sábado, 8 de dezembro de 2007

João Baptista Cansado da Guerra (1)

* Victor Nogueira


HISTORIAS DO JOÂO BIMBELO OU DO SOL ARRANCADO ANTES DE NASCER

Vivia João Bimbelo na Quinta de Todos Nós, rodeado de papéis e do silêncio dos gestos e das palavras contundentes quando encontrou a Maria do Mar e dela se agradou num dia de Verão. Tudo teria ficado apenas por aqui, com o sabor das coisas que se não experimentaram ou conheceram, se as voltas do tempo os não tivessem cruzado novamente ao virar duma estação, quando as árvores se vestem de amarelo e dei­xam cada vez mais entrever os dias ainda luminosos e levemente cálidos. De novo se encontraram pois a Maria do Mar e o João Bimbelo e deram grandes passeios nas noites sem luar percorrendo o areal e tecendo os fios do que parecia vir a ser uma amizade diferente.

Mas tudo não seria mais que isso, com o sabor simples da amizade e da camaradagem, se o dobar dos tempos os não tivesse cruzado novamente ao voltar duma nova estação, quando o ar está frio e o céu cinzento e chuvoso. Ainda não sabia João Bimbelo que flores germinariam naqueles dias descoloridos e vazios de calor mas, quaisquer que elas fossem, parecia-lhe que seriam únicas, inestimáveis e delicadas como a porcelana rendilhada.

Na quinta de Todos Nós não era livre João Bimbelo e foi com a mágoa dos gestos resguardados que ele deixou a Maria do Mar, voltando ao lugar donde partira, prosseguindo a sua peregrinação, envolto como estava na guerra com os Dragões da Mãozinha Misteriosa, que não poderia perder porque era o futuro do dia-a-dia que estava em jogo.

E, no intervalo das batalhas com os Dragões da Má Vida, procurou de novo a Maria do Mar e nela encontrou abrigo e, pensava, tudo aquilo que é tão simples e simultaneamente grandioso: os dias cheios de alegria e ternura que, dum modo silen­cioso e cativante, entrelaçavam os seus gestos. O futuro parecia surgir ali ao alcance da mão, apesar das sombras que se projectavam sobre a Maria do Mar, que lhe surgia demasiado frágil.

Tão frágil que as palavras os separavam, cada vez mais preso João Bimbelo ao peso das pontes que entre eles desapareciam e a Maria do Mar ao sentido das palavras que não entendia do mesmo modo.

Era João Bimbelo homem duma só cara e dum só viver e custava-lhe sobremaneira o distanciamento da Maria do Mar, que assim desmentia a veracidade e forta­leza das suas palavras de amizade eterna, quaisquer que fossem o tempo e o lugar. Duro era também o esboroar de algo em que acreditara, como planta frágil e valiosa, que deste modo se perdia com o peso crescente dos enganos que não quisera cometer. E as janelas da Maria do Mar fecharam-se e de novo se encontrou João Bimbelo no mar alto sem porto nem maré, com o norte que a sua fragilidade lhe indicara, ensombrado pela inesperada indelicadeza da Maria do Mar, apesar de entrecortada por gestos aveludados de amizade e ternura.

Muitas vezes procurou João Bimbelo reencontrar o que perdido parecia estar, devido aos silêncios, as histórias e sombras que mascaravam a expressão dos sentimentos que a Maria do Mar nutria pelo João Bimbelo histórias que lhe pareciam inventadas por ela, presa aos fantasmas da sua vida passada e das mulheres com vida e pensar semelhantes ao seu. Como desde o primeiro instante parecia a João Bimbelo que era com a Maria do Mar que estava o futuro assim como os dias luminosos e as noites estreladas. No entanto tratava-se dum puro engano porque sendo agora "ambos' livres, cada vez menos se cruzavam os caminhos da Maria do Mar e do João Bimbelo, pois cada vez mais historias e silêncios envolviam a Maria do Mar, deixando o nosso peronagem cada vez mais inquieto na busca vã da chave no tempo e no espaço que os se­paravam cada vez mais.

Encontrava-se João Bímbelo de mãos vazias e sem jeito; perdidos cada vez mais estavam o esplendor dos longos passeios ao luar ou o encanto da voz, da presença e da paz que haviam preenchido os dias cinzentos de outrora, pois ninguém em seu e perfeito juízo gosta de ser escorraçado, mesmo que seja dia não semana sim.

No entanto, fazendo jus ao seu nome, pensava João Bimbelo que ainda valia a pena lutar pela Maria do Mar e por isso a procurou de novo, após um longo silencio, porque a ela dera o seu afecto, porque ela o seduzira e conquistara. Mas novos con­tos e novelas surgiram ligados a novos enredos e pareceu ao nosso “herói” que era tempo de dar descanso à parede sob risco dela começar a ficar pintalgada de vermelho mais ou menos vivo e coberta a sua moleirinha de galos que o acordariam estremunhado todos os dias ao romper da bela aurora e o fariam andar bêbado de sono pelas ruas e pelos escaninhos da cidade

Tudo estava dito e redito entre o João Bimbelo e a Maria do Mar, que prosseguiam as suas vidas, cada um para seu lado. Para trás , cada vez mais para trás , ficavam o afecto e amizade que cada um deles procurara no outro, que ela rejeitava por razões que lhe escapavam completamente, Pois parecia a João Bimbelo que o amor e a amizade se constróem de coisas que estavam cada vez mais ausentes deles: a confiança, o encontrar da paz no murmúrio frágil e pleno do afecto, o saber que outrém está ali, ao alcance da mão, do gesto e da voz , qualquer que seja ou fosse o tempo. Parecia a João Bimbelo que o amor e amizade se não encontram ao virar da esquina e ao alcance dos pontapés e que por isso, quando há novas do seu achamento, como apregoara a Maria do Mar, se devem protegê-los como quem protege a chama do fósforo com que se acende a candeia ou a luzerna.

E porque lhe parecia que assim não sucedera, resolveu João Bimbelo prosseguir a sua caminhada em busca de outros portos e marés, de amizades feitas de portas que se não fecham e de janelas abertas e rasgadas ao sol e ao luar, como sempre o encontraria a Maria do Mar, qualquer que fossem o tempo e o lugar em que vivessem e o procurasse.

Paço de Arcos 1989.04.01 (Setúbal 1989.06.30)

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

ENCONTRO PELA PAZ


O Município da Póvoa de Varzim, em parceria com a comunidade poveira, promove desde Dezembro/99 – Janeiro/2000 o “Encontro pela Paz”, uma iniciativa através da qual se pretende criar uma corrente para a partilha e vivência de um espírito de Reconciliação para a Paz, procurando-se que pela criatividade individual e ecolectiva seja possível desenvolver os alicerces de uma Tradição de Paz.
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Esta iniciativa, na qual o Município participa na qualidade de parceiro promotor, decorre num período que compreende fundamentalmente o Dia Mundial da Paz (1 de Janeiro), daí a sua realização nesta época do ano. Assim, pelo 9º ano consecutivo, levaremos a efeito a concretização de mais um momento de reflexão e de participação que extravase as fronteiras do nosso concelho, com o desejo de tornar esta iniciativa ainda mais solene e grandiosa, num grande Movimento pela Paz.
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Porque o sucesso deste desafio, que se efectiva no desejo de contribuirmos para criar uma tradição de Paz com continuidade e impulsionadora da reflexão sobre a Paz, depende do empenhamento e participação de todos, vimos, desta forma, convidar V. Ex.a a divulgar e a associar-se às iniciativas programadas no âmbito do “Encontro pela Paz”, nomeadamente na que se irá realizar a partir das 15.00H do dia 16 de Dezembro, no Pavilhão Municipal da Póvoa de Varzim, e na que se irá realizar pelas 16.00H do dia 1 de Janeiro, no interior do Porto de Pesca (no Cais da Paz).
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COMISSÃO DE HONRA:
PRESIDENTE DA REPÚBLICA (Professor Cavaco Silva) / PRESIDENTE DA ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA (Dr. Jaime Gama) / PRIMEIRO MINISTRO (Eng. José Sócrates) / ARCEBISPO PRIMAZ DE BRAGA (D. Jorge Ortiga) / PRESIDENTE DA CÂMARA MUNICIPAL DA PÓVOA DE VARZIM (Dr. Macedo Vieira) / ALICE VIEIRA / CARLOS DANIEL / DULCE PONTES / JORGE GABRIEL / JOSÉ CARLOS MALATO / JOSÉ CARLOS VASCONCELOS / JÚLIO MAGALHÃES / LUIS ALELUIA / LUISA DACOSTA / MAESTRO FERREIRA LOBO / MARIZA / PROFESSOR DANIEL SAMPAIO / PROFESSOR PINTO DA COSTA / RUI REININHO / RUY DE CARVALHO / SÓNIA ARAÚJO / VITOR BAÍA

