamente. Por isso, na breve passagem nossa por este mundo, é preferível, digamos, um ano de felicidade, mesmo que repartida no tempo, a uma vida inteira com medo de perdê-la ou não alcançá-la.
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.Todos temos limitações maiores ou menores, neste ou naquele campo. Preciso é sabermos aprender a viver com as nossas limitações para ultrapassarmos os muros que nos cercam ou querem levantar ou levantamos á nossa volta.
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Quando estudante de Economia em Lisboa, tinha então vinte anos, frequentei um curso intensivo de inglês. A professora, uma jovem inglesa, a Maureen Baltazar, era alegre, encantadora e todos nós gostávamos muito dela. Mas entretanto ela resolveu regressar a Inglaterra, já não me lembro se por se ter entretanto separado do marido português. E o surpreendente para mim era o desgosto e a ideia expressa nas palavras duma das empregadas da escola pelo facto da Maureen abalar, creio que definitivamente, dizendo que mais valia não a ter conhecido porque assim não teria o desgosto de perdê-la. E surpreendia-me esta atitude, pelo que então lhe contrapuz que o que era importante era termos conhecido e convivido com a Maureen, porque a recordaríamos sempre com alegria e ao tempo em que tínhamos estado com ela, porque era um tempo que tinha valido a pena ter sido vivido!
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Setúbal, 1993.09.16/19

domingo, 30 de setembro de 2007

Ao (es)correr da pena e do olhar (25)

* Victor Nogueira

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É um novo dia. de manhã choveu mas agora á tarde o sol despontou. Hoje resolvi ficar em casa para preparar a reunião sindical de amanhã e programar o trabalho até ao final do mês. Tenho oito dias por mês para actividade sindical sem desconto no ordenado. Entretanto, na próxima quinzena, terei reuniões em Coimbra e no Porto, para além de uma série de plenários na Câmara de Setúbal, por causa do processo negocial com o Governo.
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Fiz para o almoço pernas de frango estufado com arroz de manteiga. Já ando a ficar farto de enlatados e congelados, que às tantas sabem sempre ao mesmo. Tenho ainda de ver se marco consulta para o médico, que aliás agora é médica, o que por vezes me intimida na exposição das minhas maleitas e problemáticas.
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Quem também anda doente é a minha carripana, que de repente ficou ontem sem pisca-pisca, o que é aborrecido pois nem sempre me lembro de fazer manualmente os sinais de mudança de direcção ou de conduzir com mais cuidado. De modo que tenho de passar ainda pelo mecânico, tanto mais quanto amanhã terei de ir a Lisboa.
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O carro já está consertado e sempre consegui consulta na médica. É uma senhora muito simpática mas começamos sempre por uma longa conversa sobre variadíssimos assuntos, da vida em Setúbal à política, passando pelos filhos. A parte final, essa sim, é dedicada à exposição e diagnóstico das minhas maleitas. Resumindo e concluindo, para além do check-up anual conveniente para as pessoas da minha idade, mais uma série de exames por causa das maleitas para prevenir ou remediar. E uma nova sessão de fisioterapia, que o ano passado me fez passar os meses até agora com menos problemas provocados pela coluna. O avio dos remédios deixou-me no entanto pasmado. Não só estão cada vez mais caros como diminuem grandemente as comparticipações do Estado. Entretanto ela disse-me que tínhamos direito a quinze dias anuais em estâncias termais, para tratamento, sem colisão com os dias de férias. Tenho de informar-me melhor, para passar uma temporada a tratar da coluna, repimpado, sem preocupações com arrumações de casa e preparação de refeições.
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De vez em quando passo aqui pelo computador e acrescento mais umas linhas de conversa. Estou cansado e com sono, mas mesmo que durma um sono seguido como acontece normalmente, isso possívelmente não me trará descanso. Isto é um círculo vicioso: a pedrada depressiva impede-me de dormir repousadamente e a falta de repouso aumenta a neura. Quem diria que o fim de férias e o regresso à Câmara teriam um efeito tão desgastante. Deveria mas é ter ido a casa de alguém. Mas também a maioria está metida no seu buraco, numa sociedade onde estou a mais porque dela estão cada vez mais ausentes a solidariedade e o companheirismo.
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Vou encerrar esta escribadura. Tenho ainda a louça do jantar para lavar e parte do conteúdo dos sacos de férias para arrumar. Nem acredito nesta minha desorganização, eu que por vezes até tenho raiva de mim mesmo por ser tão arrumadinho e organizado, embora menos que há uns anos atrás!
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Setúbal, 1993.09.08/09

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Ao (es)correr da pena e do olhar (24)

