domingo, 16 de dezembro de 2007

João Baptista Cansado da Guerra (8)

ESCRIBADURA SOBRE JOANA RATINHO, DITA RAPOZINHA, PRINCESA DO MEIO CAMINHO ANDADO COM SABOR A CRAVO E CANELA, DA PELE DOCE E MAIS REPOUSANTE QUE MIL CAIMANTES, MAIS BELA E SEDUTORA QUE MIL-SOIS PARA Lá DAS LUAS

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Estava João Bimbelo

Em seu jardim sentado

Quando apareceu Joana

Do seu jeito Rapozinha

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............Estava João Bimbelo em seu canto colocado quando lhe apareceu Joana, de seu jeito Rapozinha. Vimos já em pregões anteriores como dela se agradara João, ambos em suas escribadu­ras se transmutando em múltiplos personagens, um deles Joao Baptista Cansado da Guerra e o outro Princesa do Meio Caminho Andado Com Sabor A Cravo E Canela, da Pele Doce E Macia Mais Repou­sante Que Mil-Calmantes. Não era Joana Princesa e muitomenos Rainha, cheia só de excelsas qualidades e ainda maiores fortalezas.

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Todos os auditores e leitores das sete partidas do Mundo sabiam de há muito que ele se encantara da Princesa do Meio Caminho Andado Cujo Mistério Mui Breve Será Desvendado, Princesa que o era não sendo, e como lhe parecia pela leitura dos sinais ocultos que ela dele também se agradara. Mas ...

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Estava João Bimbelo

Em seu jardim assentado

Apareceu no seu zelo

Joana, ar atemorizado.

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E de ontem para hoje houve uma interrupção nas escri­baduras que ambos marcaram no papel e em linhas anteriores por­que entretanto havia ocorrido uma conversação em acentuação so­bre a escrita ao desafio em torno do redondel, uma ida à Praia das Rochinhas De Cada Um P ra Seu lado, várias saídas de aparente lado-a-lado em fila indiana por causa dos automóveis em cer­tos troços do caminho, uma ida a Vila do Conde que já seria ci­dade e um desaparecimento com reencontro na rua escura de lua cheia a caminho do quarto minguante.

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Muitas esmeraldas e estrelas de João Bimbelo haviam empalidecido com a falta de feição de Joana, pelo que não houvera passeios ao luar nem pelo areal ou à beira-mar, como nestas coisas de Príncipes e de Princesas é costume suceder.

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Continuando ambos vivos, a tudo isto seguira-se nova conversação sobre Joana em que João aparecia apenas em contraponto. Por isso, no silêncio duma nova madrugada Joao resolveu su­blinhar sozinho o que em sua escribadura ao desafio lhe parecia ser o seu próprio pão-pão-queijo-queijo. Era um sublinhar diferente do que em seus~pr6prios escritos fizera Joana, na presença de ambos, dum modo não imediatamente interpretável.

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E às 5h30m da madrugada, no intervalo da releitura dum romance de Hemingway - Fiesta, em seu original The Sun Also Rises - achou João Bimbelo essas suas linhas deveras desenxabi­das e falhas de sentido, porque da sua parte ja tudo fora dito, redito e percebido pela Joana Ratinho, também conhecida por Princesa do Meio Caminho (Des)Andado Mais Bela e Sedutora Que Mil--Sois Para Lá Das Luas que enchia a casa e o coração de ternura e alegria, com quem João gostaria de compartilhar a vida.

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A qual Joana Princesa, apesar dos entrevistos defeitos, seria sempre recordada como bem que valera a pena qualquer que fosse o seguimento, enquanto persistissem os “seus” escritos e a memória do seu significado e das quadras e dos versos surgidos no tempo em que abalara com a promessa de regresso, quadras e versos que Joana ensinara João a escrever com outras re gras, em jeito mais popular e leve.

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Muitas coisas, tempos e também lembranças bonitas não podia João deixar de desejar a Joana, que não poucas expressões e sentimentos poéticos lhe fizera nascer em seu pensamento e de lhes dar noticia nas suas escribaduras. Coisas, tempos e lembranças bonitas em todo o Mundo, incluindo ambos. Com eles, qualquer que fosse a volta, ficariam seguramente outros, novos ou diferentes escritos e a memória do tempo em que estiveram juntos na Praia das Rochinhas e arredores e dos gestos que (não) haviam trocado entre si.

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De verdade ela o seduzira e lhe agradara e dela queria veramente ser amigo, para lá dos desentendimentos e de algumas mu tuas faltas de propósito

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E com um aceno resolveu João Baptista Cansado da Guer­ra dois escritos seus que, modéstia à parte, lhe pareciam boni­tos: “Historias do Sol Arrancado Antes de Nascer” e, sobretudo, "Nunca Digas Nunca Porque o Sempre Não Existe".

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Com este aceno pôs João em seu intento que talvez fosse se chegado o tempo de partir em demanda de novos portos e marés, com a esperança e o desejo de que a Princesa o chamasse e deti­vesse, enchendo com a sua presença e alegria o coração e a casa de João Baptista Finalmente Descansado da Guerra.

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1998.08.18/19

Mindelo

06:00 horas

sábado, 15 de dezembro de 2007

João Baptista Cansado da Guerra (7)

* Victor Nogueira
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SOLILOQUIO ENTRE JOÃO BAPTISTA CANSADO DA GUERRA E A

PRINCESA COM SABOR A CRAVO E CANELA

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No silêncio da madrugada penso em ti, Princesa, e é como te digo - como sempre hoje estavas tão bela e apetitosa nesse teu jeito simples de fêmea seduzindo o macho que em pensamento trauteio o verso duma cantiga que talvez não exista com música de guitarra toca baixinho fica comigo esta noite e, continuaria eu se fosse caso disso, os dias e noites seguintes até ao do juízo final, que por vezes vem mais cedo que o suposto ou desejado! Rio-me, Princesa, de mim mesmo e se fosse defronte da Maria dos Mil-Sóis Rendilhados teria de explicar o meu sorriso mesmo se ao de leve, e ouvir um discurso de quem parece levar a vida tão a sério, tão a sério, que nem repara que por vezes também gosta de brincar com os outros. Mas nas minhas histórias nunca foste Maria e muito menos das Mil-Vidas Retraídas pelo que posso rir-me à vontade e é também por isso que de ti gosto. Porque, Princesa, nisto tudo de gestos, palavras, atitudes, fábulas e enredos é necessário ter a chave e o código apropriados, para além das aparências. Se não vejamos - os mesmos gestos, as mesmas palavras, as mesmas atitudes podem ter significados completamente diferentes originando histórias completamente distintas conforme sejam por exemplo campo aberto ou cidade encerrada e amuralhada, conforme gostemos do mesmo modo um do outro, respeitando a liberdade, a independência e a igualdade, tendo a simplicidade pouco natural embora de reconhecê-lo ou prefiramos brincar ao gato e ao rato, conforme nos consideremos iguais pesar das diferenças que nos aproximam umas e nos afastam outras, ou nos coloquemos em nossos mundos, por detrás das respectivas viseiras, dedilhando os machos e as fêmeas como o felino e o roedor atrás referidos.

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E deste modo falou João Bimbelo enquanto acaricia­va o rosto e os cabelos da Joana Ratinho, inebriado pelo seu perfume, e lhe dizia é natural que fales comigo e nem sempre te preste a devi­da atenção porque penso também em mim e nesta casa vazia que a tua presença enche e alegra e me coloco na conversa em vez de colocar‑me em ti, salvo seja, embora não me importasse e fosse agradável vir desse modo no sobe e desce até ao fim do mundo Mas não nos metamos por atalhos porque ainda alguém pode levar uma chapada, pesem as opiniões da Chicolateira, e fique João para aqui sozinho a fa­lar com as paredes por aperceber-se Joana do caldo a entornar e das pupilas muito abertas e dos olhos de carneiro mal morto, como nos bailes de mãezinha sentada na cadeira ao redor da sala. E “ospois” pergunto-me e a ti Joana, pois antão, satisfeita a curiosidadezinha depois da primeira visita? Então prossigamos e codifiquemos os nomes porque não conheço os personagens. É vero que ainda não alcancei contigo a serenidade e o desprendimento da amizade porque se enreda­ram o meu ânimo e a tua sedução (até nem fez verso, rirás tu com o meu acompanhamento) e por isso qual o sentido de me dizeres que ontem estiveste com o Canecas e amanhã com o Fanecas e que não dormiste com o Janecas embora vontade e tenção não lhe faltem vai para muitos anos? Ora, Princesa, dizes por dizer ou porque tens de pensar para contigo em voz alta preocupada com os pedestais com outrém escutando ou que­res música e troco com muitos cinco tostões?! E quando dizes imedia­tamente que sim e logo que não, isto é por seres mulher impulsiva mas de cautelas e perplexidades que refreiam para não te comprometeres nem prender e dar ponto sem nó, ou porque és fêmea de puxar o elástico para subir a parada?!

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Ah! Joana, Joana, clamou João Baptista, quantos enredos pois as palavras são também máscaras e labirintos que tornam o (re)nascente amor e por vezes a amizade muito mais complicados que ornitorrinco e oto-rinolaringologista, como João Bimbelo escribou uma vez a uma que dava pelo nome de Maria Papoila que não era Marijuana mas sim Maria-Vai-Com-As-Outras!

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E pronto, disse o narrador de historietas, com isto tudo já lá vão quatro personagens principais, a saber, Joana Ratinho, também conhecida por Joana Rapozinho, Princesa Com Sabor a Cravo e Canela e, da outra banda, João Bimbelo e João Baptista Cansado-da-Guerra, sem que se saiba bem o que vai nascer e o que vai vencer. E neste ponto o leitor dirá com licença, senhor licenciado, mas eu tenho cinco dedos apontados pelo que os personagens não são quatro e o contador de historias dirá tem calma pois as cadelas apressadas parem cães cegos e não ha pior cego do que o que não quer ver por isso em terra de cegos quem tem um olho é rei embora vivamos na República do Capital.

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Pronto, pronto, dirá o escriba, no areal à beira-mar cintilante, não te zangues Joana, eu já desatalho e retomo o fio à meada e digo há outros personagens secundários e adventícios a talhe de foice como a Maria dos Mil-Sóis Rendilhados, a Maria das Mil-Vidas Retraídas, a Maria Papoila e a Maria-Vai-Com-As-Outras e já temos quase duas mãos, uma cheia de nada, outra de coisa nenhuma! Ena, tanta gente, Mariana, e Joao Baptista dirá é tal e qual como o viageiro conta e lá vai mais um personagem para a molhada, acrescentará o leitor aturdido com tanto paleio pelo que João Bimbelo olhará para a folha de papel e dirá safa tens razão tanto palavrea­do e tornará a ler tudo à luz da candeia das estrelas ou do sol, desde o principio, vantagens das escribaduras, que se pode voltar sempre atrás ou começar de novo, o que não sucede na vida ou com as oraladuras, passe este nome arrevezado, que muita coisa fica por expressar ou dizer como quando a Princesa se vai embora com a conversa quase sempre a meio que isto das faladuras é como as cerejas, atrás dumas outras vêm e com o tempo também é o mesmo e também com os banhos na água dizia Heraclito, por isso o tempo não volta para trás por muito que se esfalfe o cantor das donas de casa à volta de tachos e panelas quando não do leiteiro ou do padeiro. Safa, que este gajo quando abre o gás até parece que nunca andou pela auto-estrada, sempre direito, escouceara o agora (im)paciente leitor.