Em conversa com os meus botões (8) - A "história" do ISESE


* * Victor Nogueira

Quando um dia for escrita a história do ISESE, verifica-se-à quão castradora foi a sua acção - e esterilizante - quão veementemente destruiu nas pessoas a espontaneidade, a solidariedade, a camaradagem. Não propriamente destruir, porque nesta maldita sociedade portuguesa feudalizada, cinco séculos de história contribuíram para nivelar as pessoas no temor, na mediocridade e na inautenticidade. A coragem, a hombridade, a lealdade, o entusiasmo inovador, eis o que falta ao castrado povo português! (NSM - 1971.01.14)


foto retirada de rizomas.blogspot


quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Últimas Publicações (2)



AUTORIA DOS TEXTOS NÃO ASSINALADOS - Victor Nogueira

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Em conversa com os meus botões (7) - Sol de Inverno

* Victor Nogueira
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O sol de inverno continua sempre a enganar-me, pois esqueço-me que não aquece. E só quando chego ao largo, lá embaixo, é que me apercebo que está frio, por vezes acompanhado de gélida brisa. E no verão ando quase sempre do lado do sol, ao contrário da maioria neste País, que escolhe a sombra. E tenho sempre à noite a casa cheia de luz, embora haja muita gente que neste País, sem precisão poupe na luz, embora tenha dinheiro suficiente para evitar a luz mortiça. Passei o dia a dormir, cada vez ando mais cansado.
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Ouço que mudaste o fundo musical e o de ontem era diferente e o de anteontem também, se a memória me não falha. Serei sempre um homem da beira mar, das praias tépidas com cheiro a sal, areia e sol, da cidade, do pôr do sol, da claridade, da luz e da luminosidade, das bátegas repentinas e breves mas cheias de ruidosos trovões e raios que iluminam a noite como se dia fosse, dos grandes espaços e do horizonte sem fim nem limites.
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Por isso Portugal nunca poderia ser o meu País. Mas como sou branco, embora de facto imigrante, expressando-me correctamente em língua portuguesa, ninguém me manda insultuosamente de volta para o meu verdadeiro País, que já não existe. Outro é o que está na minha memória, tal como as pessoas e amigos que o tempo dispersou. É disso que falo no meu poema Raízes

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Em conversa com os meus botões (6) - Recordar o que é?

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* Victor Nogueira

Recordando


Não preciso da tua fotografia para me recordar de ti ou para me comover ou enternecer ao pensar em ti. Não é preciso que os outros saibam que eu me lembro de ti. E não me recordo de ti por causa da fotografia. Lembro me de ti quando arrumo o armário da sala e vejo os frascos que me deste. Ou quando abro o porta moedas e encontro o pequeno canivete. Ou quando moo o café. Ou quando reparo no colorido boneco do negro tocando trompete. Ou quando vejo a saboneteira, ao utilizar o lavatório. Recordo me de ti quando barro o pão com o doce que confeccionaste e me deste e que está no fim. Ou quando visto a camisa de flanela aos quadrados. São marcas tuas, a partir das quais, conforme o dia, nascem outras recordações, enquanto para mim tiveres qualquer significado.


(...) Olho para a saboneteira e lembro me de Sines e da casa cheia de sol e do corredor com "azulejos". Vou a Sintra e no jardim lembro me que estivemos lá: "Estive aqui com [ela]" E lembro me do Seixal e dos cafés barulhentos e da primeira vez que foste a minha casa. Ou recordo a vez em que fomos à Covilhã ou a Santarém ou Silves ou que fui ter contigo a Bragança, com o Rui Pedro, tu já de roupão pois pensavas que eu já não apareceria. Recordo me das vezes em que me apeteceu ficar contigo até de manhã, mas em que não fiquei porque não queria que as pessoas falassem de ti. (M. - século XX )


segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Retratos (27) - A Malta de Évora, do Café e da Casa de Hóspedes

1º Retrato do pessoal da pensão de Évora

Além da minha pessoa outras mais existem aqui em casa. É natural. A sra. D. Vitória [Prates]. (1) A dona da casa. (...) Creio que é boa pessoa. De resto todos para mim são boas pessoas ... até ver (2) Ás vezes continuam mesmo a ser! A Ermelinda. Que é sobrinha. Que anda no 2º ano do Magistério Primário. Minha adversária ao "crapaud" e parceira à "sueca". Nem sempre. Uma colega: a Ana Maria [a Macrobianas]. A sra. D.Cacilda, mãe da sra.D. Noémia . Que foi há dias para Leitora de Português da Facultad de Filosofia y Letras de Santiago de Compostela. Com quem gostava imenso de conversar. Que via poesia, algo de valor, nas coisas simples e banais. Nas quais não reparo por não poder não saber ou não querer. Por demasiado perdido nos meandros das minhas introspecções filosóficas. A sra. D. Cacilda deixar nos à no fim deste mês de Novembro. Dois colegas meus do 3º ano de Economia de Empresas: O Alexandre [Vaz] - alto e de ombros curvados - e o Jorge [Carvalheiro] - alto e direito (ou não fosse tenente da Guarda Nacional Republicana). (3) E um terceiro, finalista do mesmo curso. O "fantasma" cá de casa. Aparece e desaparece quando muito bem entende. Para terminar, a Leolinda - afilhada e criada da dona da casa. E a filha - uma miúdinha de sua graça Ana Maria, [a Microbianas] de seis risonhas primaveras. (ELF - 1968.11.24)


Temos um novo hóspede. Ainda não o vi. Deveria ter vindo hoje. Sei unicamente que está empregado no Banco Espírito Santo. Veio para o nosso andar [2º], do "tribunal" cá de cima, constituído por mim e pelo Alexandre [Vaz]. Estou vagamente aborrecido com a vinda deste que é, pelo menos por enquanto, um estranho. De resto para o ano devo apanhar mais intrusos, pois as duas miúdas devem terminar o curso este ano. (NSM - 1969.02.11)


Já aprendi, ou melhor, dou assim uns passitos de dança, consequência dos bailinhos familiares que até ao Carnaval se realizaram cá em casa. (NSF - 1969.03.08)


2º Retrato do pessoal da pensão de Évora


É um domingo indefinido, um começo de tarde. Três novos hóspedes entrarão hoje lá para casa. Somos agora oito (para além da hospedeira, irmão [Ambrósio Prates] e sobrinho [Manuel] ): duas miúdas [Celeste Gato e Bia Almeida], estudantes no Magistério Primário, como este, e a mãe duma delas [D.Maria], e o Diogo [Guerreiro] (6º ano liceal e futuro economista). Os novos são um velhote, [o sr. Marquês], empregado comercial, uma assistente social [D.Teresinha] e a ilustre mãe [D.Ilda]. Sou, actualmente, o mais antigo. Todos os outros entraram este ano. (NSF - 1971.01.31)