* Victor Nogueira
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Acordei mal disposto e cansado, o que de resto me sucede desde domingo, tal como antes de férias. Para além disso hoje acordei de madrugada cheio de frio, pelo que resolvi fechar a janela da cozinha. Voltei a acordar mais tarde, continuando com frio até descobrir que a janela do quarto da Susana também estava aberta. De qualquer modo não se perdeu tudo e assisti ao nascer do sol antes de voltar a deitar-me, acordando tarde. Antigamente e nas férias levantava-me mal acordava. Mas agora não tenho prazer em levantar-me em tempo de trabalho como este que (não) tenho presentemente.
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O primeiro dia de trabalho está terminado e parece que as férias foram há muito tempo. O regresso foi como sempre: bacalhoadas para a direita, algumas beijocas para a esquerda, um sucinto relatório das mesmas com perguntas idênticas ao(s) interlocutor(es) e interrogações sobre as fotografias de férias. Vá lá que a arquitecta Nina, que foi ao Brasil ver a família e mostrar a Mariana, a criancinha que é o enlevo dela como mãe babosa, não se esqueceu das moedas para a minha colecção.
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Para além disso foi um dia de grande chateação. A minha secretária estava limpa e arrumada, tal como a deixara. Embora tenham deixado de distribuir-me trabalho, a minha categoria profissional dá-me liberdade para apresentar e desenvolver propostas e projectos de trabalho. Mas isto exige um mínimo de meios que não me dão ou retiram., para me cortarem a veleidade de fazer qualquer coisa. Há uns três anos tiraram-me o apoio administrativo e há dois meses o computador. Sem ovos é difícil fazer omeletes. Ás 17:00 horas, farto da pasmaceira geral, de conversa para encher tempo e sem nada para fazer, disse adeus ao pessoal e fui curtir a minha chateação e desalento para o Jumbo, para comprar fruta, peixe, iogurtes, queijo, manteiga e algumas coisas mais.
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Hoje estou nos meus dias de pedrada. E quando tal acontece aborrece-me estar sozinho. embora não me apeteça estar com qualquer pessoa. Como frequentemente a vizinha Maria apareceu aqui ao fim da tarde, com o filho mais novo, que é um miúdo muito engraçado e palrador, com uma grande amizade por mim, o que de resto acontece com muitos miúdos. Tenho sido uma espécie de pai e mãe da Maria, que aliás é a única vizinha que se oferece para me ajudar ou que me traz presentes: um bibelot, um queijo, fruta ou uns enchidos da terra, um prato de arroz doce ou um petisco do Alentejo. Mas hoje eu estava com uma grande chateação de modo que nem os problemas financeiros da Maria nem a sua simpatia e preocupação pelo meu mutismo e ar fechado me levantaram o moral. Fui telefonando a outras pessoas, mas nem por isso a neura passou.
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Pois uma coisa são as amigas e os amigos, os colegas de trabalho, os filhos. Outra, bem diferente, é a namorada, o amante, a companheira, que permite a expressão duma outra parte do nosso ser e a expansão da nossa personalidade.
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Não gosto de estar sozinho e por isso gostava de ter uma namorada em quem pudesse confiar, que estivesse ao alcance da voz e do gesto de amizade e carinho mútuos, que me procurasse, que me acolhesse e que ficasse contente quando a procuro. Uma namorada para quem eu fosse tão importante como importante ela seria para mim. Porque todas as idades são boas para as pessoas se enamorarem com entusiasmo, serenidade e leveza de coração e não com este desalento. Porque uma coisa é saber com segurança que naquele dia ou naquela hora vou estar ou sair com ela e assim organizar o dia-a-dia, domesticando o desejo de estar com a pessoa de quem gosto. Outra, bem amarga, é a incerteza, a insegurança e os mal-entendidos relativamente à pessoa de quem gostamos e que escolhemos de entre todas.
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Há um poema que escrevi uma vez a propósito de Joana Com Sabor a Cravo e Canela e que de algum modo exprime esta ideia:
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Todo o dia esperei por ti
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(...)
Todo o dia esperei por ti e dói-me a tua ausência!
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Setúbal, 1993.09.08/09

Ao (es)correr da pena e do olhar (23)

* Victor Nogueira
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Continuando o registo meteorológico, hoje o dia amanheceu nublado e chuvoso mas para a tarde já estava soalheiro embora quente e abafado como nos anteriores. Não há duvida que este mês de Agosto tem sido farto em variações climatéricas algo surpreendentes.
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De manhã passei pelo Jumbo de Alferagide, cheio como sempre, apesar de estarmos a meio do mês. Ao menos no de Setúbal anda-se à vontade, excepto no final dos meses. Mas o de Alferagide tem mais variedade de filmes em vídeo ao meu gosto, que não comprei, enquanto os CD estão mais arrumadinhos.
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Como não podia deixar de ser eu e a Susana perdemo-nos na confusão do Jumbo, só a encontrando à minha espera no carro, pois esquecera-se duma nossa velha combinação sobre o ponto de encontro após perdimentos nestes malfadados hipermercados. E lembro-me duma das vezes em que nos perdemos no Jumbo de Setúbal. Farto de andar às voltas, dirigi-me à recepção dizendo que perdera a minha filha e se lhe podiam marcar um ponto de encontro. Ia tudo bem até que a empregada me perguntou a idade da menina. Devidamente informada das suas 16 risonhas primaveras, a empregada foi-me logo dizendo que com tal idade nada feito, pois a desaparecida já era muito crescida para andar perdida, pelo que não podiam satisfazer a minha pretensão. De modo que lá andámos os dois num hiper cheio como ovo, aos encontrões, à procura um do outro, cada um para o seu lado desconhecido, deixando recados a toda a gente conhecida com quem me ia cruzando. Uma aventura sem qualquer graça!
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Ontem falei do Mindelo. Hoje falarei de Vila do Conde e Póvoa de Varzim, duas cidades de características muito diferentes. Vila do Conde, que fica na foz do rio Ave, é uma povoação antiga, com uma rua com casas do tempo do senhor D. Manuel I, um aqueduto e o Convento de Santa Clara, sobranceiro à ponte que liga as duas margens. Tem uma ampla avenida marginal que a liga á Póvoa de Varzim. É uma cidade de ruas largas, formando uma quadrícula, com jardins espaçosos e casas térreas. A Póvoa, outrora povoação de pescadores, é uma cidade de veraneio, cheia de gente no Verão, com praias ao atravessar da referida avenida marginal. É célebre pelo seu casino, embora a parte antiga seja mais estreita e tortuosa e as casas, em menor escala, parecidas com as do centro burguês do Porto. O trânsito é mais complicado e abundam edifícios de muitos andares junto à praia e na parte nova. Vila do Conde é mais pacata; o movimento aperta apenas às sextas-feiras, dia do mercado ou feira semanal. Na Póvoa há ruas vedadas ao trânsito automóvel, na zona central comercial, onde se acotovelam os veraneantes. Aqui há também mais comércio e distracções, para além dos cinemas, de um museu de artesanato e duma enorme biblioteca municipal. Personagens ilustres? Para além do Cego de Maio, célebre pelos náufragos cujo afogamento impediu, temos o poeta José Régio, que nasceu e morreu em Vila do Conde (a casa onde faleceu transformada em museu) e o Eça de Queirós, escritor cujo humor e causticidade muito aprecio.
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Paço de Arcos, 1993.08.21 (Sábado)

