quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Ao (es)correr da pena e do olhar (17)

* Victor Nogueira
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Estive há pouco a regar as plantas e gosto muito do cheiro da terra seca depois de molhada. Olho pela janela e verifico que as vidraças estão precisando duma limpeza. É estranho, pois morando num sítio tão alto, não consigo livrar-me da poeira. Quando estreamos esta casa nas varandas havia montículos de terra, possívelmente trazidos pelas correntes de ar ascendentes.
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Olhando pela janela vejo os campos ao longe, lá embaixo, cada vez mais afastados pelas casas que se vão construindo; daqui a uns tempos deixarei de morar no limite oriental da cidade. Mas no Verão o único verde é o dos aglomerados de árvores (sobreiros e azinheiras ?), pois a terra ressequida é simplesmente castanha. E á noite, em qualquer altura, a vista é encantadora, com a claridade da iluminação das ruas, das casas e, quase no horizonte, das fábricas da zona industrial da Mitrena., para além do luzeiro cintilante das luzes das povoações dos arredores.
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Como sempre o vento faz vibrar as janelas nas calhas, dum modo monótono, mesmo irritante por vezes. "Música" á qual um dia destes tenho de pôr fim. Para além disso tenho por vezes o acompanhamento da voz esganiçada do cão aqui do vizinho do andar de baixo. Para lá da janela, quando aberta, chega o ruído dos carros que passam lá em baixo na avenida, conjuntamente com o falar das pessoas ali no Parque da Lanchoa, cavaqueando em noites frescas até altas horas da matina. O cãozinho recomeçou os seus latidos; ao menos, eu não incomodo a vizinhança quando não estou em casa. Mas o cãozinho, ah! o cãozinho ... esse ladra ... quando os donos estão ausentes. !
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Embora esteja calor, aqui em casa está um pouco mais fresco do que durante o dia na rua. Últimamente a rua parece um forno, como se estivéssemos no Alentejo, com uma brisa sufocante e uma luminosidade que fere o olhar. De resto não sei se tenho a vista mais sensível, mas a verdade é que há dias em que o brilho do ar é tão intenso que não consigo ler o jornal ao fim de semana além no cimo das escarpas de S.Nicolau., com o estuário do Sado ao fundo e a Serra da Arrábida à direita. Mas aqui á noite, na varanda da sala, corre uma brisa acariciante, conjuntamente com o cheiro da terra molhada de que falei.
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Hoje estou novamente com este enorme casarão por minha conta. A minha mãe esteve a passar uns dias em Setúbal., mas já regressou a Paço de Arcos. Apesar dos nossos "desentendimentos" a casa ficou vazia, aliás como sucede quando o Rui e a Susana se vão embora, especialmente após estadias mais prolongadas. Quando me dá a "pancada" normalmente vou sair, andando por aí. Ou telefono ás pessoas conhecidas. Mas hoje nada disso fiz.
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De modo que vi forçadamente uma comédia romântica na Televisão, onde no fim todos(as) casam e presumívelmente viveram felizes até ao fim dos seus dias, como nas histórias de fadas. A história passava-se nos Estados Unidos, pretensamente numa colónia de emigrantes portugueses que tinham um restaurante especializado em ... pizzas deliciosas, com ingredientes cujo segredo passava de geração em geração desde uma avó algarvia!
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E eu a pensar que as pizzas eram uma especialidade italiana. Nada como estas histórias americanas para melhor ficarmos a conhecer este Portugal á beira-mar plantado. É verdade que durante o filme só se falava inglês e que as únicas palavras portuguesas constavam dos cartazes turísticos nas paredes do referido restaurante. Ah! mas não haja desesperos, porque deram a festa de casamento duma das três meninas luso-americanas do filme e durante a mesma os espectadores foram brindados com duas canções em português castiço e mau sotaque: a Sapateia açoriana e um fado lisboeta, que já não me lembro bem se era aquele da morte da andorinha que não põe termo à Primavera.
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O filme era muito ajuízado Pois é, mas uma das meninas, a doidivanas que andava com este e com aquele, casou com o filho dum ricaço, nos primórdios canalizador, enriquecido à custa do seu (dele) trabalho (quando me parece que apenas se enriquece à custa do trabalho ... dos outros). A outra menina, que também gostava do fornicanso, mas só com o noivo, todo de moral á moda antiga, acabou por render-se-lhe, casando com o dito cujo,. um pescador cujo pai seria patrão da futura sogra, embora não me tenha ficado claro se o dito pai era dono dum barco de pesca. A mais intelectual e santinha, irmã da primeira, perdeu o arquitecto de cuja filha era baby-sitter, pois o dito intelectual (muito parecido fisicamente com o meu chefe) preferiu continuar com a esposa legítima. E embora a santinha tivesse rasgado o cheque dos serviços prestados como baby-sitter, por causa das confusões, não perdeu tudo, pois sempre conseguiu ingressar na prestigiada Universidade de Yale, para tirar um curso de Astronomia, graças a um empréstimo-donativo da bondosa patroa da pizzeria.
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E depois de ver um tão romântico filme resolvi sentar-me defronte ao computador para falar com a Maria do Mar. Mas, correndo o tempo e olhando agora para o relógio, noto que já passam 25 minutos da uma da madrugada. A esta hora está ela nos braços de Morfeu em Vale de Lençóis, pelo que sózinho me vou deitar, embalado pelos esganiçados latidos do malfadado cão. Bye, Bye, Kiss, Kiss, que tempo não faltará para continuar esta amena cavaqueira. Entretanto vou aquecer uma bebida para aconchegar o estômago.
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Setúbal, 1993.08.10

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Sedução - O prelúdio do na minha casa ou na tua...