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0K! 0K! isto para tudo e preciso paciência e arte e ficam só dois personagens em campo, O-Que-Vai-Nascer e O-Que-Vai-Vencer (e com ele está IHVH), e bom seria Princesa que estivessem ambos na mesma banda para que nenhum ficasse a leste do Paraíso e deste modo nenhum tivesse de nascer ou vencer à custa do outro! Pois não há liberdade sem independência e sem igualdade e também o amor, ternura e amizade não andam de rastos nem pedem esmola mas isto, dirá João, e para outro tempo e outra história. E pronto, dirá o escriba de serviço, ainda não foi desta que João disse fica Joana comigo esta noite e tracemos em nossos corpos o mapa e o perfil do sabor a cravo e canela!

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BRRRRRROC~TTTTTTTJUMMM! CATRAPAZ! PUM! PUM! são todos iguais, dirá a Princesa, mas contigo, João, posso eu bem! São todos iguais, não podem ver com sua licença uma burra de saias ainda mais se ela for atraente, pelo que o narrador se recolheu em seu silêncio pois não é João que fala em fêmeas e machos e ainda menos em mulas que não entram em seus enredos, por isso devendo haver por aí qualquer ponto mal alinhavado. Em consequência Joao Baptista limitou-se a oscular levemente a suave e doce face morena da Joana Ratinho que retribuiu com seu jeito de Maria Que-Não-Chora, para descanso de uns e desassossego de outros.

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E assim, amigo leitor, esteja atento e não perca os próximos episódios da escribadura deste louco folhetim AUF WIEDERSEHEN, PRINZESSIN ou OLÁ, JOANA, QUE TÃO BELA ÉS! Ah! Ah!Ah! Ih! Ih! Ih! (*)

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1989.07.30/31

SETUBAL

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(*) Queriam choro e ranger de dentes, com muito sangue, suor e lágrimas, queriam!? Isso é que seria bom, pensaria talvez a Princesa do Meio Caminho Andado, cujo mistério em breve será desvendado

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Tempo, Estação, Mudança e Memória ou Registo


* Victor Nogueira

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O 25 de Dezembro coincide com o solstício de inverno, tempo de festas pagãs, que a Igreja Católica pretendeu cristianizar ou «santificar» fixando para esse dia o Natal ou dia do nascimento de Cristo. E essa data e este significado foram-se impondo ao longo dos tempos e alargando a sua área de influência. É apresentado como tempo de frio, cinzento, talvez lamacento, de neve e desconforto para a maioria. Mas será assim esse dia em todo o Mundo? Claro que não. No hemisfério sul, é tempo de calor intenso, de céu límpido. E no entanto alguns de nós, nos trópicos, púnhamos na árvore de natal ou no presépio flocos de algodão em rama como se de neve se tratasse, antes de se comercializarem umas latas de spray branco. A sul, nas zonas equatoriais e tropicais, desconhecia-se o que era neve.

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Mas esse dia marca o nascimento duma das três religiões monoteístas, cada uma das quais se arroga de ser a Verdadeira – o judaísmo, o cristianismo e o islamismo. E no entanto, Cristo é um simples profeta para os Judeus e os Maometanos, enquanto para os Cristãos ele é o Messias, o filho de Deus feito homem.

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Mas mesmo o Cristianismo se foi dividindo, deixando de ser uma religião que proclamava a igualdade, a justiça e a solidariedade entre os homens, religião de escravos e deserdados da sorte, para se subdividir ao interesse dos poderosos e dos senhores do dinheiro, transformando-se de religião de liberdade e consciência em religião de opressão e alienação. O menino Jesus e o presépio transformaram-se no Pai Natal, um simpático e bonacheirão velhote de barba branca e vestido, ironicamente, de vermelho, que é também a cor da Revolução contra o capitalismo para o qual tudo se compra e se vende, incluindo armas letais, sentado num trenó puxado por renas, meio de transporte e simpático animal desconhecido no hemisfério sul.

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O solstício de inverno marca a passagem duma estação – o Outono – para outra – o inverno, mas apenas no Hemisfério Sul. Assim, o próprio conceito de Estações do ano origina seguramente sabores, memórias e registos diferentes. Tal como as Estações dos Caminhos de Ferro ou dos Metropolitanos ou as «mudas» no tempo das diligências e da mala posta ou do poney express.

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Mas a própria história regista mudanças mais ou menos radicais. Em Portugal, o 5 de Outubro marca a passagem do regime monárquico para o republicano. 1º de Dezembro a «reconquista» da «independência» de Portugal em 1640, face à ocupação pelo Reino de Castela em 1580. O 25 de Novembro de 1975 «marca» o fim da «utopia», do «sonho», das portas e janelas e do poder na rua que um outro 25, mas de Abril de 1974, o da Revolução dos Cravos (1) parecia ter aberto de vez para os deserdados da terra e para aqueles que comem o pão que o Diabo amassou. 0 4 de Fevereiro em Portugal é um dia como outro qualquer, mas em Angola marca o inicio da guerra pala independência em 1961, sequência duma luta contra o ocupante estrangeiro iniciada séculos antes. E que sucedeu em 27 de Dezembro de 1703? É a data da assinatura do Tratado de Methwen, que atrasou a industrialização portuguesa a favor da Grâ Bretanha, de que Portugal se tornou de facto uma «colónia», pese embora tal atraso no desenvolvimento do espírito capitalista remontar à expulsão dos judeus de Portugal e às perseguições da Inquisição.

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Em 11 de Setembro de 1973, um golpe militar e fascista liderado pelo catolicíssimo e perjúro Augusto Pinochet derrubou a ordem socialista legal e democraticamente sufragada pelo voto popular num Chile presidido pelo socialista Salvador Allende, iniciando assim uma época de terror, perseguição, miséria e sangue, apoiada pela «democracia» dos Estados Unidos da América, acabando por morrer sem prestar contas dos seus crimes e possivelmente abençoado e perdoado por uma extrema-unção católica que ele não permitiu a quem por ele tivesse sido perseguido e encerrado nos curros da morte, por serem para ele, seus apoiantes e sequazes, não filhos de Deus mas enviados do Demónio, a quem a Graça de Deus dificílmente será concedida pelas ordenações do Vaticano.


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Mas é também neste tempo cronológico que se verifica a Revolução de Outubro, ocorrida em Novembro, numa Rússia onde ainda predominava a autocracia, o regime de servidão e a indústria era incipiente. Revolução que teve efeitos em todo o mundo durante o século XX, tanto ou mais profundos que as Revoluções Industrial na Inglaterra, a Francesa ou a que esteve na origem dos actuais Estados Unidos da América.

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Noutros países outras datas significativas, do ponto de vista pessoal ou colectivo, actual ou pretérito, poderão ser consideradas para este convívio.

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O dia 1 de Novembro é o Dia de Todos os Santos , para os católicos, especialmente para os que morreram na Graça de Deus, para além de todos aqueles que a Igreja Católica tem considerado deverem ter honra de altares, mesmo que entre eles se encontrem «almas» controversas como Santiago, o Mata-Mouros, Josemaría Escrivá de Balaguer, fundador da Opus Dei ou padres católicos que alinharam pelas hostes fascistas, contra-revolucionárias e sanguinárias de Franco, mas não aqueles que alinharam pela «Ordem Democrática e Republicana» sufragada pelo povo nas eleições. Mas 1 de Novembro em Portugal é uma data histórica também porque em 1755 ocorreu o terramoto de Lisboa que destruiu muitas outras vilas e povoações, como Setúbal, mas permitiu ao Marquês de Pombal e Conde de Oeiras reconstruir a baixa lisboeta ou a Lisboa Pombalina de acordo com os princípios urbanísticos e racionalistas do iluminismo centralizador em oposição ao espírito e cultura medievais, ainda predominantes na sociedade portuguesa.

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Mas logo a seguir, em 2 de Novembro, temos o Dia de Finados. Dia dos Mortos ou dos Fiéis Defuntos (do ponto de vista católico), isto é, daqueles que deixaram de pertencer ao «reino» dos vivos a tomaram a «barca» para a outra margem.

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Depois poderíamos falar da passagem do ano, coincidência entre as 24 horas de 31 de Dezembro e as zero horas de 1 de Janeiro, comemoradas com mais ou menos fausto e fogo-de-artifício comercializados, em detrimento dos populares bater de tampas das panelas ou do lançar da velharia pela janela fora. Claro que esta «passagem do ano» é válida apenas naquelas partes do mundo onde a Igreja Católica impôs o Calendário gregoriano, porque outros ainda coexistem ou existiram, como se pode ver n' «A história do calendário». Dia 1 de Janeiro, segundo o calendário gregoriano é o Dia da Faternidade Universal ou o Dia da Paz. Neste dia, em 1899, foi proclamada a «indepêndencia» de Cuba, nos arredores da Florida, EUA, e em 1938, no Brasil, Getúlio Vargas instaura um regime ditatorial e fascista. Tal como em 1 de Janeiro de 1959, foge de Cuba Fulgêncio Batista, o ditador fascista e corrupto apoiado pelos EUA durante décadas, permitindo a tomada do Poder pelos revolucionários liderados por Fidel Castro, com o apoio popular, instaurando um regime desde então ferozmente perseguido pelas auto-denominadas democracias ocidentais, a maior parte das quais situadas a Leste ou a Oriente dos EUA. Fulgêncio Baptista que encontrou refúgio no Leste solidário do Portugal de Salazar e da Espanha de Franco, onde pacíficamente faleceu, tal como os seus hospedeiros, e confortados pelos Sacramentos da Santa Madre Igreja, a tal misericordiosa das torturas e mortes na fogueira na sequência das tenebrosas decisões do Tribunal do Santo Ofício.(2)

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Curiosamente foi a 1 de Janeiro de 1986 que Portugal e Espanha assinaram o Tratado de Adesão à União Europeia (do Capital), abrindo um processo crescente de perda da verdadeira soberania nacional e popular. E em Portugal o chamado Tratado de Lisboa (2007) ou Tratado de reforma institucional da União Europeia foi assinado a 13 de Dezembro de 2007 que substituiu a falhada constituição europeia, Tratado que dá mais um golpe mortal na Europa Social, dos Povos e dos Trabalhadores. Voltando atrás, o Euro (€) é a moeda oficial de 15 dos 27 países da União Europeia. O euro existe na forma de notas e moedas desde 1 de Janeiro de 2002. Foi também em Lisboa que 23-24 de Março de 2000 foi definida a chamada «Estratégia de Lisboa», entretanto «reformulada» em 2005

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O resto da vossa contribuição para Ao Sabor do Olhar está nas mãos, nos olhos e no espírito de cada um de vós, que quiserem participar no Convívio do Tempo, Estação, Mudança e Memória ou Registo.