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Ao (es)correr da pena e do olhar (22)

* Victor Nogueira
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Depois de chegar a este casarão onde vivo, pus a Cesária Évora no leitor de CD's e dei comigo a bailar ao som da música de Cabo Verde, maneira de descontrair e quebrar a tensão e os rios de lágrimas. De resto a música serve muitas vezes para me descontrair. Agora, estou na ressaca, como quem apanhou uma sova. A propósito, comprei um CD com música do Mendelssohn para oferecer á Maria do Mar. Trata-se de Sonho de Uma Noite de Verão e de Sinfonia A Italiana.
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Bem daqui a pouco vou interromper para ver um filme policial na televisão. Entretanto apareceu o Caló, o miúdo de quem falei em tempos, para visitar o grande amigo dele, que sou eu. Abancou ali numa cadeira a ver fotografias, comentando-as em voz alta, com perguntas e grandes exclamações. Agora fez uma interrogação enorme por causa dum bicho que nunca tinha visto: um perú. Entretanto viu umas fotografias de esculturas feitas pelo meu irmão e diz que não acredita que ele as tenha feito, respondendo que não, que não me estava a chamar mentiroso, mas lá que não acreditava, não acreditava, acrescentando «Mas o meu pai sabe desenhar». Vai daí, disse-lhe: «Eu não sei desenhar nem cuidar de ovelhas como o teu pai mas escrevo melhor que ele.» Não acreditou. Que escrevesse Fernando ali num papel. Disse-lhe, apontando para o meu volumoso livro de poemas: «Então não vês que escrevi aquele livro?». Respondeu-me: «Ah! mas isso não é escrever, isso foi feito no computador». Claro que para o Caló não saberei escrever, tanto mais quanto ele não será capaz de ler os meus hieroglifos. Depois perguntou-me onde é que eu trabalhava e respondi-lhe que na Câmara. Exclamou ele: «Ah! Apanhas o lixo!» No prédio dele mora um cantoneiro de limpeza do Município, o Ramiro. Respondi-lhe que não, que trabalhava num escritório, o que nada lhe terá dito pois não deve conhecer a palavra e muito menos o que faz um sociólogo. Enfim !
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Bem, lá voltei aqui depois de ver o filme Armadilha Mortal, com suspense e surpresas no enredo umas atrás das outras. Os principais intérpretes eram o Michael Caine, que aprecio, e o Cristopher Reeve (o Super-Homem, que acho um canastrão). Entretanto revi o texto anterior e reparo agora que já é uma da matina, pelo que vou sozinhito para Vale de Lençóis. A lavagem da louça do jantar fica para amanhã.
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Hoje resolvi fazer uma bruta omolete de camarão com cebola picada, salsa e queijo ralado. Não ficou mal, mas deveria ter posto menos azeite na frigideira. Menos sorte tive ontem, que me distraí e não ouvi o marcador de tempo, pelo que os raviolli pegaram ao fundo do tacho e ficaram um amontoado esquisito e sem graça. Ora, mas só não faz asneira quem não cozinha, não é ?
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Já é um novo dia, dum sábado soalheiro mas coberto com uma leve neblina. Continuo rouco, com a garganta irritada e tosse, desde que anteontem saí do consultório médico.
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Já é meio da tarde. Enquanto escrevo estou distraído. Como sempre fui comprar os jornais, mas desta feita não fui lê-los para debaixo duma árvore na estrada da Figueirinha ou no cimo das escarpas de S.Nicolau, com o Rio Sado e a Serra da Arrábida ao fundo. Não, desta vez fiquei-me pelo porto de pesca, mas como o tempo se tornara de trovoada quente e desagradável, mudei para debaixo duma árvore do degradado Parque José Afonso, agora transformado em parque de estacionamento automóvel, embora hoje quase vazio.
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Depois, bem depois resolvi almoçar um prato africano, moamba de galinha com farinha de pau, num restaurante aqui perto de casa. Faço isso normalmente uma vez por semana, para variar e porque me aborrece tomar as refeições sistemáticamente sozinho. Mas desta vez o único comensal era eu, mas ao menos comi um prato que não sei cozinhar e não me preocupei com a arrumação da cozinha.
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Com isto tudo já são oito e trinta da noite, o Fausto toca Por este Rio Acima, um álbum que aprecio, e vão sendo horas de fazer o jantar, hoje será bacalhau á Brás.
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Setúbal, 1993.09.10/11

terça-feira, 25 de setembro de 2007

Ao (es)correr da pena e do olhar (21)