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* Maria Ramos Silva
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Homens, mulheres e códigos. A sedução é uma complexa regra de três simples. Uma antropóloga estudou-a dois anos na Lisboa à noite. Saímos à rua para a prova dos nove.
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Não sei quem eles são. Parecem bons rapazes, um pouco tímidos até. Ele, negoceia as rosas a quem lhe impinge flores em forma de ramo. Arremata três, a conta que Deus terá feito. Ela, arrecada a oferta com um sorriso de orelha a orelha. Em redor da mesa, o cálculo faz-se a dois. Duas pessoas e dois copos de cerveja. Moderados no consumo, desbocados na conversa e na urgência de saber mais. Não esbanjam bebida, delapidam charme. Aqui, o piropo empoleirado no andaime não tem obra feita. Reina o bom-gosto. Com muito gosto. Relação recente, arrisco.
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O espaço para dançar é exíguo neste ponto lisboeta do Bairro Alto onde as mesas recatadas chamam pelos que entrelaçam mãos e abraços, que chegam mais cedo que os outros e saem antes que o barulho das luzes cegue a razão. As regras da sedução desfilam à nossa frente. Parece fácil e infalível. Mais fácil seria se tivessem precisão geográfica. Não têm. Não há bússola que o valha e nem sempre é fácil descobrir o Norte. Há coordenadas que têm barbas. E algumas novidades. Novos sinais, ou um sinal dos tempos. Durante dois anos, a antropóloga Guadalupe Lamy entrou no circuito da sedução e percorreu quatro pontos geográficos da noite lisboeta. Observou. Participou. Seduziu. Deixou-se seduzir. Saquearam-lhe um beijo sem pedir licença e serviram-lhe propostas indecentes de bandeja. Escutou as ilusões e desilusões de 120 pessoas, 60 homens e 60 mulheres, dos 18 aos 65 anos. Divorciadas, homens casados sozinhos na noite, jovens, muito jovens, quarentões e cinquentões, casais, solitários em busca do amor.
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“Decidi-me por quatro zonas, um bar/discoteca em cada. Achei interessante estudar os comportamentos erótico-amorosos heterossexuais a nível micro, onde pudesse condensar bastantes pessoas e observar o seu comportamento. A noite era o local ideal, porque há, à partida, predisposição para isso”, explica Guadalupe.
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PORQUE SEDUZIMOS
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Porque seduzimos e somos seduzidos? Porque arremessamos e agarramos olhares e sorrisos? Porque replicamos ou engarrafamos o processo com a dita tampa? Porque caprichamos na dose de perfume, medimos as proporções da roupa ou praticamos a fala do corpo com a voracidade de quem treina uma língua estrangeira? “Há motivações ligadas ao percurso de cada um. A maior delas é fugir à rotina. Também há a solidão e a necessidade de expandir o ego, de nos sentirmos valorizados. Há quem venha afogar as mágoas e quem se queixe do desinvestimento erótico do parceiro(a)”. A sedução está por todo o lado, menos ubíqua que uma cadeia de hipermercados, mas suficientemente presente. “A noite não é só sedução, é uma festa, há convívio deserotizado. É o conjunto da indústria da noite que fomenta a sedução”.
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No Bairro Alto, a ‘pose blasée’ dos convivas sai menos beliscada do que em outras latitudes. Mas não pense que um aliciamento com ‘cubanitos’ ou uma abordagem inesperada em plena calçada portuguesa, onde se espraiam as pernas despidas pelo calor do estio, são imunes a desfechos clássicos alinhavados em dois tempos: “Na minha casa, ou na tua?”. Os brasileiros têm rótulo próprio: ‘ficar’. Os portugueses não ficam, vão, para a ‘curte’, corolário de um jogo bem conseguido até ao lavar dos cestos nocturnos. Segundo Guadalupe, em 30 a 40% dos casos há correspondência na sedução. “Elas procuram mais envolvimento afectivo. Algumas pessoas relataram-me que conseguem estar há vários meses ou anos com pessoas que conheceram na noite. Dizem que não se conhecem as pessoas verdadeiramente, mas falam muito do mistério associado. Como se comportarão? Como a irei seduzir? O que se vai passar a seguir?. Também ouvi histórias de desilusão, de arrependimento. É o prazer fugaz do momento. Aconteceu e acontecerá”.
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As perguntas alimentam a curiosidade, e esta só descansa quando mata a fome com as respostas. Procuramo-las em outra freguesia, em outra geografia, num enclave de outras tribos urbanas, também elas emergentes na vida nocturna, que assistiu à democratização dos comportamentos, ao sabor da litoralização, dos videoclips, das telenovelas, do cravo e da canela de uma certa Gabriela, da massificação do consumo.
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Massas de gente é o que nos engole agora num dos muitos poisos das Docas de Alcântara. Bailarinas suam as estopinhas para entreter a multidão. Os tops e saias fogem à polícia. As costas descobertas passeiam generosas tatuagens. Ali vai um escorpião que desperta a libido e a picada de quem dança nas imediações. Gravatas abandonam o pescoço e ajeitam-se em redor da cabeça, qual acessório de ‘Rambo’. Um encosto solitário ao balcão, ponto de ‘controlo’ privilegiado, vale companhia em tempo recorde. Basta fazer o teste... As obrigações ficam lá fora. A responsabilidade numa sexta-feira à noite é uma só: dançar até que o corpo nos doa. “Faço a distinção entre estrutura familiar, de trabalho e de estudo, um ambiente de regras e obediência, e o ambiente nocturno, menos estruturado, onde há mais espaço para a sedução. É o espaço da magia da noite”.
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No Carnaval dos serões, os disfarces lideram o corso da sedução, onde as almas ora se escondem, ora se revelam. “As pessoas vestem outra pele. Tiram ou põem a máscara. Dizem-me: “Agora é que sou eu mesma”, ou então, “agora vou ser outra pessoa”. As pessoas vendem a sua imagem na noite, há uma estratégia de marketing e jogos de competição, com a exibição generalizada para toda a gente e com as palavras que se seguem”.
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HÁ QUEM GOSTE DE QUEIMAR ETAPAS
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Se é que se seguem, porque há quem goste de queimar etapas. Na maioria dos casos, os mais ‘despachados’ deitam tudo a perder com uma pressa que é inimiga da perfeição. “Ambos os comportamentos têm um escalonamento, que começa nos olhares (mais fixo nos homens, ou olhar de soslaio, em ambos os sexos, ou piscar de olhos, também em ambos), no sorriso (as mulheres sorriem muito), depois a aproximação e o encetar da conversa. Mas há pessoas que entram logo a matar e saltam etapas! Isso para elas é arrasador, tal como os piropos concupiscentes”.
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Então e a história da química? A existir, parece que nem sempre tem final feliz. “Perguntei a muitos homens sobre a questão da química e disseram-me: “Se estou num ambiente a olhar para cinco ou seis mulheres, vou com a primeira que responde ao jogo”. Alguém falou em química?... “Preferem fixar-se em alguém, porque é melhor que olhar para vinte e não dar em nada. Também há quem fique três horas a olhar sem se cansar, com medo das ‘negas’”.
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A próxima investida não se faz esperar. Passa algures por Belém, onde parte da faixa etária dominante tem memória do tempo das matinés. O romantismo na sedução, acolitada por um saudoso slow, perdeu andamento. Nada que a música mexida de hoje não se encarregue de colmatar. Os decibéis agigantados convidam a danças isoladas. Mas a meio da noite, já os corpos conhecidos ou desconhecidos se colaram. (Não) está tudo perdido para a fauna de colarinhos engravatados que encostam ao balcão a expectativa de seduzir raparigas novas. “Preferem as mais jovens, mas para muitos tudo o que vem à rede é peixe! Homens mais velhos entram no jogo de dar uma gratificação pecuniária à barmaid, têm cumplicidade com ela. Aprumam-se. Os homens na casa dos 40/50 criticam a actual desinibição feminina mas aproveitam-se dela. E as mulheres solteiras na casa dos 40 dizem que no tempo delas não tinham tanta liberdade para sair. Ou então, casaram cedo e as divorciadas só agora têm esta liberdade que a vida de casada não dava. Muitas casadas ficam-se pelos olhares. Outras estão na onda do ‘swing’.
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O que também muda é o perfil dos serões. Durante a semana, as velas alumiam as mesas preenchidas por pares sofisticados na casa dos trinta. O ambiente é seleccionado, tal como canal de televisão, cirurgicamente cristalizado nos desfiles de moda. E tudo parece diferente da enchente de ‘habitués’ que por lá passeia as aspirações no final de uma semana de trabalho.
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Para os lados da Rocha Conde d’Óbidos a noite é das senhoras. E dos umbigos descobertos. E dos saltos agulha de parar o trânsito. É deles também, claro. Dos que se enfileiram à porta de entrada sem medo que a espera esfrie o entusiasmo. A pista abre-se à dança. O bar abre-se para elas. O cerco masculino, ainda distante, em fase de estudo, vai tirando medidas, quais meninos à volta das fogueiras que vão ardendo na pista de dança. Os excessos antevêem-se etílicos - e não só.
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Na noite onde todos os gatos são pardos, as ‘gatas’ não fazem por menos. O telemóvel é mini em espessura para caber no bolso acanhado das calças, sempre à mão dos muitos contactos que se vão fazendo. Sob um lance de escadas, os olhares deslocam-se para quem sobe, na esperança que as micro-saias revelem novos mundos ao Mundo. Tantas vezes o cântaro vai à fonte que a curiosidade acaba por ser satisfeita. Quantos degraus cabem no processo de sedução?. “Não há receita, mas se começarem pelo lúdico, tudo é possível Não se sabe o que cada um prefere, mas por norma, quem é mais jovem e desinibido tem mais chances”. Em último recurso, tente uma boa dose de descontracção e estupidez natural. Não tem nada que saber.
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AVISO À NAVEGAÇÃO
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O primeiro beijo pode determinar o futuro da relação. Pelo menos é o que indica uma pesquisa recente da Universidade de Nova Iorque sobre o acto de beijar, um dos condimentos da sedução. O estudo analisou as percepções de 1041 pessoas. 59% dos homens e 66% das mulheres disseram já ter descoberto, após o primeiro beijo, deixarem de estar interessados nessa pessoa. O estudo revela ainda que elas dão mais importância aos beijos do que eles.
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CONTEXTO SOCIAL DETERMINANTE
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Segundo Guadalupe, as relações de dominação e subordinação entre homem/mulher mantém-se mas o contexto social evoluiu, e com ele os códigos de sedução. Casamento tardio, decréscimo da nupcialidade, aumento do divórcio, ausência de filhos, são dados que mexeram com a ordem dos factores. As passagens ao acto ainda são mais masculinas, mas os papéis estão menos definidos, sobretudo nos grupos mais juvenis”.
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O QUE ELES E ELAS PROCURAM
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O objectivo pode ser mais ou menos imediato. Apesar de ser impossível generalizar, a principal conclusão é consensual: há diferença entre géneros.
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HOMENS
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Segundo um estudo da Universidade de Indiana, nos E.U.A., publicado na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences, eles procuram, sobretudo, beleza. O grau de atractividade é assim determinante na eleição de potenciais parceiras. O beijo, por exemplo, é uma ‘ferramenta’ para aumentar a possibilidade de envolvimento numa relação sexual.
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MULHERES
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No mesmo estudo, que analisou o comportamento de 46 pessoas que participaram de uma reunião de um serviço de encontros rápidos, conhecido como “speed-dating”, foi extraída a conclusão de que as mulheres se deixam seduzir pelo factor ‘riqueza’ ao avaliarem os possíveis parceiros. A garantia de segurança financeira é importante para a ala feminina. .
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PERFIL
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Guadalupe Lamy, 42 anos, é doutorada em antropologia sócio-cultural e investigadora do Centro de Estudos de Migrações e Minorias Étnicas, onde realiza actualmente o pós-doutoramento sobre sexualidade e sida em contexto multicultural.
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in Correio da Manhã 2007.09.16
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Foto - Bruno Colaço (Olhar, sorrir, aproximar e encetar conversa. É o chamado método clássico-moderno)

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Ao (es)correr da pena e do olhar (16)


* Victor Nogueira
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Está uma tarde soalheira, neste final de verão e aproveito a lazeira para agarrar na "machine" e alinhavar umas linhas na sequência da inesperadamente volumosa missiva da Musa d'Ante, que consegui traduzir na sua quase totalidade, embora lembrando-me do tempo em que me virava para a minha secretária e lhe pedia para decifrar-me o que eu havia escrito, o que ela normalmente conseguia. Só que neste caso o pergaminho é doutrem e a dourada prateleira em que estou nem a moço de fretes dá direito! Enquanto escrevo aguardo que do INE me atendam, do outro lado da linha, enquanto ouço uma música estilo cavalgada heróica bachiana.(...)
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Já me atenderam e voltei ao meio do barulho do rádio ali da sala ao lado e a alto ronronar do aparelho de ar condicionado; antes a música heroicamente bachiana! É o meu segunda dia de "trabalho" post-férias e vai-me faltando a paciência para aturar estes dias de nada fazer que já completaram alguns demasiado largos semestres.
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Passei as férias lá para o Norte, para as bandas do berço da nacionalidade, visitando o castelo de Guimarães; igrejas românicas e citâneas celtibéricas, como Sanfins e Briteiros. Uma aventura andar a conduzir naquelas estreitas e sinuosas veredas, mal sinalizadas, com pessoas simpáticas que se metem no carro para nos indicarem o caminho, quando não nos dizem que é já ali à direita enquanto apontam a esquerda, já ali a dois quilómetros, que não pertencem ao sistema métrico do contador do Renault 5, que os multiplica sempre por quatro ou cinco. Mas outro factor de aventura resulta de possuírem outro código de estrada: não abrandam nas cruzamentos, mesmo que se apresentem pela esquerda, o STOP não existe, os motociclistas não usam capacete e entram nas curvas a cortar a direito, os peões ficam aparvalhados à beira da passadeira quando paramos para lhes dar passagem, enquanto os automobilistas não facilitam mesmo nada para entrarmos na "corrente".
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Mas aventura também porque assim, deste modo, não há programa que resista, chegando a noite sem o cumprimento dos objectivos fixados de véspera, na mesa, debruçado sobre o mapa e o guia turístico das preciosidades a visitar ou a vislumbrar. Assim ainda não foi desta que fui ao Gerês, a Trás-os-Montes ou bordejando a margem norte do Rio Douro, para montante.
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Mas o Norte está diferente e poucos troços verdejantes se encontram ao longo dos caminhos ou pelos atalhos. Casas, muitas casas, sejam ou não "maisons" dos "avec" que irrompem agressivamente na paisagem, numa fúria de "apagar" o passado, sejam ou não melhoradas as condições de habitabilídade; os campos e as povoações já não ostentam aquele equilíbrio entre o "natural" e o humanizado.
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No Mindelo, onde os meus pais herdaram a casa de verão do meu avô materno, já pouco resta do antigamente, havendo um contraste nítido entre o coração do povoado inicial e as "cogumélicas" casas de grandes ou menos grandes e cuidados jardins que nascem à beira-mar duma praia rochosa e arenosa que cheira a iodo. Das casas do Zé Povinho, persistem algumas poucas e arruinadas, de granito, que desta feita a máquina fotográfica registou.
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Mas, passado o Verão, o Mindelo e a Póvoa de Varzim retomam a calma e pasmaceira que os "turistas" quebram com o seu "cosmopolitismo" e juventude. Já em Vila do Conde, onde ainda se mantém o ar antigo e uma ou duas ruas manuelinas; (com mais janelas e portas do que em Setúbal), o equilíbrio e o sossego mantém-se pelo ano inteiro.
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Eis-me, pois, regressado a Setúbal, onde amanhã começa mais um Festival de Teatro, este homenageando o Mário de Sá Carneiro, mas que não me seduz muito pelo programa apresentado. Outrora sempre vinham cá companhias de todo o país, das consagradas, que nos permitiam ver ou rever as peças durante o ano representadas em Lisboa, Porto e arredores. E assim se vai perdendo o teatro. Mas não só o teatro. Agora foi a vez do Casino Setubalense, últimamente especializado em pornografia, após a fase do kung-fu e dos lacrimejantes filmes indianos, onde uma vez consegui ver "Por Favor Não Me Mordam o Pescoço", do Polanski, por uma daquelas insólitas surpresas proporcionadas pelo exibidor.
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Segue-se este encerramento ao do Luísa Todi (agora Forum Municipal), ao do Bocage, ao do Grande Salão Recreio do Povo (agora Banco, preservada a fachada) ou ao do Salão da Sociedade Recreativa Perpétua Azeitonense. Consequências do vídeo, embora nada se compare ao envolvimento duma ecrã maior ou menor ou do cavaquear no intervalo, ritual também já ultrapassado nas salas de bolso que proliferam nos centros comerciais, desaguando os espectadores directamente para os corredores "montrados" e feéricamente coloridos.
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(...) Já o sol e a lua se puseram desde que. as linhas anteriores foram escritas, o que significa que este é um novo dia, oscilando entre o sol quente e o cinzento nublado ameaçador de chuva.
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Estou partido, pois andei a mudar estantes para se consigo arrumar em novas prateleiras os livros que proliferam como coelhos. Daqui a pouco vou até Lisboa para mais uma reunião sindical, pelo que não vale a pena ir ali ao arquivo e á secretaria em busca de volumosos e pouco apetitosos processos de obras ou requerimentos de viabilidade para retirar de cada um duas informações para um inquérito industrial do INE sobre loteamentos industriais. De modo que prossigo o alinhavar de linhas para a Musa d'Ante, os ouvidos massacrados pela agudeza e guincharia da música que em alto som irrompe ali da sala da Manel e da Célia, da qual estou separado apenas por um armário de madeira que não chega ao topo.
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Acabei por não ir à Festa do Avante, ao contrário do que programara, pois na véspera do meu regresso ao Sul tive um acidente por ter ido além da chinela. Pus-me a desentupir a canalização com soda cáustica, que espirrou e me mandou sucessivamente para os bancos de urgência dos Hospitais de Vila do Conde e de S. João, no Porto, sem outras consequências que não fosse passar uns dias às escuras, de olhos vendados ou de óculos escuros.
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Como se vê, umas férias aventurosas, com imprevistos ao virar de algumas esquinas, mas sem o cosmopolitismo e o internacionalismo das da Musa d'Ante.
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Apreciei o postal da casa do Karlinhos, que no entanto supunha mais escura e mais austera, mais em sintonia com a gravidade do seu porte de filósofo que mudou o mundo.
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Como terá ela resolvido o seu pungente dilema: comprou o anel ou ficou-se pelo "Ata-me" do Almodovar?
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Bem, parece que o dia se recompôs e o calor sobrepôs-se às potencialmente pluviosas núvens cinzentas.
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Esperemos que a Musa dê notícias e avise quando vier à Pátria, dela, que eu sou cidadão do mundo, embora não tenha passado, na Europa, de Badajoz e de Vila Nueva del Fresno ou Rosal de la Frontera, já não me lembro bem. Lembro-me, sim, que em Badajoz, no tempo da outra senhora. fiquei retido na fronteira, como refém, às ordens da PIDE com outros colegas, por causa do contrabando (de bebidas, roupas e chocolates), enquanto o prevaricador-mor ia a casa (em Évora) buscar dinheiro para pagar a pesada multa. Mas esta é uma história que talvez conte doutra vez.
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Setubal 1990.09.19
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Fotografia:
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A chegada em 1895 a Portugal do primeiro automóvel - Panhard Et Levassor - propriedade do 3º. Conde de Avillez, vem para Santiago. O mesmo automóvel é hoje pertença do Automóvel Clube de Portugal e encontra-se na cidade do Porto.