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(1) - O termo «cravos», em português, tanto designa as flores vermelhas que o povo na rua espontânea e livremente colocou nos canos das espingardas metralhadoras dos soldados revoltosos, como o símbolo da referida revolução, agora «democraticamente» substituídos por outras flores, quer os pregos de ferro, como aqueles que pregaram Cristo na Cruz por causa das suas heresias e da sua mensagem ou Boa Nova, subversivas para a ordem imperial, religiosa(s) e social então vigentes.

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(2) - Francisco_Franco, «Generalíssimo» como Pinochet, a si mesmo se intitulava "caudillo de España por la gracia de Dios» e «el defensor de la "Europa cristiana" contra el "comunismo ateo"» a quem sucedeu Juan Carlos, o «Porqué no te Callas?», «rey de España por la Gracia del Generalíssimo Francisco Franco», educado no exílio do Portugal de Salazar a quem o futuro Cardeal Cerejeira teria escrito "António, foi Deus que te chamou para salvar a Nação" e que veio a ser de facto o Chefe Supremo dum regime fascista, saído da autodenominada «Revolução do 28 de Maio» assente na tríade «Deus, Pátria e Família», popularmente conhecido como o regime dos três F (Fátima, Futebol e Fado) a que se deveria ter seguido o regime dos três D (Democracia, Descolonização e Desenvolvimento), na sequência da internacional e popularmente conhecida Revolução dos Cravos, com ou sem ironia.

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Não nos esqueçamos doutra carta do já então Cardeal Cerejeira, na qual escrevia em 1945, a propósito duma outra visão da Irmã Lúcia, a única sobrevivente e testemunha do chamado Milagre de Fátima e detentora dos seus três segredos: "O facto de ser a nossa paz um favor do Céu (predito pela Irmã Lúcia), não te tira nem diminui o mérito. Pelo contrário, faz de ti um eleito, quase um ungido de Deus. Foste tu o escolhido para realizar o milagre".

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Foi sem qualquer milagre que Franco e Salazar resistiram e sobreviveram continuando Chefes Supermos, apesar da queda de Hitler e de Mussolini, que haviam apoiado, sobrevivência devida à «compreensã0» das autodenominadas democracias ocidentais, a esmagadora maioria a Leste ou a Oriente dos EUA, os da Estátua da Liberdade oferecida pela França na sequência da Revolução Francesa.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

João Baptista Cansado da Guerra (6)

* Victor Nogueira
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HISTORIAS DA PRINCESA COM SAB(O)R A CRAVO E CANELA

A QUEM JOÃ0 BIMBELO ESCRIBOU FALADURA


É como te digo, Princesa, o nome de guerra que me deste com esse teu ar trocista sem maldade foi o de senhor licenciado, embora eu não goste dele e porque não sei nem quero jogar ao gato e ao rato, resolvo mudar o meu em João Baptista Cansado da Guerra; deste modo juntando em Setúbal o tropicalismo de S. Jorge de Ilhéus e da nossa(terra) de S. Paulo de Luanda. Não creio que tenhas alguma coisa a ver com a Princesa da outra história (1), pois Baleizão não é terra quente no meio do alentejo mas sim saboroso e refrescante sorvete vendido pelas ruas em carrinhos, entre duas bolachas, ou ao balcão ou na esplanada do velho prédio de grossas paredes à sombra do morro de S. Miguel e da sua vetusta fortaleza setecentista, que foi museu de Angola e depois quartel de paraquedistas e agora de novo museu, mas da Revolução. Repara, Princesa, que isto parece terra de altares e conventos sem cheiro a santidade pois de outro modo a Clara não escreveria uma novela policial com sabor a coentros, nem encontraríamos um(a) santidade ao virar de cada prédio, edifício, povoado ou circunscrição administrativa, isto para não falar nos enredos de gatos e ratos em que nem todos são peritos e muitas fêmeas são, mesmo quando são pão-pão-queijo-queijo face aqueles que raramente vão direitos ao assunto, embora quando o façam causem securas na garganta do interlocutor. Gosto de ti, Princesa, e desfolho o malmequer? Ou não gosto, especialmente quando entrevejo as tuas palavras envoltas em pedras contundentes, sem o calor envolvente da tua voz voluptuosa? Olha, jogo com as palavras e também ás cartas e ao dominó e não acredito que sejas para altares, pois de outro modo não terias esse teu sabor a Cravo e Canela. Havia em terras de Espanha salvo seja uma princesa Joana mas dessa não rezam as histórias de João Bimbelo.


A propósito de santidades, rezam as crónicas e as novelas libertinas que os conventos de frades e freiras estavam ligados por subterrâneos corredores que permitiam o gozo na paz do Senhor e da Virgem sua Mãe. É sabido que as filha-família ingressavam nos claustros conventuais com seus dotes, aias e criadas em suas celas privativas. Com tão bastos exemplos achas, Princesa, que devemos acreditar em cheiros de santidade ou preferir o sabor do Cravo e da Canela, embora temperado com alguma pimenta e gindungo, que nesta terra chamam pirípiri?


E pronto, Princesa. com este novo intróito o escriba dá por encerrado este capitulo desta escribadura.

(1) referência a um romance de Clara Pinto Correia - «Adeus, Princesa»

1989.07.21

SETÚBAL

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

João Baptista Cansado da Guerra (5)

HISTORIAS DO JOAO BIMBELO OU DE
COMO A NOITE TRAZ EM SI A MÚSICA OU DE
COMO UM POÇO ESCONDIDO ALGURES DÁ BELEZA AO DESERTO!


Vimos como a Joana Ratinho agradara ao João Bimbelo e como haviam ficado em banho-maria os seguimentos dos mútuos convites e a continuação do enredo ã volta duma imaginária mesa de snooker, transfigurada em ponte por onde as águas deslizavam transformadas em dias e semanas, serenas ou tumultuosas.


Não era João Príncipe mas seria a Joana Raposinho como na historia do Principezinho que percorria o Universo de asteróide em asteróide em demanda já não me lembro bem de quê, até encontrar a Raposinha. A qual lhe ensinou o valor da rosa nascida em seu jardim, única entre todas porque a protegera do frio e da geada, permitindo que medrasse, assim dando um novo sentido à brisa que ondulava os louros campos do trigo em flor.


Não foi bem assim mas ao escriba todas as liberdades são permitidas para alinhavar os sinais desde o tempo em que a Joana Ratinho lhe entrou pela casa dentro a ela voltando primeiro por sua iniciativa e depois a convite de João Bimbelo, agradado da sua voz quente ou ridente, alegre ou sensual, da sua pele morena, suave e refrescante, do seu jeito brincalhão de Gabriela, Cravo e Canela. Esta era a Joana Ratinho ou Raposinho mas havia outra, a Joana (verdadeira ou falsamente) retraída nos gestos e nas palavras de ternura para não falar naquela outra que passava com um ar distante por entre os machos que se mordiam e a trincavam com os olhos, consciente ela desse facto por detrás dos óculos escuros, como se duma majestade se tratasse face aos míseros vassalos, deste modo castigados à sua donairosa e deslizante passagem.


E entre almoços e jantares, conversas e brincadeiras mais ou menos sérias se iam entrelaçando os enleios até ao dia em que se as flores desaparecessem seria como se de repente todas as estrelas se apagassem ou então os passos de cada um se distinguissem por entre a multidão e cada dia fosse um novo dia quotidianamente (re)conquistado.


Achou o escriba que este fim era muito prosaico e sem graça pelo que resolveu dar a Joana Ratinho um novo nome de guerra e para ambos ficou ela sendo a Princesa com Sabor de Gabriela Cravo e Canela.


1989.07.19 (2) - SETÚBAL

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

João Baptista Cansado da Guerra (3)

* Victor Nogueira

ESCRITOS EM UMA NOITE DE PRIMAVERA PRESTES VERAO
POR ISSO NAO SE FALANDO EM MANHÃS DE NEVOEIRO


Nestas histórias todas as liberdades são permitidas a quem escreve ou um ponto acrescenta ao conto. Não é verdade mas poderia dizer que conheci a Ana SorRiso dos Olhos Grandes naquela aldeia grande que é a Amareleja, onde existe um Largo do Regato que não se vislumbra e onde morava a Maria Papoila. No tempo da outra senhora era aquela uma aldeia aberta, com os bailes na sociedade e os longos passeios dos casalinhos ao longo das estradas que dela partiam ou a ela chegava. Tinha a Amareleja muita gente conhecida: a Marília, o Diogo, a Adélia, a Ivone, a D. Manuela a D. Marcelina, o sr. Guerreiro, o sr. Coelho e mais o casal velhote com a mercearia em cuja casa ficava na largo da igreja velha, aos fins de semana. Seguramente que havia mais gente, como a minha colega do Instituto que por vezes me dava boleia, ou o Xico qualquer coisa, que também fora meu colega.
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Não foi aqui que a Ana SorRiso dos Olhos Grandes entrou na historia, pesem as liberdades do escriba, mas sim mais tarde, lá na fila do antigo Largo das Escolas, hoje do falecido José Afonso, em busca duma casa, mais nova e menina, em companhja do João, operário da Setenave, comunista e depois policia marítimo, amigo de pegas e toiros.
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E foi aqui no Pote de Agua que nasceram a Catia e a Aida e se apartaram o João e a Ana SorRiso dos Olhos Grandes, como se apartaram o João Bimbelo, a Maria Papoila e muitos outros casais no prédio da encosta da Lanchoa.
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Nesta altura da história dirá a Ana que nao foi isto que pediu, mas sim um poema, sendo-lhe retorquido que se não for assim nunca mais é sábado e neste ora digo eu ora mandas tu a boca, que espaço restará para a nossa personagem, menina que já foi com as suas ilusões e sonhos, sem fortaleza para concretizá-los, hoje com um olhar por vezes duro e desencantado na comissura das lábios, que leio mas guardo para mim? Ana, sozinha de projecto em devaneio, de amizade em “amizade", hoje aqui, amanhã acolá, sem encontrar o rumo e o destina que valham a pena!
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E neste ponto do conto a personagem fitar-me-á para que eu lhe explique o sentido do que digo e eu respondo-lhe que a vida não é um poema mas sim uma série de minutos que se vão sucedendo, por vezes alegres, por vezes tristes, por vezes cheios de bonança, por vezes tempestuosos e cinzentos como chumbo, por aqui me ficando pois é necessário dosear o sonho, a ilusão, o realismo e, porque não?, a ironia e o cinismo.
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Pronto, deste moda desenxabido se acabam a linha e os pontos desta historieta.

Setúbal
1989.06.05

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

João Baptista Cansado da Guerra (2)

* Victor Nogueira
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HISTORIAS A VOLTA DA MESA DE SNOOKER OU

NÃO CONFUNDIR COM AS HISTóRIAS DO SNOOPY

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Estava João Bimbelo posto em seu sossego sossegado quando lhe entrou pela casa dentro a Joana Ratinho, não porque fosse maneirinha de porte mas porque tal era o jeito que assumia em seu perfil. Era bonita, elegante e flexível a Joana Ratinho, atraente no seu modo de por as coisas, surpreendente nas histórias que contava sobre as mulheres e certos homens, não porque João Bimbelo as desconhecesse mas porque faziam parte dum outro mundo que não era o seu.