* Victor Nogueira

Finalmente a água voltou: barrenta, jorrando das torneiras aos borbotões ruidosos. Finalmente o prazer de abrir o chuveiro e sentir a carícia da água tépida deslizando pelo nosso corpo!
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O calor continua e o corpo cobre-se de camadinhas de finas gotículas de suor que se não evaporam, tal como sucedia em Luanda.
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A Susana, acabada de acordar, veio até aqui perguntar se eu andava a escrever o meu diário, emitindo a douta opinião de que os diários só se escrevem ... ao fim do dia e não a meio da manhã. Quanto ao Rui apareceu agora dizendo que era um hippie, de tronco nú, vestido com as calças de ganga, um colete da irmã e as joias artesanais dela ao pescoço e nos braços. É o ai Jesus da Alexandrina, que o trata como o menino da avó, com ternurinhas e cuidados risonhos, coisa a que não está muito habituado.
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Bem, façamos um intervalo. Tenho de barbear-me e de ler o jornal, para saber o que se passa pelo mundo.
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Já passou a hora de almoço e já foi tempo de passar por Santa Apolónia para comprar os bilhetes de comboio para o pessoal e para o carro. Embarcaremos no domingo após o almoço. Embarcaremos? Não seria mais apropriada dizer ... encomboioremos?
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Gosto de ir até ao Mindelo, embora a casa precise de arranjos, designadamente pintura, manutenção dos tacos do soalho e das madeiras de janelas e portas, de um aquecedor de água e de uma banca de alumínio na cozinha.. Fica a poucos metros da estação, com ligações ferroviárias ao centro do Porto (a Sul) ou a Vila do Conde e Póvoa de Varzim (a Norte), em viagens que não ultrapassam os vinte minutos. Para além disso a praia fica a 2 quilómetros. E depois sempre há pessoas que me vão reconhecendo ao fim destes anos. No centro da aldeia o homem dos jornais, o talhante, os donos do minimercado, a rapariga da padaria. Mais adiante, junto à praia, a dona de outra loja, um pouco maior e com maior variedade de mercadoria. Contudo já não gosto tanto do pessoal junto à casa, muitos à espreita de comprarem-na e ao terreno adjacente, como cães a um osso. Gosto da casa e do sítio, mas fica demasiado longe para se ir lá durante o ano.
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No verão a população aumenta grandemente, pois trata-se duma praia muito procurada, com cheiro a algas e maresia, calma na zona rochosa e com ondas alterosas e batidas na zona arenosa, embora fria e ventosa para o meu gosto de pessoa nascida e criada nos trópicos. Deste modo no verão, com o comércio, o pessoal da terra procura tirar o sustento para o resto do ano. Fora isso as pessoas vivem da pesca e da agricultura (por trás da casa há um enorme campo que se cultiva), enquanto na praia se recolhem as algas para adubar as terras.
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Por isso há três zonas habitacionais distintas: a mais antiga e tradicional, onde existem o centro comercial primitivo, em torno do adro da igreja velha, e algumas grandes casas típicas de lavradores abastados como a dos meus bisavós maternos para os lados de Barcelos. Mais perto da estrada nacional, para o sítio onde fica a casa de verão que foi do meu avô materno (um homem na cidade criado numa aldeia e que não perdeu o apego ao campo), abundam as casas de emigrantes, umas mais modestas, outras mais sumptuosas, estilo maison sem arvoredo, encafuadas em minúsculo quintal. Entre estas duas zonas fica a estação ferroviária. A terceira zona, junto à praia e ao longo da costa, é a zona dos veraneantes, mais ou menos endinheirados, com enormes casas no meio de grandes quintais arborizados ou com prédios compridos de vários andares. Neste local fica uma outra zona comercial com frutaria, talho, padaria, minimercados, peixaria, tabacaria, restaurantes e geladaria, entre outros.
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O calor continua, com uma intensidade tal que a sede aperta e os joelhos fraquejam. Aqui na Tapada do Mocho o sol bate na fachada da casa durante toda a tarde. Em Setúbal não sinto tanto calor pois durante o dia normalmente não ando na rua. Por seu lado no Departamento onde trabalho existe ar condicionado e em casa sempre se abrem as janelas e, desde este ano, o calor em casa ameniza-se com a refrigerante ventoinha que comprei, que me refrescou muitas vezes.
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Trouxe quatro álbuns do Calvin bem como uma colectânea de anedotas, muitas das quais me divertem imenso. A primeira vez que folheei este livro numa livraria dei por mim a rir às gargalhadas, pelo que resolvi arrumá-lo de novo e rápidamente no mostruário, não fossem pensar que tinha enlouquecido e me ria a bandeiras despregadas só por folhear um simples mas volumoso livro de capa azul. Depois comprei-o numa Feira do Livro e durante algumas noites o meu vizinho velhote do andar de baixo deve ter pensado que eu me passara da mioleira, pois até altas horas da madrugada me deve ter ouvido rir, numa altura em que eu já vivia sózinho.
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O Rui anda ali no corredor exibindo o seu esqueleto bronzeado como se fosse musculado e atlético, ao murro à irmã, esquecendo-se que em resultado de brincadeiras semelhantes ela anteontem torceu-lhe o dedo indicador, o que é um grave acidente com repercussões nos seus exercícios de viola e no seu dedilhar do computador.
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Paço de Arcos, 1993.08.20 (6ª feira)

domingo, 23 de setembro de 2007

Ao (es)correr da pena e do olhar (20)

* Victor Nogueira


.O calor continua e neste fim de semana partirei mesmo para o Norte, pois eu e a Susana queremos estar de volta para poder assistir à Festa do Avante. De manhã fui cortar o cabelo a um barbeiro já velhote cuja existência desconhecia, ali numa transversal entre a Livraria Danny e o Largo do Mercado. A barbearia foi outrora o Salão Azul, agora decadente, e aplica cortes antigos e preços que são metade dos de outras barbearias. E que lento que é o velhote na execução da sua tarefa! «Porque gosto do trabalho perfeito», explicava-me ele.


.À tarde o Rui queria ir ao cinema ver o Pimentinha, baseado num miúdo endiabrado personagem da banda desenhada; mas a Susana preferia ver as lojas da Baixa Pombalina, para arejar o dinheiro. Prevaleceu a proposta da Susana, que comprou adereços de artesanato em pele e missangas, tendo oferecido ao maninho uma fina pulseira em cabedal.


.Com a Rua Augusta fechada ao trânsito automóvel, os passeantes passeiam-se à vontade no longo passeio público, onde personagens variados expôem as suas habilidades. Aqui um presumível grupo de índios da América Latina, todos de igual vestidos, interpretam canções do seu folclore, perante uma pequena multidão à sua volta, fotografando ou embascando-se. Menos assistência tinha um deficiente físico pintando um quadro com a boca. Mais além outra pequena multidão rodeava um velhote com periquitos numa caixa e um plano inclinado, sem que se percebesse que habilidades saíriam dali (talvez estivessem intimidados com a assistência ou ainda em fase de aprendizagem). E como não podia deixar de ser, um homem estátua, de palhaço vestido, embora de vez em quando fizesse momices com os olhos para divertir a numerosa assistência. Não deixo de admirar a capacidade destes indivíduos para estarem completamente imóveis, tanto mais quanto eu sou um mosquito eléctrico! Ao fundo, junto ao Arco da Rua Augusta, vendia-se artesanato, por pessoal mais limpo e aspecto mais comum do que aquele de ar sujo e maltrapilho que outrora abancava naquele sítio, ao jeito pretensamente hippie.