Ao (es)correr da pena e do olhar (15)

* Victor Nogueira
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A vida flui e cada instante é diferente do anterior; nada na vida se repete. Ambos somos hoje diferentes, porque noutra situação. Amanhã, mudando-se as circunstâncias, mudaremos, bem como aquilo que cada um de nós espera do outro. (...) Encontrámo-nos a uma esquina da vida, por acaso e com naturalidade, porque somos pessoas que se reconheceram nalguma coisa e que, por isso, se tornaram amigas. Mas não nos conhecemos o suficiente para que possamos hoje dizer se seremos algo mais que isso.
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(...)Há um, dois anos atrás, teria aproveitado a ida a Lisboa para passear por essa cidade que amo, apesar da alegria de voltar a casa onde tinha companhia. Hoje voltei para Setúbal e nem à manifestação da Função Pública fui, apesar de desafiado para isso.
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(...) A reunião em Lisboa decorreu. Encontrei alguns amigos doutras Câmaras. No regresso ainda passei pela de Setúbal, pelo Departamento de Pessoal, para assinar o despacho. pela noite dentro. (...)
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É quase uma da manhã e o silêncio invade a casa, quebrado apenas pelo matraquear da máquina, terminado que foi o disco das marchas militares.
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Setúbal, 1986.02.06

domingo, 16 de setembro de 2007

Ao (es)correr da pena e do olhar (14)

* Victor Nogueira
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A mudança da paragem do autocarro tornou o café mais frequentado e menos remansoso em determinadas horas, quando se amontoa pessoal aparecido sabe-se lá de onde. Contudo, em certas horas, ainda continua a ser um local agradável, acolhedor, como simpáticas são normalmente as proprietárias, entre a malta conhecidas como as "manas gordas". Há um outro café, o das escadinhas, também simpático embora mais calmo por não estar em sítio de passagem ou junto a paragem de autocarro.
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Aqui nesta zona residencial ficam parte dos serviços municipais, em área que era para ser um centro comercial, e talvez isso explique o hábito que se criou nos cafés das redondezas dos clientes levarem os comes e bebes para a mesa e, muitas vezes, de retorno para o balcão.
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E foi assim que tudo começou: escolhida a mesa, uns sentaram-se e outros ficaram a fazer o avio e por isso só depois reparámos que a mesa escolhida estava suja, pelo que pedimos ás manas que a limpassem, o que lhes caíu mal, enervou e fez com que uma delas derramasse a cafeteira do chá a ferver sobre as minhas calças o que, diga-se de passagem, não foi pêra doce. Por isso, uma hora depois, estava "caído" no Centro de Enfermagem, porque me doía cada vez mais o local da queimadura.
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Ás dezoito horas a sala de espera encontra-se habitualmente repleta de pacientes quase sempre "pacientes" enquanto aguardam o médico ou o enfermeiro, pelo que resolvi matar o tempo com aquelas revistas e jornais antigos que jazem nas salas de espera de consultórios. E foi assim que peguei na "Nova Gente" e procurei o ponto de encontro onde encontrei a Maria Helena, arquitecta, que mora em Lisboa, cidade que outrora amei mais do que actualmente, pois entretanto habituei-me ao relativo sossego de Évora e de Setúbal, onde quase tudo está ali ao alcance da mão, pese embora e por vezes a pasmaceira das terras pequenas, entremeada embora pelo individualismo e falta de calor e solidariedade das terras grandes.
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Mas não é hoje que vou falar sobre Évora, essa ilha sem mar no meio da planície alentejana ou sobre Setúbal, vagamente parecida com Luanda, onde nasci e vivi durante vinte anos. E também não é sobre Lisboa que falarei desta feita, essa Lisboa por onde ainda gosto de deambular aos fins de semana ou no Verão, quando não há corridas, nem engarrafamentos, nem esperas de fazer perder a paciência e a boa disposição.
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(...)Nas horas vagas leio, procuro conhecer novas terras e novas gentes, ouço música e vou ao cinema ou ao teatro. E também escrevo. E foi num desses que surgiu o Auto-retrato em Passatempo, "inspirado" num poema duma das glórias de Setúbal, de seu nome Bocage, embora se fiquem por aqui as semelhanças e parentescos!
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Com nariz grande, olhar estrelado,
Baixo, cabelo negro, ondulado,
Magro, moreno, mui desajeitado,
Nada ou p'la vida sempre perdoado.
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Buscando amizade, mau achado,
Agindo calma ou mui despeitado,
O êxito logrou, mal torneado,
Com persistência e pouco alegrado.
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Tolerante, mas não libertário,
Conduzindo, longe da multidão,
Na vida procurando liberdade.
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Em tudo mal, buscando seu contrário,
Com ar sério ou risonha feição,
Mal sente, co'a razão, felicidade.
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Setúbal, 1990.03.12

sábado, 15 de setembro de 2007

Dia do Bocage - Feriado Municipal de Setúbal


* Victor Nogueira
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Setúbal
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Hoje é feriado municipal, dia do Bocage. Por pouco passava-me desapercebido. Houve um ano em que me esqueci do raio do feriado, só me apercebendo dele quando cheguei ao edifício da Tetra e bati com o nariz na porta envidraçada!
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Como tinha o carro na oficina (só mo vieram entregar agora à tarde), hoje andei de autocarro, o que é por vezes mais interessante do que passar rapidamente de automóvel pela rua, com a atenção fixa ao espaço à nossa frente. Com efeito olha-se para o lado, vêm-se pessoas conhecidas de vista, apreciam-se as conversas e os cumprimentos, incluindo os do motorista para com as pessoas que reconhece no passeio enquanto o sinal vermelho não abre. Esta carreira da Terroa e outras similares, em terras como Setúbal, funciona como carreira familiar, onde o motorista e as pessoas se (re)conhecem das viagens de todos os dias.
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Na Praça do Bocage há uma alva barraquinha estilo mourisco, inaugurada hoje, contendo as principais peças do Plano Director Municipal, agora em fase de discussão pública. Lá estava a minha querida directora, rodeada de alguns colegas nossos, que ainda de longe me fez um correspondido aceno de mão com um sorriso de derreter o coração do mais incauto, aceno que se transformou numa amena cavaqueira quando cheguei ao pé deles e da barraquinha.
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Setúbal, 1993.09.15
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Terminei a minha digressão turística com uma visita às Igrejas de Santa Maria e de S. Julião. (1) Depois dum lanche frugal, apanhei a camioneta para Cacilhas, depois o ferry-boat para o Cais do Sodré e o comboio para Paço de Arcos. Só me faltou andar de avião. Em Setúbal reconheci o Zeca Afonso. Refreei o impulso de perguntar lhe "Você é que é o Zeca Afonso ?" e deixei o seguir para um café da Praça do Bocage. (MCG - 1972.12.29)