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Tinha vindo de longe, a Joana Ratinho, lá das bandas de NGOLA e do povoado de AXILUUANDA, para lá dos idos dos tempos e da História, parando nesta terra cujo estuário e península se confundiam na ilusão dos sentidos com a ilha do Cabo e a baía daquela outra que tão longe ficara.

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João Bimbelo percorrera muitas terras e cruzara muitas gentes, somara muitas (des)ilusões e acentuara aquele seu modo por vezes irónico, irritante e distante de ver as pessoas , os acontecimentos e as suas contradições, que não o impedia de procurar ser naturalmente prestável e acolhedor, um pouco por solidariedade com os outros, que persistia para quem lhe agradava ou interessava. E pareceu a João Bimbelo que a Joana Ratinho era uma pessoa interessante e porque lhe agradara procurou conhecê-la.

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Mas.,. há sempre um mas nas voltas das histórias, breve lhe pareceu que ela era de outro mundo, dum mundo onde as mulheres, presas de medos e cálculos ancestrais, pensam duas e três vezes perante os (des)conhecidos, todos lobos prestes a saltarem para catrafilarem os dentes no capuchinho vermelho, ou por temerem sucumbir ao corte afiado e acerado das comadres viperinas!

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Não era João Lobo nem seria Joana Capuchinho mas era evidente, seriedade à parte, que há mulheres que não saem assim com os homens para ir ao castelo ou para almoçar ou para jantar, ou porque elas fazem os seus jogos de enleios e de enredos, ou porque pensam que todos eles querem cobrar favores. Não era este o pensar de João Bimbelo nem para ele a simpatia, solidariedade ou a amizade tinham rigoroso livro DEVE/HAVER ou acabavam necessariamente em troca de corpos e favores.

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Mas... João Bimbelo era quem era e seguramente não era Joana Ratinho que contava histórias sobre as mulheres e certos homens comuns a tantas delas. E assim se interrompe a história, pois parecendo tímida e recatada a Joana Ratinho, paradoxalmente dizia reservar para si a iniciativa dos convites para não ficar a dever favores ou o que fosse, deste modo falando talvez para delicadamente mandar o João Bimbelo dar uma volta a mesa, não do bilhar grande mas sim do snooker.

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Por isso não é ainda hoje que se conhecerá qual o seguimento da história e das mútuas iniciativas, que ficam para outro capítulo.

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Bye!Bye!

Setúbal, 1989.06,04

domingo, 9 de dezembro de 2007

Em conversa com os meus botões (9) - No silêncio da madrugada

* Victor Nogueira


É de madrugada, apenas ouço a ventoinha do PC e o dedilhar mais ou menos cadenciado do teclar, interrompido pelo ruído seco da tecla de espaços.

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Vou deitar-me, ando cada vez mais cansado e saturado, amanhã vou falar com a advogada por causa da casa (um diferendo com a seguradora que duea há dois anos, num jogo go empurra entre eles) e 3ª em Lisboa é a Junta Médica da Cx Geral de Aposentações. Fora isso vou mantendo os blogs, tenho um artigo para escrever para um jornal, a contabilidade do Condomínio atrasadíssima e o Kanto_XimPi cada vez mais desactualizado.

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Ah! Vamos ver se amanhã que já é hoje qd escrevo, acabo de redigir o tal artigo e se mando as regras para o próximo Convívio Ao Sabor do Olhar.

Em conversa com ... (5) TODO O MUNDO e NINGUÉM

DECLARAÇÃO

Maria do Mar, Maria Papoila, Maria dos Mil Sóis Rendilhados, Maria Vai com as Outras, Joana Princesa com Sabor a Cravo e Canela, Musa D'Ante, Joana da Côr do Trigo em Flor ou Joana Ratinho são personagens talvez verdadeiros mas com nomes inventados. João Bimbelo, João Baptista Cansado da Guerra ou o Conde Niño são personagens e como tal não existem. Se existissem, então eles não estariam de parabéns por qualquer delas. Mas elas, talvez os merecesssem, apesar de inventadas pelo escriba, a quem teriam deixado para trás :-)
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Talvez porque o escriba, embora malabarista do verbo bordejando a chama, pouco valor teria nas histórias que inventava com a liberdade, engenho e arte que a todos os escribas é permitido.
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Victor Nogueira aka Kant_O_XimPi.Manog

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PS – Mais declara o escriba que não costuma ficar a chorar pelo leite derramado e do passado procura reter apenas aquilo em que foi feliz. O resto, o resto são «estórias», como agora se diz.

sábado, 8 de dezembro de 2007

João Baptista Cansado da Guerra (1)

* Victor Nogueira


HISTORIAS DO JOÂO BIMBELO OU DO SOL ARRANCADO ANTES DE NASCER

Vivia João Bimbelo na Quinta de Todos Nós, rodeado de papéis e do silêncio dos gestos e das palavras contundentes quando encontrou a Maria do Mar e dela se agradou num dia de Verão. Tudo teria ficado apenas por aqui, com o sabor das coisas que se não experimentaram ou conheceram, se as voltas do tempo os não tivessem cruzado novamente ao virar duma estação, quando as árvores se vestem de amarelo e dei­xam cada vez mais entrever os dias ainda luminosos e levemente cálidos. De novo se encontraram pois a Maria do Mar e o João Bimbelo e deram grandes passeios nas noites sem luar percorrendo o areal e tecendo os fios do que parecia vir a ser uma amizade diferente.

Mas tudo não seria mais que isso, com o sabor simples da amizade e da camaradagem, se o dobar dos tempos os não tivesse cruzado novamente ao voltar duma nova estação, quando o ar está frio e o céu cinzento e chuvoso. Ainda não sabia João Bimbelo que flores germinariam naqueles dias descoloridos e vazios de calor mas, quaisquer que elas fossem, parecia-lhe que seriam únicas, inestimáveis e delicadas como a porcelana rendilhada.

Na quinta de Todos Nós não era livre João Bimbelo e foi com a mágoa dos gestos resguardados que ele deixou a Maria do Mar, voltando ao lugar donde partira, prosseguindo a sua peregrinação, envolto como estava na guerra com os Dragões da Mãozinha Misteriosa, que não poderia perder porque era o futuro do dia-a-dia que estava em jogo.

E, no intervalo das batalhas com os Dragões da Má Vida, procurou de novo a Maria do Mar e nela encontrou abrigo e, pensava, tudo aquilo que é tão simples e simultaneamente grandioso: os dias cheios de alegria e ternura que, dum modo silen­cioso e cativante, entrelaçavam os seus gestos. O futuro parecia surgir ali ao alcance da mão, apesar das sombras que se projectavam sobre a Maria do Mar, que lhe surgia demasiado frágil.

Tão frágil que as palavras os separavam, cada vez mais preso João Bimbelo ao peso das pontes que entre eles desapareciam e a Maria do Mar ao sentido das palavras que não entendia do mesmo modo.

Era João Bimbelo homem duma só cara e dum só viver e custava-lhe sobremaneira o distanciamento da Maria do Mar, que assim desmentia a veracidade e forta­leza das suas palavras de amizade eterna, quaisquer que fossem o tempo e o lugar. Duro era também o esboroar de algo em que acreditara, como planta frágil e valiosa, que deste modo se perdia com o peso crescente dos enganos que não quisera cometer. E as janelas da Maria do Mar fecharam-se e de novo se encontrou João Bimbelo no mar alto sem porto nem maré, com o norte que a sua fragilidade lhe indicara, ensombrado pela inesperada indelicadeza da Maria do Mar, apesar de entrecortada por gestos aveludados de amizade e ternura.

Muitas vezes procurou João Bimbelo reencontrar o que perdido parecia estar, devido aos silêncios, as histórias e sombras que mascaravam a expressão dos sentimentos que a Maria do Mar nutria pelo João Bimbelo histórias que lhe pareciam inventadas por ela, presa aos fantasmas da sua vida passada e das mulheres com vida e pensar semelhantes ao seu. Como desde o primeiro instante parecia a João Bimbelo que era com a Maria do Mar que estava o futuro assim como os dias luminosos e as noites estreladas. No entanto tratava-se dum puro engano porque sendo agora "ambos' livres, cada vez menos se cruzavam os caminhos da Maria do Mar e do João Bimbelo, pois cada vez mais historias e silêncios envolviam a Maria do Mar, deixando o nosso peronagem cada vez mais inquieto na busca vã da chave no tempo e no espaço que os se­paravam cada vez mais.

Encontrava-se João Bímbelo de mãos vazias e sem jeito; perdidos cada vez mais estavam o esplendor dos longos passeios ao luar ou o encanto da voz, da presença e da paz que haviam preenchido os dias cinzentos de outrora, pois ninguém em seu e perfeito juízo gosta de ser escorraçado, mesmo que seja dia não semana sim.

No entanto, fazendo jus ao seu nome, pensava João Bimbelo que ainda valia a pena lutar pela Maria do Mar e por isso a procurou de novo, após um longo silencio, porque a ela dera o seu afecto, porque ela o seduzira e conquistara. Mas novos con­tos e novelas surgiram ligados a novos enredos e pareceu ao nosso “herói” que era tempo de dar descanso à parede sob risco dela começar a ficar pintalgada de vermelho mais ou menos vivo e coberta a sua moleirinha de galos que o acordariam estremunhado todos os dias ao romper da bela aurora e o fariam andar bêbado de sono pelas ruas e pelos escaninhos da cidade

Tudo estava dito e redito entre o João Bimbelo e a Maria do Mar, que prosseguiam as suas vidas, cada um para seu lado. Para trás , cada vez mais para trás , ficavam o afecto e amizade que cada um deles procurara no outro, que ela rejeitava por razões que lhe escapavam completamente, Pois parecia a João Bimbelo que o amor e a amizade se constróem de coisas que estavam cada vez mais ausentes deles: a confiança, o encontrar da paz no murmúrio frágil e pleno do afecto, o saber que outrém está ali, ao alcance da mão, do gesto e da voz , qualquer que seja ou fosse o tempo. Parecia a João Bimbelo que o amor e amizade se não encontram ao virar da esquina e ao alcance dos pontapés e que por isso, quando há novas do seu achamento, como apregoara a Maria do Mar, se devem protegê-los como quem protege a chama do fósforo com que se acende a candeia ou a luzerna.

E porque lhe parecia que assim não sucedera, resolveu João Bimbelo prosseguir a sua caminhada em busca de outros portos e marés, de amizades feitas de portas que se não fecham e de janelas abertas e rasgadas ao sol e ao luar, como sempre o encontraria a Maria do Mar, qualquer que fossem o tempo e o lugar em que vivessem e o procurasse.