A malta e cenas do Arcada I


Olho à minha volta e vejo malta conhecida: além, o Morte que me acena, como o Calisto, que há muito não via. O namorado da Gabriela discute acaloradamente e o senhor D. Alexandre de Lencastre (4) conversa com dois amigos (sê lo ão ?), que falam também com a cabeça e as mãos. Aqui, à minha esquerda, está o velhote pequenitates que anda à Charlot; costuma pôr uma flor no copo de água que normalmente acompanha a bica, fala em verso - os dois últimos primam quase sempre pela falta de rima e métrica - e oferece moedas da sua colecção às personalidades importantes que passam por Évora e às caras bonitas. Fala com toda a gente e não sei se falará com alguém. Quando regressei de Luanda reparou que eu tinha rapado a barba ... largos meses depois do acto solene que me tornou irreconhecível ao espelho, provocando me, durante alguns dias, ataques de hilariedade frente àquela face rejuvenescida e francamente risonha, sem o sorriso voltaireano que dizem ser o meu - irónico e trocista - de que muitas vezes me apercebo mas não contenho, mesmo nos momentos mais solenes e sérios, de gravidade de circunstância. (...) O ar está [agora] pesado; olho à minha volta e há clareiras na humanidade que me cercava. (NSF - 1971.01.31)


Estou no café, no "velho", barulhento e de ar viciado que é o Arcada. Deixei os jornais em cima de uma mesa, para marcar o lugar, enquanto ia à tabacaria comprar uma folha de papel. (...) Ao regressar encontrei um moço a folheá los muito descontraidamente. Devia ser dos Regentes Agrícolas. Que ficou algo atrapalhado e balbuciou pensando serem do café. Que não acabou de lê los, apesar da minha cordialidade. Enquanto escrevo vou bebendo o galão e comendo a sanduíche de fiambre, acto quotidiano das 17 horas. Na sala meio cheia umas pessoas conversam, outras lêm os jornais da tarde, alguns estudam, uns olham simplesmente para coisa nenhuma, embrenhados sabe se lá em que pensamentos. Reconheço alguns, poucos, companheiros indiferentes, quase móveis da casa. Dos outros, é de assinalar o seu mau gosto no vestir, fatos escuros, a boina ou o chapéu de abas viradas para os olhos. Conversam com a cabeça apoiada na mão, uns sorridentes, outros de rosto grave, testas enrugadas. Por vezes recostam se para trás nas cadeiras, outras juntam as cabeças, convergindo para o centro da mesa, quais conspiradores. Olho à minha volta e o café está [continua] meio cheio. O João Luís [Garcia] chegou e começou a ler o jornal. Daqui a pouco chegarão o Camilo e o Carlos, que virão do exame. Domingo Évora será um deserto, estupidificante. Eis que assomam à porta do café o Chico Garcia e o Manel. Ficaram se pelo balcão da pastelaria. Entretanto entra também o Álvaro Lapa, que é pintor, e corresponde cordialmente ao meu largo aceno. Entretanto o João Luís protesta porque não consegue ler o jornal; a mesa está desengonçada e tremeliques. (MCG - 1972.03.18)


O café é um mar de gente barulhentamente conversadora. As ventoinhas giram mas nem por isso o ar está mais fresco. Évora civiliza se: conto cerca de dezoito elementos do sexo feminino aqui no Arcada (minha pátria em terras alentejanas). O mundo caminha para a perdição, diriam os "moralistas" de porta para fora ! (MCG - 1972.07.24)


O Arcada é um mar de gente em burburinho, uns lendo, outros comendo, outros escrevendo ou preenchendo sonhos de Totobola, outros conversando com a língua e os dentes e os lábios e as mãos quando não com o corpo inteiro. Do outro lado, além à minha esquerda, um homem está sentado tirando dum saco de plástico algo cujo conteúdo lhe enche as mãos: talvez moedas. Insólito, a seus pés, uma enorme e brilhante bacia de cobre amarelado. O homem levanta se - tem uma pasta de cabedal quase do seu tamanho - pega na bacia e encaminha se para a porta, por onde entra e sai muita gente, com ar lento e vagaroso de quem nada tem para fazer. Lembro me de há quatro anos - ou mesmo há dois - e há muito mais mulheres e raparigas - algumas bem giras por estas mesas. Évora "civiliza se". Só a minha hospedeira continua com as suas concepções retrógradas de outros tempos e outras eras, que continuam [no fundo] a ser as de Évora. À minha direita dois velhotes conversam: um deles conta qualquer episódio relacionado com a sua estadia na Grande Guerra de 14/18. Olho à minha volta e o café está mais vazio; não encontro o Camilo, que pela segunda vez passou há pouco além no corredor central. Deve estar em dia não. Mais velhotes sentam se ao lado da minha, iniciando amena cavaqueira. Agora reparo que esta é a mesa deles. Adeus, estudo. Um deles diz que os gajos da situação são os que mais maldizem o Marcelo [Caetano] e os que mais o homenageiam. (MCG - 1972.09.28)


(...) Num ápice o Arcada enche se. Terminaram as condecorações, os toques de clarim e o desfilar das forças em parada. Já ontem se notavam muitos forasteiros que de longes terras vieram até ao povoado. Aqui à minha direita, muito ternos, uma moça conversa com o namorado e deixa entrever um grande pedaço da pele das costas, entre as calças e a blusa. Questões de posição! à esquerda, um marinheiro com familiares (?) exibe a sua condecoração de fresca data. Além o senhor Jaime abre e fecha os braços, como asas, enquanto vai dando lustro aos sapatos de um cliente. Passam empregados com as bandejas cheias de chávenas, copos e comes. O casalinho de namorados bebe chá com torradas. O mesmo que um casal já caminhando para a meia idade aqui à esquerda, na mesa ao lado. Ele já acabou de ler o "Diário de Notícias" (fraco gosto) e ela dá lhe uma torradinha. (...) O marinheiro levanta se e parte. Afinal a bengala não é dele mas do amigo que o acompanha. O senhor Tenente e o senhor Coronel cumprimentam se, batem a pala e apertam as mãos, enquanto as respectivas esposas se beijam. Na carequinha do senhor Coronel o vinco na pele assinala a presença do boné, agora sobre a cadeira. Entram pessoas de luto e há cumprimentos de mesa a mesa. Precisava duma câmara de filmar. Sobre a minha mesa, "O Século" (sabe) que dentro de dias será descerrada em Luanda uma estátua ao Marcelo [Caetano]. Para além d'O Século a lapiseira, um livro ("A Sociedade de Consumo") e o porta moedas (agora é incómodo trazê lo no bolso). (...) ( MCG - 1973.06.10)


Levanto os olhos e vejo muitos magalas, na sua farda verde oliva. Andam também pelas ruas, aos grupos, espalhafatosos, como quem já tem o seu grão na asa. "Cheira me" que haverá dentro em breve mais um contingente para a guerra em África. Alguns escrevem, curvados sobre o papel, a caneta firme na mão, como quem não está habituado a frequentes escrituras. Parecem rapazes muito novinhos; uns conversam, irrequietamente, outros têm um ar absorto, ausente.


O barulho invade me e cansa me. Há pouco, dei de repente com um silêncio gradual, profundo. Levantei os olhos do papel e era um magote de gente à volta duma mesa, em pé. Um silêncio em crescendo, gradual. Gente levantando se, esticando o pescoço. Continuo a escrever. Alguém se deve ter sentido mal, mas o meu curso de primeiros socorros já tem oito anos. Um homem sai do meio do magote, os seus lábios mexem se e leio "Desculpe me" a mão passada pela testa como quem tem suores ou tonturas. Sai pela porta giratória (há pouco atrás de mim) e perde se na noite das arcadas. (MCG - 1973.11.26)


É segunda-feira em Évora. O Arcada vozento e cheio. Circundo o olhar e não reconheço a maior parte das pessoas, que falam com grandes movimentos das mãos e do corpo - alguns - ou lêm o jornal: "A Bola" ou "O Século". Está um dia luminoso e soalheiro, este ano sem desfiles militares. Jovens esquerdistas cá do burgo pretendiam organizar um comício anti-colonialista mas parece me que ficou tudo em águas de bacalhau (MCG - 1974.06.10)