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1 - A igreja de Santa Maria é a Sé, com aspecto imponente; a de S. Julião, destruida pelo terramoto de 1755, tem um aspecto desgracioso, mas conserva dois portais manuelinos. um deles belo e laboriosamente trabalhado e rendilhado.
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Lisboa
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São 12 h 00.m. Estou a escrever sentado numa das mesas dum dos cafés do Rossio, que tem resistido às investidas dos bancos (por quanto tempo, ainda?) mais precisamente o "Nicola", [na foto acima] que foi o poiso dum dos nossos maiores colegas: Bocage. Escrevo e simultaneamente vou comendo um "croissant", sorvendo aos poucos um escaldante "garoto" claro (ou "pingo", como se diz lá para o Norte). Nas mesas homens que já não são jovens - pelo menos cronologicamente como eu - encafuados em pesados sobretudos, alguns de chapéu a cabeça, cavaqueiam (sobre quê?), lêem o jornal ou limitam se a seguir com os olhos, absortos em pensamentos, o fumo dos cigarros. Também estão algumas mulheres (talvez senhoras, mas isso não interessa, somos só homens e mulheres). Aquela ali à minha esquerda escreve, não cartas mas, numa agenda ou bloco, notas. Ali a porta gira, gira, gira. Na fonte que se entrevê pela montra, a água jorra, jorra, jorra. Os automóveis passam, passam, passam. E o murmúrio das vozes, o tilintar das louças, a gaveta da caixa, constituem um pano de fundo. Évora morta, chata, entediante, onde estás tu!? (...) [Depois da monotonia de Évora, todo este bulício é reconfortante]. São 14:50. Fui corrido do café pois um "garoto" e um bolo não dão direito a mesa "per omnia saecula, saecolorum"! Especialmente à hora do almoço. (NSF - 1968.12.23)
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Caldas da Rainha
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Achei interessante mas não entusiasmante a torre sineira manuelina, quadrangular, da Igreja do Pópulo, com um relógio em cada uma das faces e um telhadinho de duas águas por cima de cada um dos lados da torre. Este templo era a antiga capela do Hospital e nas traseiras deste encontra se uma frondosa mata e o antigo Paço Real. De referir a Praça da República (1). Trata-se duma praça sobre o comprido, como a do Giraldo em Évora, constituída por edifícios de dois ou três pisos, com varandas de sacada no primeiro andar, onde todas as manhãs se realiza o mercado de frutas e legumes, de que me lembrava apenas da Pastelaria Bocage.
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A cidade possui um chafariz célebre, o das Cinco Bicas, na rua Diário de Notícias, embora lhe prefira o da Estrada da Foz, sendo ambos do século XVIII. (Notas de Viagem, 1997/1998)

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1 - Largo, Praça ou Rua da República, 5 de Outubro e Miguel Bombarda encontram-se um pouco por todo o Portugal! Tal como o Marquês de Pombal.
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Fotografia - Café Nicola em Lisboa, de Soren Rough (Soren Roug Connect) Lissabon 2005 )
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quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Ao (es)correr da pena e do olhar (13)

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* Victor Nogueira
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Dia de correio
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São 12:30. [Em Paço de Arcos] ouço o portão chiar e assomo à janela ... e não vejo ninguém (Algum miúdo que entrou e saiu, penso eu). Mas eis que batem com a aldraba na porta. Abro a e lá está o carteiro no gesto habitual, mão estendida com as cartas (hoje, apenas carta!) Cumprimentamo-nos e agradecemos mutuamente. Fecho a porta. Regresso à sala de estar, pego na tesoura para abrir o sobrescrito, que resguarda as notícias da C. "Olá, mocinho! Tenho apenas 21 anos dizem-me (a idade das, de algumas liberdades consentidas) ... " e continuo numa surpresa crescente, como a quem se revela numa faceta até aí ignorada. Todo eu sou uma crescente surpresa estupefacta! Apago o gira discos - que transmite canções do Nelson Eddy. Estou agradavelmente surpreendido e preciso de concentrar-me para perceber isto tudo, estas linhas inabituais. Volto ao princípio. Releio com os olhos, com a inteligência, com sofreguidão, com todo o meu ser, para aperceber-me duma C. desconhecida. Surpreso, não tanto pelo conteúdo, mas pela forma, pela linguagem invulgar (nela). É verdade que há alguns "senãos". (Não me apercebi ainda, p.exemplo, que ela soubesse que existe uma "certa técnica" aprendida, de beijar). Continuo a ler e, repentinamente, tudo se desmorona, numa enorme decepção. "Não Victor, tens razão, o palavreado não é meu ... "
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Resta me pois saber como é a personagem dum conto de [Urbano] Tavares Rodrigues com quem te queres identificar. É uma curiosidade desenganada que fica em mim. (MCG - 1972.09.06)
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Daqui desta terra
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Aqui estou no meu quarto, buscando para ti as palavras que não encontro, corpo sem imaginação mas irritado e desassossegado pela constipação que me percorre as veias e me enche dum nervoso miudinho. Busco para ti as palavras dos outros, nos livros dos outros, os ponteiros aproximando-se das nove e trinta, hora da vinda do homem que levará de mim as letras que cadenciadamente vão surgindo no papel branco que já não é só! Busco as palavras e apenas encontro estas, hoje vazio de ti pela tua ausência, ontem pleno pela nossa presença. São vinte e uma e vinte, hora de parar, os livros espalhados pela mesa, o corpo quebrado, a imaginação e a voz quase secas e frias. Daqui desta terra, para ti noutra terra, te abraço e beijo com ternura e amizade, na memória do tempo que fomos juntos. Aqui estou! (MCG - 1972.09.21)
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Uma troca justa
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Estou a escrever lentamente por dois motivos, o principal dos quais é o facto desta nova carga da esferográfica ser extra fina, e portanto pouco deslizante pelo papel. (...) Fiz um negócio com o Camilo e trocámos as cargas das canetas. Sem dúvida alguma ambos lucrámos; ele porque escreve mais palavras por linha, eu porque escrevo mais por minuto. Estas cartas, escritas ao sabor do tempo e das ocasiões, lidas posteriormente, devem mostrar o seu verdadeiro valor, isto é, nenhum. (MCG - 1973.01.22)
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O raio da tinta pega se à pele
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Olho para os dedos que estão cheios de tinta. Pareço um menino da instrução primária. Como o sistema de enchimento da caneta está estragado - e só em acessórios esta caneta já me gastou mais que uma nova - tenho de fazer uma grande ginástica para enchê-la. É sempre esta fita. E o raio da tinta pega se à pele! (MCG - 1973.01.31) (1)
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1 - Anteriormente: "Esta caneta parece me-que torna mais ilegível a minha gatafunhada. Mas na sequência de pequenos acidentes em que Janeiro tem sido pródigo, a minha velha "Pelikan" passou à reserva por se ter avariado o sistema de enchimento. Recorri à outra, que tem um aparo demasiado fino" (MCG - 1973.01.16)
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O apartado 65
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O Apartado 65 (1) pede-me para dizer-te que tem sentido muito a tua falta e que se sente muito sozinhito (como diria o João Machado); ele bem gostaria de dar-me o contentamento das tuas notícias, e para isso bem se mantém alerta e vigilante, numa expectativa gorada sempre que se ouvem os passos do carteiro e o acender da luz. Mas é quase tudo ali p'ró lado, p'ró 63, que por sinal até é uma agência de casamentos muito falada nos pequenos anúncios do Diário de Notícias! Coitadinho, eu bem lhe digo que se não preocupe por ter a mala vazia quando lá vou, mas que queres, fica sempre triste por não me contentar. Digo lhe que os negócios do 63 são outros, que ali o 65 é mais para outros negócios, de coração ou não, mas ele não se convence. Lá o deixo meditabundo, mas diz me lá. C., que mais lhe hei de eu dizer? Ás vezes torno lá à tarde, para fazê-lo apanhar uma lufada de ar fresco, mas ele mostra-me logo que não! Vês, C., vês o que fazes? Habituaste-lo mal e agora ...
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Sim, que o desconsolo dele acaba por ser contagioso. (MCG - 1973.04.12).
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1 - Sempre tive apartado em Lisboa, enquanto estudante, e em Évora, até de lá sair. Dava-me liberdade de mudar de quarto quando tivesse de acontecer ou de reexpedir a correspondência, quando em férias. Em Lisboa o apartado ficava na Estação dos CTT da Praça do Comércio, perto dos Paços do Concelho e era, salvo erro, o 2354.
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Uma ida ao correio
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Vai uma pessoa de manhã ao correio, para o monte das que esperam pela abertura dos portões. Vai uma pessoa após o almoço, a cidade envolta num bafo quente. Penosamente o corpo abre caminho pelas ondas de calor. Sai do Arcada, curva à esquerda, segue em frente até ao Largo do Sertório. Faltam só 20 passos, 19. 18 ... 10 . 9 . 8 . 7 . 6 . 5 . 4 . 3 . 2 . 1 . (Uffa, finalmente a sombra dos arcos do correio, agora mais bonito porque deitaram abaixo o prédio nas traseiras do edifício da Câmara Municipal - o prédio que agora se avista é lindo. Deviam, no terreno vago, plantar erva e árvores frondosas. E colocar bancos. Mas tá quieto! Já andam lá tractores a escavar. Deve ser para outro prédio.) Entretanto entro no edifício. Viro à esquerda, dirijo-me para o apartado e ... levanto-me da mesa onde estou e procuro no monte das cartas e ... ah! deve estar ali. EUREKA - cá está! Não é! Olha, não encontro. Paciência. Mas que baldes de água ando apanhando! Safa! Nem um postalinho! (MCG - 1973.06.17)
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Pena de pato
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Há que tempos não escrevo com uma caneta estilo pena de pato, daquelas que temos de molhar frequentemente no tinteiro. Quando eu tinha para aí 7 anos - menino e moço em casa de meus pais - era com uma maquineta destas que se aprendia a escrever. Claro que eram mais os borrões que as palavras. (MCG - 1975.01.28)
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INcomunicando
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Antigamente as pessoas escreviam muito e as cartas eram meio de transmitir notícias e muitas delas, com maior ou menor valor literário, tornaram-se testemunho dos factos, acontecimentos, ideias e sentimentos. Mas hoje, hoje as pessoas telefonam ou encontram-se, devido à facilidade e rapidez dos transportes e das comunicações, e o tempo é pouco, paradoxalmente, devido à sobrecarga do que se gasta em transportes, sentado frente à TV ou em tarefas domésticas.
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O mesmo sucede com o convívio e a conversação: por vários motivos os cafés e as tertúlias desaparecem, só se conhece o vizinho da frente ou do lado, quando se conhece, e as pessoas metem-se na sua concha, casulo, carapaça ou buraco. Muita gente junta, ao alcance da mão ou da voz, não significa que estejamos mais acompanhados e humanizados. (MMA - 1993.08.19)
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(...)
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Hoje, que te escrevo, é o primeiro dia deste ano de 1994. Hoje, que me lês, é o primeiro dia do resto de nossas vidas. Cada dia que passa é sempre o primeiro dia do resto de nossas vidas. A única diferença é haver cada vez menos primeiros dias à nossa frente. (MMA - 1994.01.01)

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

Ao (es)correr da pena e do olhar (12)

Experiência nº 2
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Sábado, ao fim da tarde, resolvi fazer uma das minhas "experiências". (1) Desta vez resolvi analisar a evolução duma bebedeira, pelo que emborquei conscienciosamente meia garrafa de uísque. Infelizmente não tinha o gravador à mão e não pude registar as minhas observações, que ficaram assim soterradas nos subterrâneos da minha memória. Lembro me apenas de duas coisas importantes: a primeira é que a partir de certa altura é impossível coordenar ideias, pensar. O ecrã da nossa consciência nada mais regista. Já não pensamos no que quer que seja. A segunda, quando parece ser a cabeça uma enorme bola enchendo se cada vez mais, esvaziamo-la com a mão na testa. A cabeça reduz se a uma bola pequenina, com um ponto doloroso algures nela. (NOT s/data - 1972/73)
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1 - Não reencontrei a carta em que descrevia aquela que seria a experiência nº 1. Uma tarde, fartos da pasmaceira de Évora, eu e o João Luís resolvemos andar pelas ruas sorrindo de orelha a orelha para toda a gente com que nos cruzávamos, o que deu origem a algumas cenas retributórias caricatas, que não fixei.
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Sobre este último TEMA aconselho uma leitura de Felicidade e sorrisos , num blog simples e bem humorado que já vos aconselhei a visitar. Se ainda o não fizeram, porquê não aproveitar esta deixa? Estão à espera de quê? Ide, ide que vos não arrependereis. E Alá seja convosco.