Paço de Arcos 1989.04.01 (Setúbal 1989.06.30)

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

ENCONTRO PELA PAZ


O Município da Póvoa de Varzim, em parceria com a comunidade poveira, promove desde Dezembro/99 – Janeiro/2000 o “Encontro pela Paz”, uma iniciativa através da qual se pretende criar uma corrente para a partilha e vivência de um espírito de Reconciliação para a Paz, procurando-se que pela criatividade individual e ecolectiva seja possível desenvolver os alicerces de uma Tradição de Paz.
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Esta iniciativa, na qual o Município participa na qualidade de parceiro promotor, decorre num período que compreende fundamentalmente o Dia Mundial da Paz (1 de Janeiro), daí a sua realização nesta época do ano. Assim, pelo 9º ano consecutivo, levaremos a efeito a concretização de mais um momento de reflexão e de participação que extravase as fronteiras do nosso concelho, com o desejo de tornar esta iniciativa ainda mais solene e grandiosa, num grande Movimento pela Paz.
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Porque o sucesso deste desafio, que se efectiva no desejo de contribuirmos para criar uma tradição de Paz com continuidade e impulsionadora da reflexão sobre a Paz, depende do empenhamento e participação de todos, vimos, desta forma, convidar V. Ex.a a divulgar e a associar-se às iniciativas programadas no âmbito do “Encontro pela Paz”, nomeadamente na que se irá realizar a partir das 15.00H do dia 16 de Dezembro, no Pavilhão Municipal da Póvoa de Varzim, e na que se irá realizar pelas 16.00H do dia 1 de Janeiro, no interior do Porto de Pesca (no Cais da Paz).
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COMISSÃO DE HONRA:
PRESIDENTE DA REPÚBLICA (Professor Cavaco Silva) / PRESIDENTE DA ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA (Dr. Jaime Gama) / PRIMEIRO MINISTRO (Eng. José Sócrates) / ARCEBISPO PRIMAZ DE BRAGA (D. Jorge Ortiga) / PRESIDENTE DA CÂMARA MUNICIPAL DA PÓVOA DE VARZIM (Dr. Macedo Vieira) / ALICE VIEIRA / CARLOS DANIEL / DULCE PONTES / JORGE GABRIEL / JOSÉ CARLOS MALATO / JOSÉ CARLOS VASCONCELOS / JÚLIO MAGALHÃES / LUIS ALELUIA / LUISA DACOSTA / MAESTRO FERREIRA LOBO / MARIZA / PROFESSOR DANIEL SAMPAIO / PROFESSOR PINTO DA COSTA / RUI REININHO / RUY DE CARVALHO / SÓNIA ARAÚJO / VITOR BAÍA

Em conversa com os meus botões (8) - A "história" do ISESE


* * Victor Nogueira

Quando um dia for escrita a história do ISESE, verifica-se-à quão castradora foi a sua acção - e esterilizante - quão veementemente destruiu nas pessoas a espontaneidade, a solidariedade, a camaradagem. Não propriamente destruir, porque nesta maldita sociedade portuguesa feudalizada, cinco séculos de história contribuíram para nivelar as pessoas no temor, na mediocridade e na inautenticidade. A coragem, a hombridade, a lealdade, o entusiasmo inovador, eis o que falta ao castrado povo português! (NSM - 1971.01.14)


foto retirada de rizomas.blogspot


quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Últimas Publicações (2)



AUTORIA DOS TEXTOS NÃO ASSINALADOS - Victor Nogueira

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Em conversa com os meus botões (7) - Sol de Inverno

* Victor Nogueira
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O sol de inverno continua sempre a enganar-me, pois esqueço-me que não aquece. E só quando chego ao largo, lá embaixo, é que me apercebo que está frio, por vezes acompanhado de gélida brisa. E no verão ando quase sempre do lado do sol, ao contrário da maioria neste País, que escolhe a sombra. E tenho sempre à noite a casa cheia de luz, embora haja muita gente que neste País, sem precisão poupe na luz, embora tenha dinheiro suficiente para evitar a luz mortiça. Passei o dia a dormir, cada vez ando mais cansado.
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Ouço que mudaste o fundo musical e o de ontem era diferente e o de anteontem também, se a memória me não falha. Serei sempre um homem da beira mar, das praias tépidas com cheiro a sal, areia e sol, da cidade, do pôr do sol, da claridade, da luz e da luminosidade, das bátegas repentinas e breves mas cheias de ruidosos trovões e raios que iluminam a noite como se dia fosse, dos grandes espaços e do horizonte sem fim nem limites.
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Por isso Portugal nunca poderia ser o meu País. Mas como sou branco, embora de facto imigrante, expressando-me correctamente em língua portuguesa, ninguém me manda insultuosamente de volta para o meu verdadeiro País, que já não existe. Outro é o que está na minha memória, tal como as pessoas e amigos que o tempo dispersou. É disso que falo no meu poema Raízes

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Em conversa com os meus botões (6) - Recordar o que é?

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* Victor Nogueira

Recordando


Não preciso da tua fotografia para me recordar de ti ou para me comover ou enternecer ao pensar em ti. Não é preciso que os outros saibam que eu me lembro de ti. E não me recordo de ti por causa da fotografia. Lembro me de ti quando arrumo o armário da sala e vejo os frascos que me deste. Ou quando abro o porta moedas e encontro o pequeno canivete. Ou quando moo o café. Ou quando reparo no colorido boneco do negro tocando trompete. Ou quando vejo a saboneteira, ao utilizar o lavatório. Recordo me de ti quando barro o pão com o doce que confeccionaste e me deste e que está no fim. Ou quando visto a camisa de flanela aos quadrados. São marcas tuas, a partir das quais, conforme o dia, nascem outras recordações, enquanto para mim tiveres qualquer significado.


(...) Olho para a saboneteira e lembro me de Sines e da casa cheia de sol e do corredor com "azulejos". Vou a Sintra e no jardim lembro me que estivemos lá: "Estive aqui com [ela]" E lembro me do Seixal e dos cafés barulhentos e da primeira vez que foste a minha casa. Ou recordo a vez em que fomos à Covilhã ou a Santarém ou Silves ou que fui ter contigo a Bragança, com o Rui Pedro, tu já de roupão pois pensavas que eu já não apareceria. Recordo me das vezes em que me apeteceu ficar contigo até de manhã, mas em que não fiquei porque não queria que as pessoas falassem de ti. (M. - século XX )


segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Retratos (27) - A Malta de Évora, do Café e da Casa de Hóspedes

1º Retrato do pessoal da pensão de Évora

Além da minha pessoa outras mais existem aqui em casa. É natural. A sra. D. Vitória [Prates]. (1) A dona da casa. (...) Creio que é boa pessoa. De resto todos para mim são boas pessoas ... até ver (2) Ás vezes continuam mesmo a ser! A Ermelinda. Que é sobrinha. Que anda no 2º ano do Magistério Primário. Minha adversária ao "crapaud" e parceira à "sueca". Nem sempre. Uma colega: a Ana Maria [a Macrobianas]. A sra. D.Cacilda, mãe da sra.D. Noémia . Que foi há dias para Leitora de Português da Facultad de Filosofia y Letras de Santiago de Compostela. Com quem gostava imenso de conversar. Que via poesia, algo de valor, nas coisas simples e banais. Nas quais não reparo por não poder não saber ou não querer. Por demasiado perdido nos meandros das minhas introspecções filosóficas. A sra. D. Cacilda deixar nos à no fim deste mês de Novembro. Dois colegas meus do 3º ano de Economia de Empresas: O Alexandre [Vaz] - alto e de ombros curvados - e o Jorge [Carvalheiro] - alto e direito (ou não fosse tenente da Guarda Nacional Republicana). (3) E um terceiro, finalista do mesmo curso. O "fantasma" cá de casa. Aparece e desaparece quando muito bem entende. Para terminar, a Leolinda - afilhada e criada da dona da casa. E a filha - uma miúdinha de sua graça Ana Maria, [a Microbianas] de seis risonhas primaveras. (ELF - 1968.11.24)


Temos um novo hóspede. Ainda não o vi. Deveria ter vindo hoje. Sei unicamente que está empregado no Banco Espírito Santo. Veio para o nosso andar [2º], do "tribunal" cá de cima, constituído por mim e pelo Alexandre [Vaz]. Estou vagamente aborrecido com a vinda deste que é, pelo menos por enquanto, um estranho. De resto para o ano devo apanhar mais intrusos, pois as duas miúdas devem terminar o curso este ano. (NSM - 1969.02.11)


Já aprendi, ou melhor, dou assim uns passitos de dança, consequência dos bailinhos familiares que até ao Carnaval se realizaram cá em casa. (NSF - 1969.03.08)


2º Retrato do pessoal da pensão de Évora


É um domingo indefinido, um começo de tarde. Três novos hóspedes entrarão hoje lá para casa. Somos agora oito (para além da hospedeira, irmão [Ambrósio Prates] e sobrinho [Manuel] ): duas miúdas [Celeste Gato e Bia Almeida], estudantes no Magistério Primário, como este, e a mãe duma delas [D.Maria], e o Diogo [Guerreiro] (6º ano liceal e futuro economista). Os novos são um velhote, [o sr. Marquês], empregado comercial, uma assistente social [D.Teresinha] e a ilustre mãe [D.Ilda]. Sou, actualmente, o mais antigo. Todos os outros entraram este ano. (NSF - 1971.01.31)


A malta e cenas do Arcada I


Olho à minha volta e vejo malta conhecida: além, o Morte que me acena, como o Calisto, que há muito não via. O namorado da Gabriela discute acaloradamente e o senhor D. Alexandre de Lencastre (4) conversa com dois amigos (sê lo ão ?), que falam também com a cabeça e as mãos. Aqui, à minha esquerda, está o velhote pequenitates que anda à Charlot; costuma pôr uma flor no copo de água que normalmente acompanha a bica, fala em verso - os dois últimos primam quase sempre pela falta de rima e métrica - e oferece moedas da sua colecção às personalidades importantes que passam por Évora e às caras bonitas. Fala com toda a gente e não sei se falará com alguém. Quando regressei de Luanda reparou que eu tinha rapado a barba ... largos meses depois do acto solene que me tornou irreconhecível ao espelho, provocando me, durante alguns dias, ataques de hilariedade frente àquela face rejuvenescida e francamente risonha, sem o sorriso voltaireano que dizem ser o meu - irónico e trocista - de que muitas vezes me apercebo mas não contenho, mesmo nos momentos mais solenes e sérios, de gravidade de circunstância. (...) O ar está [agora] pesado; olho à minha volta e há clareiras na humanidade que me cercava. (NSF - 1971.01.31)