Os Companheiros das horas vazias

Abraça por mim a malta da mesa do café Arcada, companheiros das horas vazias. Como estas no Porto, aguardando os exames de Fevereiro. Um abraço especial para a Guida [Morgado] e para a "terrorista" que é a Zeca. (5) (Lídia - 1972.01.01)


3º Retrato do pessoal da pensão de Évora


[Foi] o tempo de ter visto a D.Vitória e lhe ter dito uns piropos até ao próximo chá. Tempo de travar conhecimento, ao jantar, com duas novas hóspedes - temporárias - cá de casa. Ambas de Montemor: uma é velhota, professora primária, de sua graça Maria Inocência, outra auxiliar social, a menina Maria do Céu, em breve senhora de não sei quem. Enfim, se eu não conseguir "controlar" as conversas à mesa terei de ouvir conversas de chacha - Porque será que há pessoas tão chatas?! (...) [Esta] minha falta de jeito para conversar em qualquer circunstância e sobre qualquer assunto! (MCG - 1972.06.07)


4º Retrato do pessoal da pensão de Évora


O silêncio que substituiu as discussões políticas à mesa após a partida da sra.D.Ilda e do sr.Marquês tem sido agora substituído por "importantíssimas" discussões entre o Diogo da Amareleja e o Victor [Dordio] do Cano sobre as altas percentagens de reprovações no Liceu e, sobretudo, como hoje, [por] questões automobilísticas. Enfim, se todos gostassem do mesmo era esta vida uma sensaboria, como diria a sabedoria popular. (MCG - 1972.06.30)


O senhor Marquês escreveu me [de Aveiro], uma carta muito formal. Está bem. (6). Da Bia [Almeida, de Safara] não há notícias; escrevi lhe meia dúzia de linhas pelo aniversário. O Diogo Fialho [de Santo Aleixo da Restauração] foi se embora sem dizer água vai nem a mim nem ao seu homónimo. O Diogo Guerreiro [da Amareleja] - agora mais sorridente e falador - fez hoje oral de Inglês [e passou com 13] (MCG - 1972.07.21)


Sabes quem apareceu por Évora, hoje? O Aristides [Picanso da Silva] ! Vem fazer quatro exames, regressando aos Açores no fim de Outubro. Até lá será hóspede da D.Vitória, a quem pagará ... 50$00 diários. Safa! (MCG - 1972.09.29)


5º Retrato do pessoal da pensão de Évora


O Diogo Guerreiro fica cá em casa. O Diogo Fialho ainda não deu notícias. Comigo devemos ser os únicos hóspedes este ano, que a D.Vitória está cansada. O quarto do sr. Marquês [e que fora do Jorge Carvalheira] agora é sala de visitas e o que foi vosso [com escadas para o terraço] é agora do sr. Prates e do Orlando - sobrinho - que vem estudar para Évora. (MCG - 1972.09.22)


6º Retrato do pessoal da pensão de Évora


Isto aqui em casa são umas correrias escada acima, escada abaixo, que nem calculas. Sim, que o amigo Orlando anda alvoroçado com a escola e um mundo novo para ele, de que me não fala mas pressinto. Os cuidados com os livros, todos bem arranjadinhos, o ar tímido quando com ele falo! (...) O sr. Prates já foi largando a bisca para um explicador ... À borla, pois então. Só que o coração já me caíra aos pés quando na véspera a D.Vitória me comunicara que a minha pensão aumentara de 200 $ 00 mensais, isto é, para 1600 $ 00. (MCG - 1972.10.04)


O Diogo Fialho regressou ontem, mas não foi colocado na mesa dos hóspedes [sala de jantar] mas sim "adoptado" pela família Prates [mesa da cozinha]. (MCG - 1972.10.10)


A D.Vitória arranjou uma ajudante, que chegou hoje de manhã. Não conheço ainda a sua graça: é uma rapariguinha - 12/13 anos - de negros e revoltos cabelos e um ar de bicho de mato. Enfim, mais uma pessoa que entra para a vida, possivelmente para servir os outros. (MCG - 1972.10.26)


7º Retrato do pessoal da pensão de Évora


Tenho de interromper que a D.Vitória já me chamou pela 3ª vez - com inflexões de zangada - e o Aristides deve ir no 2º prato.De resto o coraçãozinho deve estar em trevas, pois hoje uma miúda amiga veio visitar o Aristides e ele mandou a subir. E como era uma miúda toda alegre, nova e de mini saia ... bem, imagino a tempestade que deve ser o sentido de honra e decência da recatada senhora! Se a coisa me não tocasse também dar me ia vontade de rir de tudo isto. Raio de gente que só vê pernas abertas e "poucas vergonhas!" (MCG - 1972.10.17)


8º Retrato do pessoal da pensão de Évora


A propósito de miúdas, a D.Vitória desistiu da salinha de estar para as visitas importantes - agora é o seu quarto de dormir - por ter alugado o outro a três alunas do Magistério, altas como torres. Como é natural, há duas mesas - a dos senhores importantes (eu e o Diogo Guerreiro) (7) e a outra. Ah!Ah!Ah! (MCG - 1972.12.04)


Já almocei. Isto agora come se mal p'ra burras. Como comerão o Diogo [Fialho] e as miúdas na cozinha? (MCG - 1973.01.10)


Disse me a D.Vitória que a "menina" Celeste telefonara. (Ah! este tratamento!) Não sei se haveria "festinha familiar" [pelo meu 27 º aniversário], mas sabes como as não aprecio por nada me dizerem. Jantar fora e chegar de madrugada foi um pretexto para malográ la e, simultaneamente, estar com amigos. (MCG - 1973.01.06)


É sem grande prazer que daqui a pouco vou até ao café perder mais tempo. Aborrece me, no entanto, este enorme quarto, vazio de pessoas. A casa da D.Vitória, por motivos óbvios, não oferece condições para convívio. E este ano é o fim. O Diogo [Guerreiro] passa a vida fora de casa. As miúdas, enfiadas no quarto. De resto as nossas relações agora estão muito desagradáveis para mim. Como não sou tipo de salão e como as condições de convívio são praticamente nulas, limito me ás minhas secas e distantes saudações, a que nem sequer correspondem. Mas já antes disso passavam pela sala [vindas da cozinha], quais bichos do mato, sem nos saudarem. (...) Ouço subir as escadas. A propósito, sabes que estas miúdas não vêm cá acima senão duas a duas !? Que reles! Imaginar me ão e ao Diogo G. ali atrás da porta de olhos brilhantes e respiração opressa prontos a "saltarmos-lhes ao espinhaço", como se diz na gíria?! Já o sr. Prates não se enfia no quarto dele sem dar duas voltas à chave! Ah! Ah! Ah! (8) (...) Daqui a pouco vou sair - à chuva, ao vento, desafiando as intempéries e o furor das divindades - para meter esta presença de mim no marco do correio. (MCG - 1973.01.16)


Ali na sacada a Eglantina - com os seus longos cabelos louros e os bonitos olhos verdes - secava aqueles enquanto estudava Geografia Económica. (...) A Vicência aprimaverou se no vestuário mas eu é que não abandono a gabardina enquanto não vierem melhores dias. (9) (MCG - 1973.03.22)


O sorriso e a voz terna da Eglantina fazem[-me] desejá la com toda a pureza da simplicidade que haveria de haver entre um homem e uma mulher. (MCG - 1973.06.17 A)


O Orlando faz hoje anos. Deve haver festinha. Reprovou na Escola e anda ouvindo discursos por causa disso há tanto tempo que já estou enjoado(....) A Vicência faz exame depois de amanhã. (...) [O Orlando] deu me alguns dos desenhos dele (que eu podia ficar com todos os que quisesse). Vai sendo altura de mudar a decoração do meu quarto. O rapazinho agora pediu me trabalho - não tem nada que fazer - de modo que desde sábado que me anda em arrumações aqui no quarto - ordenou me revistas, separou me jornais e amanhã vou comprar umas folhas de cartão para fazer cadernos para arquivar a papelada e revistas. (MCG - 1973.06.17 B)


9º Retrato do pessoal da pensão de Évora - Que sucedeu ?