Ao (es)correr da pena e do olhar (11)


Conheci a Ana SorRiso dos Olhos Grandes naquela aldeia grande que é a Amareleja, onde existe um Largo do Regato que se não vislumbra e morava a Maria Papoila, no 1º andar por cima duma loja, numa casa sem portas interiores. No tempo da outra senhora era aquela uma aldeia aberta, com os bailes na Sociedade e os longos passeios dos casalinhos ao longo das estradas que dela partiam ou para ela convergiam. Tinha a Amareleja muita gente conhecida: a Marília (muito bonita) e o tio, o sr. Coelho (da oposição ao regime e dono da farmácia), o Diogo (meu colega na pensão da D. Vitória), a Adélia, o sr. Guerreiro (regedor da aldeia) e a D. Marcelina (pais do Diogo e da Adélia), a Ivone (muito faladora, á espera do pretendente e do casamento que tardava), a D. Manuela (dona de uma loja e, como a anterior, professora), para além do casal velhote com a mercearia, no largo da igreja arruinada, em cuja casa ficava aos fins de semana, com o motorista da camioneta da carreira. Seguramente que havia mais gente, como a minha colega do Instituto, simpática, cujo nome esqueci e que por vezes me dava boleia, ou o Chico Honrado, que também fora meu colega.
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Mas verdade, verdadinha, foi em Setúbal, na fila do antigo Parque das Escolas, hoje do falecido José Afonso, que conheci a Ana SorRiso dos Olhos Grandes, em busca duma casa, mais nova e menina, em companhia do Zé, operário na Setenave e hoje polícia marítimo, amigo de pegas e toiros.
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E foi aqui no Pote de Água que nasceram a Cátia e a Aida e se apartaram a o Zé e a Ana SorRiso dos Olhos Grandes, como se apartaram muitos outros casais no prédio da encosta da Lanchoa. (...)
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Setúbal, 1989.06.05

terça-feira, 11 de setembro de 2007

Ao (es)correr da pena e do olhar (10)


* Victor Nogueira
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No tempo das cartas em papel, sobrescrito e selo
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1. Minha Senhora, de si ... parafraseando a Teresa Horta nesta resposta a "uma senhora livre e culta" que daquele jeito se apresentou nas páginas dominicais do respeitável Diário de Notícias, que hoje comprei para saber o que ontem se passou por esse mundo fora.
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Olho pela janela nesta tarde soalheira, do alto deste nono andar com os campos, as casas e os carros minúsculos lá em baixo, e pergunto-me quem será que deste modo tão lacónico se apresenta, deste modo hermético ?
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Espraio-me ou não na resposta ?! Não começarei por dizer "Cavalheiro ..." porque não faz parte de mim apresentar-me dum modo com reminiscências ultrapassadas neste tempo das novas tecnologias, apesar da delicadeza e bons modos ficarem bem a toda a gente.
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Assim, direi que estou interessado em conhecê-la. (...) Gosto de ler, escrever e contar, para além de cinema, música e teatro (como simples mas crítico consumidor ) Também gosto de conhecer novas terras, gentes e costumes, embora com peso, conta e medida.
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É muito, é pouco o que lhe disse ?! A sua resposta o dirá !
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2. "Mais uma ... ! " pensará para consigo, perante a avalanche de cartas diariamente caídas na caixa do correio, cada uma delas com seu jeito e feitio.
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Uma vez mais aqui em Paço de Arcos, onde venho com frequência, olho desta feita para o sintético anúncio do Ponto de Encontro, estendendo-se perante mim a estrada para Porto Salvo e o campo cada vez mais polvilhado de casas, que se vão juntando até formarem novos povoados.
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Olho pela janela nesta tarde soalheira e tenho algum interesse em conhecer e saber um pouco mais de quem se apresenta deste jeito simples e simpático e parece apreciar algo tão fugaz e frágil como a paz e a felicidade, objectivos perseguidos pela humanidade desde a bruma dos tempos.
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Olho pela janela para o céu azulado e para os campos verdejantes, reparo que o gravador transmite como sempre música, desta feita o Paulo de Carvalho em duas canções com poemas que aprecio, como o de De voz em voz e Olá, como vais ? ...
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Do meu nome já falei logo ali no princípio, quando escrevi Do Victor Manuel para Ana Paula, saudações. De mim posso acrescentar algo mais ao que transparece nas linhas anteriores. (...) E porque gostei do modo como se apresentou, resolvi esta visita; se quiser pode escrever-me, quanto mais não seja para dizer "Olá, como vais ?".
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3. Nesta azáfama quotidiana as horas vão somando dias e as semanas meses, até que um dia voltamos a encontrar o recorte da revista que então nos despertou a atenção. Aproveita-se um fim-de-semana para tentar pôr algo em dia, talvez extemporaneamente, como seja responder a uma jovem de 26 anos, que escreve "a solidão retira o sentido à vida", apesar de médica e psicóloga, portanto e aparentemente em profissão ou actividades onde o interesse e a solidariedade pelo(s) outro(s) são ou deverão ser uma constante.
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Porque escreve desta maneira a Ana Cristina, esperando de outrem, desconhecido e talvez distante, amizade, inteligência e alguma cultura ? (...) Quanto à solidão, bem .... quanto à solidão nem sempre será fonte de sofrimento; ás vezes é necessária, outras vezes dói mesmo.
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Morando e trabalhando em Setúbal, que outrora me encantou mais, quando jovem estudante em trânsito de Évora para Lisboa, Porto ou Luanda, procuro no mapa onde fica Estarreja, nome que me não é estranho. Cá está, mesmo ali ao pé de Aveiro, que só conheço dos filmes ou de passagem nas minhas idas e vindas, outrora mais frequentes, entre Lisboa e o Porto.(...)
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Paço de Arcos, 1988.MARÇO.06

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

Ao (es)correr da pena e do olhar (9)

* Victor Nogueira
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(...) No dia dos meus anos recebi quatro postais, cada um no seu género, que muito apreciei - o da Maria do Mar, o da Noémia, o da minha mãe e um colectivo, do pessoal do Departamento de Pessoal, este acompanhado dum cachecol.
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Gostei muito deste último postal, que tinha um poema, votos de feliz aniversário e beijos, seguidos de doze assinaturas. O poema, intitulado Livres, dizia:
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Somos livres perante o Sol do dia.
E livres perante as estrelas da noite:
E somos ainda livres quando não há sol
nem luar nem estrelas.
Somos ainda livres quando fechamos
nossos olhos a tudo quanto existe.
Mas somos escravos do que amamos:
Porque amamos:
E escravos do amor porque
amamos.
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Este "meu" pessoal é muito "romântico": o ano passado ofereceram-me um LP com tangos do Carlos Gardel, quatro álbuns de banda desenhada e um coração recortado com votos de parabéns e as assinaturas de todos eles e elas.
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Mas este ano, como já não estou no Departamento de Pessoal e me mandaram as "prendas" pelo correio interno, retribuí do mesmo modo, inventando um "cartão" á hora do almoço.
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No fim destas "férias" todas ainda consegui que me sobrassem dois dias para gozar no primeiro trimestre deste ano.
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Vou ainda ler dois álbuns de BD do Lucky Luke: um deles é A Noiva de Lucky Luke, em cujas histórias não aparecem normalmente mulheres, pois ele é um cowboy solitário, muito longe de casa. Houve três excepções: Calamity Jane (vaqueira, pistoleira e prostituta) e Sarah Bernardt (actriz), ambas com existência real. Mas neste A Noiva de Lucky Luke o autor é de um reacionarismo atroz, apresentando as mulheres como frívolas, sem cabeça, e uma "manada" conduzida pelo herói, atravessando os Estados Unidos à procura de marido, facto que é real. (...)
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Vi na TV dois filmes de que gostei: Nova Geração (American Grafitti), enternecedor, sobre os amores dos adolescentes, e O Lugar do Morto, estilo policial e passado em Lisboa.
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Setúbal, 1987.01.08
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NOTA - Nesta altura já o PS, ao ganhar a maioria na Câmara, já me tinha saneado, por razões meramente partidárias, de Dirigente do Departamento de Pessoal, colocando-me na prateleira A sanha contra os comunistas era tal que até sanearam malta do PSD , com quem estavam coligados, por se recusarem a deixar de falar com os comunas. E só não sanearam os meus colaboradores directos que, nem de longe nem de perto, nada tinham a ver com o PCP, porque alguém teve juízo e parou aquela onda fascizante. Há três coisas de que me orgulho - dos meus colaboradores terem feito um abaixo assinado que entregaram ao Presidente da Câmara, senhor Mata Cáceres, manifestando o seu apoio à minha permanência na Direcção do Departamento, dum encarregado anticomunista que disse à filha para falar comigo para ajudá-la a resolver questões laborais, porque eu era uma pessoa séria e que merecia confiança, e dos próprios PS que me diziam «Enquanto o Doutor lá esteve resolveu os problemas dos comunistas mas resolveu também os nossos. Mas estes (PS/PSD) nem os nossos resolvem». Durante muitos anos, quando ia ao Departamento de Pessoal, tratavam-me ou interpelavam-me por «Chefe» e quando retorquia que já não era chefe respondiam-me «Para nós é sempre o nosso Chefe»
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Talvez escrever isto vos pareça falta de humildade, mas eu entendo como uma homenagem à seriedade dos comunistas, que não sendo perfeitos, têm também algumas virtudes e não são gente sinistra e acéfala, com destino ao paredão de fuzilamento. (VN)

domingo, 9 de setembro de 2007

Ao (es)correr da pena e do olhar (8)