Estou no café, no "velho", barulhento e de ar viciado que é o Arcada. Deixei os jornais em cima de uma mesa, para marcar o lugar, enquanto ia à tabacaria comprar uma folha de papel. (...) Ao regressar encontrei um moço a folheá los muito descontraidamente. Devia ser dos Regentes Agrícolas. Que ficou algo atrapalhado e balbuciou pensando serem do café. Que não acabou de lê los, apesar da minha cordialidade. Enquanto escrevo vou bebendo o galão e comendo a sanduíche de fiambre, acto quotidiano das 17 horas. Na sala meio cheia umas pessoas conversam, outras lêm os jornais da tarde, alguns estudam, uns olham simplesmente para coisa nenhuma, embrenhados sabe se lá em que pensamentos. Reconheço alguns, poucos, companheiros indiferentes, quase móveis da casa. Dos outros, é de assinalar o seu mau gosto no vestir, fatos escuros, a boina ou o chapéu de abas viradas para os olhos. Conversam com a cabeça apoiada na mão, uns sorridentes, outros de rosto grave, testas enrugadas. Por vezes recostam se para trás nas cadeiras, outras juntam as cabeças, convergindo para o centro da mesa, quais conspiradores. Olho à minha volta e o café está [continua] meio cheio. O João Luís [Garcia] chegou e começou a ler o jornal. Daqui a pouco chegarão o Camilo e o Carlos, que virão do exame. Domingo Évora será um deserto, estupidificante. Eis que assomam à porta do café o Chico Garcia e o Manel. Ficaram se pelo balcão da pastelaria. Entretanto entra também o Álvaro Lapa, que é pintor, e corresponde cordialmente ao meu largo aceno. Entretanto o João Luís protesta porque não consegue ler o jornal; a mesa está desengonçada e tremeliques. (MCG - 1972.03.18)


O café é um mar de gente barulhentamente conversadora. As ventoinhas giram mas nem por isso o ar está mais fresco. Évora civiliza se: conto cerca de dezoito elementos do sexo feminino aqui no Arcada (minha pátria em terras alentejanas). O mundo caminha para a perdição, diriam os "moralistas" de porta para fora ! (MCG - 1972.07.24)


O Arcada é um mar de gente em burburinho, uns lendo, outros comendo, outros escrevendo ou preenchendo sonhos de Totobola, outros conversando com a língua e os dentes e os lábios e as mãos quando não com o corpo inteiro. Do outro lado, além à minha esquerda, um homem está sentado tirando dum saco de plástico algo cujo conteúdo lhe enche as mãos: talvez moedas. Insólito, a seus pés, uma enorme e brilhante bacia de cobre amarelado. O homem levanta se - tem uma pasta de cabedal quase do seu tamanho - pega na bacia e encaminha se para a porta, por onde entra e sai muita gente, com ar lento e vagaroso de quem nada tem para fazer. Lembro me de há quatro anos - ou mesmo há dois - e há muito mais mulheres e raparigas - algumas bem giras por estas mesas. Évora "civiliza se". Só a minha hospedeira continua com as suas concepções retrógradas de outros tempos e outras eras, que continuam [no fundo] a ser as de Évora. À minha direita dois velhotes conversam: um deles conta qualquer episódio relacionado com a sua estadia na Grande Guerra de 14/18. Olho à minha volta e o café está mais vazio; não encontro o Camilo, que pela segunda vez passou há pouco além no corredor central. Deve estar em dia não. Mais velhotes sentam se ao lado da minha, iniciando amena cavaqueira. Agora reparo que esta é a mesa deles. Adeus, estudo. Um deles diz que os gajos da situação são os que mais maldizem o Marcelo [Caetano] e os que mais o homenageiam. (MCG - 1972.09.28)


(...) Num ápice o Arcada enche se. Terminaram as condecorações, os toques de clarim e o desfilar das forças em parada. Já ontem se notavam muitos forasteiros que de longes terras vieram até ao povoado. Aqui à minha direita, muito ternos, uma moça conversa com o namorado e deixa entrever um grande pedaço da pele das costas, entre as calças e a blusa. Questões de posição! à esquerda, um marinheiro com familiares (?) exibe a sua condecoração de fresca data. Além o senhor Jaime abre e fecha os braços, como asas, enquanto vai dando lustro aos sapatos de um cliente. Passam empregados com as bandejas cheias de chávenas, copos e comes. O casalinho de namorados bebe chá com torradas. O mesmo que um casal já caminhando para a meia idade aqui à esquerda, na mesa ao lado. Ele já acabou de ler o "Diário de Notícias" (fraco gosto) e ela dá lhe uma torradinha. (...) O marinheiro levanta se e parte. Afinal a bengala não é dele mas do amigo que o acompanha. O senhor Tenente e o senhor Coronel cumprimentam se, batem a pala e apertam as mãos, enquanto as respectivas esposas se beijam. Na carequinha do senhor Coronel o vinco na pele assinala a presença do boné, agora sobre a cadeira. Entram pessoas de luto e há cumprimentos de mesa a mesa. Precisava duma câmara de filmar. Sobre a minha mesa, "O Século" (sabe) que dentro de dias será descerrada em Luanda uma estátua ao Marcelo [Caetano]. Para além d'O Século a lapiseira, um livro ("A Sociedade de Consumo") e o porta moedas (agora é incómodo trazê lo no bolso). (...) ( MCG - 1973.06.10)


Levanto os olhos e vejo muitos magalas, na sua farda verde oliva. Andam também pelas ruas, aos grupos, espalhafatosos, como quem já tem o seu grão na asa. "Cheira me" que haverá dentro em breve mais um contingente para a guerra em África. Alguns escrevem, curvados sobre o papel, a caneta firme na mão, como quem não está habituado a frequentes escrituras. Parecem rapazes muito novinhos; uns conversam, irrequietamente, outros têm um ar absorto, ausente.


O barulho invade me e cansa me. Há pouco, dei de repente com um silêncio gradual, profundo. Levantei os olhos do papel e era um magote de gente à volta duma mesa, em pé. Um silêncio em crescendo, gradual. Gente levantando se, esticando o pescoço. Continuo a escrever. Alguém se deve ter sentido mal, mas o meu curso de primeiros socorros já tem oito anos. Um homem sai do meio do magote, os seus lábios mexem se e leio "Desculpe me" a mão passada pela testa como quem tem suores ou tonturas. Sai pela porta giratória (há pouco atrás de mim) e perde se na noite das arcadas. (MCG - 1973.11.26)


É segunda-feira em Évora. O Arcada vozento e cheio. Circundo o olhar e não reconheço a maior parte das pessoas, que falam com grandes movimentos das mãos e do corpo - alguns - ou lêm o jornal: "A Bola" ou "O Século". Está um dia luminoso e soalheiro, este ano sem desfiles militares. Jovens esquerdistas cá do burgo pretendiam organizar um comício anti-colonialista mas parece me que ficou tudo em águas de bacalhau (MCG - 1974.06.10)


Os Companheiros das horas vazias

Abraça por mim a malta da mesa do café Arcada, companheiros das horas vazias. Como estas no Porto, aguardando os exames de Fevereiro. Um abraço especial para a Guida [Morgado] e para a "terrorista" que é a Zeca. (5) (Lídia - 1972.01.01)


3º Retrato do pessoal da pensão de Évora


[Foi] o tempo de ter visto a D.Vitória e lhe ter dito uns piropos até ao próximo chá. Tempo de travar conhecimento, ao jantar, com duas novas hóspedes - temporárias - cá de casa. Ambas de Montemor: uma é velhota, professora primária, de sua graça Maria Inocência, outra auxiliar social, a menina Maria do Céu, em breve senhora de não sei quem. Enfim, se eu não conseguir "controlar" as conversas à mesa terei de ouvir conversas de chacha - Porque será que há pessoas tão chatas?! (...) [Esta] minha falta de jeito para conversar em qualquer circunstância e sobre qualquer assunto! (MCG - 1972.06.07)


4º Retrato do pessoal da pensão de Évora


O silêncio que substituiu as discussões políticas à mesa após a partida da sra.D.Ilda e do sr.Marquês tem sido agora substituído por "importantíssimas" discussões entre o Diogo da Amareleja e o Victor [Dordio] do Cano sobre as altas percentagens de reprovações no Liceu e, sobretudo, como hoje, [por] questões automobilísticas. Enfim, se todos gostassem do mesmo era esta vida uma sensaboria, como diria a sabedoria popular. (MCG - 1972.06.30)


O senhor Marquês escreveu me [de Aveiro], uma carta muito formal. Está bem. (6). Da Bia [Almeida, de Safara] não há notícias; escrevi lhe meia dúzia de linhas pelo aniversário. O Diogo Fialho [de Santo Aleixo da Restauração] foi se embora sem dizer água vai nem a mim nem ao seu homónimo. O Diogo Guerreiro [da Amareleja] - agora mais sorridente e falador - fez hoje oral de Inglês [e passou com 13] (MCG - 1972.07.21)


Sabes quem apareceu por Évora, hoje? O Aristides [Picanso da Silva] ! Vem fazer quatro exames, regressando aos Açores no fim de Outubro. Até lá será hóspede da D.Vitória, a quem pagará ... 50$00 diários. Safa! (MCG - 1972.09.29)


5º Retrato do pessoal da pensão de Évora


O Diogo Guerreiro fica cá em casa. O Diogo Fialho ainda não deu notícias. Comigo devemos ser os únicos hóspedes este ano, que a D.Vitória está cansada. O quarto do sr. Marquês [e que fora do Jorge Carvalheira] agora é sala de visitas e o que foi vosso [com escadas para o terraço] é agora do sr. Prates e do Orlando - sobrinho - que vem estudar para Évora. (MCG - 1972.09.22)


6º Retrato do pessoal da pensão de Évora


Isto aqui em casa são umas correrias escada acima, escada abaixo, que nem calculas. Sim, que o amigo Orlando anda alvoroçado com a escola e um mundo novo para ele, de que me não fala mas pressinto. Os cuidados com os livros, todos bem arranjadinhos, o ar tímido quando com ele falo! (...) O sr. Prates já foi largando a bisca para um explicador ... À borla, pois então. Só que o coração já me caíra aos pés quando na véspera a D.Vitória me comunicara que a minha pensão aumentara de 200 $ 00 mensais, isto é, para 1600 $ 00. (MCG - 1972.10.04)


O Diogo Fialho regressou ontem, mas não foi colocado na mesa dos hóspedes [sala de jantar] mas sim "adoptado" pela família Prates [mesa da cozinha]. (MCG - 1972.10.10)


A D.Vitória arranjou uma ajudante, que chegou hoje de manhã. Não conheço ainda a sua graça: é uma rapariguinha - 12/13 anos - de negros e revoltos cabelos e um ar de bicho de mato. Enfim, mais uma pessoa que entra para a vida, possivelmente para servir os outros. (MCG - 1972.10.26)


7º Retrato do pessoal da pensão de Évora


Tenho de interromper que a D.Vitória já me chamou pela 3ª vez - com inflexões de zangada - e o Aristides deve ir no 2º prato.De resto o coraçãozinho deve estar em trevas, pois hoje uma miúda amiga veio visitar o Aristides e ele mandou a subir. E como era uma miúda toda alegre, nova e de mini saia ... bem, imagino a tempestade que deve ser o sentido de honra e decência da recatada senhora! Se a coisa me não tocasse também dar me ia vontade de rir de tudo isto. Raio de gente que só vê pernas abertas e "poucas vergonhas!" (MCG - 1972.10.17)