Ora, recolhi ontem a vale de lençóis, com temperatura elevada, que assim como veio, assim se foi, durante a noite. De qualquer modo resolvi hoje manter me encafuado no quarto, malgrado a minha impaciência ...


Por toda a casa soam estalidos, consequência do irrequietismo do Orlando. Não descortino bem qual o gozo daquilo, mas enfim ...


Volto a página e pergunto me que mais vou eu escrever? Levanto me, dou uma volta pelo quarto, remexo numas quantas coisas e torno a sentar me para escrever isto.


Entretanto a D.Vitória regressa, para levantar a bandeja do lanche e despejar o cinzeiro (o João, o Carlos, o Tobias e a Lídia empestaram me o quarto com cigarros). Há cinco anos que lido diariamente com a D.Vitória e nunca as nossas relações foram muito cordiais nem estreitas!


Acendo o candeeiro, não porque seja absolutamente necessário, mas num gesto algo inconsciente ou automatizado.


Olho para a minha direita e vejo um enorme calhamaço: "Os Macondes de Moçambique", vol III - "Vida Social e Ritual". Terei de consultar este e os dois primeiros para redigir a monografia de Antropologia Cultural. (MCG - 1973.01.26)


10 º retrato do pessoal da pensão de Évora



Verdadeiramente o quarto até parece outro, mesmo atendendo à evolução na continuidade. Que não gostou muito da brincadeira foi a D.Vitória, que ficou enxofrada por eu ter posto no corredor a abominável moldura do espelho da cómoda. Ao regressar a casa hoje aquilo estava de novo no meu quarto, arrumado embora num canto. Quando desci a ilustre senhora começou a mandar vir, que aquilo ficava no meu quarto e mais blá blá que me ia enchendo as medidas. Enfim, disse me que me alugou o quarto para dormir e se eu queria uma sala de convívio que alugasse um apartamento. (!) Ah! Ah! Ah! ... e este até tem sido um ano sossegado: pouca gente vem para cá para o paleio e para ouvir música ou estudar como nos primeiros anos, nem as meninas (10) ainda cá puseram os pés, como algumas de outrora, muito menos tendo eu feito qualquer tentativa nesse sentido. Enfim, a gente tem de desculpar os nervos dos outros! (Aquilo deve também ser por causa das fotografias e posters "imorais e contra os bons costumes". " Porcarias e palhaçadas", como doutras vezes desabafou. (11) Mas o problema é que o monstro acima referido não ficará no meu quarto. Vamos deixar arrefecer o copo de água e quando a vozinha estiver menos agreste e o olhar menos sofredor atacarei novamente, desta vez com um sorriso Pepsodent, que doutro modo não vai a ilustre senhora. (MCG - 1973.03.13)

Os ares lá por casa andam tempestuosos. Começou já não sei bem porquê, continuou no dia em que paguei a pensão e deve ter piorado ontem: o João Luís e a Maria Antónia estiveram no meu quarto, à tarde, ouvindo música. A D.Vitória não grama o João Luís e uma rapariga lá em cima - ai Jesus, credo, que lá se vai o bom nome da minha casa! Para além disso o João Luís não tem o mínimo sentido das conveniências, o que de modo algum serve para lançar água na fervura. (MCG - 1973.03.20)


A Ermelinda veio cá este fim de semana, agora com o cabelo castanho fulvo e ondulado, mais o seu ar imponente, majestoso, de quem se julga e sabe boa (ou "sexy", que é o mesmo), de gato que brinca com o rato. Tenho ganas de quebrar lhe toda aquela prosápia de mulher fatal. Mas, adelante. (MMC - 1973.03.25)


Temos uma criada nova, a Ricardina, míope e vestida de preto, com um ar submisso e tímido. O que não a impediu de pedir-me um casaco velho para o pai. Não, foi a resposta. (12) (MCG - 1973.03.30)


1º instantâneo da pensão de Évora


Ainda estou a mastigar a última talhada dum dos bolos que a D.Vitória deixou naquela travessa, especialmente para o "menino", a transbordar. Só lá ficaram umas poucas de migalhas: um tipo não tem nada que fazer e nos intervalos do trabalho (muitos devem ser eles, não?) vá lá uma trincadela! Ah! Ah! Ah! Pois é, a ilustre senhora foi de abalada para o Cano, mai la sua sobrinha, mas o seu derradeiro gesto, à partida, comoveu me. (MCG - 1973.04.16)


11 º retrato do pessoal da pensão de Évora


Apareceu me hoje o Aristides lá pelo café; veio dos Açores para fazer exame de Economia II. Penso que tenciona fixar residência no Porto. Ficou hospedado na casa da D.Vitória, mais concretamente, no meu quarto. Esperemos que não me chateie muito a molécula. Sou amigo dele, mas isso não impede que me aborreçam algumas das suas tiradas. Reage, parece me, mais com ressentimento do que sentido revolucionário. (MCG - 1973.07.04)


Quem vai entrar em compressão de despesas sou eu. A D.Vitória, no próximo ano deixa de dar me comida (ela acha que eu sou muito exigente e que não me contento com qualquer mistela) Assim, diz que me leva 500 paus pelo quarto e banhos. Com tratamento de roupas, 750 $ 00. Mas não me põe cadeiras novas no quarto nem me substitui a rede do divã ("Venha a nós o Vosso Reino"). Desabafou, desabafou, com a minha ingratidão. A conversa do costume, e que ninguém lhe dissera, como eu ontem, que antigamente o serviço e a comida eram melhores. Ai, como ela é minha amiga! Mas isso é lá à maneira dela. (...) "Que eu só gostava de comer com quem me agradava. Que quando era com as "senhoras" [D.Ilda e Teresinha] preferia comer sózinho" (MCG - 1973.07.08)


A D. Vitória sempre pôs-me um colchão novo no divã. Sempre terá valido para algo a minha conversata de há dias. (1973.07.15)


O Aristides foi-se embora hoje. Reprovou a Economia II. O que não é de admirar, cada vez mais desnorteado que ele anda, inquieto e sem rumo. (13) (MCG - 1973.07.20)


Instantâneo do pessoal da pensão de Évora e da malta do Arcada.


Podia falar te da tristeza sem sentido desta vida que levo. Da necessidade de agarrar o presente com ambas as mãos. Do nenhum entusiasmo ao avistar anteontem à noite as luzes de Évora. A viagem [de regresso da Amareleja] foi rápida, com minutos de silêncio, outros de conversa animada e outros de busca desesperada de palavras, no negrume da noite, com a estrada deslizando sob nós, o rádio transmitindo música e as pontes aparecendo bruscamente na curva da estrada, dois parapeitos brancos, esguios, varridos pelos faróis do automóvel. Chegados ao burgo, deixada a Marília e [outro] em casa, foi a busca dum lugar para estacionar. As aulas recomeçaram, mas ... quero ir me embora. É quase uma obsessão. Évora e o Instituto não são apenas o negativo. Mas é ele que sobressai. Obsessivamente. O Diogo e eu temos falado. Como dantes. Quanto à Adélia ... tenho de dar lhe a desculpa dos seus quinze anos! Quanto à D. Vitória tem me recebido com um sorriso bom. (14) O sorriso que não tenho à minha volta nem dentro de mim. O Orlando tem feito grandes estádios no meu quarto. Por causa da máquina de escrever. O Camilo lá anda, com a verborreia do costume, um enorme trabalho de fim de curso (três caloiros a trabalharem para ele). O Carlos [Nunes da Ponte] com a pacatez habitual. O Guerreiro com os seus problemas, intolerável porque só descobre defeitos e motivos de críticas a mim. Sou a válvula de escape dele. Muito lhe deve aturar a Elvira! (MCG - 1973.11.20)


Descobri hoje que a Eglantina tem olhos verdes. Encontrei a ali na Rua Nova, quando ia ao correio. Apanhámos uma frialdade por causa do paleio. Falou-me nas "desventuras" da nossa amiga [Adélia] e na desculpa que merecem os seus 15 anos. O que não impede que os "ares" andem maus. (MCG - 1973.11.27)


12 º retrato do pessoal da pensão de Évora


Lá em casa houve mudanças. As miúdas passaram para o "vosso" quarto [o das escadas para o terraço], no 2ºandar. Agora passam o tempo lá em cima e - parece me - acabou o sossego, com subidas e descidas constantes, a porta sempre abrindo e fechando, chamamentos do fundo das escadas para cima. Esperemos que acalme.