* Victor Nogueira
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Esta série proveio de Ao (es)correr da pena e do olhar (7)
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Está um bonito dia de sol e bem se pode dizer que o Verão de S.Martinho chegou, tarde, mas chegou. Como sempre o meu gabinete está superlotado, com mais quatro jovens do OTJ espalhados pela secretária à minha frente e pelo estirador à minha direita. Uns conversam, outros lêm o jornal, outros olham simplesmente para ontem. Hoje não há rádio. Um novo ocupante chegou, o A. que anda a curtir uma paixão por uma moça, sujeitando-se às brincadeiras dos restantes OTJ, designadamente da V.
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Estão aí os homens dos CTT para colocar um posto suplementar no meu gabinete, finalmente. Tenho que fazer mas o desassossego desta sala superlotada não é muito propício à elaboração do relatório das minhas actividades aqui na chafarica, para além doutros trabalhos periféricos.
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Olho pela janela e um rebanho de ovelhas vai ali pela placa central da avenida, por entre a lataria dos automóveis, vestígio do tempo em que esta era uma zona rural, como testemunham o olival além atrás e os nomes das ruas do Bairro da Belavista. De repente aumenta o movimento automóvel e apercebo-me que é meio dia e trinta e que vão sendo horas de abalada, pois vou almoçar á Baixa, para debater algumas questões político-partidárias.(....)
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Setúbal, 1986.12.03

sábado, 8 de setembro de 2007

Banda Desenhada

* Victor Nogueira
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Vou ainda ler dois álbuns de BD do Lucky Luke: um deles é A Noiva de Lucky Luke, em cujas histórias não aparecem normalmente mulheres, pois ele é um cowboy solitário, muito longe de casa. Houve três excepções: Calamity Jane (vaqueira, pistoleira e prostituta) e Sarah Bernardt (actriz), ambas com existência real. Mas neste A Noiva de Lucky Luke o autor é de um reacionarismo atroz, apresentando as mulheres como frívolas, sem cabeça, e uma "manada" conduzida pelo herói, atravessando os Estados Unidos à procura de marido, facto que é real. (...) (MMA - 1987.01.08)
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Quanto ao Rantanplan é um cão muito inteligente, tanto ou mais quanto o mais alto dos irmãos Dalton. No entanto costumo comprar ali na tabacaria uma revista cujo herói é um guerreiro chamado Groo, que a páginas tantas arranjou um cão, o Ruperto, não ficando qualquer deles atrás do Rantanplan em termos de perspicácia. Nada que se compare à Milou, fiel acompanhante do Tintin. (MMA - 1993.08.03)
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Trouxe quatro álbuns do "Calvin e Hobbes" bem como uma colectânea de anedotas, muitas das quais me divertem imenso. E também uma colectânea de anedotas. A primeira vez que folheei este livro numa livraria dei por mim a rir às gargalhadas, pelo que resolvi arrumá-lo de novo e rapidamente no mostruário, não fossem pensar que tinha enlouquecido e me ria a bandeiras despregadas só por folhear um simples mas volumoso livro de capa azul. Depois comprei-o numa Feira do Livro e durante algumas noites o meu vizinho velhote do andar de baixo deve ter pensado que eu me passara da mioleira, pois até altas horas da madrugada me deve ter ouvido rir, numa altura em que eu já vivia sozinho. (MMA - 1993.08.20)

sexta-feira, 7 de setembro de 2007

Festa do Avante 2007

Teatro

* Victor Nogueira
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Vi em Lisboa uma peça no Teatro Vasco Santana, "Lar", de um dramaturgo cujo nome não me ocorre. Gostei dela , apesar de haver momentos em que se apoderou de mim um estado de tensão explosiva. Cinco pessoas que se encontram num jardim, que falam umas com as outras, que fingem dialogar mas a sua conversação é convencional, inautentica, pois elas estão demasiado isoladas para poderem ouvir realmente os outros, para sintonizarem no mesmo comprimento de onda. (NID - 1971.01.04)
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Ontem fui pela 1ª vez ao teatro de revista, ver "Pides na Grelha", ali num barracão do Martim Moniz. [Teatro Ádoque] Para começar achei carote para espectáculo popular: 100 "palhaços". As piadas eram essencialmente políticas - algumas com piada, outras baseadas em trocadilhos. As miúdas, algumas, eram giras, mas os biquinis nada tinham de ousado. Mesmo nas duas cenas mais ousadas a ousadia centrava se em seios à mostra: a democracia a tomar banho - um quadro piroso - e a estátua da liberdade, que acaba coberta para não sofrer a influência das correntes de ar. O Spínola e o Galvão de Melo, os reaccionários, a Igreja, os capitalistas, o Otelo Saraiva de Carvalho eram os pratos fortes.
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A revista (esta) era essencialmente pedagógica, isto é, pretendia alertar os espectadores para a situação política actual. E embora no pano de cena se lessem siglas do MES, PPD, PS, MRPP, embora entre os assassinados pela PIDE figurasse o Ribeiro dos Santos do MRPP, ficou me a impressão que o PC (1) estaria por detrás da revista na qual, no final, se lembram os crimes de 48 anos de fascismo, desde aqueles assassinatos até à extinção das escolas primárias, passando pela repressão sobre os trabalhadores, os intelectuais e os estudantes.
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O último número era uma canção à qual o público não aderiu em massa, apesar dos actores se terem colocado pela plateia e a letra aparecer no palco. Ou as pessoas eram pitosgas ou não têm o hábito de confraternizar [Quanto a mim ... não tenho voz!] (MCG - 1974.10.11)
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1 - MES - Movimento de Esquerda Socialista, MRPP - Movimento Reorganizativo do Proletariado, PC - Partido Comunista Português, PIDE - Polícia Internacional e de Defesa do Estado, PS - Partido Socialista, PPD - Partido Popular Democrático

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Outro Homem na Lua

* Victor Nogueira
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Com o PC bloqueado - entenda-se -» personal computor - lá ficou o IRC de molho! Sabes, cada um dos meios de comunicação tem os seus inconvenientes e as suas vantagens: nunca te leria os meus poemas nem ao telefone nem de viva voz, antes tos daria em papel, que tu lerias ou não, imediatamente ou não, comentando ou não por escrito, de viva voz ou silenciosamente com a expressão dos teus olhos, do teu rosto e dos teus músculos faciais.
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As pessoas dizem que escrevo bem e há quem goste do que escrevo. Mas nunca ninguém comentou os poemas que eu ia dizendo com o teclado dum modo tão imediato, tão em cima do acontecimento e tão expressivo como tu o fizeste. Porque apesar da frieza do teclado e do ecrã, expressas-te dum modo expressivo, envolvente. Não sentia a tua voz, desconhecia como soaria aos meus ouvidos e que reacções despertaria em mim, não via o teu rosto nem o teu olhar, mas a comunicação fluía. Dum modo como não tem sucedido pelo telefone, em comunicação cheia de hiatos, de silêncios, com a descontinuidade do ora falo eu, ora falas tu. Apesar de teres uma voz muito agradável, embora com um jeito de quem está a falar com uma criança pequena ou com alguém com temos uma grande intimidade, quando ainda somos um para o outro como se fôramos uma folha quase em branco, onde se pode escrever tudo o que ainda lá não está!
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Comentei a tua voz com a Susana e despachada como é disse logo: ah! isso é voz de médica. E pensando bem, a J. uma desaparecida amiga nossa, tem um tom e um modo muito parecidos com o teu e fala assim com quase toda a gente; com mais reserva, é desse modo que falam as minhas médicas de clínica geral e de oftalmologia. Olha, a rapariga é capaz de ter razão!
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Mas na NET as pessoas encontram-se ou porque estão lá ou porque combinaram, sendo mais fácil preencher os tempos mortos, não existindo o receio de estar a incomodar ou a violar a privacidade de outrem, como sucede quando uma pessoa telefona a outra. Para além disso, na NET, se não queremos ou não podemos falar com alguém naquele momento, não se leva a mal que tal seja dito pelo interlocutor, nem se fica ofendido se nos dizem para não nos metermos, pois parte-se para outra.
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E depois as coisas podem ser comentadas no momento, sem prejuízo dum tratamento posterior. Com o e mail e sobretudo com o correio normal, há sempre um hiato, maior neste último caso. Não se fica a saber imediatamente o que o outro achou dos textos, como reagiu a este ou àquele comentário, aspecto ou atitude, etc., etc.
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Bem, menina, chega de filosofia internetiana. Em comentário final, já me têm adjectivado de várias maneiras, umas agradáveis e doces, outras ásperas quando não ofensivas. Mas essa de me compararem a uma pérola é originalidade tua. Se gostares de ópera ainda te ofereço O Pescador de Pérolas! ;o))))
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Está um bonito e soalheiro domingo, o Rui já desocupou o escritório-livraria-armazém ocupando o quarto que foi da irmã e já comecei a levar para lá a tralha e livralhada que me enchiam as restantes assoalhadas. Só depois é que começarão as arrumações propriamente ditas. A mudança para o fundo do quilométrico corredor tem a vantagem de afastar mais para longe os ensaios guitarrísticos da pesada, embora venha com frequência solicitar a minha deslocação para ouvir as composições letrísticas e musicais por ele criadas, insistindo que olhe para a arte do dedilhar as cordas, aspecto em que não sou expert.
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Já deves ter recebido a minha encomenda, esperando que aprecies. O livro tem também uma vantagem: podes adaptar as histórias para a Rita, se é que não as inventas mais ou menos fantasticamente como eu fazia, não contando duas vezes do mesmo modo. Esta metodologia surtia efeito com a Susana - cada história era uma nova história - mas dava origem a dramas com o Rui, que dizia que queria a outra, de que eu já me não lembrava: não era assim, conta como da outra vez!
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E já agora, por histórias, enquanto o PC do Rui não é posto operacional e enquanto aguardo a tua carta começada na madrugada deste domingo, e porque esta carta começou a ser escrita no dia do relançamento espacial do astronauta John Glenn, ao meu livro de Retratos fui então buscar a d'Um Homem na Lua. Queres ouvi la?
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Um homem na Lua
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(...)
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Os dias sucederam-se em carreirinha de humor oscilante: ora frio, ora calor, ora tempo seco, ora chuvoso, limpidamente azul ou de cinza nublado. Fui ao mapa localizar a tua terra, Alijó, e constato que vens ali das cercanias de Trás-os-Montes, mais propriamente das vizinhanças de Bila Real e Peso da Régua.. Ainda existe o enorme e centenário plátano frente à igreja matriz de que fala um dos livros que consulto para saber algo das tuas origens? A minha avó materna era dessas bandas, de Chaves, mas a minha família é de toda a banda: uns de Goios (Barcelos), outros de Matosinhos (Porto) e de Mora (Alentejo) e mais para trás do Ribatejo. Os meus pais são tripeiros de Cedofeita, eu fui nascer em Luanda e os meus filhos a Évora. Como vês, uma visita à família é quase como dar uma volta a Portugal, para não falar dos que andam ou andavam emigrados e de cujo convívio ando apartado desde a morte do meu avô materno, vai para um quarto de século.
Penso que já terás recebido a lembrança pelas tuas risonhas 46 primaveras e sem NET vou aguardando as tuas folhas manuscritas. Entretanto comprei um livro sobre a Internet, escrito numa linguagem acessível e muito informativo. Num outro que tinha cá em casa, ilustrado e mais ligeiro, descobri alguns signos pictóricos internetianos. Nesse livro o rosto é representado por :-. :-7 é sorriso forçado (como o meu enquanto não sei novas de ti!), :-D - riso a bandeiras despregadas, :'-( choro entre outros)
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Setúbal, 1998 Outubro 30 / Novembro 4
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O sol levantou-se várias vezes e outras tantas se pôs para lá do horizonte que lhe está defronte. Era para te mandar estas linhas por escrito, pelo correio normal, mas a disquete tem andado na carteira sem tempo para imprimir o ficheiro, pelo que vou mandar-ta pelo e-mail, pois a minha impressora caseira não está 100% OK e não tenho paciência para imprimir um texto tão longo. O PC do Rui já está operacional, mas os e-mail, incluindo os teus, ou foram à vida ou estão armazenados lá para um cantinho que não descubro, Sabes como recuperar o material? Bem, de qualquer modo diz-me os títulos ou 1º verso dos meus poemas que te enviei, para não apanhares com eles em dose reforçada.
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Amanhã é dia de referendo e pela 1ª vez nos últimos doze anos não estarei numa mesa de voto; a minha coluna está claudicante e não estou para sacrifícios. Aliás aquilo é uma estopada, excepto para o presidente, porque é o único que se diverte um pouco e não está quieto ou a conferir nomes.
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Setúbal, 98.11.07