8º Retrato do pessoal da pensão de Évora


A propósito de miúdas, a D.Vitória desistiu da salinha de estar para as visitas importantes - agora é o seu quarto de dormir - por ter alugado o outro a três alunas do Magistério, altas como torres. Como é natural, há duas mesas - a dos senhores importantes (eu e o Diogo Guerreiro) (7) e a outra. Ah!Ah!Ah! (MCG - 1972.12.04)


Já almocei. Isto agora come se mal p'ra burras. Como comerão o Diogo [Fialho] e as miúdas na cozinha? (MCG - 1973.01.10)


Disse me a D.Vitória que a "menina" Celeste telefonara. (Ah! este tratamento!) Não sei se haveria "festinha familiar" [pelo meu 27 º aniversário], mas sabes como as não aprecio por nada me dizerem. Jantar fora e chegar de madrugada foi um pretexto para malográ la e, simultaneamente, estar com amigos. (MCG - 1973.01.06)


É sem grande prazer que daqui a pouco vou até ao café perder mais tempo. Aborrece me, no entanto, este enorme quarto, vazio de pessoas. A casa da D.Vitória, por motivos óbvios, não oferece condições para convívio. E este ano é o fim. O Diogo [Guerreiro] passa a vida fora de casa. As miúdas, enfiadas no quarto. De resto as nossas relações agora estão muito desagradáveis para mim. Como não sou tipo de salão e como as condições de convívio são praticamente nulas, limito me ás minhas secas e distantes saudações, a que nem sequer correspondem. Mas já antes disso passavam pela sala [vindas da cozinha], quais bichos do mato, sem nos saudarem. (...) Ouço subir as escadas. A propósito, sabes que estas miúdas não vêm cá acima senão duas a duas !? Que reles! Imaginar me ão e ao Diogo G. ali atrás da porta de olhos brilhantes e respiração opressa prontos a "saltarmos-lhes ao espinhaço", como se diz na gíria?! Já o sr. Prates não se enfia no quarto dele sem dar duas voltas à chave! Ah! Ah! Ah! (8) (...) Daqui a pouco vou sair - à chuva, ao vento, desafiando as intempéries e o furor das divindades - para meter esta presença de mim no marco do correio. (MCG - 1973.01.16)


Ali na sacada a Eglantina - com os seus longos cabelos louros e os bonitos olhos verdes - secava aqueles enquanto estudava Geografia Económica. (...) A Vicência aprimaverou se no vestuário mas eu é que não abandono a gabardina enquanto não vierem melhores dias. (9) (MCG - 1973.03.22)


O sorriso e a voz terna da Eglantina fazem[-me] desejá la com toda a pureza da simplicidade que haveria de haver entre um homem e uma mulher. (MCG - 1973.06.17 A)


O Orlando faz hoje anos. Deve haver festinha. Reprovou na Escola e anda ouvindo discursos por causa disso há tanto tempo que já estou enjoado(....) A Vicência faz exame depois de amanhã. (...) [O Orlando] deu me alguns dos desenhos dele (que eu podia ficar com todos os que quisesse). Vai sendo altura de mudar a decoração do meu quarto. O rapazinho agora pediu me trabalho - não tem nada que fazer - de modo que desde sábado que me anda em arrumações aqui no quarto - ordenou me revistas, separou me jornais e amanhã vou comprar umas folhas de cartão para fazer cadernos para arquivar a papelada e revistas. (MCG - 1973.06.17 B)


9º Retrato do pessoal da pensão de Évora - Que sucedeu ?


Ora, recolhi ontem a vale de lençóis, com temperatura elevada, que assim como veio, assim se foi, durante a noite. De qualquer modo resolvi hoje manter me encafuado no quarto, malgrado a minha impaciência ...


Por toda a casa soam estalidos, consequência do irrequietismo do Orlando. Não descortino bem qual o gozo daquilo, mas enfim ...


Volto a página e pergunto me que mais vou eu escrever? Levanto me, dou uma volta pelo quarto, remexo numas quantas coisas e torno a sentar me para escrever isto.


Entretanto a D.Vitória regressa, para levantar a bandeja do lanche e despejar o cinzeiro (o João, o Carlos, o Tobias e a Lídia empestaram me o quarto com cigarros). Há cinco anos que lido diariamente com a D.Vitória e nunca as nossas relações foram muito cordiais nem estreitas!


Acendo o candeeiro, não porque seja absolutamente necessário, mas num gesto algo inconsciente ou automatizado.


Olho para a minha direita e vejo um enorme calhamaço: "Os Macondes de Moçambique", vol III - "Vida Social e Ritual". Terei de consultar este e os dois primeiros para redigir a monografia de Antropologia Cultural. (MCG - 1973.01.26)


10 º retrato do pessoal da pensão de Évora



Verdadeiramente o quarto até parece outro, mesmo atendendo à evolução na continuidade. Que não gostou muito da brincadeira foi a D.Vitória, que ficou enxofrada por eu ter posto no corredor a abominável moldura do espelho da cómoda. Ao regressar a casa hoje aquilo estava de novo no meu quarto, arrumado embora num canto. Quando desci a ilustre senhora começou a mandar vir, que aquilo ficava no meu quarto e mais blá blá que me ia enchendo as medidas. Enfim, disse me que me alugou o quarto para dormir e se eu queria uma sala de convívio que alugasse um apartamento. (!) Ah! Ah! Ah! ... e este até tem sido um ano sossegado: pouca gente vem para cá para o paleio e para ouvir música ou estudar como nos primeiros anos, nem as meninas (10) ainda cá puseram os pés, como algumas de outrora, muito menos tendo eu feito qualquer tentativa nesse sentido. Enfim, a gente tem de desculpar os nervos dos outros! (Aquilo deve também ser por causa das fotografias e posters "imorais e contra os bons costumes". " Porcarias e palhaçadas", como doutras vezes desabafou. (11) Mas o problema é que o monstro acima referido não ficará no meu quarto. Vamos deixar arrefecer o copo de água e quando a vozinha estiver menos agreste e o olhar menos sofredor atacarei novamente, desta vez com um sorriso Pepsodent, que doutro modo não vai a ilustre senhora. (MCG - 1973.03.13)

Os ares lá por casa andam tempestuosos. Começou já não sei bem porquê, continuou no dia em que paguei a pensão e deve ter piorado ontem: o João Luís e a Maria Antónia estiveram no meu quarto, à tarde, ouvindo música. A D.Vitória não grama o João Luís e uma rapariga lá em cima - ai Jesus, credo, que lá se vai o bom nome da minha casa! Para além disso o João Luís não tem o mínimo sentido das conveniências, o que de modo algum serve para lançar água na fervura. (MCG - 1973.03.20)


A Ermelinda veio cá este fim de semana, agora com o cabelo castanho fulvo e ondulado, mais o seu ar imponente, majestoso, de quem se julga e sabe boa (ou "sexy", que é o mesmo), de gato que brinca com o rato. Tenho ganas de quebrar lhe toda aquela prosápia de mulher fatal. Mas, adelante. (MMC - 1973.03.25)


Temos uma criada nova, a Ricardina, míope e vestida de preto, com um ar submisso e tímido. O que não a impediu de pedir-me um casaco velho para o pai. Não, foi a resposta. (12) (MCG - 1973.03.30)


1º instantâneo da pensão de Évora


Ainda estou a mastigar a última talhada dum dos bolos que a D.Vitória deixou naquela travessa, especialmente para o "menino", a transbordar. Só lá ficaram umas poucas de migalhas: um tipo não tem nada que fazer e nos intervalos do trabalho (muitos devem ser eles, não?) vá lá uma trincadela! Ah! Ah! Ah! Pois é, a ilustre senhora foi de abalada para o Cano, mai la sua sobrinha, mas o seu derradeiro gesto, à partida, comoveu me. (MCG - 1973.04.16)


11 º retrato do pessoal da pensão de Évora


Apareceu me hoje o Aristides lá pelo café; veio dos Açores para fazer exame de Economia II. Penso que tenciona fixar residência no Porto. Ficou hospedado na casa da D.Vitória, mais concretamente, no meu quarto. Esperemos que não me chateie muito a molécula. Sou amigo dele, mas isso não impede que me aborreçam algumas das suas tiradas. Reage, parece me, mais com ressentimento do que sentido revolucionário. (MCG - 1973.07.04)


Quem vai entrar em compressão de despesas sou eu. A D.Vitória, no próximo ano deixa de dar me comida (ela acha que eu sou muito exigente e que não me contento com qualquer mistela) Assim, diz que me leva 500 paus pelo quarto e banhos. Com tratamento de roupas, 750 $ 00. Mas não me põe cadeiras novas no quarto nem me substitui a rede do divã ("Venha a nós o Vosso Reino"). Desabafou, desabafou, com a minha ingratidão. A conversa do costume, e que ninguém lhe dissera, como eu ontem, que antigamente o serviço e a comida eram melhores. Ai, como ela é minha amiga! Mas isso é lá à maneira dela. (...) "Que eu só gostava de comer com quem me agradava. Que quando era com as "senhoras" [D.Ilda e Teresinha] preferia comer sózinho" (MCG - 1973.07.08)


A D. Vitória sempre pôs-me um colchão novo no divã. Sempre terá valido para algo a minha conversata de há dias. (1973.07.15)


O Aristides foi-se embora hoje. Reprovou a Economia II. O que não é de admirar, cada vez mais desnorteado que ele anda, inquieto e sem rumo. (13) (MCG - 1973.07.20)


Instantâneo do pessoal da pensão de Évora e da malta do Arcada.


Podia falar te da tristeza sem sentido desta vida que levo. Da necessidade de agarrar o presente com ambas as mãos. Do nenhum entusiasmo ao avistar anteontem à noite as luzes de Évora. A viagem [de regresso da Amareleja] foi rápida, com minutos de silêncio, outros de conversa animada e outros de busca desesperada de palavras, no negrume da noite, com a estrada deslizando sob nós, o rádio transmitindo música e as pontes aparecendo bruscamente na curva da estrada, dois parapeitos brancos, esguios, varridos pelos faróis do automóvel. Chegados ao burgo, deixada a Marília e [outro] em casa, foi a busca dum lugar para estacionar. As aulas recomeçaram, mas ... quero ir me embora. É quase uma obsessão. Évora e o Instituto não são apenas o negativo. Mas é ele que sobressai. Obsessivamente. O Diogo e eu temos falado. Como dantes. Quanto à Adélia ... tenho de dar lhe a desculpa dos seus quinze anos! Quanto à D. Vitória tem me recebido com um sorriso bom. (14) O sorriso que não tenho à minha volta nem dentro de mim. O Orlando tem feito grandes estádios no meu quarto. Por causa da máquina de escrever. O Camilo lá anda, com a verborreia do costume, um enorme trabalho de fim de curso (três caloiros a trabalharem para ele). O Carlos [Nunes da Ponte] com a pacatez habitual. O Guerreiro com os seus problemas, intolerável porque só descobre defeitos e motivos de críticas a mim. Sou a válvula de escape dele. Muito lhe deve aturar a Elvira! (MCG - 1973.11.20)


Descobri hoje que a Eglantina tem olhos verdes. Encontrei a ali na Rua Nova, quando ia ao correio. Apanhámos uma frialdade por causa do paleio. Falou-me nas "desventuras" da nossa amiga [Adélia] e na desculpa que merecem os seus 15 anos. O que não impede que os "ares" andem maus. (MCG - 1973.11.27)


12 º retrato do pessoal da pensão de Évora


Lá em casa houve mudanças. As miúdas passaram para o "vosso" quarto [o das escadas para o terraço], no 2ºandar. Agora passam o tempo lá em cima e - parece me - acabou o sossego, com subidas e descidas constantes, a porta sempre abrindo e fechando, chamamentos do fundo das escadas para cima. Esperemos que acalme.