.Hoje não choveu, apesar do tempo trovoadoresco, pelo que acabámos na Praça da Figueira cheia de gente, na Esplanada dos Irmãos Unidos vizinha da Suiça, mas com pouca variedade de comes e bebes. Por lá apareceu um indivíduo, poeta popular, vendendo meia dúzia de poemas em livro de sua autoria, a quem comprámos um exemplar que dedicou à Susana, depois dele e a minha mãe se terem recitado mútuamente poemas das respectivas autorias. De qualquer modo os dele, em conteúdo, não chegam nem de perto nem de longe aos calcanhares do António Aleixo, algarvio, ou do Calafate, setubalense, pois quanto ao estilo são diferentes.


.O regresso a Paço de Arcos, pela auto-estrada, foi uma limpeza em rapidez, pois Agosto é um bom mês para férias, porque o pessoal sai da cidade, para as suas vacances, havendo pouco trânsito e muitos locais para estacionar.


.Aqui na Tapada do Mocho, como na maioria do concelho de Oeiras, continua a falta de água. Habituamo-nos à facilidade de simplesmente rodarmos uma torneira para obter água em abundância pelo que é um aborrecimento o racionamento e o termos de andar suados e peganhentos por não se poder tomar banho ou termos de nos lavar a prestações.


.Ainda tenho de ir à Rua de Macau, a casa dos meus pais, buscar uns recipientes de água da torneira para fazer face à seca.


Paço de Arcos, 1993.08.19 (5ª feira)

sábado, 22 de setembro de 2007

Ao (es)correr da pena e do olhar (19)

* Victor Nogueira
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Acabei de temperar o frango para o jantar: sal, como não podia deixar de ser, pimentão doce ou colorau (embora também goste de paprika ou de piri-piri), molho de soja e aguardente.
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Fora isso continuei a reler os livros do Asterix, que já havia esquecido, e me fazem rir a bandeiras despregadas, sobretudo pela análise de algumas tiras.
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Hoje veio visitar-me o Caló, um miúdo que mora aqui no Largo e anda aí pelo prédio a pedir esmola e que asila aqui muitas vezes para jantar e ver filmes de desenhos animados ou banda desenhada. É um miúdo com dez anos, delicado e simpático (mas também com a escola da vida), muito franzino e parecendo por isso mais novo, embora tenha um rosto envelhecido, cujo pai, segundo ele, é pastor. Por vezes, ao fim de semana, aparece arranjado, mas isto não é regra nos restantes dias, talvez porque a madrasta não lhe ligue muito, embora esta não ande mal cuidada, quando por vezes aparece a procurá-lo; no princípio era todo machista, mas agora oferece-se para pôr a mesa, lavar a loiça e regar as plantas. As pessoas escorraçam-no ou não lhe devem dar muita atenção, por ser pobre e pedinte, pelo que ele diz a toda a gente que eu sou o maior amigo dele.
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Hoje anda por aí muito feliz e risonho, admirado com as magias do Rui e para as quais me vem chamar a atenção com frequência.
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Nem parece que houve fim de semana. Estou muito cansado e dormi à tarde (coisa rara), até ser acordado pelo telefonema da Christine, uma colega e amiga da Susana.
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Um certo pudor ou receio de expressar os meus sentimentos é que me impede de dizer "Estou triste", (ou "Estou vazio" o que seria imagem mais apropriada) embora procure que a minha voz e conversa o não demonstrem.
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É meia-noite e o silêncio da madrugada, que apenas começa, só é perturbado pelo suave ruído das ventoinhas do quarto e do ventilador do computador, para além do matraquear das teclas que permitem a fixação deste texto. Quando paro para pensar ou refazer o que escrevo ouço um leve barulho da televisão que o Rui e a Susana vêm, entremeado com a conversa deles, lá ao fundo na sala.
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Setúbal 1993.08.15
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Finalmente a bagagem está toda ali à porta ou no corredor, aguardando o seu transporte para o velho Renault 5, meu companheiro de longas viagens. Tudo isto teria sido mais rápido se as criancinhas ajudassem, mas entre cada transporte ou arrumação surge sempre uma série na televisão que elas têm de ver ou um livro para o Rui ler !
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Se o meu carro fosse de confiança amanhã metia-me auto-estrada do Norte acima, pois não tenho paciência para esperas e transbordos. Assim, tenho de passar por Paço de Arcos, descarregar, comprar bilhetes para o comboio, voltar a carregar o carro, levá-lo no dia seguinte para Santa Apolónia com uma hora de antecedência, secar na estação até à hora da partida, embarcar, desembarcar em S. Bento, esperar pelo descarrego do carro e ala para o Mindelo. Como se vê, uma aventura que se repetirá no regresso, onde espero ficar em Paço de Arcos alguns dias, em Setembro.
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Setúbal, 1993.08.17
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Eis-me finalmente em Paço de Arcos, onde cheguei á hora de almoço. Está muito calor e por pouco ao fim da tarde não fiquei molhado pela chuvada estilo tropical que então repentinamente desabou.
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De modo que me sentei aqui no quarto do meu tio José João para ocupar o tempo a escrever enquanto ele assiste a um desafio de futebol transmitido pela TV; a minha tia Maria Luísa lá ao fundo, na sala, assiste a outro programa com a Alexandrina, a viúva do meu avô Zé Luís. Quanto ao Rui e à Susana foram para a cozinha especar-se frente a um terceiro televisor, para ver um filme com o Robert De Niro e o Robert Duvall. Televisores não faltam e é difícil haver guerras por causa dos programas (ainda há um quarto aparelho, que está desligado). A contrapartida é que está cada um silencioso para seu lado, o que tem vantagens ou desvantagens conforme as circunstâncias.
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Paço de Arcos, 1993.08.18 (4ª feira)