Vindo da rua, deparei com a D.Vitória carregada com camas, que ajudei a transportar escadas acima, enquanto ouvia um desabafo: "Muito pena a gente para ganhar uns tostões!" Já ontem o Orlando me retorquira "ora, isto vai mal!"quando lhe fiz a pergunta habitual: "Então, sô Orlando, como vai isso?!" Referir se ia à sua "exclusão" do 2º andar? (MCG - 1973.12.04)


A Adélia [Guerreiro] agora passou ao outro extremo e anda muito cumprimentadora e sorridente. (MCG - 1973.12.06)



No Café Parque


São 20:30; aqui estou [em Évora] no café Parque, um bocadinho contigo, a televisão trabalhando e homens ao balcão conversando e bebendo a bica. Ali a minha mãe faz as contas com a sra.D.Alice [Quaresma], das refeições na messe [dos oficiais]. Estava eu aqui muito bem acabando o meu jantar com o João Luís e o Guerreiro quando elas irromperam por aqui a dentro. A Maria Antónia - penso que é o nome da cozinheira -muito delicada e sorridente, "recebe as ordens". Sou levado a concluir que tem qualquer preconceito contra os homens, pois nunca lhe ouvimos nem saudação ou vislumbrámos um sorriso. (MCG - 1973.12.04)


(...) Lá em baixo no café Parque (a cozinheira anda muito simpática. Até já me trata e ao Guerreiro pelos nossos nomes!) (MCG - 1973.12.06)


A malta do Arcada III

No Arcada o João [Garcia], a Filomena, o Camilo, o Zé Pinto, o Ribeiro, o "Chinês" e o irmão cantavam em coro desde as cantiguinhas da primária ("Ó Rosa, arredonda a saia", "Tia Anica de Loulé"...) às excursionistas ("Santa Catarina", "Rapsódia Portuguesa" ...) passando por cânticos gregorianos e pelos coros alentejanos e canções da Beira Baixa. Enfim, uma grande audição, no café cheio e entretido com outros assuntos. (15) (MCG - 1974.02.11)



2º instantâneo da pensão de Évora



O quarto está gelado. Passei o fim de semana lendo umas coisas de antropologia. Tenho os "conhecimentos" um tanto ou quanto baralhados. A D.Vitória veio aqui há pouco trazer-me um doce e pêras de arroz doce. Está uma simpatia de senhora! (MCG - 1974.01.03)

A D. Vitória levou me hoje ao quarto uma dose de arroz doce. Ah!Ah!Ah! (MCG - 1974.02.16)


13º retrato do pessoal da pensão de Évora


A Adélia não está já em casa da D.Vitória - quando fora de férias ia com armas e bagagens. Quanto ao Diogo - que passou a tarde no meu quarto - disse me que vai também sair. Está nas mesmas condições que eu e paga mais 50 paus que eu, i.e., 800 $ 00. (MCG 1974.04.17)


3º instantâneo da pensão de Évora


A D. Vitória levou me 500 paus pelo quarto em Agosto e 250 pela semana que estive em Setembro!!! Amigos, amigos, negociatas à parte. Diz que a partir do momento em que estiver empregado passarei também a pagar o armazém. Entretanto o [Custódio] Cónim ofereceu se para guardar a tralha toda lá no monte do pai, em Évora Monte. (MCG - 1974.09.13)


A malta do Arcada IV


Passei pelo café onde encontrei o João Luís, a Filomena, o Marçal. Fiquei contente por vê los mas já não é como antigamente. É como um fósforo que logo se apaga. De resto o João Luís é muito infantil. A Filomena manda cumprimentos e isso faz me lembrar que o mesmo fizeram o Manuel Gonçalves (cada vez mais louco) e a mulher do Queiroga (reaccionária em questões de namoros)


Évora é uma cidade estúpida. 6 meses de ausência (e se calhar a saturação de 6 anos) fazem me ressaltar toda esta falta de dinamismo, de interesse, de imaginação. É um encolher de ombros, um arrastar se pelos cafés, um encostar se pelas paredes, um nada ter que fazer ou para onde ir. Uma perfeita estagnação. (MCG - 1974.11.27)


1 - As miúdas chamavam-lhe Ti Vita.

2 - A D. Vitória, em contrapartida, dizia que primeiro tinha que se provar que se merecia a amizade.

3 - Não sendo o Jorge afecto à situação, provocávamo-lo perguntando o que faria se o mandassem carregar contra os estudantes do Instituto e seus colegas caso houvesse agitação estudantil. Respondia que daria a volta a Évora pelos caminhos mais compridos. Perante a nossa insistência - Então, e se ainda não tivéssemos dispersado quando chegasses à frente da cavalaria? Outro motivo de conversa eram as sessões musicais no meu quarto, onde passava montes de malta, da casa da D. Vitória ou do Instituto, para ouvir a minha discoteca. O Jorge aparecia sempre empertigado, com um lote de discos dele debaixo do braço, para ouvir. Quando se retirava, retirava-se com eles debaixo do braço, insensível aos nossos comentários. Lá deixá-los, isso é que não!

4 - O senhor D. Alexandre de Lencastre era entre nós conhecido pelo BIDON, porque a família o baptizara como D. Alexandre de Lencastre, conveniente para o devido tratamento numa república. Mas assim sendo, ele ficou a ser o Senhor D. D. Alexandre de Lencastre! Se a história verdadeira é esta, não sei, mas lá que era o que corria, disso não tenho dúvidas.

5 - A Lídia, a quem se dirigia esta carta, era uma das nossas companhias num tempo em que as meninas sérias não andavam com os rapazes nem iam ao café. Por isso tinha má fama perante as boas consciências eborenses. Depois empregou-se nos correios e entretanto nunca mais soube dela.

6 - O senhor Marquês era um velhote, empregado bancário, que por problemas familiares que não recordo teve de ir para Aveiro. Na tertúlia da casa da D. Vitória era um pacato conversador, delicado, mas pouco sorridente, parceiro nas partidas de cartas. Fisicamente fazia lembrar o David Niven, embora sem bigodinho. Passado algum tempo soubemos que se suicidara.

7 - Desde sempre e por princípio os rapazes, cada um com seu quarto e pagando mais por isso, e as pessoas empregadas e mais velhas comiam na sala, que dava para a cozinha, onde comiam as alunas do Magistério, que compartilhavam o(s) respectivo(s) quartos, pagando individualmente menos de pensão. Na cozinha comiam também a hospedeira e família.

8 - Nunca nenhum dos rapazes fechara a porta do respectivo quarto á chave!

9 - O esquentador a gás encontrava se dentro da casa de banho, cuja janela dava para um telhado sem vistas indiscretas. Contudo, ao contrário dos rapazes, as raparigas cerravam sempre a janela, o que era perigoso quando os banhos se sucediam uns aos outros sem que se arejasse o aposento. De modo que algumas vezes lá havia uma miúda com princípio de intoxicação por monóxido de carbono. À Vicência deu lhe forte e feio. Alertado pela barulheira no quarto ao lado da casa de banho e do meu, lá fui, encontrando a D. Vitória muito aflita tentando desatar o cordel que cerrava o postigo, para poder abrir a porta por dentro. Lá fui buscar uma tesoura ou canivete, cortei o cordel, abriu se a porta e, oh! céus, estava a Vicência inconsciente no lajedo e como Deus a pusera ao mundo. Mandei que chamassem uma ambulância e entretanto fiz-lhe a respiração boca a boca. Entretanto chegara a ambulância e a D. Vitória, escandalizada com a nudez, queria à viva força que se levantasse a mulher, ainda inconsciente, para vestir-lhe um roupão, antes de metê-la na maca. Irritado, disse à D. Vitória que aquilo era o menos importante, pois com tanta delonga ainda a rapariga morria. Oh! Deus, o que fui eu dizer! A Vicência levanta-se num repente, descendo as escadas completamente nua, a caminho da ambulância pelo seu pé e bramando: Não quero morrer! Não quero morrer!