Literatura - Miscelânea

* Victor Nogueira
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Não sei se aprecias literatura humorística. Se assim for, o último livro Unibolso tem interesse: "Aventuras de Tom Sawyer", de Mark Twain. Aqui fica a recomendação. (MCG - 1974.04.10)
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O "Diário de Lisboa", ao domingo, tem vindo a publicar as "Cartas de Soror Mariana"; não me despertou o interesse para ler a primeira, mas resolvi ler as seguintes e gostei. São muito expressivas e embora eu não conceba amores dramáticos áquele ponto, compreendem se os sentimentos daquela mulher. MCG - 1974.04.17)
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Olho pela montra da leitaria para localizá la e ... é mesmo ao lado da Rua Venceslau de Morais, um dos meus escritores preferidos da juventude. Acho que foi oficial da Armada Portuguesa, tendo se fixado e morrido no Extremo Oriente, por cujos usos e costumes se apaixonou e serviram de motivo aos seus livros. (1974.11.08)
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Acabei de ler pela 1ª vez um livro de Gorki - "O Espião", que conta a história dum informador da OKRAANA - será assim que se escreve o nome da "PIDE" da Rússia czarista? É um romance bem escrito, mas ... é um romance, que para além disso fala no povo e nos revolucionários, situando se a acção cerca de 1905, quando após uma série de sublevações populares, apesar e por causa dos massacres [efectuados] pelos cossacos (do czar), este último se vê forçado a conceder ao povo uma Duma, ou Assembleia Constituinte. (1974.11.28)
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Ler um livro de contos de Oscar Wilde, que me encanta. (MMA - 1986.12.17)

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Cinema - Uma Americanada

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* Victor Nogueira
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De modo que vi forçadamente uma comédia romântica (1) "Pizza, Amor e Fantasia" (Mystic Pizza)vna Televisão, onde no fim todos(as) casam e presumívelmente viveram felizes até ao fim dos seus dias, como nas histórias de fadas. A história passava-se nos Estados Unidos, pretensamente numa colónia de emigrantes portugueses que tinham um restaurante especializado em ... pizzas deliciosas, com ingredientes cujo segredo passava de geração em geração desde uma avó algarvia!
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E eu a pensar que as pizzas eram uma especialidade italiana. Nada como estas histórias americanas para melhor ficarmos a conhecer este Portugal á beira-mar plantado. É verdade que durante o filme só se falava inglês e que as únicas palavras portuguesas constavam dos cartazes turísticos nas paredes do referido restaurante. Ah! mas não haja desesperos, porque deram a festa de casamento duma das três meninas luso mericanas do filme e durante a mesma os espectadores foram brindados com duas canções em português castiço e mau sotaque: a Sapateia açoriana e um fado lisboeta, que já não me lembro bem se era aquele da morte da andorinha que não põe termo à Primavera.
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O filme era muito ajuízado Pois é, mas uma das meninas, a doidivanas que andava com este e com aquele, casou com o filho dum ricaço, nos primórdios canalizador, enriquecido à custa do seu (dele) trabalho (quando me parece que apenas se enriquece à custa do trabalho ... dos outros). A outra menina, que também gostava do fornicanso, mas só com o noivo, todo de moral á moda antiga, acabou por render-se-lhe, casando com o dito cujo,. um pescador cujo pai seria patrão da futura sogra, embora não me tenha ficado claro se o dito pai era dono dum barco de pesca. A mais intelectual e santinha, irmã da primeira, perdeu o arquitecto de cuja filha era baby-sitter, pois o dito intelectual (muito parecido fisicamente com o meu chefe) preferiu continuar com a esposa legítima. E embora a santinha tivesse rasgado o cheque dos serviços prestados como baby-sitter, por causa das confusões, não perdeu tudo, pois sempre conseguiu ingressar na prestigiada Universidade de Yale, para tirar um curso de Astronomia, graças a um empréstimo-donativo da bondosa patroa da pizzeria. (MMA - 1993.08.10)
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1 - Pizza, Amor e Fantasia (Mystic Pizza)

terça-feira, 4 de setembro de 2007

Leituras: outras notas

* Victor Nogueira
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Comprei hoje um livro muito interessante - ou não fosse satírico - e que tem levantado uma grande celeuma, originando um discurso do Casal Ribeiro, na Assembleia Nacional; este senhor é salazarista ferrenho e de boa memória, venerador e obrigado, e o livro é um gozo pegado sobre o Governo de Salazar. O livro "Dinossauro Excelentíssimo". O autor - José Cardoso Pires
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Comprei também "Novelas do Deccameron", selecção de novelas dum escritor italiano medieval - Boccacio - de quem já lera uma outra antologia - "Histórias Eróticas" (Editorial Inova). Do ponto de vista estilístico gostei mais do primeiro (como a das "Crónicas" do Fernão Lopes). Mas o último tem novelas não contidas no outro e simplesmente deliciosas! Pena terem adaptado a linguagem medieval à dos nossos dias. (MCG - 1973.01.22)
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Ando a ler um "Livro Vermelho dos Cábulas" e farto me de rir. (MCG - 1973.03.28)
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Que dizes a esta poesia ("Impossível") cheirando a fins do séc.XIX? Parece me que o Cesário Verde, pelos outros poemas, consegue retratar fielmente o ambiente da burguesia do seu tempo - que Eça de Queiroz retratou também, admiravelmente, nos seus romances. Mas Eça era satírico, mantinha se alheado daquilo que escrevia. Enquanto que o Cesário parece viver aquilo, não só o ridículo, o mau gosto (a meus olhos) duma certa maneira de sentir e de agir. Para além disto, as pessoas miseráveis, a cidade, o povo, aparecem e perpassam pelos seus versos, muitas vezes contrapostos aos delíquios e aos sentimentos da pequena (e abominável, ridícula) pequena burguesia - que aspira a ser aquilo que não é, a uma grandeza que não tem e para que não foi talhada, porque apenas vivendo de exterioridades e aparências, sem uma vivência autêntica. (MCG - 1973.06.28 B)
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Nós podemos viver alegremente...

(Hamen)

Leite-creme

Nós podemos viver alegremente,
Sem que venham, com fórmulas legais,
Unir as nossas mãos eternamente,
As mãos sacerdotais.

Eu posso ver os ombros teus desnudos,
Palpá-los, contemplar-lhes a brancura,
E até beijar teus olhos tão ramudos,
Cor de azeitona escura.

Eu posso, se quizer, cheio de manha,
Sondar, quando vestida, p'ra dar fé,
A tua camisinha de bretanha,
Ornada de crochet.

Posso sentir-te em fogo, escandecida,
De faces cor-de-rosa e vermelhão,
Junto a mim, com langor, entredormida,
Nas noites de Verão.

Eu posso, com valor que nada teme,
Contigo preparar lautos festins,
E ajudar-te a fazer o leite creme,
E os mélicos pudins.

(Cesário Verde) "Impossível", OLivro de Cesário Verde

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in http://aguarelast.blogspot.com/2007_01_01_archive.html

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Leituras - breves notas

* Victor Nogueira
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Reli o "Diário de Anne Frank", cujos problemas eram os meus quando adolescente. Estava a relê lo e a lembrar me também das conversas da Maria Antónia [Ferreira de Almeida] comigo. Li também "A Velhice do Padre Eterno", de Junqueiro. Este teve melhor sorte que um outro exemplar, que o zelo católico da minha mãe houve por bem rasgar. Nada lhe acho de chocante. Parece me que será mais evangélico que muitas obras piedosas que se alinham em casa do meu avô Barroso. Fui forçado a mudar a minha opinião acerca de (alguns) livros da [Biblioteca] RTP.
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Gostei do Fernando Namora e, sobretudo, do Branquinho da Fonseca: "Um Pobre Homem" (excepcional a descrição feita no 3º e 4º parágrafos do conto "Um Pobre Homem"). A venda dos "Esteiros" de Soeiro Pereira Gomes foi proibida em Angola. Duvido que chegue também "O Valente Soldado Chveik". (NSM - 1971.09.03)
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Toda a vida é uma enorme representação teatral, um palco mundano. (Lembras-te, Shakespeare? Lembras-te, Stau Monteiro d' "Angústia para o Jantar")? (NSM - 1971.12.03)
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Gosto do Eça de Queiroz, da sua lucidez e da sua ironia. (...) Comprei um romance, "O Mandarim" e três livros de notas: "Cartas Familiares e Bilhetes de Paris", "Echos de Paris" e "Notas Contemporâneas" . (MCG - 1972.09.06)
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NOTA - No 3º ciclo, não sei já em que disciplina, talvez na de Inglês, a professora leu uma passagem d' "O Egipto" do Eça, sobre um inglês que escrevia furiosamente para um jornal ou editora na Grã-Bretanha, protestando porque a realidade não correspondia ao que lera. Era hilariante, mas apesar de ter toda a obra do Eça, penso, nunca mais encontrei essa passagem. Embora as minhas retroversões para inglês não tivessem brilho, pois não dominava nem domino o inglês literário, as minhas traduções eram sempre elogiadas pela professora e uma delas super elogiada: uma tradução dum dos contos de Chaucer, que ela considerou brilhante, modéstia à parte.