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Ao (es)correr da pena e do olhar (18)

* Victor Nogueira
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Eis-me de novo regressado a Setúbal City, sentado aqui defronte ao computador que vai registando os meus escritos, quando me não auxilia noutras tarefas ou é meu companheiro de jogos, os mais variados. Às vezes, nalguns programas, fala comigo, em inglês. De qualquer modo não substitui um livro, que nos acompanha para qualquer lado, debaixo do braço, na pasta ou dentro dum bolso que não seja ... bolsinho, nem substitui o prazer de sentir no ar e na pele a presença de outrem.
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Eis-me pois regressado de novo a Setúbal, sentado aqui no meu "escritório-biblioteca-armazém", ouvindo o eterno bater da janela nas calhas e os ruídos das obras nos prédios que estão construindo aqui ao lado e que tiraram a vista para o Jardim da Lanchoa ao pessoal que mora até ao 5º andar. O que não é o meu caso, alcandorado que estou neste 9º andar, dos últimos lugares do lugarejo a ser submerso se algum dilúvio acontecesse. -
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De que falar mais? Em Setúbal é tempo da Feira de Santiago, onde fui duas ou três vezes e onde sempre vou encontrando gente conhecida para dois dedos de conversa. Este ano há apenas uma exposição dedicada a uma das celebridades desta terra, que foi a cantora lírica Luísa Todi. Falta-me ver a parte da cerâmica e olaria, embora este ano já tenha comprado o recuerdo, cerâmica dum país andino ou como tal vendida. Mais uma bonecada ali para uma das estantes, para dificultar a limpeza do malfadado pó que mal acabado de limpar logo renasce dum modo que faria inveja à capacidade reprodutora dos coelhos !
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Na 2ª e na 3ª tive reuniões em Lisboa, mas hoje lá estava de novo no meu posto de trabalho, que os meus chefes me têm transformado em posto de ... descanso, contra o meu gosto e vontade. Está quase todo o pessoal de férias, de modo que aquilo é um silêncio temperado pela frescura do ar condicionado, em alternativa ao braseiro da rua! Hoje não pude trabalhar no computador do serviço, com o qual vou preenchendo o tempo, aprendendo ou inventando trabalhos, pois um dos meus colegas precisou dele para cálculos de engenharia.
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Fiquei muito contente com o postal da Maria do Mar. Depois, ela até tem graça e expressividade nalgumas coisas que me tem escrito e deveria desenvolver essa sua faceta. Quem sabe se não se tornaria uma escritora de nomeada, mundialmente reconhecida e consagrada. Afinal o José Saramago só começou a escrever aos 60 anos de idade! Para não falar de mim, que mudei a escrita depois dos quarenta, embora nem de perto nem de longe lhe faça sombra !
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Enviei-lhe alguns livros, que espero aprecie. Tenho procurado que sejam humorísticos, salvo o da Agatha Cristhie, que ela aprecia, por conter no fim uma relação das suas obras publicadas em português. Dos seus detectives apenas gosto da Miss Marple, embora também tenha apreciado o da série televisiva dedicada ao Poirot, por causa do actor-intérprete, tal como o imagino, embora não aprecie muito os romances escritos em que ele é personagem. O Sherlock Holmes foi outro detective que me pareceu muito conseguido na versão televisiva. Creio que presentemente estão a passar num dos canais outra série baseada em romances da Agatha, uma cuja heroína, se não me engano, é a Tupence.
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Quanto ao Rantanplan é um cão muito inteligente, tanto ou mais quanto o mais alto dos irmãos Dalton. No entanto costumo comprar ali na tabacaria uma revista cujo herói é um guerreiro chamado Groo, que a páginas tantas arranjou um cão, o Ruperto, não ficando qualquer deles atrás do Rantanplan em termos de perspicácia. Nada que se compare à Milou, fiel acompanhante do Tintin.
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Bem, tenho de interromper esta escribadura, para fazer o jantar que o microondas ainda não trabalha sozinho, para além de hesitar entre ver o programa do Carlos Cruz ou um filme sobre a Guerra da Independência dos Estados Unidos, com o Al Pacino e a Michele Pfeiffer, dois actores que aprecio. Possivelmente verei o Cruz e gravarei o filme, até ter ocasião de vê-lo se entretanto não gravar outro por cima, o que sucede por vezes. Aprecio o modo como o Carlos Cruz conduz as suas entrevistas.
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Setúbal, 1993.08.03

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Ao (es)correr da pena e do olhar (17)