Vindo da rua, deparei com a D.Vitória carregada com camas, que ajudei a transportar escadas acima, enquanto ouvia um desabafo: "Muito pena a gente para ganhar uns tostões!" Já ontem o Orlando me retorquira "ora, isto vai mal!"quando lhe fiz a pergunta habitual: "Então, sô Orlando, como vai isso?!" Referir se ia à sua "exclusão" do 2º andar? (MCG - 1973.12.04)


A Adélia [Guerreiro] agora passou ao outro extremo e anda muito cumprimentadora e sorridente. (MCG - 1973.12.06)



No Café Parque


São 20:30; aqui estou [em Évora] no café Parque, um bocadinho contigo, a televisão trabalhando e homens ao balcão conversando e bebendo a bica. Ali a minha mãe faz as contas com a sra.D.Alice [Quaresma], das refeições na messe [dos oficiais]. Estava eu aqui muito bem acabando o meu jantar com o João Luís e o Guerreiro quando elas irromperam por aqui a dentro. A Maria Antónia - penso que é o nome da cozinheira -muito delicada e sorridente, "recebe as ordens". Sou levado a concluir que tem qualquer preconceito contra os homens, pois nunca lhe ouvimos nem saudação ou vislumbrámos um sorriso. (MCG - 1973.12.04)


(...) Lá em baixo no café Parque (a cozinheira anda muito simpática. Até já me trata e ao Guerreiro pelos nossos nomes!) (MCG - 1973.12.06)


A malta do Arcada III

No Arcada o João [Garcia], a Filomena, o Camilo, o Zé Pinto, o Ribeiro, o "Chinês" e o irmão cantavam em coro desde as cantiguinhas da primária ("Ó Rosa, arredonda a saia", "Tia Anica de Loulé"...) às excursionistas ("Santa Catarina", "Rapsódia Portuguesa" ...) passando por cânticos gregorianos e pelos coros alentejanos e canções da Beira Baixa. Enfim, uma grande audição, no café cheio e entretido com outros assuntos. (15) (MCG - 1974.02.11)



2º instantâneo da pensão de Évora



O quarto está gelado. Passei o fim de semana lendo umas coisas de antropologia. Tenho os "conhecimentos" um tanto ou quanto baralhados. A D.Vitória veio aqui há pouco trazer-me um doce e pêras de arroz doce. Está uma simpatia de senhora! (MCG - 1974.01.03)

A D. Vitória levou me hoje ao quarto uma dose de arroz doce. Ah!Ah!Ah! (MCG - 1974.02.16)


13º retrato do pessoal da pensão de Évora


A Adélia não está já em casa da D.Vitória - quando fora de férias ia com armas e bagagens. Quanto ao Diogo - que passou a tarde no meu quarto - disse me que vai também sair. Está nas mesmas condições que eu e paga mais 50 paus que eu, i.e., 800 $ 00. (MCG 1974.04.17)


3º instantâneo da pensão de Évora


A D. Vitória levou me 500 paus pelo quarto em Agosto e 250 pela semana que estive em Setembro!!! Amigos, amigos, negociatas à parte. Diz que a partir do momento em que estiver empregado passarei também a pagar o armazém. Entretanto o [Custódio] Cónim ofereceu se para guardar a tralha toda lá no monte do pai, em Évora Monte. (MCG - 1974.09.13)


A malta do Arcada IV


Passei pelo café onde encontrei o João Luís, a Filomena, o Marçal. Fiquei contente por vê los mas já não é como antigamente. É como um fósforo que logo se apaga. De resto o João Luís é muito infantil. A Filomena manda cumprimentos e isso faz me lembrar que o mesmo fizeram o Manuel Gonçalves (cada vez mais louco) e a mulher do Queiroga (reaccionária em questões de namoros)


Évora é uma cidade estúpida. 6 meses de ausência (e se calhar a saturação de 6 anos) fazem me ressaltar toda esta falta de dinamismo, de interesse, de imaginação. É um encolher de ombros, um arrastar se pelos cafés, um encostar se pelas paredes, um nada ter que fazer ou para onde ir. Uma perfeita estagnação. (MCG - 1974.11.27)


1 - As miúdas chamavam-lhe Ti Vita.

2 - A D. Vitória, em contrapartida, dizia que primeiro tinha que se provar que se merecia a amizade.

3 - Não sendo o Jorge afecto à situação, provocávamo-lo perguntando o que faria se o mandassem carregar contra os estudantes do Instituto e seus colegas caso houvesse agitação estudantil. Respondia que daria a volta a Évora pelos caminhos mais compridos. Perante a nossa insistência - Então, e se ainda não tivéssemos dispersado quando chegasses à frente da cavalaria? Outro motivo de conversa eram as sessões musicais no meu quarto, onde passava montes de malta, da casa da D. Vitória ou do Instituto, para ouvir a minha discoteca. O Jorge aparecia sempre empertigado, com um lote de discos dele debaixo do braço, para ouvir. Quando se retirava, retirava-se com eles debaixo do braço, insensível aos nossos comentários. Lá deixá-los, isso é que não!

4 - O senhor D. Alexandre de Lencastre era entre nós conhecido pelo BIDON, porque a família o baptizara como D. Alexandre de Lencastre, conveniente para o devido tratamento numa república. Mas assim sendo, ele ficou a ser o Senhor D. D. Alexandre de Lencastre! Se a história verdadeira é esta, não sei, mas lá que era o que corria, disso não tenho dúvidas.

5 - A Lídia, a quem se dirigia esta carta, era uma das nossas companhias num tempo em que as meninas sérias não andavam com os rapazes nem iam ao café. Por isso tinha má fama perante as boas consciências eborenses. Depois empregou-se nos correios e entretanto nunca mais soube dela.

6 - O senhor Marquês era um velhote, empregado bancário, que por problemas familiares que não recordo teve de ir para Aveiro. Na tertúlia da casa da D. Vitória era um pacato conversador, delicado, mas pouco sorridente, parceiro nas partidas de cartas. Fisicamente fazia lembrar o David Niven, embora sem bigodinho. Passado algum tempo soubemos que se suicidara.

7 - Desde sempre e por princípio os rapazes, cada um com seu quarto e pagando mais por isso, e as pessoas empregadas e mais velhas comiam na sala, que dava para a cozinha, onde comiam as alunas do Magistério, que compartilhavam o(s) respectivo(s) quartos, pagando individualmente menos de pensão. Na cozinha comiam também a hospedeira e família.

8 - Nunca nenhum dos rapazes fechara a porta do respectivo quarto á chave!

9 - O esquentador a gás encontrava se dentro da casa de banho, cuja janela dava para um telhado sem vistas indiscretas. Contudo, ao contrário dos rapazes, as raparigas cerravam sempre a janela, o que era perigoso quando os banhos se sucediam uns aos outros sem que se arejasse o aposento. De modo que algumas vezes lá havia uma miúda com princípio de intoxicação por monóxido de carbono. À Vicência deu lhe forte e feio. Alertado pela barulheira no quarto ao lado da casa de banho e do meu, lá fui, encontrando a D. Vitória muito aflita tentando desatar o cordel que cerrava o postigo, para poder abrir a porta por dentro. Lá fui buscar uma tesoura ou canivete, cortei o cordel, abriu se a porta e, oh! céus, estava a Vicência inconsciente no lajedo e como Deus a pusera ao mundo. Mandei que chamassem uma ambulância e entretanto fiz-lhe a respiração boca a boca. Entretanto chegara a ambulância e a D. Vitória, escandalizada com a nudez, queria à viva força que se levantasse a mulher, ainda inconsciente, para vestir-lhe um roupão, antes de metê-la na maca. Irritado, disse à D. Vitória que aquilo era o menos importante, pois com tanta delonga ainda a rapariga morria. Oh! Deus, o que fui eu dizer! A Vicência levanta-se num repente, descendo as escadas completamente nua, a caminho da ambulância pelo seu pé e bramando: Não quero morrer! Não quero morrer!

10 - Hóspedes da casa.

11 - As porcarias a que a D. Vitória se referia eram um poster com um casalinho sentado junto a um muro e beijando-se, com o título O amor é um pássaro azul no alto da madrugada. Outro era uma inocente fotografia a preto e branco dum dorso feminino, das nádegas ao pescoço. Um terceiro era uma fotografia retirada duma revista (Paris Match?), salvo erro relativa ao Maio de 68 e mostrando jovens de ambos os sexos sentado no chão dum modo descomposto. Enfim ... Não sei se também incluiria duas fotos coloridas, uma expressiva do rosto da Liz Taylor chorando, do filme Quem tem medo de Virgínia Wolf e outra relativa à guerra do Vietname, com uma mãe chorando com o filho morto ao colo, talvez um guerrilheiro vietcong!

12 - Não percebo nem me lembro da razão desta minha secura, que hoje me incomoda ao lê-la.

13 - O Aristides era um açoriano "perdido" no Continente. Ex-seminarista, como muitos nos cursos de Sociologia do ISESE, fizera a guerra colonial. Era um revoltado, sempre contra a situação, mas tinha uma bonita voz a cantar. Não aceitava as imperfeições dos outros e sempre ia dizendo que nem sempre estava com o nosso grupo, mas como não se podia incompatibilizar com todos, então nós éramos os menos maus. Nunca mais soube dele, salvo numa notícia de jornal, post 25 de Abril, sobre uma manifestação do PRP-BR (Partido Revolucionário do Proletariado - Brigadas Revolucionárias), lá no Norte, onde aparecia o seu nome.

14 - A nossa relação mútua sempre foi algo distante, talvez por não sermos muito expansivos. Mas a verdade é que a D. Vitória me aturou algumas madurezas e creio que me estimava. Sempre foram seis anos de convivência. Visitei-a algumas vezes quando ia a Évora depois de sair de lá e telefonei-lhe algumas outras, ficando contente por não esquecê-la. Morreu em 1998 e desse facto soube acidentalmente pela Noémia, que me vai dando notícias dos nossos conhecimentos comuns em Évora. A D. Vitória era solteirona, tal como os irmãos que com ela viviam: o sr. Prates e, posteriormente, a D. Joana. Na pensão ficavam sucessivamente os sobrinhos que do Cano vinham para Évora estudar, como o Manuel, a Ermelinda e o Orlando.

15 - Bem, por vezes dávamos outros espectáculos no café, quando a noite ia adiantada, cujo programa era imitarmos vozes de animais, ao desafio!