10 - Hóspedes da casa.

11 - As porcarias a que a D. Vitória se referia eram um poster com um casalinho sentado junto a um muro e beijando-se, com o título O amor é um pássaro azul no alto da madrugada. Outro era uma inocente fotografia a preto e branco dum dorso feminino, das nádegas ao pescoço. Um terceiro era uma fotografia retirada duma revista (Paris Match?), salvo erro relativa ao Maio de 68 e mostrando jovens de ambos os sexos sentado no chão dum modo descomposto. Enfim ... Não sei se também incluiria duas fotos coloridas, uma expressiva do rosto da Liz Taylor chorando, do filme Quem tem medo de Virgínia Wolf e outra relativa à guerra do Vietname, com uma mãe chorando com o filho morto ao colo, talvez um guerrilheiro vietcong!

12 - Não percebo nem me lembro da razão desta minha secura, que hoje me incomoda ao lê-la.

13 - O Aristides era um açoriano "perdido" no Continente. Ex-seminarista, como muitos nos cursos de Sociologia do ISESE, fizera a guerra colonial. Era um revoltado, sempre contra a situação, mas tinha uma bonita voz a cantar. Não aceitava as imperfeições dos outros e sempre ia dizendo que nem sempre estava com o nosso grupo, mas como não se podia incompatibilizar com todos, então nós éramos os menos maus. Nunca mais soube dele, salvo numa notícia de jornal, post 25 de Abril, sobre uma manifestação do PRP-BR (Partido Revolucionário do Proletariado - Brigadas Revolucionárias), lá no Norte, onde aparecia o seu nome.

14 - A nossa relação mútua sempre foi algo distante, talvez por não sermos muito expansivos. Mas a verdade é que a D. Vitória me aturou algumas madurezas e creio que me estimava. Sempre foram seis anos de convivência. Visitei-a algumas vezes quando ia a Évora depois de sair de lá e telefonei-lhe algumas outras, ficando contente por não esquecê-la. Morreu em 1998 e desse facto soube acidentalmente pela Noémia, que me vai dando notícias dos nossos conhecimentos comuns em Évora. A D. Vitória era solteirona, tal como os irmãos que com ela viviam: o sr. Prates e, posteriormente, a D. Joana. Na pensão ficavam sucessivamente os sobrinhos que do Cano vinham para Évora estudar, como o Manuel, a Ermelinda e o Orlando.

15 - Bem, por vezes dávamos outros espectáculos no café, quando a noite ia adiantada, cujo programa era imitarmos vozes de animais, ao desafio!

domingo, 2 de dezembro de 2007

Em conversa com ... (4) TODO O MUNDO e NINGUÉM


* Victor Nogueira
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Estive a reler os poemas da Neide, «exilada» nos antípodas. «Conheci» a Neide com outro nome (nick), na net (ali só um louco entra com o nome verdadeiro). E hoje por acaso reencontrei o site dela (mudara de servidor) ao procurar algo no meu PC para o Ao Sabor do Olhar.
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Reencontrei a Neide
, com quem conversei muitas vezes teclando, para quem telefonei algumas vezes para o outro lado do mar longínquo (nas salas de chat às vezes somos assim - telefonamos a um/a amigo/virtual que vive no outro lado do mundo, que nunca veremos, e ficamos contentes por nos ouvirmos). A Neide escreve muito bem, a Neide que me mandou fotografias dela e dela orgulhosa com os filhos, não sei se realizará alguma vez os seus dois grandes sonhos - encontrar o Amor e voltar a Portugal.
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Eu sei que não voltarei a Angola e que não tenho Pátria, porque Portugal nunca foi, não é e nunca será a minha terra, e de repente comovo-me - a verdade é choro - mas logo seco as lágrimas, por tudo o que perdi, pelos caminhos que não segui.
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Gravura -A Internet se parece com um dente-de-leão.
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Da redação
03/09/2007

«Este é o mais novo mapa da Internet, gerado por uma série de novos algoritmos desenvolvidos por cientistas da computação da Universidade de San Diego, Estados Unidos. Ao invés de um emaranhado de pontos e linhas, como a maioria dos mapas anteriores, o resultado agora se parece com uma delicada flor. Nada melhor para expressar o incrível florescimento da Internet.

Mapa da Internet

O objetivo não era gerar uma imagem precisa, mas criar um mapa capaz de reter a características principais da rede em um gráfico que deixasse uma possibilidade mínima de visualização inteligível.

Os pesquisadores também não estavam querendo criar arte. Os mapas sobre as conexões da Internet são essenciais para uma série de pesquisas, incluindo medidas de segurança e otimização do tráfego dos dados. "Nosso trabalho permite aos cientitas da computação experimentar com uma grande quantidade de gráficos aleatórios que expressam as características da Internet," explica a pesquisadora Priya Mahadevan. (...)

in

Inovacao Tecnologica

sábado, 1 de dezembro de 2007

Em conversa com ... (3) TODO O MUNDO


Respondendo ao comentário que a Kalinka deixou no Ao (es)correr da pena e do olhar, desculpem-me a minha falta de cóltura ... E Biba o Porto, que o resto é cumbersa! Bá, «cambada», todos a gritar: Bibó Porto. Carago, o Porto é uma Naçom!
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Bictor Nogueira
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Gravura - Zona Ribeirinha do Porto em 1905 - in A Xafarica