* Victor Nogueira
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Estive há pouco a regar as plantas e gosto muito do cheiro da terra seca depois de molhada. Olho pela janela e verifico que as vidraças estão precisando duma limpeza. É estranho, pois morando num sítio tão alto, não consigo livrar-me da poeira. Quando estreamos esta casa nas varandas havia montículos de terra, possívelmente trazidos pelas correntes de ar ascendentes.
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Olhando pela janela vejo os campos ao longe, lá embaixo, cada vez mais afastados pelas casas que se vão construindo; daqui a uns tempos deixarei de morar no limite oriental da cidade. Mas no Verão o único verde é o dos aglomerados de árvores (sobreiros e azinheiras ?), pois a terra ressequida é simplesmente castanha. E á noite, em qualquer altura, a vista é encantadora, com a claridade da iluminação das ruas, das casas e, quase no horizonte, das fábricas da zona industrial da Mitrena., para além do luzeiro cintilante das luzes das povoações dos arredores.
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Como sempre o vento faz vibrar as janelas nas calhas, dum modo monótono, mesmo irritante por vezes. "Música" á qual um dia destes tenho de pôr fim. Para além disso tenho por vezes o acompanhamento da voz esganiçada do cão aqui do vizinho do andar de baixo. Para lá da janela, quando aberta, chega o ruído dos carros que passam lá em baixo na avenida, conjuntamente com o falar das pessoas ali no Parque da Lanchoa, cavaqueando em noites frescas até altas horas da matina. O cãozinho recomeçou os seus latidos; ao menos, eu não incomodo a vizinhança quando não estou em casa. Mas o cãozinho, ah! o cãozinho ... esse ladra ... quando os donos estão ausentes. !
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Embora esteja calor, aqui em casa está um pouco mais fresco do que durante o dia na rua. Últimamente a rua parece um forno, como se estivéssemos no Alentejo, com uma brisa sufocante e uma luminosidade que fere o olhar. De resto não sei se tenho a vista mais sensível, mas a verdade é que há dias em que o brilho do ar é tão intenso que não consigo ler o jornal ao fim de semana além no cimo das escarpas de S.Nicolau., com o estuário do Sado ao fundo e a Serra da Arrábida à direita. Mas aqui á noite, na varanda da sala, corre uma brisa acariciante, conjuntamente com o cheiro da terra molhada de que falei.
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Hoje estou novamente com este enorme casarão por minha conta. A minha mãe esteve a passar uns dias em Setúbal., mas já regressou a Paço de Arcos. Apesar dos nossos "desentendimentos" a casa ficou vazia, aliás como sucede quando o Rui e a Susana se vão embora, especialmente após estadias mais prolongadas. Quando me dá a "pancada" normalmente vou sair, andando por aí. Ou telefono ás pessoas conhecidas. Mas hoje nada disso fiz.
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De modo que vi forçadamente uma comédia romântica na Televisão, onde no fim todos(as) casam e presumívelmente viveram felizes até ao fim dos seus dias, como nas histórias de fadas. A história passava-se nos Estados Unidos, pretensamente numa colónia de emigrantes portugueses que tinham um restaurante especializado em ... pizzas deliciosas, com ingredientes cujo segredo passava de geração em geração desde uma avó algarvia!
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E eu a pensar que as pizzas eram uma especialidade italiana. Nada como estas histórias americanas para melhor ficarmos a conhecer este Portugal á beira-mar plantado. É verdade que durante o filme só se falava inglês e que as únicas palavras portuguesas constavam dos cartazes turísticos nas paredes do referido restaurante. Ah! mas não haja desesperos, porque deram a festa de casamento duma das três meninas luso-americanas do filme e durante a mesma os espectadores foram brindados com duas canções em português castiço e mau sotaque: a Sapateia açoriana e um fado lisboeta, que já não me lembro bem se era aquele da morte da andorinha que não põe termo à Primavera.
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O filme era muito ajuízado Pois é, mas uma das meninas, a doidivanas que andava com este e com aquele, casou com o filho dum ricaço, nos primórdios canalizador, enriquecido à custa do seu (dele) trabalho (quando me parece que apenas se enriquece à custa do trabalho ... dos outros). A outra menina, que também gostava do fornicanso, mas só com o noivo, todo de moral á moda antiga, acabou por render-se-lhe, casando com o dito cujo,. um pescador cujo pai seria patrão da futura sogra, embora não me tenha ficado claro se o dito pai era dono dum barco de pesca. A mais intelectual e santinha, irmã da primeira, perdeu o arquitecto de cuja filha era baby-sitter, pois o dito intelectual (muito parecido fisicamente com o meu chefe) preferiu continuar com a esposa legítima. E embora a santinha tivesse rasgado o cheque dos serviços prestados como baby-sitter, por causa das confusões, não perdeu tudo, pois sempre conseguiu ingressar na prestigiada Universidade de Yale, para tirar um curso de Astronomia, graças a um empréstimo-donativo da bondosa patroa da pizzeria.
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E depois de ver um tão romântico filme resolvi sentar-me defronte ao computador para falar com a Maria do Mar. Mas, correndo o tempo e olhando agora para o relógio, noto que já passam 25 minutos da uma da madrugada. A esta hora está ela nos braços de Morfeu em Vale de Lençóis, pelo que sózinho me vou deitar, embalado pelos esganiçados latidos do malfadado cão. Bye, Bye, Kiss, Kiss, que tempo não faltará para continuar esta amena cavaqueira. Entretanto vou aquecer uma bebida para aconchegar o estômago.
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Setúbal, 1993.08.10

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Ao (es)correr da pena e do olhar (16)