domingo, 2 de setembro de 2007

Zip Zip - a equipa


Carlos Cruz, Raúl Solnado e Fialho Couveia

Se quiser ver fotos e outra informação clique aqui -> factos 1950

RTP - Zip-Zip - Uma pedrada no charco

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* Victor Nogueira
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Vi ontem pela primeira vez esse programa novo da RTP que tantos rios de tinta e palavras tem feito correr. "Zip-Zip" tornou se a expressão característica do princípio da semana. Bem, nada de especial achei na sessão de ontem, nada que justifique tanto entusiasmo (até o Mário Castrim) - (1) - gasta os seus tão avaramente guardados adjectivos elogiosos). Dizem me os "fiéis" cá da casa que de facto o de ontem não foi o melhor. E eu fico com pena de não ter visto o da semana passada, com o discurso do [Raúl] Solnado ao seu povo Zip-Zipzeano, mais o O'Neil e a menina Elsinha ou lá como se chama. Bem, o de ontem teve alguns momentos bonzinhos: o das interpretações do Quarteto Musica Novarum, com um sabor de outras épocas, repousante, as do Gino Becchi e a do vendedor de banha da cobra, igual a tantos que encontrei por essas ruas de Lisboa e do Porto! Não gostaria de estar na pele do Espadinha. O Solnado entalou o bem; vamos ver para que lhe dá a genialidade. (MLF - 1969.06.17)
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1 - Crítico de Televisão diário no Diário de Lisboa

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ZIP-ZIP
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Estávamos em Abril de 1969. O Homem ainda não tinha chegado à Lua. Salazar já não estava na cadeira do poder, assumindo-a agora Marcello Caetano. A Censura apertava o cerco à liberdade da televisão. Ramiro Valadão era o novo homem forte a conduzir os destinos da RTP, um braço aliado do poder. Mas apesar da estagnação que se vivia em Portugal, Raúl Solnado, Carlos Cruz e Fialho Gouveia propunham a realização de um programa diário, "de estúdio aberto, porta aberta". Ramiro Valadão foi peremptório, "Era complicado... mas porque não fazer semanalmente?" - Daí a um mês nascia o Zip-Zip!
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Raúl Solnado, Carlos Cruz, Fialho Gouveia
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Juntamente com Baptista Rosa, estas 3 figuras que hoje pertencem já à história da televisão em Portugal estiveram na génese da criação de um programa que iria revolucionar o panorama português não só televisivo como social. Depois de falarem com Ramiro Valadão, que concordou apenas com uma ideia vaga de um programa semanal, Solnado, Cruz e Fialho passaram os dias seguintes a criar um programa que, de início, eles próprios não faziam ideia do que queriam que fosse, senão que tivesse pelo menos o mérito de "agitar" o país.
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Um acontecimento na vida da RTP e do país
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Como os próprios "mentores" do programa o afirmaram, um ano antes o "Zip" não teria sido possível. Mas agora estava-se em plena Primavera Marcelista, e a amplitude de movimentos sempre era um pouco maior. O país, esse, respondeu com entusiasmo a um programa que revolucionou as noites da televisão, o futuro de muitos programas que viriam a ser feitos, a consciência e as atitudes do público e mesmo a relação com os Censores. Alguns tabus caíam, e do primeiro ao último minuto do programa viviam-se tanto alegrias como tristezas.
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As diferenças do que se fazia até aí
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Se virmos com olhos de hoje o "Zip", talvez achemos que não foi tão original como isso. Mas estava-se em 1969, numa RTP habituada à seriedade e numa sociedade que, como diria Eça, se afundava no marasmo. Por isso as diferenças saltaram mais à vista nesse tempo: o público assistia da plateia à gravação do programa, falava-se de assuntos que antes teriam justificado quase interrogatórios policiais, os convidados tanto iam das personalidades mais influentes até às pessoas mais comuns, o humor era fresco e vigoroso e a música punha no ar nomes antes impensáveis.
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Zip de noitadas
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Toda a equipa que punha no ar o programa trabalhava incansavelmente, até porque as dificuldades com a Censura não davam o mínimo descanso. A amizade entre o trio Solnado-Cruz-Fialho era também muito grande, pelo que era difícil haver obstáculos impossíveis de ultrapassar. "Todas as semanas passávamos mais de 48 horas sem dormir e sobrecarregados com trabalho em excesso", relembra Fialho Gouveia. "Aquele programa só podia ser feito com muito entusiasmo", acrescenta Solnado. Um programa feito com paixão no Teatro Villaret, pelas ruas ou pelos cafés de longas noitadas.

O frenesim até ir para o ar
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Durante a semana a correria ia desde os contactos para as entrevistas, a escrita dos textos de humor até à busca incessante de ideias. Aos sábados, no Teatro Villaret, era tudo posto em prática. O público ocupava os seus lugares e assistia à gravação do programa. Depois a gravação era visionada pelos censores, em conjunto com os autores do programa, e seguiam-se horas pela noite dentro para decidir o que podia, devia, tinha ou não de ir para o ar. 2ª-feira os telespectadores da RTP viam o produto final de um trabalho suado mas recompensador.
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Luís Andrade
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A realizar o "Zip" estava uma das figuras mais sólidas e importantes da RTP. Decisiva, desde logo, para o arranque do Zip-Zip. No dia de gravação do primeiro programa, eram já 3 horas da tarde e nem sequer tinha ainda havido ensaio. O público aguardava para entrar e o convidado especialíssimo, Almada Negreiros, já estava no camarim. Alguém terá suspirado com a hipótese de ter de adiar a gravação do programa, mas o realizador foi peremptório: "Vamos fazê-lo. Eu faço de caras.", os operadores de câmaras disseram o mesmo, e toda a restante equipa técnica deu o seu apoio para que se começasse a gravar. No fim do dia a satisfação era febricitante; o primeiro "Zip" tinha sido um sucesso. Só faltava agora o "diálogo" com a censura...
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Maratonas com a Censura
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As noitadas em "negociações" com os censores eram longas e árduas, mas no final, como recordam hoje Solnado, Cruz e Fialho Gouveia, isso servia apenas para dar ainda mais força e ânimo para continuar, pois fazia sentir que se estava a fazer algo de verdadeiramente importante. Mas apesar de inicialmente a permissividade ser generosa, a verdade é que, com as proporções que o programa veio a ter, as coisas se complicaram. De início podia-se "jogar" um bocado: "podem cortar isto mas não aquilo"; mas a pouco e pouco, do censor sempre presente entre o público passou-se a um "estrangulamento" bem maior. Ao fim de 6 meses, o esgotamento, grande parte dele devido à censura, acabava por fazer terminar o "Zip".
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Almada Negreiros
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Foi a melhor estreia que o Zip-Zip podia ter. Pela primeira vez o artista estava na televisão portuguesa, para uma conversa que deixaria os portugueses suspensos. Um homem culto, especial, inteligente e que em poucas palavras dava respostas que faziam eclodir as palmas do público. Lá fora, na rua, muitos dos seus quadros estavam expostos, onde Fialho Gouveia fazia uma reportagem diferente, percorrendo falando com os transeuntes. No estúdio, Almada assistia atento e curioso. Na Feira do Livro que então decorria, esgotaram-se os de Almada Negreiros. Hoje, esse primeiro "Zip" é um legado histórico, de onde seleccionámos algumas das partes mais importantes, que pode ver nos vídeos que aqui lhe facultamos. Aproveite! Valem bem a pena.
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As histórias
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Solnado recorda uma delas: "No Lumiar, entrevistámos uma mulher que vendia coisas e a que achámos piada. A entrevista estava a ser um falhanço total. Até que um de nós perguntou: "O que é que a senhora já vendeu na sua vida?", e ela: "Vendi tudo, menos pomada para chatos!". Gargalhada geral. O pior veio depois. A Censura não permitiu que a palavra "chatos" fosse para o ar...
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O "Zip" desce à rua
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A criatividade da equipa que fazia um programa inovador e revolucionário não parava. Luís Andrade conseguia sempre dar respostas criativas aos problemas que surgiam com a execução para televisão de várias ideias, como, por exemplo, a transmissão de um jogo de futebol... de matraquilhos! Produção mais grandiosa foi a entrevista ao maior poeta português... esse mesmo, Luís Vaz de Camões... ou melhor, à estátua dele! Pelas avenidas, entre as bandas de música, na praça de touros... o "Zip" saía do Teatro Villaret, e em vez de esperar que as pessoas fossem ter com ele, ele foi desde o início ter com as pessoas.
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Uma imensa felicidade
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As palavras de Raúl Solnado quando já o "Zip-Zip" não estava no ar, respondendo sobre o acontecimento mais marcante da década de 60, são elucidativas do que toda a equipa viveu: "Suponho que todos vamos dizer o mesmo: a conquista da Lua. Depois disso, o movimento hippie, e... o Zip-Zip. Desculpem-me as pessoas, mas para mim foi uma experiência extraordinária, que me enriqueceu muito, sob o ponto de vista humano e profissional"; acrescentando ainda: "Durante 7 meses vivi completamente feliz - isso equivale a muitos anos de vida".
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[PDF]
O «canto de intervenção» no combate ao Estado Novo
Formato do ficheiro: PDF/Adobe Acrobat - Ver em HTML«Zip-Zip», apresentado por Fialho Gouveia, Raul Solnado e Carlos Cruz, ... A partir do «Zip-Zip», surge um maior interesse das editoras pela música de ...

sábado, 1 de setembro de 2007

Veramente Vero





Victor Nogueira
Foto de autor não identificado
Clique na imagem para ampliar, se quiser

Cangaço no Brasil - Dois filmes

* Victor Nogueira


O filme de hoje, "O Cangaceiro", contava a história do Lampião, cangaceiro, salteador e assassino do Nordeste Brasileiro, espécie de Robin Hood que assaltava os ricos para dar aos pobres Manobrado pelo Governo da Baía, liquida todos os grupos do cangaço da região d'Água Branca supondo que o Governo satisfaria as suas reivindicações da reforma agrária (o NE brasileiro, terra de sede e fome, é propriedade dos "coronéis", latifundiários lá do sítio.) Mas o que o Governo pretende não é a melhoria das condições de vida do povo, mas sim expulsá-lo (ou massacrá-lo, como efectivamente sucedeu) por causa do petróleo que entretanto se descobriu na região. Ao ver se traído - o seu bando estava destinado a ser massacrado - o Lampião revolta se contra o Governo - inutilmente, aqui para nós. O interesse do filme estava na denúncia da exploração dos recursos naturais pelos potentados económicos estrangeiros, muito interessados nos seus interesses e nada no das populações, contando para isso com a cumplicidade dos governos nacionais, cujos funcionários sempre lucram umas migalhas. Mas o filme, para além disso, não tinha grande interesse.
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O que já não sucederá com o "António das Mortes", do cineasta brasileiro Glauber Rocha, referido na Vida Mundial de hoje e em exibição num cinema de Lisboa (MCG - 1972.10.27)
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Na foto: Lampião, Maria Bonita e outros cangaceiros
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Se quer saber mais sobre o Cangaço ver
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