Do rio que tudo arrasta ... (6) - o Poder e a Violência


Em conversa com os meus botões, com a Maria e com o Manel
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. * Victor Nogueira
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Há duas, Felgueiras, uma é uma povoação/cidade descaracterizada, outra o apelido duma certa Fátima, que andou fugida, foi expulsa do Partido dela que no entanto mantêm conscientemente no PODER, a vários níveis, gente do mesmo calibre. Houve outro partido, irmão gémeo e consanguíneo, cujo secretário geral tentou correr com os corruptos e acabou por ser corrido por ... um autarca.
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Pois o Povão re-elegeu a dita Felgueiras, apesar de saber dos crimes graves de que estava e está indiciada. É verdade que nas sociedades «civilizadas» vigora o princípio da presunção da inocência até prova em contrário, em sede do «independente» Poder Judicial. Em sociedades «civilizadas» mais antigas, um Senhor do Poder disse que «A mulher de César deve estar acima de qualquer suspeita» ou que «À mulher de César não basta ser, terá que parecer» .
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Pois esta Czarina, personagem esperta (o povão diria talvez chico-esperta), que de repente «empobreceu», estando o povão a pagar com o dinheiro que não é DA Felgueiras mas sim DE Felgueiras, a defesa dela, czarina, e seus próximos em Tribunal. Houve um outro caso similar, na «civilizada» Oeiras cujo Presidente foi re-eleito, embora agora também como «independente», um tal que tinha um sobrinho «abonado» salvo erro na Suíça.
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Pois é, os jornais falam deste e doutros personagens, mas não de muitos que anonimamente e sem constar das agêndas noticiosas pelos «critérios jornalísticos», nome que antigamente se chamava censura e depois exame prévio. E falam, no meu modesto entender, não para defender a República (do latim Res publica, "coisa pública") ou a Democracia (do grego demo=povo e kracia=governo), [1] mas sim para desacreditá-las e permitir o Governo da Ditadura dos Grandes Senhores do Dinheiro e «Proprietários» da Economia, afastando os cidadãos do exercício dum direito aparentemente inalienável.
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Há também uma outra Fátima, cujos SENHORES, representantes de Deus na Terra, também enriquecem escandalosamente, em muito maior escala, sobretudo à custa dos mais ou menos pobres, muitos dos quais só têm para comer «"O pão que o diabo amassou".», graças ao obscurantismo ou alienação em que são propositadamente mantidos para que não vejam a VERDADE, o CAMINHO e a LUZ. Mas o seu inspirador há muito morreu, tal como Lázaro que deu guarida ao seu corpo morto, do qual teria ressuscitado ao terceiro dia. Depois disso os «Lazarentos» passaram a ser perseguidos e ostracizados. Mas o tal Emanuel ou Cristo subiu aos céus, donde ainda não conseguiu regressar para correr à chibatada com os vendilhões do Templo e destruir os Bezerros de ouro. Mas das sementes lançadas à terra nascerá um dia a verdade e uma outra Humanidade, se entretanto a vida na Terra não «for pelos ares».
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Somos e não somos todos iguais. Somos (teoricamente todos iguais enquanto sujeitos do Direito) e somos todos diferentes, por razões hereditárias, de caracteristícas psico-somáticas ou cor de pele, de sexo, de classe social e das circunstâncias do tempo e do lugar em que estamos. Somos teoricamente iguais nos direitos sociais, políticos, económicos, culturais e ambientais, somos iguais apesar da diversidade, mas somos diferentes por razões hereditárias e de aculturação, conforme as circunstâncias do tempo e do lugar em que estamos, como atrás se disse, e das condicionantes ditadas pelos verdadeiros mas minoritários SENHORES DO PODER E DA ECONOMIA, que governam através de marionetas, alimentadas umas com gamelas ou pratos de lentilhas, outras, mais «finas», com bezerros de ouro. A verdadeira arte e competência de tais marionetas é manipular o povo ou os cidadãos, tornás-los inconscientes do seu vero Poder e afastá-los do seu exercício.[3]
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Há muitas formas de violência [4] Mas há quem não se venda, mesmo que o »Diabo» lhe ponha o Mundo a seus pés. Há quem nunca tenha tido fome, sem que isso o impeça de ser solidário e lutar colectiva e disciplinadamente para tentar que a fome acabe. Há quem tenha sido violentado física e psicologicamente. Mas quem o não foi ou não foi com a extrema violência da fome, da sede, da doença, do desemprego, do «pedir esmola por caridade» não pode ser solidário e lutar pela diginidade e dignificação das mulheres, dos homens, dos anciãos, das crianças?
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E quem me lê e a outros, até que ponto deixaria o virtual para acudir a outrem, a mim ou à vizinhança, com todo o incómodo que isso possa causar?. E tu, qual o objecto ou sujeito da tua solidariedade?
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Por vezes há grandes campanhas de solidariedade, umas bem presentes, como a de Maddie, outras mais esquecidas, como a de «Ingrid Betancourt Pulecio (25 de Dezembro de 1961 - ), uma senadora e activista anti-corrupção colombiana. Foi raptada pelo grupo terrorista FARC em 23 de Fevereiro de 2002 enquanto fazia campanha para as eleições presidenciais. Betancourt permanece cativa.», segundo a Wikipedia. Não vou agora debater o que é ser terrorista ou o terrorismo.
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Mas falam os órgãos de comunicação de grande ou menor audiência ou dão o falar a milhões de cativos, a milhões de sequestrados, a milhões de «sem» nome, sem terra e sem voz? Homens, mulheres, velhos, crianças, por quem, por exemplo, não se preocupam marionetas como Uribe, Bush, Blair, Mário Soares, Margareth Tatcher, a rainha Vitória [das públicas virtudes e privados vícios, do colonialismo, da exploração capitalista de homens, mulheres, crianças], «Sócrates» ou, entre muitos outros, Nicolas Sarkozy, que na declaração após a sua vitória nas eleições presidenciais afirmou « La France n’abandonnera pas Ingrid Betancourt »? Sarkozy? O do Muro ou Acordo de Schengen um dos defensores desta «União Europeia», não a dos Trabalhadores e dos Cidadãos, mas a do Grande Capital? Não a da cidadania mas sim da tecnocracia burocrática ditatoriais? Não da diversificação e diversidade socio-culturais mas da imposição do Pensamento Único e da alienação do livre arbítrio?
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Muito se falou e ainda fala da vitória para a democracia que foi a Queda do Muro de Berlim. Mas quem fala não das Muralhas da China antiga, mas as da «democracia» actual, virtuais como o muro de Schengen ou os que estão a ser construídos pela EUA, potência atómica, na fronteira com o México, para impedir a entrada «ilegal» dos miseráveis «mexicanos» que aquele país criou com a ganância dos Senhores do Dinheiro? Quem fala do vergonhoso muro que Israel, potência atómica, está construindo em territórios usurpados aos árabes ou palestinianos, que sempre lá estiveram? Que sanções por exemplo aplicam os EUA a ISRAEL pelo não cumprimento de numerosas resoluções da ONU?
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Quem se interroga sobre o bloqueio a Cuba como ao Iraque, este agora a saque pelos ocupantes estrangeiros, defensores não se sabe bem de que «democracia», que tanto lucro dá às empresas de armamento e de "segurança" e de reconstrução civil e de obras públicas? Quem se interroga das razões porque numa zona de furacões, não há mortes em Cuba quando da sua passagem, ao contrário do que sucede nos ricos EUA e nas ilhas circunvizinhas, «amigas» do «amigo americano». Já esqueceram Katrina? [5] [6] [7]
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[1] - «A palavra Democracia tem sua origem na Grécia Antiga (demo=povo e kracia=governo). Este sistema de governo foi desenvolvido em Atenas (uma das principais cidades da Grécia Antiga). Embora tenha sido o berço da democracia, nem todos podiam participar nesta cidade. Mulheres, estrangeiros, escravos e crianças não participavam das decisões políticas da cidade. Portanto, esta forma antiga de democracia era bem limitada.»
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[2] - «O termo política é derivado do grego antigo πολιτεία (politeía), que indicava todos os procedimentos relativos à pólis, ou cidade-Estado. Por extensão, poderia significar tanto cidade-Estado quanto sociedade, comunidade, coletividade e outras definições referentes à vida urbana.
O livro de Platão traduzido como "A República" é, no original, intitulado "Πολιτεία" (Politeía) .» Segundo Aristóteles
O homem é um animal político
[3] - ver O Calcanhar de Aquiles - Conceitos indeterminados

[4]
- ver Do rio que tudo arrasta ... (5) - Sobre a violência em geral e sobre a Mulher em particular

[5] - ver New York Times - Último Segundo - Comentário: tudo sobre o Katrina

[6] -
Impressões "Os líderes de Cuba vão à TV e tomam o controlo da situação," disse Valdes. Veja-se em contraste a reacção de George W. Bush ao Furacão Katrina. ... ou « Escriba » Katrina
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[7] - ver
“Cuba: Gesto de paz que não põe condições” HAVANA, 2 set (AFP) - O presidente de Cuba, Fidel Castro, ofereceu nesta sexta-feira ao governo dos Estados Unidos o envio de 1.100 médicos equipados com 26,4 toneladas de remédios para atender às vítimas do devastador furacão Katrina. (…) “Cuba está pronta para ajuda de imediato. Oferecemos coisas concretas, médicos no local da tragédia, que […]

NOTA
- Agradeço à Maria Mafalda ter sido a inspiradora deste texto, cujo «rascunho», digamos assim, leu e comentou.
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De qualquer modo, os que se segue são imagens que chocam muitas almas «sensíveis», mas que são o quotidiano para milhões de seres humanos. Se és «sensível» olha para a bolinha vermelha aí no canto superior do monitor. Tu talvez não a vejas, mas está lá. Se a não vires por mais que olhes, então com as hiperligações cujo título, abaixo, está a vermelho. (são os 4 primeiros)
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Crimes contra a Humanidade (3) - Hiroshima e Nagasaqui
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Dia da Criança - A outra face da Sociedade da Abundância e dos »deserdados da sorte»
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Alguns dos Grandes Amigalhaços
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Um Mundo de Contrastes
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Um Mundo de Contrastes (3) - Portugal
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Dinheiro: Bill Gates mantém-se como o mais rico do Mundo - Forbes castiga Belmiro