* Victor Nogueira
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Está uma tarde soalheira, neste final de verão e aproveito a lazeira para agarrar na "machine" e alinhavar umas linhas na sequência da inesperadamente volumosa missiva da Musa d'Ante, que consegui traduzir na sua quase totalidade, embora lembrando-me do tempo em que me virava para a minha secretária e lhe pedia para decifrar-me o que eu havia escrito, o que ela normalmente conseguia. Só que neste caso o pergaminho é doutrem e a dourada prateleira em que estou nem a moço de fretes dá direito! Enquanto escrevo aguardo que do INE me atendam, do outro lado da linha, enquanto ouço uma música estilo cavalgada heróica bachiana.(...)
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Já me atenderam e voltei ao meio do barulho do rádio ali da sala ao lado e a alto ronronar do aparelho de ar condicionado; antes a música heroicamente bachiana! É o meu segunda dia de "trabalho" post-férias e vai-me faltando a paciência para aturar estes dias de nada fazer que já completaram alguns demasiado largos semestres.
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Passei as férias lá para o Norte, para as bandas do berço da nacionalidade, visitando o castelo de Guimarães; igrejas românicas e citâneas celtibéricas, como Sanfins e Briteiros. Uma aventura andar a conduzir naquelas estreitas e sinuosas veredas, mal sinalizadas, com pessoas simpáticas que se metem no carro para nos indicarem o caminho, quando não nos dizem que é já ali à direita enquanto apontam a esquerda, já ali a dois quilómetros, que não pertencem ao sistema métrico do contador do Renault 5, que os multiplica sempre por quatro ou cinco. Mas outro factor de aventura resulta de possuírem outro código de estrada: não abrandam nas cruzamentos, mesmo que se apresentem pela esquerda, o STOP não existe, os motociclistas não usam capacete e entram nas curvas a cortar a direito, os peões ficam aparvalhados à beira da passadeira quando paramos para lhes dar passagem, enquanto os automobilistas não facilitam mesmo nada para entrarmos na "corrente".
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Mas aventura também porque assim, deste modo, não há programa que resista, chegando a noite sem o cumprimento dos objectivos fixados de véspera, na mesa, debruçado sobre o mapa e o guia turístico das preciosidades a visitar ou a vislumbrar. Assim ainda não foi desta que fui ao Gerês, a Trás-os-Montes ou bordejando a margem norte do Rio Douro, para montante.
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Mas o Norte está diferente e poucos troços verdejantes se encontram ao longo dos caminhos ou pelos atalhos. Casas, muitas casas, sejam ou não "maisons" dos "avec" que irrompem agressivamente na paisagem, numa fúria de "apagar" o passado, sejam ou não melhoradas as condições de habitabilídade; os campos e as povoações já não ostentam aquele equilíbrio entre o "natural" e o humanizado.
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No Mindelo, onde os meus pais herdaram a casa de verão do meu avô materno, já pouco resta do antigamente, havendo um contraste nítido entre o coração do povoado inicial e as "cogumélicas" casas de grandes ou menos grandes e cuidados jardins que nascem à beira-mar duma praia rochosa e arenosa que cheira a iodo. Das casas do Zé Povinho, persistem algumas poucas e arruinadas, de granito, que desta feita a máquina fotográfica registou.
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Mas, passado o Verão, o Mindelo e a Póvoa de Varzim retomam a calma e pasmaceira que os "turistas" quebram com o seu "cosmopolitismo" e juventude. Já em Vila do Conde, onde ainda se mantém o ar antigo e uma ou duas ruas manuelinas; (com mais janelas e portas do que em Setúbal), o equilíbrio e o sossego mantém-se pelo ano inteiro.
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Eis-me, pois, regressado a Setúbal, onde amanhã começa mais um Festival de Teatro, este homenageando o Mário de Sá Carneiro, mas que não me seduz muito pelo programa apresentado. Outrora sempre vinham cá companhias de todo o país, das consagradas, que nos permitiam ver ou rever as peças durante o ano representadas em Lisboa, Porto e arredores. E assim se vai perdendo o teatro. Mas não só o teatro. Agora foi a vez do Casino Setubalense, últimamente especializado em pornografia, após a fase do kung-fu e dos lacrimejantes filmes indianos, onde uma vez consegui ver "Por Favor Não Me Mordam o Pescoço", do Polanski, por uma daquelas insólitas surpresas proporcionadas pelo exibidor.
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Segue-se este encerramento ao do Luísa Todi (agora Forum Municipal), ao do Bocage, ao do Grande Salão Recreio do Povo (agora Banco, preservada a fachada) ou ao do Salão da Sociedade Recreativa Perpétua Azeitonense. Consequências do vídeo, embora nada se compare ao envolvimento duma ecrã maior ou menor ou do cavaquear no intervalo, ritual também já ultrapassado nas salas de bolso que proliferam nos centros comerciais, desaguando os espectadores directamente para os corredores "montrados" e feéricamente coloridos.
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(...) Já o sol e a lua se puseram desde que. as linhas anteriores foram escritas, o que significa que este é um novo dia, oscilando entre o sol quente e o cinzento nublado ameaçador de chuva.
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Estou partido, pois andei a mudar estantes para se consigo arrumar em novas prateleiras os livros que proliferam como coelhos. Daqui a pouco vou até Lisboa para mais uma reunião sindical, pelo que não vale a pena ir ali ao arquivo e á secretaria em busca de volumosos e pouco apetitosos processos de obras ou requerimentos de viabilidade para retirar de cada um duas informações para um inquérito industrial do INE sobre loteamentos industriais. De modo que prossigo o alinhavar de linhas para a Musa d'Ante, os ouvidos massacrados pela agudeza e guincharia da música que em alto som irrompe ali da sala da Manel e da Célia, da qual estou separado apenas por um armário de madeira que não chega ao topo.
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Acabei por não ir à Festa do Avante, ao contrário do que programara, pois na véspera do meu regresso ao Sul tive um acidente por ter ido além da chinela. Pus-me a desentupir a canalização com soda cáustica, que espirrou e me mandou sucessivamente para os bancos de urgência dos Hospitais de Vila do Conde e de S. João, no Porto, sem outras consequências que não fosse passar uns dias às escuras, de olhos vendados ou de óculos escuros.
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Como se vê, umas férias aventurosas, com imprevistos ao virar de algumas esquinas, mas sem o cosmopolitismo e o internacionalismo das da Musa d'Ante.
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Apreciei o postal da casa do Karlinhos, que no entanto supunha mais escura e mais austera, mais em sintonia com a gravidade do seu porte de filósofo que mudou o mundo.
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Como terá ela resolvido o seu pungente dilema: comprou o anel ou ficou-se pelo "Ata-me" do Almodovar?
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Bem, parece que o dia se recompôs e o calor sobrepôs-se às potencialmente pluviosas núvens cinzentas.
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Esperemos que a Musa dê notícias e avise quando vier à Pátria, dela, que eu sou cidadão do mundo, embora não tenha passado, na Europa, de Badajoz e de Vila Nueva del Fresno ou Rosal de la Frontera, já não me lembro bem. Lembro-me, sim, que em Badajoz, no tempo da outra senhora. fiquei retido na fronteira, como refém, às ordens da PIDE com outros colegas, por causa do contrabando (de bebidas, roupas e chocolates), enquanto o prevaricador-mor ia a casa (em Évora) buscar dinheiro para pagar a pesada multa. Mas esta é uma história que talvez conte doutra vez.
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Setubal 1990.09.19
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Fotografia:
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A chegada em 1895 a Portugal do primeiro automóvel - Panhard Et Levassor - propriedade do 3º. Conde de Avillez, vem para Santiago. O mesmo automóvel é hoje pertença do Automóvel Clube de Portugal e encontra-se na cidade do Porto.